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O físico Jayme Tiomno faleceu na madrugada desta quarta-feira, dia 12, no Rio de Janeiro. O ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, manifestou pesar em nota oficial

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Jayme Tiomno foi um dos físicos mais renomados do país, integrante da geração de pioneiros que inclui Mário Schenberg, Marcelo Damy, César Lattes e José Leite Lopes.
 
Ao lado de Lattes e Leite Lopes, foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), hoje vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Tiomno também comprometeu-se com a criação da Universidade de Brasília (UnB), idealizada por Darcy Ribeiro.

Tiomno formou-se em física em Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1941. Titulou-se mestre e doutor na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, em 1950. Conquistou o título de doutor pela Universidade de São Paulo (USP), em 1968.

Além das passagens pela UnB, pela USP e pelo CBPF, Tiomno foi professor titular da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), onde trabalhou depois de retornar ao país, em 1973. Atingido pelo Ato Institucional no. 5, promulgado pelo governo da ditadura militar em 1968, Tiomno voltou a trabalhar na Universidade de Princeton antes de assumir a vaga na PUC-Rio.

Tiomno era membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), da qual foi secretário-geral no biênio 1955-57. Nascido em 16 de abril de 1920, Tiomno estava com 90 anos. Ele deixa a esposa Elisa Frota Pessoa, também física.

Leia a íntegra da nota assinada pelo ministro Aloizio Mercadante:

"Jayme Tiomno é um dos grandes nomes da brilhante geração de físicos brasileiros, entre os quais estão César Lattes, Mário Schenberg, José Leite Lopes, Marcelo Damy e Mário Alves Guimarães. Eles marcaram época na história da ciência em nosso país.
  
Tiomno conviveu com os mais renomados físicos de seu tempo, inclusive Albert Einstein. Ao lado de Lattes e Leite Lopes, foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF) e comprometeu-se profundamente com a experiência inovadora da Universidade de Brasília, criada por Darcy Ribeiro.
 
Deixou o exemplo imperecível de uma vida inteira dedicada ao conhecimento científico para o bem da espécie humana. É um dos nossos maiores orgulhos e uma fonte de inspiração permanente para todos os pesquisadores brasileiros, sobretudo para as novas gerações. O avanço da ciência no Brasil hoje tem raízes profundas no trabalho incansável e genial de cientistas como Jayme Tiomno."

Fonte: Jornal da Ciência, com informações da Academia Brasileira de Ciências (ABC)

A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por meio de sua Diretoria de Relações Internacionais (DRI), divulga nesta quinta-feira, 13, o edital para seleção de candidatos a bolsa do Programa Estágio de Curta Duração na Espanha (Capes/Fundação Carolina), destinado a docentes, pesquisadores e estudantes de pós-graduação. As modalidades de bolsa apoiadas são doutorado sanduíche e pós-doutorado.

Para inscrever o candidato deve ser brasileiro ou ter nacionalidade brasileira ou visto permanente de residência no país, no caso de estrangeiro. A inscrição deve ser feita por meio do preenchimento do formulário de inscrição on-line, até o dia 28 fevereiro. Outros requisitos específicos para candidatura em cada modalidade, assim como os documentos que devem ser anexados ao formulário de inscrição, estão descritos no edital.

A seleção será feita em quatro fases: verificação da consistência documental, análise do mérito científico da candidatura, priorização das candidaturas pelo grupo assessor da DRI e reunião conjunta entre a Capes e a Fundação Carolina para decisão final. Os resultados estão previstos para serem divulgados em abril deste ano e as atividades iniciadas em maio/setembro de 2011.
Benefícios

Os estágios de curta duração consistem na concessão de bolsas de estudo no exterior aos estudantes de doutorado nas modalidades doutorado sanduíche (com duração de quatro a seis meses) e pós-doutorado (com duração de três a seis meses). Em casos excepcionais, o estágio poderá ser prorrogado até o máximo de doze meses. Serão concedidas até 300 mensalidades de bolsas para docentes, pesquisadores e estudantes de pós-graduação brasileiros

Outros benefícios são mensalidade no valor de € 1300 para doutorado sanduíche e € 2100 para pós-doutorado, paga exclusivamente nos meses de efetiva permanência no território espanhol; seguro saúde; auxílio instalação; e passagem aérea.

Mais informações pelo e-mail [email protected] Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. . Dúvidas e solicitações referentes ao formulário eletrônico pelo e-mail [email protected] Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ou pelo telefone (61) 2022-6160.

Fonte: Assessoria de Comunicação da Capes

A percepção e o interesse da população brasileira pela ciência melhoraram significativamente nos últimos quatro anos. É o que revela a pesquisa “Percepção Pública da Ciência e Tecnologia no Brasil”, realizada em 2010 com cerca de duas mil pessoas em várias regiões do País. A Pesquisa Nacional foi promovida pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), com a colaboração da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), entre outras instituições, e executada pela empresa CP2 (Consultoria, Pesquisa e Planejamento Ltda).

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O objetivo principal do trabalho foi fazer um levantamento do interesse, grau de informação, atitudes, visões e conhecimento que os brasileiros têm da Ciência e Tecnologia, tendo como público-alvo a população brasileira adulta, homens e mulheres e jovens com idade igual ou superior a 16 anos.

Em relação à enquete realizada em 2006, o percentual de pessoas muito interessadas em ciência passou de 41% para 65%, em 2010.  Para o coordenador do estudo, que é também diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do MCT, Ildeu Moreira, essa constatação é relevante porque mostra a continuidade do grande interesse pela ciência e tecnologia, como foi verificado há quatro anos.

O professor Ildeu também destaca o tema meio ambiente como o mais citado por 83% dos entrevistados. “Está empatado com hoje com medicina e saúde, o que é uma característica única em relação a vários países do mundo”, ressalta.

O otimismo do brasileiro também está em alta, 82% consideram que a ciência trouxe mais benefícios para a sua vida. Em 1987, 52% diziam que a ciência brasileira estava atrasada e hoje 50% consideram que a situação é intermediária.

Para Ildeu de Castro, as políticas públicas ajudaram a ampliar esse conhecimento. Ele cita iniciativas como a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia e a Olimpíada Brasileira de Matemática nas escolas públicas, que tiveram aumento de participantes nos últimos anos, além da criação de mais museus e do reforço na divulgação.

Desafios

Apesar do aumento do interesse e do acesso à informação, por meio da televisão e da internet, a grande maioria dos brasileiros tem pouco conhecimento na área.  No total, somente 15% das pessoas abordadas foram capazes de citar uma instituição científica importante no Brasil e poucos puderam indicar o nome de um cientista famoso.

“Isso significa que nós não estamos sabendo contar a história da ciência no Brasil, nem na escola e nem nos meios de comunicação. Então precisamos ter mais programas e de melhor qualidade na televisão no rádio, nos jornais, nos meios de comunicação em geral”, recomenda.

De acordo com o professor Ildeu, a presença da população nos espaços científicos (museus, jardins botânicos e centros de ciência) é pequena e desigual, apenas 8% se declararam visitar algum museu por ano. Ele compara o Brasil com a Europa, onde 20% das pessoas têm esse hábito.

“Mesmo assim isso melhorou muito no Brasil, em 2006, era 4%, dobrou. Significa que as políticas públicas do MCT, o que instituições fizeram e alguns estados apoiaram, em muitas iniciativas de museus de ciência, em atividades de divulgação da ciência surtiram efeito”, avalia.

Como metodologia, os pesquisadores utilizaram questionários com perguntas abertas e fechadas no período de 23 de junho a 06 de julho de 2010. Foram realizadas 2016 entrevistas estratificadas quanto a sexo, idade, escolaridade, renda, região e moradia. A margem de erro é de  2%.

Confira os dados completos da enquete aqui.

 

 

Fonte: Portal MCT

Ocorrerá durante a 7ª Bienal de Arte e Cultura da União Nacional dos Estudantes (UNE) o 4º Diálogo Nacional de Organizações e Movimentos Juvenil. Este ano, o evento será no Centro Cultural Oduvaldo Vianna Filho – Castelinho do Flamengo, das 9h às 18h, no dia 21 de janeiro, no Rio, e será aberto a todos os interessados.

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O evento

O evento tem por objetivo fortalecer a relação da sociedade civil em torno da discussão e implementações de Políticas Públicas de Juventude (PPJ’s), discutir a realização da 2ª Conferência Nacional de Juventude, fazer um balanço das experiências na área das PPJ’s relacionadas ao poder público e debater os desafios colocados para os movimentos e organizações juvenis.

O 4º Diálogo Nacional de Organizações e Movimentos Juvenil é uma atividade organizada pela UNE, pelo Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), pelo Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ), pela União de Negros pela Igualdade (Unegro) e pela Coordenadoria da Juventude Cidadã da cidade do Rio de Janeiro.

As edições anteriores, ocorridas em 2004, 2006 e 2008 em Brasília, São Paulo e Salvador respectivamente, foram de grande importância para a implementação das Políticas Públicas de Juventude em nosso país, que desde então contou com momentos importantes como a constituição da Secretaria Nacional de Juventude e do Conselho Nacional de Juventude, a realização da 1ª Conferência Nacional de Políticas Públicas (em abril de 2008) e a aprovação da PEC da Juventude, em 2010.

A ANPG

A ANPG, juntamente a outras entidades estudantis, é uma das protagonistas no Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), cuja composição plural e diversificada conta tanto com a participação de outros representantes da sociedade civil como com a participação de entidades governamentais.

O Conjuve visa não só formular e propor diretrizes voltadas às PPJ’s como também desenvolver estudos e pesquisas sobre a juventude e promover o intercâmbio entre as organizações juvenis nacionais e internacionais.

Como exemplo da atuação das entidades estudantis em prol de políticas construídas em conjunto e voltadas para a juventude, além das constantes pautas por educação, cultura e ciência e tecnologia; a ANPG, em conjunto com a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), apoiou a campanha que resultou na conquista do direito ao voto aos 16 anos; atuamos ativamente na construção da 1ª Conferência Nacional de Juventude, que resultou no Plano Nacional da Juventude, além de termos entrado com mobilização no congresso e também via internet pela aprovação da PEC da Juventude e agora, continuamos atuando pela aprovação do Estatuto da Juventude.

A ANPG, que compõe o Conselho Nacional de Juventude (Conjuve), participou também da construção do Pacto pela Juventude, apresentado aos candidatos no curso das eleições 2010. Mais recentemente, a entidade marcou presença no 17º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, ocorrido em dezembro de 2010 na África do Sul, onde a presidente e diretores da ANPG garantiram a representação do continente americano na discussão sobre patentes e propriedade intelectual, por exemplo.

Os pós-graduandos também marcaram presença, em conjunto com os demais estudantes, na luta pela aprovação de 50% do Fundo Social pré-sal para educação, ciência e tecnologia, cuja principal beneficiária será a juventude. Este projeto, embora tenha sido aprovado pelo Congresso Nacional, foi vetado pelo presidente Lula, sob o argumento de que engessaria o fundo. Entretanto, esta e muitas outras pautas continuam a integrar o conjunto de lutas em defesa da concepção de que o momento da juventude participar da construção da nação brasileira não é o futuro, é agora!

Programação

O primeiro momento do 4º Diálogo Nacional de Organizações e Movimentos Juvenil, que ocorrerá às 9h, será o balanço das Políticas Públicas de Juventude, que contará com a presença do Secretário Adjunto da Secretaria Nacional de Juventude, Danilo Moreira, da pesquisadora Regina Novaes, da Deputada Federal Manuela D’ávila (PcdoB/RS) e de Ângela Guimaraes, membro da Unegro e do Conselho Nacional de Juventude.

Às 13h, ocorre o segundo momento do evento, “Perspectivas para as Políticas Públicas de Juventude”, que trará Mary Castro (UCSAL e pesquisadora do CNPq), o Presidente do Conjuve, Gabriel Medina; Igor Bruno, da Coordenadoria da Juventude Cidadã da Cidade do Rio de Janeiro e Alex Nazaré, Secretário de Juventude do Amapá.

O evento se encerra às 20h com a Atividade Cultural da 7ª Bienal de Arte e Cultura da UNE.

Da redação

O Congresso aprovou em dezembro (22), após 113 dias de tramitação, o Orçamento Geral da União para 2011, o último a ser sancionado pelo governo Lula e o primeiro a ser executado pelo governo Dilma Rousseff. O Orçamento que saiu do Parlamento para sanção presidencial foi R$ 25,5 bilhões superior à previsão inicial encaminhada pelo governo, e alcança a casa dos R$ 2,073 trilhões. 
 
 
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), principal carteira de projetos do governo, recebeu R$ 40,15 bilhões, após o corte de recursos durante a tramitação do projeto. O governo, porém, foi autorizado a elevar a verba ao seu valor inicial (R$ 43,52 bilhões), por meio de decreto. Para isso, terá que tirar recursos de despesas discricionárias – que não possuem vinculação legal a uma determinada área.
 
A tramitação da proposta orçamentária no Congresso foi tensa e enfrentou duas mudanças de relatores-gerais. Ao longo do processo, o primeiro relator, senador Gim Argello (PTB-DF), foi substituído pela senadora Ideli Salvatti (PT-SC), que deu lugar à senadora Serys Slhessarenko (PT-MT). 
 
Parâmetros
 
O texto final do orçamento destina R$ 170,8 bilhões para investimentos no próximo ano. O investimento total (das estatais e do orçamento fiscal) soma um crescimento de 7,5% sobre a proposta original. O investimento efetivo para gastos do governo é de R$ 63,5 bilhões. O congresso também aprovou R$ 12,1 bilhões para emendas parlamentares. 
 
Cortes 
 
O parecer final da deputada Serys Slhessarenko confirmou o corte de R$ 3 bilhões nas despesas, seguindo a sugestão de gastos do executivo. O Orçamento fixa as despesas de 2011 em R$ 2,07 trilhões, com as receitas no mesmo valor. Como as despesas com a rolagem da dívida pública somam R$ 678,5 bilhões, o Orçamento efetivo do ano que vem para ser gasto com investimentos e manutenção de todos os órgãos federais é de R$ 1,39 trilhão.
 
A Educação e a Ciência e Tecnologia
 
A verba destinada ao MCT é de mais de 8 bilhões. Neste valor já esta desfalcado o valor de 600 milhões. A Educação também foi penalizada com um cancelamento de R$ 598.539.418,00. Esses valores foram remanejados para uma reserva de contingência, que a depender do superávit primário (que também teve suas regras mudadas para 2011) pode voltar para educação, C&T ou ir para qualquer área inclusive para o pagamento da divida. 
 
A pergunta que se faz é a seguinte: faz sentido o Brasil cortar verbas nas áreas de Ciência e Tecnologia enquanto o mundo inteiro investe largamente em C&T? 
 
Quando é preciso cortar gastos, a lógica deveria ser iniciar pelos gastos considerados adiáveis e não os considerados estruturantes, que ajudam o Brasil a se desenvolver, como são a Educação e a Ciência e a Tecnologia.
 
Os Brics, os países em desenvolvimento e os países de todo o mundo vêm investindo largamente em Ciência,Tecnologia e Inovação. Esta é tida hoje como uma condição fundamental para o desenvolvimento e competição na era do capital mundializado.
 
O Brasil não pode ir na contramão desta que é uma tendência mundial e uma necessidade própria nossa, que é pensar a nosso projeto de desenvolvimento, alicerçado na educação e na valorização da ciência e da cultura brasileira, como condição para valorização da nossa soberania.  
 
O governo tem papel condutor nesse processo, deve buscar os cientistas, as universidades. Mais que isso, o Brasil precisa de mais cientistas, portanto precisa de mais investimento, de mais bolsas, de mais institutos de pesquisa. Essas questões e os problemas que entravam o desenvolvimento que o Brasil precisa não podem ser combatidos puramente com leis, mas sim com conhecimento. 
 
As recente políticas de governo, desenvolvidas nos ultimos oito anos, de incentivo para as áreas de Ciência, Tecnologia e Inovação articuladas às iniciativas do setor produtivo, têm levado o Brasil a um novo patamar nos últimos anos, e nos sugere uma reflexão sobre sua importância. 
 
Avanços tecnológicos
 
O país tem se destacado recentemente em espaços antes restritos a nós, como a aeronáutica e a exploração do ciclo completo do petróleo, sem falar no grande avanço do agronegócio nos últimos trinta anos. Concomitante a esse processo, o Brasil está sendo capaz de produzir ciência na fronteira do conhecimento. Um evidência disso é sua participação em publicações científicas internacionais, que aumentou de 0,3% para 1,5% desde 1980 – em artigos científicos que equivalem a pesquisas realizadas. Ao mesmo tempo, graças à edificação de um firme sistema de pós-graduação a partir da década de 1970, o Brasil chegou ao patamar raro de formar 11 mil doutores no último ano, segundo dados da Capes. 
 
Várias problemáticas se colocam, diante de tão positivos indicadores – atividade industrial diversificada, universidades que pesquisam e aproximadamente 80 mil cientistas qualificados -, e uma delas é: por que o Brasil continua a padecer do problema crônico da baixa competitividade em muitas de suas áreas produtivas? 
 
Não se pode analizar superficialmente, a questão não se trata de simples de falta de percepção ou de conservadorismo dos industriais brasileiros ou das universidades brasileiras. Pois não é fácil investir em pesquisa e desenvolvimento num cenário de contingência  econômica, juros altos e moeda instável. É um investimento de alto custo e cujo retorno não é imediato. 
 
A situação tornou-se menos inóspita com a relativa estabilidade do Real nos últimos oito anos, embora cotinuando os juros altos como um grande fator de desestímulo. A tendência que se coloca para este ano de 2011 é de aumento dos juros e inflação. O Brasil tenta desvalorizar o real e evitar uma crise cambial. 
 
Esta que por um lado parece ser uma alternativa para a economia, pode ser, por outro, mais um fator de desestímulo ao investimento do setor empresarial em P&D. E em um momento em que o governo estabelece cortes em áreas estratégicas como educação, ciência e tecnologia, isso pode refletir mais negativamente ainda num desenvolvimento a médio e longo prazo. 
 
De Brasília, Tamara Naiz, Vice-Presidente Centro-Oeste ANPG
Com informações do Portal da Câmara Federal  
 

 

 

Miguel Nicolelis é um dos pesquisadores brasileiros de maior prestígio. Em entrevista, Nicolelis falou sobre o impacto da neurociência no futuro da humanidade. Criticou de forma contundente a gestão científica no país, especialmente em São Paulo. Também questionou os critérios – marcadamente políticos – que teriam norteado a escolha do ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante.

 

Pioneiro nos estudos sobre interface cérebro-máquina, suas descobertas aparecem na lista das dez tecnologias que devem mudar o mundo, divulgada em 2001 pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês). Em 2009, tornou-se o primeiro brasileiro a merecer uma capa da Science. Na quarta-feira, foi nomeado membro da Pontifícia Academia de Ciências, no Vaticano. 

O Estado de S. Paulo: Para onde a neurociência deve nos levar nos próximos anos?

Miguel Nicolelis: No curto prazo, penso que as principais aplicações serão na medicina com novos métodos de reabilitação neurológica, para tratar condições como paralisia. No médio, chegarão as aplicações computacionais. Nossa relação com as máquinas será completamente diferente: não usaremos mais teclados, monitores, mouse… o computador convencional deixará de existir. Vamos submergir em sistemas virtuais e nos comunicaremos diretamente com eles. No longo prazo, o corpo deixará de ser o fator limitante da nossa ação no mundo. Nossa mente poderá atuar com máquinas que estão à distância e operar dispositivos de proporções nanométricas ou gigantescas: de uma nave espacial a uma ferramenta que penetra no espaço entre duas células para corrigir um defeito. E, no longuíssimo prazo, a evolução humana vai se acelerar. Nosso cérebro roubará um pouco o controle que os genes têm hoje. Daqui a três meses, publicarei um livro em que comento estes temas.

O Estado de S. Paulo: O que você chama de curto, médio, longo e longuíssimo prazo?

M.N.: Curto prazo são os próximos anos. Médio prazo, nas próximas duas décadas. Longo prazo, no próximo século. Longuíssimo prazo, alguns milhares de anos.

O Estado de S. Paulo: Como andam suas linhas de pesquisa na medicina?

M.N.: Estamos avançando rapidamente no exoesqueleto (um dispositivo que dá sustentação ao corpo de uma pessoa paralisada e é capaz de mover-se obedecendo ao controle da mente). Está sendo desenvolvido na Alemanha. Para o treinamento dos pacientes, construímos salas virtuais onde pessoas paralisadas terão sua atividade cerebral registrada de forma não-invasiva por magneto-encefalógrafos. Vamos ver se elas aprendem a controlar com o pensamento os movimentos de um corpo virtual – um avatar que simula o exoesqueleto. Com uma pessoa tetraplégica será mais fácil, pois é justificável o uso de métodos invasivos como implantar os eletrodos dois milímetros e meio dentro do cérebro. As descobertas vitais já foram feitas. Nosso drama agora é engenharia e conseguir recursos para pagar um projeto que é o equivalente, na neurociência, a uma viagem à Lua. 

Outra linha de pesquisa importante em medicina é Parkinson. No ano passado, publicamos um trabalho na Science. Estimulamos com eletricidade a medula espinhal de ratos com Parkinson e conseguimos reverter o congelamento motor característico da doença. Há um milhão de fibras na medula espinhal que sobem para o cérebro. Mandamos uma descarga de alta frequência que chega aos centros motores profundos do cérebro e faz com que eles saiam da sincronia absoluta característica da doença, pois estão todos disparando impulsos nervosos ao mesmo tempo, de um modo semelhante ao que ocorre em uma crise epiléptica. O sinal elétrico tem um efeito caótico que quebra a crise.

Também temos resultados preliminares em macacos obtidos aqui em Natal. Infelizmente, o Hospital Sírio-Libanês não quer continuar a parceria com nosso instituto. Por isso, procuramos outro hospital de grande porte, público ou privado, onde possamos realizar os testes clínicos, talvez já no próximo ano. Gostaria muito de marcar que a tradução dessa pesquisa para a prática clínica aconteceu aqui no Brasil, pois acredito que a Medicina brasileira é a melhor do mundo. Estou propondo uma nova teoria que vai provavelmente acabar com minha carreira (risos). Acredito que não há distinção entre doenças neurológicas e psiquiátricas: todas elas são doenças temporais, relacionadas ao tempo dos neurônios, ou seja, variantes epilépticas. A única doença do cérebro que existe realmente seria uma epilepsia. Já publicamos três trabalhos este ano com modelos de doenças ditas psiquiátricas e, em todas, encontramos uma assinatura temporal que permite classificá-las como distúrbios do tempo, epilépticos. A ideia surgiu quando vi os registros eletrofisiológicos de ratos com Parkinson e eles lembraram muito os registros de uma crise epiléptica central que conheci quando era estudante.

O Estado de S. Paulo: No médio prazo, ainda precisaremos dos nossos sentidos para dialogar com sistemas computacionais?

M.N.: Em breve, vamos publicar um trabalho descrevendo o envio do sinal de uma máquina diretamente ao tecido neural de um animal, sem mediação dos sentidos: na prática, criamos um sexto sentido. Vai ser uma novidade explosiva, mas não posso dar mais detalhes, pois o artigo ainda não foi publicado. A internet como conhecemos vai desaparecer. Teremos uma verdadeira rede cerebral. A comunicação não será mediada pela linguagem, que deixará de ser o principal canal de comunicação. Para entender isso, basta pensar que toda linguagem é um comportamento motor – como mexer o braço. Esse comportamento motor também poderá ser decodificado e transmitido. Grandes empresas – como Google, Intel, Microsoft – já tem suas divisões de interface cérebro-máquina.

O Estado de S. Paulo: Quais as implicações antropológicas e sociológicas no longo prazo?

M.N.: Talvez o primeiro impacto será descobrir que somos todos muito parecidos: as pretensas diferenças entre grupos de seres humanos vão se reduzir pois todos perceberão que somos iguais. Costumo dizer que será a verdadeira libertação da mente do corpo, porque será ela quem determinará nosso alcance e potencial de ação na natureza. O corpo permanecerá para manter a mente viva, mas não precisará atuar fisicamente. Nossa mente cria as ferramentas e as absorve como extensão do nosso corpo. Agora, a mente vai controlar diretamente as ferramentas. O que definimos como ser mudará drasticamente no próximo século.

O Estado de S. Paulo: De que modo a evolução poderá ser influenciada pelo cérebro?

M.N.: O processo de seleção natural vai agir de uma forma muito mais rápida. Em um mundo onde as pessoas terão de atuar com a atenção dividida entre múltiplas ferramentas, os atributos evolucionais necessários para sobreviver mudam. A mente que consegue controlar vários processos de forma eficaz tem uma vantagem evolucional sobre as outras. Há uma base genética para essa facilidade. À medida que gente com essa vantagem se reproduz mais que os outros, ocorre seleção. Várias pessoas – como os biólogos evolucionistas Richard Dawkins e Stephen Jay Gould – previram que o cérebro passaria a ter um papel mais fundamental na evolução. Mas creio que estamos acelerando este papel. Os neandertais acordaram um dia e encontraram o Homo sapiens jogando bola na esquina da casa deles. Um dia, um sujeito pode acordar e se dar conta de que ele já não pertence mais à espécie dos pais. Mas estamos falando de milênios aqui.

O Estado de S. Paulo: Sua abordagem para criar uma interface cérebro-maquina foi listada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) como uma das dez tecnologias que vão mudar o mundo. Como ela surgiu?

M.N.: Nós – eu e o neurocientista John Chapin – elaboramos um experimento para contestar a doutrina neuronal dominante no século 20 – que rendeu vários prêmios Nobel. Esta teoria estabelecia o neurônio como unidade funcional do sistema nervoso. Nós provamos que a unidade funcional é uma população de células. Um neurônio isolado – que sozinho constitui, de fato, uma unidade anatômica e computacional – não consegue reunir informação suficiente para gerar comportamento, principal função do cérebro. No fim da década de 80, tivemos a ideia de ligar um cérebro de rato a um robô para mostrar que mesmo o neurônio mais fenomenal não gera movimento. Mas, quando registrávamos populações de cinquenta neurônios – mesmo escolhendo-os de forma aleatória -, o animal conseguia movimentar o braço mecânico como se fosse o seu próprio. Não esperávamos um impacto tão grande. Construímos o primeiro centro de neuroengenharia do mundo na Universidade Duke. Agora, qualquer oficina de fundo de quintal nos Estados Unidos tem um centro de neuroengenharia. Há uma explosão de iniciativas no mundo inteiro: Japão, Suíça, Brasil…

O Estado de S. Paulo: Quais os principais desafios para aprimorar essa tecnologia?

M.N.: Conseguimos registrar hoje cerca de 600 neurônios. Nos próximos dois anos, vamos chegar a 60 mil graças a uma inovadora tecnologia de eletrodos tridimensionais. De qualquer forma, é um método invasivo, o que restringe seu uso. Ninguém vai inserir eletrodos no cérebro para brincar com jogos na internet. Precisamos descobrir técnicas não-invasivas, mas que tenham a mesma resolução para registrar os neurônios.

O Estado de S. Paulo: O que é “registrar neurônios”?

M.N.: Colocamos eletrodos no cérebro e registramos a atividade elétrica dos neurônios. Se você colocar os dados obtidos pelos eletrodos em uma tela de computador, não vai entender nada. É como olhar um programa binário de computador. Há uma mensagem codificada ali, mas com um código que está mudando continuamente, pois o cérebro é um sistema auto-adaptativo: cada vez que você faz alguma coisa, ele muda. Precisávamos descobrir um modo de extrair a informação motora dessas salvas de eletricidade que são, na realidade, padrões espaço-temporais que variam com o tempo. De início, parecia ruído… em boa medida, porque é mesmo ruído Poisson, como costumamos chamar. Mas percebemos que, com métodos de regressão linear, conseguíamos obter a informação. A partir daí, deixamos o próprio cérebro atuar como nosso computador: ele resolvia o sistema de equações lineares e encontrava um equilíbrio ótimo que aproveitávamos para estabelecer a interface.

O Estado de S. Paulo: O que você acha da política científica brasileira?

M.N.: Está ultrapassada. Principalmente, a gestão científica. Foi por isso que eu escrevi o Manifesto da Ciência Tropical (PS do Viomundo: publicado primeiro aqui mesmo, neste espaço). O mais importante nós temos: o talento humano. Mas ele é rapidamente sufocado por normas absurdas dentro das universidades. Não podemos mais fazer pesquisa de forma amadora. Devemos ter uma carreira para pesquisadores em tempo integral e oferecer um suporte administrativo profissional aos cientistas.

Visitei um dos melhores institutos de física do país, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e o pessoal não tem suporte nenhum. Se um americano do Instituto de Física da Universidade Duke visitar os pesquisadores brasileiros, não vai acreditar. Eles tomam conta do auditório, fazem os cheques e compram as coisas, porque não é permitido ter gestores científicos com formação específica para este trabalho. Nós preferimos tirar cientistas que despontaram da academia. Aqui no Brasil há a cultura de que, subindo na carreira científica, o último passo de glória é virar um administrador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) ou da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). É uma tragédia. Esses caras não tem formação para administrar nada. Nem a casa deles. Não temos quadros de gestores. A gente gasta muito dinheiro e presta muita atenção em besteira e não investe naquilo que é fundamental.

O Estado de S. Paulo: Qual é a diferença nos mecanismos de financiamento e gestão científica nos EUA e no Brasil?

M.N.: O investimento privado e público americano – sem contar os gastos do Pentágono que, em parte, são sigilosos – é equiparável: cerca de US$ 250 bilhões anuais cada um (o equivalente a R$ 425 bilhões). Eles também enfrentam o problema de que as empresas privadas não costumam investir em pesquisa pura, meio de cultura de onde saem as ideias aplicadas. Contudo, o governo não investe só em universidades. Ele também coloca dinheiro em empresas e em institutos de pesquisa privados. Este é o segredo.

No Brasil, a grande maioria dos mecanismos públicos de financiamento está voltado para universidades públicas. Sendo assim, você não contrata cientistas e técnicos para um projeto, pois depende dos quadros da universidade. Mas esses quadros estão dando 300 horas de aula por semestre. Não dá para competir com um chinês que está em Berkeley pesquisando o dia inteiro e recebendo milhões de dólares para contratar quem ele quiser. Como fazer ciência sem gente?

Na realidade, os americanos não contam com pessoas mais capazes lá. O que eles têm de diferente é um número muito maior de pesquisadores, processos eficientes, gestão científica profissional – a melhor jamais inventada – e dinheiro. Nos Estados Unidos, sou visto como um pequeno empreendedor. Recebo dinheiro do governo americano e uma parcela menor de investimento privado. Tenho assim uma “padaria” que faz ciência: posso contratar o padeiro, o faxineiro e a atendente de acordo com as necessidades do projeto. Esse empreendedorismo não é permitido pelas leis brasileiras. As mesmas regras que regem o gasto de quaisquer dez mil réis que um cientista ganha do governo federal servem para controlar licitações de centenas de milhões de reais para a construção de estradas, hidrelétricas…

Achar que um cientista vai desviar dinheiro para fazer fortuna pessoal é absurdo. O processo de financiamento deve ser mais aberto, com mecanismos simples de auditoria. Além disso, deveria ser mais fácil importar insumos e, com o tempo, precisaríamos atrair empresas para produzi-los aqui. É um absurdo ver anticorpos apodrecerem no aeroporto de Guarulhos por causa da burocracia. Alguém no topo da pirâmide – o presidente da República ou o ministro da Ciência e Tecnologia – precisa dizer: “Chega. Acabou a brincadeira.”

É um desperdício gigantesco de talento e de dinheiro. A China está recuperando pesquisadores que emigraram para os EUA oferecendo condições de trabalho ainda melhores que as americanas. Milhares de brasileiros voltariam ao Brasil se tivessem melhores condições para trabalhar. Mas o sujeito vem para uma universidade federal e é obrigado a dar 300 horas de aula por semestre. Perdemos o talento. Além disso, ele conquista a estabilidade de forma quase automática. Que motivação vai ter para crescer? Há talentos, mas os processos são medievais. E o cientista brasileiro tem muito receito de bater de frente com as autoridades para reivindicar o que ele realmente precisa.

O Estado de S. Paulo: Quanto o Brasil deveria investir em ciência?

M.N.: O Brasil precisa investir de 4% a 5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em ciência e tecnologia para encarar a China, a Índia, a Rússia, os Estados Unidos, a Coreia do Sul… esses são os jogadores com quem devemos nos equiparar. É o mesmo porcentual que já investimos em educação. É essencial realizar os dois investimentos: por um lado, para formar gente e iniciar a revolução educacional que o país precisa; por outro, para usar o potencial intelectual dessas pessoas na produção de algo para o país. Atualmente, investimos 1,3% do PIB. No Japão, é quase 4%. Isso explica muita coisa.

O Estado de S. Paulo: Você afirmou diversas vezes que a ciência precisa ser democratizada no país.

M.N.: Sem dúvida. É uma atividade extremamente elitizada. Não temos a penetração popular adequada nas universidades. Quantos doutores são índios ou negros? A ciência deve ir ao encontro da sociedade brasileira. Essa foi uma das razões que me motivaram a escrever o manifesto. Até bem pouco tempo, a ciência era uma atividade da aristocracia brasileira. Há 30 ou 40 anos só a classe mais alta tinha acesso à universidade. Não precisavam de financiamento porque tinham dinheiro próprio.

Hoje, nós precisamos de cientista que joga futebol na praia de Boa Viagem. Precisamos do moleque que está na escola pública. As crianças precisam ter acesso à educação científica, à iniciação científica. O que também implica uma democratização na distribuição de oportunidades e recursos em todo o país. Estamos trabalhando com 21 crianças da periferia de Natal. Elas nem mesmo entraram no ensino médio e já estão sendo incorporadas às linhas de produção de ciência do nosso instituto. Quatro participaram de um projeto piloto em que aprenderam a usar ressonância nuclear magnética de bancada para medir o volume de óleo nas sementes do pinhão-manso do semi-árido nordestino. E classificaram as diferentes sementes de acordo com a quantidade de óleo. Duvido que exista algum técnico na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) melhor do que essas crianças.

Não precisamos mais de caciques. Precisamos de índios. Devemos investir na massificação dos talentos. Esses moleques vão decidir o que vai ser a nossa ciência. Se chega um jovem muito talentoso que quer investigar besouro, devemos responder: “Está bom, filho. Vai pesquisar besouro.” Eu não investiria em tópicos, em áreas específicas. Eu investiria primordialmente em gente. Porque se você investir em pessoas talentosas, elas encontrarão nichos em que o Brasil terá benefícios tremendos. Nós temos uma das maiores olimpíadas de matemática do mundo, o que comprova que nosso talento matemático é enorme. Mas não dá frutos porque faltam caminhos, oportunidades, veículos…

Acreditamos que devemos escolher o melhor menino. Mas e os outros cem mil que quase ganharam? Precisam de incentivo para continuar. Por isso, eu proponho o bolsa-ciência. É um bolsa-família para garoto que tem talento científico. Não precisa ser gênio. Estou fazendo isso com esses 21 meninos. Os quatro garotos do pinhão-manso recebem mais dinheiro do que o pai e a mãe: uma bolsa de R$ 520 paga por doadores privados. Precisamos investir no caos que é o sistema nervoso. Desta forma, encontraremos caminhos imprevistos, surpresas agradáveis.

O Estado de S. Paulo: Como avaliar mérito na academia?

M.N.: Nós publicamos mais do que a Suíça. Mas o impacto da ciência suíça é muito maior. Basta ver o número de prêmios Nobel lá. E eles têm apenas cinco milhões de habitantes. Na academia brasileira, as recompensas dependem do que eu chamo de “índice gravitacional de publicação”: quanto mais pesado o currículo, melhor. Ou seja, o cientista precisa colecionar o maior número de publicações – sem importar tanto seu conteúdo. Não pode ser assim. O mérito tem de ser julgado pelo impacto nacional ou internacional de uma pesquisa. Não podemos dizer: quem publica mais, leva o bolo. Porque aí o sujeito começa a publicar em qualquer revista. Não é difícil. A publicação científica é um negócio como qualquer outro. Mesmo se você considerar as revistas de maior impacto. Também não adianta criar e usar um índice numérico de citações (que mede o número de citações dos artigos de um determinado cientista).

Talento não está no número de citações: é imponderável. Meu departamento na Universidade Duke nunca pediu meu índice de citação. Também nunca calculei. Quando saí do Brasil, achei que estava deixando um mundo de lordes da ciência. Fui perguntando nome por nome lá fora. Ninguém conhecia. Ninguém sabia quem era. Criamos uma bolha provinciana que deve ser estourada agora se o Brasil quer dar um salto quântico. Mas as pessoas têm receio de falar com medo de perder o financiamento. Há outras formas de medir o impacto científico: ver o que cara está fazendo e consultar a opinião de pessoas que importam no mundo, dos líderes de cada área. Sob este ponto de vista, o impacto da ciência brasileira é muito baixo. E precisamos dizer isso sem medo. Não dá para esconder o sol com a peneira.

Quando decidem criar um Instituto Nacional (de Ciência e Tecnologia), em vez de dividir o dinheiro entre 30 ou 40 pesquisadores promissores, preferem pulverizar o dinheiro entre 120 cientistas, muitos deles com propostas que não vão chegar a lugar nenhum. Cada um recebe um R$ 1 milhão, uma quantia considerável na opinião de muita gente mas que não paga nem a conta de luz de um projeto bem feito. Não podemos ter receio de selecionar os melhores. Você precisa escolher os bons jogadores, não os pernas-de-pau. Outra coisa: só o Brasil ainda admite cientista por concurso público. Cientista tem de ser admitido por mérito, por julgamento de pares, por entrevista, por compromisso, por plano de trabalho.

O Estado de S. Paulo: Como você se vê na Academia?

M.N.: Sou um pária. Não tenho o menor receio de falar isso. Sou tolerado. Ninguém chega para mim de frente e fala qualquer coisa. Mas, nos bastidores, é inacreditável a sabotagem de que fomos vítimas aqui em Natal nos últimos oito anos. Mas sobrevivemos. O Brasil é uma obsessão para mim. Há muita gente que não faz e não quer que ninguém faça, pois o status quo está bem. Tenho excelentes amigos na academia do país, respeito profundamente a ciência brasileira. Sou cria de um dos fundadores da neurociência no Brasil, o professor César Timo-Iaria, e neto científico de um prêmio Nobel argentino – Bernardo Alberto Houssay.

Por isso, foi uma triste surpresa os anticorpos que senti quando eu voltei. Algumas pessoas ficaram ofendidas porque não fiz o beija-mão pedindo permissão para fazer ciência na periferia de Natal. Este ano, na avaliação dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs), tivemos um dos melhores pareceres técnicos da área de biomedicina. E o nosso orçamento foi misteriosamente cortado em 75%. Pedi R$ 7 milhões. Recebemos R$ 1,5 milhão.

Operamos com um sexto do nosso orçamento. As pessoas têm medo de abrir a boca, porque você é engolido pelos pares. Então, eu fico imaginando um pesquisador que volta para o Brasil depois de estudar lá fora. De qualquer forma, o pessoal precisa entender que voltar para o Brasil é assumir um tipo especial de compromisso. Não é ir para Harvard, Yale… Você deve estar disposto a dar seu quinhão para o país porque ele ainda está em construção. Nem tudo vai funcionar como a gente quer. Vejo muita gente egoísta voltando para o Brasil. Os jovens precisam olhar menos para o umbigo e mais para a sociedade.

O Estado de S. Paulo: Qual é o futuro dos jovens pesquisadores no país?

M.N.: Atualmente, eles têm uma dificuldade tremenda de conseguir dinheiro porque não são pesquisadores 1A do CNPq. Você precisa ser um cardeal da academia para conseguir dinheiro e sobressair. Com um físico da UFPE, cheguei à conclusão de que Albert Einstein não seria pesquisador 1A do CNPq, porque ele não preenche todos os pré-requisitos – número de orientandos de mestrado, de doutorado…

Se Einstein não poderia estar no topo, há algo errado. Minha esperança é que o futuro ministro ataque isso de frente pois, até agora, ninguém teve coragem de bater de frente com o establishment da ciência brasileira. Ninguém teve coragem de chegar lá e dizer: “Chega! Não é assim! A ciência não está devolvendo ao povo brasileiro o investimento do povo na ciência”. Os cientistas brilhantes jovens não têm acesso às benesses que os grandes cardeais – pesquisadores 1A do CNPq – têm, muitos deles sem ter feito muita coisa que valha.

Além disso, veja a situação do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT, que assessora o presidente da República nas decisões relacionadas à política científica). O presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) – agora, um grande matemático – me perdoe, mas ele não deveria ter cadeira cativa nesse conselho. O Brasil deveria ter um conselho de gente que está fazendo ciência mundo afora. E não pessoas que ocupam cargos burocráticos em associações de classe. Deveria ser gente com impacto no mundo. E pessoas jovens com a cabeça aberta. Mas as pessoas têm muita dificuldade de quebrar esses rituais.

Para entender a que me refiro, basta participar de reuniões científicas e acompanhar a composição de uma mesa. Não há nada semelhante em lugar nenhum do mundo: perder três minutos anunciando autoridades e nomeando quem está na mesa. É coisa de cartório português da Idade Média. Cientista é um cidadão comum. Ele não tem de fazer toda essa firula para apresentar o que está fazendo. É um desperdício de energia, uma pompa completamente desnecessária. Muitas vezes, os pesquisadores jovens não podem abrir a boca diante dos cientistas mais velhos. Eu ouço isso em todo o Brasil.

No meu departamento nos Estados Unidos, sou professor titular há quase doze anos. Minha voz não vale mais que a de qualquer outro que acabou de chegar. Qualquer um pode me interpelar a qualquer momento. Qualquer um pode reclamar de qualquer coisa. Qualquer um pode fazer qualquer pergunta. E ninguém me chama de professor Nicolelis. Meu nome lá é Miguel. Por quê? Porque o cientista é algo comum na sociedade. O meu estado (a Carolina do Norte) possui uma das maiores densidades de PhD na população dos EUA. Se você se comportar como um pavão lá, vai se dar mal. Todo mundo tem pelo menos um PhD.

Aqui, precisamos colocar a molecada da periferia de Natal, de Rio Branco e de Macapá na ABC, por mérito. Às vezes, parece que existe uma igreja chamada Ciência no país. Se você não é um membro certificado, ela é impenetrável. Minhas críticas não são pessoais. Quero que o Brasil seja uma potência científica para o bem da humanidade. As pessoas precisam ver que a juventude científica brasileira está de mãos atadas. Precisamos libertar este povo. Já estou no terço final da minha carreira científica. O que me resta é ajudar essa molecada a fazer o melhor.

O Estado de S. Paulo: Você tem uma opinião bastante crítica sobre a política científica no país. Mas, na eleição, manifestou apoio publicamente à Dilma. Por quê?

M.N.: Porque a outra opção era trágica. Basta olhar para o Estado de São Paulo: para a educação, a saúde e as universidades públicas. Não preciso falar mais nada. Eu adoro a USP, onde me formei. Mas a liderança que temos hoje na USP é terrível. O reitor da USP (João Grandino Rodas) é uma pessoa de pouca visão. Não chega nem perto da tradição das pessoas que passaram por aquele lugar. São Paulo acabou de perder um investimento de 150 milhões de francos suíços (cerca de R$ 270 milhões) porque o reitor da USP não tinha tempo para receber a delegação de mais alto nível já enviada pelo governo suíço ao Brasil. Mandaram o pró-reitor de pesquisa da universidade (Marco Antônio Zago) fazer uma apresentação para eles. Ninguém agradeceu a visita. Manifestei oficialmente ao professor Zago minha indignação como ex-aluno da USP.

Um dos integrantes da delegação suíça doou um super-computador de US$ 20 milhões de dólares (cerca de R$ 34 milhões) para nosso instituto em Natal. Chegou na semana passada e será um dos mais velozes do Brasil. Não pagamos um centavo. Não há mais espaço para provincianismo na ciência mundial. Nas reuniões que eu presenciei com comitês e comissões de outros países, a tônica da Fapesp sempre foi assim: “Fora de São Paulo não existe ciência que valha a pena investir”. Esse tipo de coisa é muito mal visto pelos estrangeiros. Não há mais lugar para regionalismo, preconceito… É ótimo para São Paulo ser responsável por 70% da produção científica do país, mas é muito ruim para o país, que precisa democratizar o acesso à ciência. Não adianta dizer em reuniões com emissários internacionais que São Paulo tem uma “relação amistosa” com o Brasil, este outro país fora das fronteiras do Estado. Este bairrismo não ajuda em nada.

A Fapesp é uma jóia, um ícone nacional, reconhecida no mundo inteiro. Mas isso não quer dizer que as últimas administrações foram boas. Temos de ser críticos. Esta última administração, em especial, foi muito ruim. A Fapesp está perdendo importância. Veja só: a Science (no artigo publicado há algumas semanas sobre a ciência no Brasil) não dedicou uma linha à Fapesp. Que surpresas você vê saindo da ciência de São Paulo? Acho que a matéria da Science foi uma boa chamada para acordar, para sair dos louros, descer do salto alto e ver o que podemos fazer com os R$ 500 milhões anuais da Fapesp. Ah, se eu tivesse um orçamento assim! Temos muito menos e posso dizer para o diretor-científico da Fapesp (Carlos Henrique de Brito Cruz) que nós saímos na Science. E ele tem condição de investir nos melhores centros de pesquisa do país.

O Estado de S. Paulo: Como você avalia o governo Lula?

M.N.: Apoiei e apoio incondicionalmente o presidente Lula porque vivemos hoje o melhor momento da história do país. A proposta global de inclusão do governo Lula – e espero que será a mesma com a Dilma – é aquela que eu acredito. Contudo, os detalhes devem ser corrigidos. Admiro profundamente o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende. Tivemos grandes avanços como a criação dos INCTs e dos fundos setoriais. Mas o ministro não enfrentou a estrutura.

Talvez não pudesse… por não ter condições práticas ou por fazer parte dela, por ter crescido nela. Em oito anos, nunca fui chamado para dar uma opinião no MCT ou para apresentar os resultados do projeto de Natal. Sei que outros cientistas, melhores do que eu, também não foram chamados. É curioso. Mas fui chamado pelo Ministério da Educação. O ministro (Fernando Haddad) é o melhor já tivemos na história da República. Ele criou a infraestrutura que será lembrada daqui a 50 anos como a reviravolta da educação brasileira. Com o Haddad eu consigo conversar e nossa parceria está dando resultados.

O Estado de S. Paulo: O que você achou da escolha de Aloizio Mercadante para o MCT?

M.N.: Estou curioso para saber qual é o currículo dele para gestão científica. Fiquei surpreso com a indicação, mas não o conheço. Não tenho a mínima ideia do seu grau de competência. Mas não fica bem para a ciência brasileira – um ministério tão importante – virar prêmio de consolação para quem perdeu a eleição. Não é uma boa mensagem. Mas talvez seja bom que o futuro ministro não seja um cientista de bancada, alguém ligado à comunidade científica. Assim, se ele tiver determinação política, poderá quebrar os vícios.

O primeiro ministro da Ciência e Tecnologia (Renato Archer, que permaneceu no cargo de 1985 a 1987) não era cientista e foi talvez um dos melhores gestores que já tivemos. Ele tinha consciência de que seu ministério era estratégico. O MCT estabelece parcerias e tem impacto na ação de outros ministérios: Educação, Saúde, Indústria e Comércio, Relações Exteriores, Agricultura, Meio Ambiente… Hoje, boa parte do orçamento do ministério não é nem executado. As agências de financiamento não têm uma rotina de chamadas. Não podemos continuar como está.

Fonte: Estadão, por Alexandre Gonçalves

Despesas com bolsas do CNPq e importação de bens para pesquisa estão fora do teto de R$ 2,9 bi mensais fixado pelo governo.
 
O Poder Executivo baixou um decreto para controlar os gastos dos ministérios nos primeiros dias de governo, enquanto o Orçamento de 2011 não é sancionado pela presidente Dilma Rousseff. No decreto, foi fixado um gasto mensal de R$ 2,9 bilhões como teto para despesas correntes de caráter inadiável.
 
Fora essas despesas, o governo poderá gastar com obrigações constitucionais ou legais da União; bolsas de estudo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); pagamento de estagiários e de contratações temporárias; ações de prevenção a desastres; formação de estoques públicos; e importação de bens para pesquisa científica.
 
Cortes
 
Os cortes definitivos no Orçamento de 2011 poderão chegar a R$ 30 bilhões e também serão definidos por decreto após a sanção do Orçamento, ainda sem prazo definido.
 
Segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, o que há de concreto é apenas a determinação de cortes nos gastos de todos os ministérios.
 
"Não há um número definido do tamanho do contingenciamento. Vamos analisar, em cada ministério, os seus projetos e a maximização do uso do dinheiro. Vamos reduzir, certamente, gastos com passagens e diárias, por exemplo, e com contratação de serviços. Será feita uma triagem e os projetos prioritários continuarão; os menos prioritários poderão ser postergados. O fato é que deverá haver uma redução considerável de gastos neste ano."
 
Mantega argumenta que esse corte qualitativo, a partir da realidade de cada ministério, é mais racional do que uma redução linear nos gastos do governo.
 
Fonte: Agência Câmara, via Jornal da Ciência
 
Professor do Instituto de Física da USP/São Carlos é o atual diretor de Engenharias, Ciências Exatas e Humanas e Sociais (DEHS) da agência.
 
O professor titular do Instituto de Física de São Carlos, da Universidade de São Paulo, Glaucius Oliva, foi indicado como novo presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
 
Oliva é atualmente diretor da área de Engenharias, Ciências Exatas e Humanas e Sociais do CNPq. Ele substituirá o físico Carlos Alberto Aragão, que assumiu a agência em janeiro do ano passado.
 
Graduado em Engenharia Elétrica/Eletrônica pela Escola de Engenharia de São Carlos/USP, tem mestrado (pela USP) e doutorado (pela University of London) em Cristalografia. Seus principais interesses de pesquisa estão centrados em biologia estrutural e suas aplicações no planejamento e desenvolvimento de novos fármacos, com particular ênfase em doenças endêmicas brasileiras. É membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico.
 
Em 2009, Oliva foi o mais votado na eleição para reitor da USP, mas que acabou não sendo escolhido pelo então governador José Serra, que nomeou o segundo colocado, João Grandino Rodas.
 
Fonte: Jornal da Ciência
O ministro da C&T, Aloizio Mercadante, começou a anunciar os nomes que farão parte de sua equipe. Um dos indicados é o presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp, para assumir a Agência Espacial Brasileira (AEB), como afirmou Mercadante em entrevista ao "O Estado de SP" (leia na nota 2 desta edição). Raupp ainda não se pronunciou sobre o convite.
 
 
No discurso de posse, no dia 3 de janeiro, Mercadante ressaltou a importância de um programa espacial fortalecido, "que conte com recursos suficientes, nos níveis necessários para atender as importantes demandas por satélites e por aplicações espaciais, inerentes aos dias de hoje".
 
O ministro afirmou ainda que, nesse contexto, "daremos redobrado apoio à Agência Espacial Brasileira (AEB)".
 
Secretarias
 
Já segundo informações do "Globo Online", o coordenador da Rede Clima e ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Carlos Nobre, será o novo secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do MCT.
 
Carlos Nobre é considerado um dos maiores especialistas mundiais sobre mudanças climáticas. Integra o Comitê Científico do International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP) e coordena programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais. Nobre também preside o Conselho Diretor do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas. O engenheiro eletrônico assume no lugar de Luiz Antonio Barreto de Castro.
 
Para a Secretaria de Política de Informática, Mercadante escolheu o professor Virgílio Almeida, do Centro de Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e que terá como principal tarefa a integração das redes informatizadas do governo e dos principais centros de desenvolvimento da inovação tecnológica.
 
Virgílio é coordenador do Centro da Computação da UFMG e entra no lugar de Augusto César Gadelha Vieira.
 
Fonte: Jornal da Ciência, com informações do Globo Online

 

 

Tem razão o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, ao conclamar, no discurso de posse, as empresas brasileiras a investir "muito mais" em inovação. Enquanto isso não ocorrer, é retórica esperar que o país supere o nível de uma economia medianamente industrializada. Esse é o único consenso entre acadêmicos, analistas e instituições. Os resultados da Pesquisa de Inovação Tecnológica (Pintec) referentes a 2008, recentemente divulgados colocaram boas polêmicas na mesa.

Os resultados da Pintec, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foram recebidos com decepção ou reservas por alguns analistas. Já o Banco Nacional para o Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), principais responsáveis pelo fomento à inovação no país, viram avanços. A Pintec 2008 é o retrato mais recente e completo do estágio em que se encontra o Brasil na área da inovação.

Apesar de a taxa de inovação na indústria (percentual que representa o total de indústrias ouvidas dividido pelo total das que disseram ter introduzido pelo menos uma inovação) ter passado de 33,4% em 2005 para 38,1% em 2008, o economista David Kupfer, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e um dos principais estudiosos da evolução industrial do país, constatou que quando visto mais de perto, com lupa, o resultado não é tão auspicioso quanto possa parecer.

Ele constatou que das 100,5 mil indústrias pesquisadas, apenas 4,2% realizaram atividades internas de pesquisa e desenvolvimento em 2008, ante 5,6% na Pintec de 2005. O dado é o principal indicador do esforço inovativo feito pelas empresas industriais. "Eu gosto de ver mais as variáveis de esforço do que de resultado", disse Kupfer. Ressalvando a necessidade de que seja feito um mergulho mais profundo nos números da Pintec, ele alinhou outros dados que, na sua opinião, corroboram sua relativa decepção.

Outros dados

Sempre comparando 2008 com 2005, os gastos da indústria de transformação com pesquisa e desenvolvimento (P&D) caíram de 2,8% para 2,6% do faturamento. A proporção de pessoas ligadas a atividades de P&D em relação ao pessoal total caiu de 0,80% para 0,69%, e o número de mestres e doutores aumentou apenas de 4.280 para 4.340 em três anos.

De acordo com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), a Pintec mostrou um crescimento de 10%, com o total dos gastos empresariais na área passando de 0,49% para 0,54% do PIB. Analistas do Ipea compararam o avanço brasileiro com o de outros países e concluíram que o esforço brasileiro, embora expressivo, está sendo muito pequeno quando considerada a necessidade que o país tem de investir para reduzir o fosso tecnológico entre ele e os países que estão na fronteira tecnológica.

Os 10% de avanço brasileiro em relação a 2005 foram inferiores aos 12% dos Estados Unidos, aos 21% da China, aos 23% da Espanha, e aos incríveis 145% de Portugal, onde a taxa de investimento das empresas em P&D passou de 0,31% para 0,76% do PIB. Com base nos dados analisados, os técnicos do Ipea calculam que aumentando os investimentos no ritmo atual o Brasil precisaria de 20 anos para chegar aos níveis europeus.

Para Kupfer, a decepção veio também por conta da falta de resultados mais expressivos em um período no qual a economia brasileira cresceu em ritmo mais acelerado. De 2006 a 2008 o PIB brasileiro expandiu-se a uma média anual de 5,1%. "Parece que a indústria brasileira não investe em inovação na fase ruim porque está ruim e também não investe na fartura porque está farto", provocou.

9 mil empresas a mais

Já o presidente da Finep, Luis Fernandes, considera que o economista David Kupfer está "excessivamente pessimista, inclusive com os dados". Ele disse que a próprio crescimento da taxa de inovação na indústria para 38,1% "não é desprezível", considerando que essa taxa "estava estagnada na casa dos 33% até 2005". "São 9 mil empresas a mais que inovaram", ressalta.

Fernandes destacou também, no que toca ao esforço de pesquisa, o aumento de 0,57% para 0,62% do percentual do faturamento das indústrias destinado a pesquisa e desenvolvimento (P&D). Outro dado positivo destacado pelo dirigente da principal agência de fomento à pesquisa tecnológica do Brasil foi o fato de ter passado de 18,8% para 22,3% o percentual de empresas inovadoras que utilizaram pelo menos um mecanismo de apoio governamental.

Fernandes resume assim o quadro que viu dos números da Pintec: "Precisamos melhorar muito, mas ficamos satisfeitos em ver uma evolução na direção correta". O presidente da Finep também ponderou os efeitos da crise econômica mundial cujos impactos começaram a ser sentidos em 2008 para explicar retração dos investimentos privados em inovação.

Também o BNDES, que nos últimos anos aumentou muito sua participação nos mecanismos de apoio estatal à inovação, considera que a leitura da Pintec feita pelos analistas precisa ser ponderada, mesmo admitindo que há um longo caminho a percorrer. Para Claudio Leal, superintendente de planejamento do banco, o período de 2006 a 2008 compreendido pela última pesquisa do IBGE "não é capaz de captar" os resultados dos diversos mecanismos de apoio à pesquisa e desenvolvimento e à inovação no Brasil.

Processo positivo

"Estamos com a Finep, há um processo positivo", disse, ressaltando que esse aspecto positivo existe mesmo quando o avanço é obtido só com a compra de máquinas e equipamentos mais modernos.

Ele destacou o crescimento do interesse de empresas estrangeiras de instalarem centros de pesquisas no país, especialmente na área de petróleo, e o aumento da disponibilidade de financiamento, liberando a empresa de usar recursos próprios para inovar.

Somente o BNDES possui hoje 15 mecanismos de fomento voltados para a inovação. No conjunto, eles desembolsaram R$ 563 milhões em 2009, no total de 156 projetos, saltando para R$ 999 milhões em 217 projetos, de janeiro a outubro de 2010.

O relatório anual de utilização dos incentivos fiscais da chamada Lei do Bem (nº 11.196/2005) referente a 2009, recentemente divulgado pelo MCT, também reflete o clima de otimismo, com ressalvas, existente no governo quanto aos avanços do país em P&D e inovação.

Nas suas conclusões, o trabalho do MCT também destaca a necessidade de uma evolução maior. Considerando que o total de empresas beneficiárias dos incentivos fiscais da Lei do Bem corresponde a 14,5% do total de empresas que investiram em P&D no Brasil (dados da Pintec 2008), o ministério diz que "a participação do empresariado brasileiro nos investimentos em P&D ainda é bastante tímida".

Direção certa, caminho longo

"Essa situação não é compatível com o atual sistema de educação e de ciência e tecnologia do Brasil, o que tem provocado um descompasso entre a tênue geração de inovação das empresas brasileiras e a alta competência técnico-científica das nossas universidades", diz o trabalho, corroborando, de certa forma, o economista David Kupfer quando diz, aplaudindo a Lei do Bem: "Não estamos na direção errada, mas ainda temos muito que andar".

O economista Antonio Barros de Castro, também professor da UFRJ, ex-presidente do BNDES, reconhece que entre os estudiosos da temática da indústria no Brasil "ninguém se entusiasmou" com o resultado da Pintec. Segundo ele, o mais impressionante é que na 4ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, realizada em maio deste ano, "ficou evidente que o Brasil vem acumulando forças para um possível desejado ingresso na economia do conhecimento".

Entre os sinais desses esforços, ele enumerou o aumento da verba do MCT "de US$ 600 milhões para US$ 2 bilhões em uma década" e a multiplicação de órgãos, tanto na esfera federal como na estadual e na municipal, voltados para o incentivo à busca da inovação.

"Sessenta por cento dos gastos com inovação na América Latina vêm do Brasil", resume Castro, que acrescenta: "Os resultados, porém, são bastante modestos". Ele acha que o furacão China inibe o apetite inovador do empresário e sugere, como vem fazendo há muito tempo, que o Brasil busque adensar as cadeias produtivas em áreas nas quais pode ser líder, como o petróleo em águas profundas e o etanol.

Por Luana Bonone, Diretora de Comunicação da ANPG, com informações do Valor Econômi