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Artigo por Raquel Rolnik, arquiteta e urbanista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP

Mais uma vez a USP toma conta das páginas dos jornais, agora em função de sua situação financeira, principal objeto da greve deflagrada por professores e funcionários há mais de cem dias, diante do anúncio de reajuste salarial zero por parte da administração da universidade.

Se tomarmos o debate em curso na mídia sobre a universidade e sua crise como expressão da relação da sociedade com a USP, parece que transitamos entre dois polos. De um lado, ela é reconhecida como a melhor universidade da América Latina, única presente entre as 150 melhores do mundo, responsável por 25% de toda a pesquisa produzida no Brasil e nossa principal formadora de mestres e doutores. De outro, é vista como uma universidade elitista, povoada por “marajás” e “baderneiros” e custeada pelo dinheiro de todos.

O que fundamenta esta relação de amor/ódio pela USP? Me parece que a pergunta central que a sociedade faz neste momento é: a USP é ou não um patrimônio de todos os paulistas e brasileiros?

O que está em jogo, portanto, é a dimensão pública da universidade, abrangendo muitos sentidos além da questão do seu financiamento. Ser “de todos” implica em produzir valores tangíveis e intangíveis que reconhecidamente beneficiem largas parcelas da população.

Como professora da instituição, não tenho a menor dúvida em relação à qualidade do que se produz na USP –que vai além de aulas, teses e artigos. Como ex-aluna de uma USP dos anos 1970, posso afirmar que o acesso à Universidade se ampliou e democratizou, embora haja ainda muito caminho pela frente nessa direção.

Mas é importante reconhecer que se a sociedade questiona a USP é porque, em muitas dimensões, não se reconhece como parte dela.

Podemos tomar o território ocupado pela USP como uma espécie de metáfora –além de uma das dimensões– do que estou tentando dizer. Em São Paulo, o campus Butantã ocupa uma área de 5 milhões de m², encravada como um feudo, pouquíssimo permeável à cidade. O modelo urbanístico do campus é uni funcional, com densidade de ocupação baixíssima –as poucas moradias que temos foram construídas nos anos 1960 para os atletas dos Jogos Pan-Americanos–, com mobilidade baseada no automóvel, enormes espaços vazios, poucos espaços de convivência, uma espécie de branco interrompendo a cidade.

Como acontece com muitos outros campi do Brasil, esse modelo segregacionista herdado da ditadura militar até hoje não foi devidamente revisto, debatido e superado. Assim como não foi revista e superada a forma de gestão da universidade –uma espécie de cardinalato de professores no ápice da carreira acadêmica, que não necessariamente expressam a multiplicidade de atores presentes na instituição, nem aqueles com quem esta deve dialogar.

Se quisermos que a USP seja uma universidade verdadeiramente pública precisamos superar essa lógica do enclave. Isso significa não apenas democratizar e dar vida a seus espaços físicos, revendo completamente sua relação com o conjunto da cidade, mas também democratizar o acesso a seus cursos e serviços e, fundamentalmente, democratizar sua gestão. Tudo isso em intenso diálogo com a sociedade, a verdadeira dona da USP.

Fonte: Folha de S. Paulo

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Em artigo, Dennys Antonialli e Francisco Brito Cruz fazem uma análise sobre as questões do Marco Civil da Internet

Aqueles que comemoraram a entrada em vigor do Marco Civil da Internet há uma semana parecem confiantes na existência da lei para garantir uma série de direitos dos usuários no Brasil. De fato, há conquistas, como a neutralidade da rede. Mas, ao contrário do que se imagina, a lei deixou muitas questões em aberto, cuja definição dependerá da interpretação do Poder Judiciário.

No caso dos pedidos de retirada de conteúdo por alegação de violação civil do direito à honra, por exemplo, a lei determina que os provedores de aplicações de internet só sejam responsabilizados se deixarem de cumprir ordem judicial específica nesse sentido. E caberá aos juízes decidir, no caso concreto, quando a retirada de conteúdo é admissível e quando não é.

Até aí, nenhum problema. O juiz é a autoridade legitimada para ponderar esses conflitos, cabendo a ele evitar que pedidos de retirada baseados em alegações infundadas cerceiem a liberdade de expressão. O problema está na forma como se apropriará dessa responsabilidade.

Em 2013, uma decisão judicial impediu um cidadão de publicar qualquer comentário na internet contestando a criação de três torres com 162 apartamentos em uma rua de São Paulo. No mesmo ano, outra decisão judicial impediu um advogado que fez críticas à atuação de um membro do Ministério Público de acessar qualquer rede social. Essas decisões confirmam que há um risco de que tais entendimentos se tornem comuns, consolidando uma jurisprudência extremamente restritiva.

O mesmo pode acontecer em relação à privacidade. De acordo com o texto do Marco Civil, as empresas de internet devem guardar os registros de acesso a aplicações de internet dos usuários (“logs”) por um prazo de seis meses. Esses registros deverão ser mantidos em sigilo e só deverão ser fornecidos à parte solicitante mediante ordem judicial.

Aqui, mais uma vez, o juiz é a autoridade mais adequada para decidir, no caso concreto, se o fornecimento dos registros é justificado. A privacidade do usuário deveria ser preservada sempre que não forem apresentados motivos suficientes para identificação.

Em pesquisa vencedora do prêmio Marco Civil da Internet e Desenvolvimento, organizado pela Fundação Getulio Vargas de São Paulo e pelo Google Brasil, identificou-se que, em 47% dos casos, há decisão judicial deferindo o fornecimento desses registros em caráter liminar, isto é, antes mesmo da fase probatória. Vale lembrar que a entrega dos dados é irreversível.

Os casos ilustram circunstâncias em que a jurisprudência pode criar critérios restritivos –e às vezes indesejáveis– de interpretação da lei. Esses exemplos não são os únicos. O próprio funcionamento básico da rede ainda é matéria técnica de difícil apreensão pelos operadores do direito, o que não poderá ser ignorado na hora da aplicação da nova lei.

Antes do Marco Civil, o Poder Judiciário enfrentava com coragem, mas também com despreparo, a lacuna legislativa sobre regulação da internet no Brasil. Com a aprovação da lei, dependemos da sensibilidade daqueles que irão aplicá-la para manter vivos seus objetivos de garantir uma internet livre e aberta.

Dennys Antonialli, 28, doutorando em direito constitucional pela USP, e Francisco Brito Cruz, 25, mestrando em sociologia jurídica pela USP, são coordenadores do Núcleo de Direito, Internet e Sociedade da Faculdade de Direito da USP.

Fonte: Folha de S. Paulo

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Por Hercília Melo do Nascimento

O desenvolvimento tecnológico, artístico e cultural como prerrogativas importantes para a soberania de um país e emancipação humana, confere a necessidade de reconhecer o protagonismo dos pesquisadores e de exigir responsabilidades do Estado frente à ciência. A carta aberta à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em defesa da liberdade acadêmica e das ciências humanas e sociais mobiliza reflexões acerca do processo de formação do pesquisador, inclusive na pós-graduação e constituição de sujeitos no processo de construção do conhecimento.

Ao tornar explícitosos acúmulos e percepções, o nascedouro de uma pesquisa carrega consigo afinidade investigativa e coerência com o universo vivido do pesquisador. Uma pesquisa é, sobretudo, uma opção intencional imbuída de questionamentos e anseios. Considerando “a formação uma tarefa socialmente necessária, ela deve guardar para com a sociedade compromissos ético-políticos” (CECCIM; FEUERWERKER, 2004, p. 49).

Nesse sentido, o caminho percorrido pode guardar relação com o pertencimento ao campo de pesquisa, a trajetória da formação inicial e,por conseguinte, a definição do temanão se estabelece de modo totalmente imparcial. É preciso compreender que a produção de conhecimento mobiliza diversos arcabouços teórico-metodológicos para circunscrever objetos, sendo necessárias filiações e escolhas. Kohl (2013) enaltece a relação de interdependência com o objeto de estudo, desde que se processe controle em meio a marcos conceituais de um arcabouço teórico para a compreensão das forças sociais.

As discussões nas ciências sociais e humanas contêm objetos científicos socialmente importantes e diversificados, dialogando com a realidade que precisa ser apreendida de ângulos imprevistos, inclusive, podendo ter suas abstrações convertidas em respostas práticas.

Desse modo, democraticamente, as filiações dos pesquisadores e grupos de pesquisa podem conter pressupostos epistemológicos marcados de subjetividade, na pretensão de buscar respostas e formular explicações, mesmo que provisórias, sobre modos com que se configuram as relações sociais.

Controlar a interinfluência da experiência para torná-la um guia de suas reflexões é imprescindível a todo cientista social no processo de modelagem como “artesão intelectual” (MILLS, 1959, p. 212), numa expressão de sabedoria ao aliar a vida de forma permanente no seu trabalho.

As ciências sociais e humanas, ao buscar a produção científica de diferentes abordagens metodológicas e defender investimentos para as diversas áreas de conhecimento, sugerem, ao mesmo tempo, achados empíricos e produtos teóricos quanto à superação de dicotomias, especialmente entre objetivismo e subjetivismo. Assim, as ciências sociais e humanas buscam rupturas com ideais tradicionais de ciência,numa luta pela renovação dos campos do conhecimento.

Na atualidade, pesquisadores “garimpeiros” estão sendo convocados à realização de trabalhos sem as amarras da formação e com desenhos teórico-metodológicos inovadores, no sentido de contribuir para a elevação do pensamento humano (SOUZA, 2009). A oportunidade de vivenciar a pós-graduação como locus de criação e experimentação responde aos desafios na formação de agentes com condições imateriais distintas, com apreensões do mundo a partir das relações estabelecidas, intensidade e experiência obtida.

Conferindo-se a educação permanente como desafio para gestores e instituições, os processos pedagógicos precisam, portanto, contribuir na construção de instrumentos que se contraponham à reprodução das hierarquias presentes nas áreas de conhecimento.Assim, através da valorização das abordagens escolhidas pelos pesquisadores em seus estudos e da formação de recursos humanos mais autônomos, será possível nos associarmos à recorrência de novas metodologias e a demanda por diversas formas de leitura da realidade, abrindo espaço não apenas para as ciências exatas e da natureza, mas reiterando que cada época deve realizar ciência concatenada aos seus próprios anseios. Renunciar amarras amplia caminhos.

Referências:

CECCIM, R. B; FEUERWERKER, L. C. M. O Quadrilátero da Formação para a Área da Saúde: Ensino, Gestão, Atenção e Controle Social. Rev. Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, V.14, n. 1, p. 41-65, 2004.

KOHL, Henrique Gerson. Educação e capoeira: figurações emocionais na cidade do Recife-PE-Brasil. 2012. 390 f. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2012.
MILLS, C. W. A Imaginação sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1959.

SOUZA, E. F. Histórias e Memórias da Educação em Pernambuco. Recife: EDUFPE, 2009.

Hercília Melo do Nascimento é doutoranda em educação pela Universidade Federal de Pernambuco e ex-diretora da Associação Nacional de Pós-Graduandos – ANPG.

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Artigo de Isaac Roitman sobre os desafios da educação

Se o leitor espera um texto sobre a Copa do Mundo vai ficar decepcionado. O tema será sobre o desafio mais importante para o País, a Copa da Educação. Se ainda tivermos alguma esperança de termos uma sociedade justa onde todos possam realizar os seus anseios e alcançarem a felicidade, temos que ganhar esta Copa, para proporcionar uma educação de qualidade para todos independente de sua classe social.

Pensadores como Confúcio (551 a.C – 479 a.C) e Sócrates, (569.a.C – 399 a.C) já demonstravam a preocupação com o tema. Confúcio: “Diga-me e eu esquecerei, mostre-me e eu lembrarei, envolva-me e eu compreenderei”. Sócrates: “A mente não é um poço que se deve encher, mas uma fogueira que se deve acender”. Esses pensamentos foram revisitados posteriormente por John Dewey (1859-1952), Albert Einstein (1879-1855), Anísio Teixeira (1900-1971), Paulo Freire (1921-1997), Darcy Ribeiro (1922-1997), entre outros. A atual educação brasileira pode ser considerada como uma verdadeira tragédia. Muitos descrevem a situação dizendo que nossas escolas são do século 19, os professores do século 20 e os estudantes do século 21. O descompasso é evidente. Na educação básica o aluno espera ansiosamente o sinal para sair da escola. Aparentemente essa síndrome não é nova. Einstein costumava dizer: “Desperdiçamos vida, recursos e cérebros com essa escola maçante e alienada”, e completava com outras duas máximas: 1. “A educação é aquilo que permanece quando alguém esquece tudo o que aprendeu no colégio”; 2. “A imaginação é mais importante que o conhecimento”. O pai da física moderna propôs seis paradigmas para uma educação de qualidade: cultura, espírito crítico, busca dos fundamentos, ética e consciência social, criatividade, imaginação e intuição.
Paulo Freire pregava que o educando assimilaria o objeto de estudo exercendo uma prática dialética ligada à realidade, em contraposição a uma educação bancária, tecnicista e alienante. O educando criaria a sua própria educação e não seguiria um caminho previamente construído. O estudante seria um importante protagonista na sua educação expressada na sua célebre frase: “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção”. Por sua vez, Anísio acreditava que só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias, a boa escola pública. Ao mesmo tempo dizia que era contra a educação como processo exclusivo de formação de uma elite mantendo a grande maioria da população em estado de analfabetismo e ignorância.
A prioridade na revolução educacional brasileira será a conquista universal da qualidade no ensino básico. Atualmente a responsabilidade do ensino fundamental é municipal e do ensino médio estadual. É evidente que os municípios e estados brasileiros apresentam uma grande assimetria econômica e cultural. Como costuma dizer o Professor e Senador Cristovam Buarque a criança ao nascer já tem na sua testa um selo do tipo de educação que vai receber, pelo seu cpf – segmento social, e pelo seu cepe – município que reside. Colocarmos em prática a proposta desse notável educador de federalizar o ensino básico será um passo importante que permitirá a criação de uma carreira nacional que certamente induzirá uma melhor formação de professores e a consequente valorização dos mesmos, que merecem receber o mais alto salário da carreira pública, pela responsabilidade que têm de prepararem as futuras gerações. A federalização deve ser acompanhada de uma pedagogia contemporânea, priorizando conteúdos com ênfase na aquisição de valores civilizatórios em um ambiente lúdico e prazeroso. A presença da família no processo educativo é absolutamente fundamental como a ampliação de espaços culturais e esportivos acessíveis para todos.
As propostas de Priscila Cruz (Todos pela Educação) devem ser disseminadas. Ela enfatiza que o salto na educação é imperativo. “A tecnologia avança aceleradamente, os interesses dos alunos são outros, a sociedade é mais complexa, e a economia, mais interdependente. Nos últimos anos, a humanidade produziu muitos conhecimentos que têm pouco espaço no currículo atual. E, por fim, o mercado de trabalho exige novas competências”. O sucesso da Copa da Educação depende de todos nós. Ele será o melhor investimento para o futuro das próximas gerações.
Isaac Roitman é professor emérito da Universidade de Brasília e membro Titular da Academia Brasileira de Ciências.

Fonte: Correio Brasiliense

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Por Astor Wartchow 

Formado em medicina e especializado em fisiologia e neuroengenharia, Miguel Nicolelis é um dos pesquisadores brasileiros de maior prestígio internacional, devido aos seus estudos sobre interface cérebro-máquina.

Autor do livro “Muito além do nosso eu”, seu trabalho e suas descobertas aparecem na lista das dez tecnologias que deverão mudar o mundo, de acordo com o Instituto de Tecnologia de Massachusetts-MIT (EUA).

É o primeiro brasileiro a merecer uma capa da revista Science (fundada em 1880!), a mais prestigiada publicação científica do mundo, com tiragem de 130 mil exemplares. Chegou sua hora sonhada.

Nesta quinta-feira, quando a seleção brasileira de futebol estrear, também, minutos antes, entrará em campo e na história científica outro brasileiro.

Dentre um selecionado e testado grupo de paraplégicos, e “vestindo” um exoesqueleto, ou esqueleto externo, idealizado por Nicolelis, um deles entrará em campo e dará o chute inicial da Copa do Mundo.

Exoesqueleto é um dispositivo mecânico que dará sustentação ao corpo e será capaz de mover-se obedecendo ao controle da mente do paraplégico, a partir de conexões máquina-cérebro.

Tudo isso começou quando Nicolelis conectou eletrodos de dois milímetros e meio dentro do cérebro de um macaco. Mais precisamente em cinqüenta neurônios (aleatoriamente). Vários testes e experimentos depois, o macaco já movimentava um braço mecânico como se fosse o seu próprio.

Atualmente, conseguem conectar cerca de 600 neurônios. Nos próximos anos, chegarão a 60 mil neurônios graças a uma inovadora tecnologia de eletrodos tridimensionais. Em resumo, trata-se de pesquisa tecnológica cuja aplicação principal será no campo da reabilitação neurológica, a exemplo do Mal de Alzheimer e Parkinson, entre outros.

Nicolelis sonha grande e longe. Afirma que no próximo século o corpo deixará de ser o fator limitante da nossa ação. Nossa mente poderá atuar com máquinas que estão à distância. E comandar e operar dispositivos tanto de proporções nanométricas quanto gigantescas. Seja uma nave espacial ou uma ferramenta que penetra no espaço entre duas células.

Afinal, no meio de tantos escândalos nacionais e o deserto de líderes virtuosos, sua experiência e realização será o verdadeiro gol de placa dessa Copa do Mundo.

Astor Wartchow é Advogado

Fonte: Zero Hora

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Rodrigo Patto Sá Motta faz uma análise sobre o impacto da ditadura nas universidades

Os resultados das intervenções da ditadura nas universidades ainda estão presentes entre nós; em muitos aspectos, as estruturas universitárias atuais são heranças daquele período. Entretanto, inicialmente, os vencedores de 1964 não tinham clareza sobre o que fazer, salvo a ânsia de “limpar” o país de inimigos reais e imaginários.

Eles constituíam uma frente heterogênea: liberais, conservadores, reacionários, nacionalistas autoritários e até alguns reformistas moderados receberam com alívio a queda do então presidente João Goulart. O único consenso era negativo: destituir governo acusado de conduzir o país a uma guinada esquerdista, temor que se expressou em linguagem anticomunista.

A política universitária da ditadura resultou do contraste entre opiniões divergentes no próprio Estado autoritário, da pressão do movimento estudantil e, paradoxalmente, da apropriação de ideias gestadas no pré-1964, inclusive o conceito de reforma universitária.

Além de as universidades reunirem inimigos do novo regime, o que as tornava alvos privilegiados das primeiras operações de expurgo, elas ocupavam lugar estratégico na formação das elites intelectuais e políticas do país.

Assim, eram indispensáveis ao projeto desenvolvimentista autoritário dos militares (e aliados civis), sobretudo no contexto do “milagre” econômico, que demandou ampliação drástica de técnicos e profissionais com formação superior.

Como resultado, ao fim dos 15 primeiros anos da ditadura, o número de universitários havia aumentado em 1.000%.

A reforma imposta pela ditadura teve outros aspectos relevantes: criou-se o sistema de vestibular unificado; reformou-se a carreira dos docentes, com dedicação integral e salários aumentados; implantou-se um sistema nacional de pós-graduação; expandiu-se o número de bolsas para incentivar a pesquisa e a pós-graduação; construíram-se novos campi; e aumentaram-se os laços com instituições estrangeiras.

Porém, simultaneamente à modernização, as universidades foram intensamente atingidas pela repressão. Mais de mil estudantes foram afastados, assim como aproximadamente 300 docentes, entre demitidos e aposentados compulsoriamente, além de outros – em número difícil de precisar- tiveram a contratação barrada. Ademais, uma proporção elevada dos mortos ou desaparecidos por ação das forças repressivas pertencia à comunidade acadêmica, na esmagadora maioria estudantes universitários.

Não obstante a violência, que nunca poderá ser subestimada, a ditadura adotou estratégias para suavizar suas relações com a comunidade universitária. Para além da repressão, houve também jogos de acomodação envolvendo o Estado e as elites acadêmicas. Aliás, a faceta modernizadora da ditadura tinha também motivações políticas: era uma tentativa de compensar a violência imposta a segmentos da comunidade universitária.

Tais políticas de acomodação incluíram várias iniciativas, desde o Projeto Rondon, que visava “integrar” os estudantes aos valores do regime, até a estratégia de evitar demissões ou permitir contratações de alguns docentes visados.

Por isso, nas universidades, assim como em outros meios acadêmicos e intelectuais, as atitudes diante da ditadura variaram entre adesão, resistência e acomodação. Quadro complexo, que não comporta análises simplificadoras.

É fundamental levar em conta as estratégias de acomodação, inclusive para compreender como se viabilizou a peculiar transição democrática brasileira, que logrou devolver o poder aos civis em ritmo lento, ao mesmo passo que blindou as forças repressivas contra punições.

Nos dias que correm, trata-se de superar os restos do legado autoritário e orientar a infraestrutura herdada em benefício da sociedade.

Rodrigo Patto Sá Motta, 48, é professor associado de história da Universidade Federal de Minas Gerais e autor de “As Universidades e o Regime Militar”

Fonte: Folha de S. Paulo

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Artigo de André Cabral de Souza e Luis Filipe Veilard Farias para o Jornal da Ciência

Sabemos que dados, informações e conhecimentos são importantes matérias-primas para aumentar a capacidade de inovar.

A geração do conhecimento tem como ponto de partida a informação, que depende dos dados, que por sua vez necessita do capital humano qualificado para gerá-los, interpretá-los e, finalmente, transformá-los em vantagens competitivas.

Assim sendo, a aprendizagem contínua torna-se transcendental para desenvolver a ciência e transformar os seus resultados em tecnologia e aplicá-los.

Ésenso comum que o desenvolvimento da humanidade requer mais conhecimentos científicos e tecnológicos, os quais exigem uma base sólida para a educação e os meios necessários para desenvolver pesquisas e fazer a gestão de seus resultados.

Devemos reconhecer o mérito do Programa Ciências sem Fronteiras, que concede aos estudantes brasileiros a oportunidade de absorverem conhecimentos em outros países e os trazerem e aplicarem no País. São anos ganhos em termos de investimentos na formação destes jovens.

A sociedade vive hoje um momento em que a velocidade das informações e das atividades, em qualquer setor, ocorre em um espaço mais curto de tempo – o que exige atualizações rápidas e constantes dos profissionais e dos meios físicos utilizados no desenvolvimento das atividades de produção, de ensino , de pesquisa e do próprio conhecimento.

Estas questões geram um estado de obsolescência constante de construções (devido a novos materiais e novas exigências legais, por exemplo), de equipamentos e de carreiras. Fato que leva à necessidade de tomadas de decisões dos governos e das instituições, de forma mais assertiva e com maior dinamismo.

Em alguns temas, o conhecimento foi obtido não totalmentedentro das Universidades e das Instituições de Pesquisa e sim através de parcerias com o segmento privado ou via a máquina mundial de ideias – mas precisamente a Internet. Alguns especialistas apontam temas como energias renováveis e tecnologias verdes como bons exemplos.

A concorrência de mercado e o perfil do consumidor atual mostram, claramente, que um produto fica obsoleto em pouco tempo e novas gerações do mesmo precisam ser pesquisadas. Este fato confirma a necessidade de investimentos constantes na pesquisa, na formação do conhecimento e no seu domínio e difusão.

Podemos afirmar que a C&T sempre foi e será um valioso instrumento para o desenvolvimento econômico e social. Esta aceleração do avanço científico é reconhecida por especialistas, em diversos documentos,como uma importante janela de oportunidade para o crescimento e fortalecimento dos países. Representando, contudo, uma ameaça às economias em desenvolvimento que estejam despreparadas, não só para lidar com os resultados positivos obtidos com a pesquisa, mas também para captar os seus benefícios.

Certamente, o Brasil vem buscando se enquadrar na realidade mundial. O avanço de alguns indicadores no período de 2000 a 2010 retrata esta situação, apesar do país estar, ainda, muito aquém de outras economias.

No quadro I, apontamos alguns exemplos destes avanços.

Quadro I

2000 2010 Crescimento (%)
Produção Científica 220.376 458.107 107
Patente de Invenção 17.283 30.498 76
Pesquisadores e Pessoal de apoio envolvidos em Pesquisa 231.158 469.257 103
Dispêndios em P&D 12,5 bilhões de US$ 27,6 bilhões de US$ 121


Outra característica do segmento de C&T no Brasil seria a distribuição de docentes de pós-graduação nas 09 grandes áreas de conhecimento, elencadas pelo MCTI, durante o período de 2000 a 2012.Percebe-se que Ciências da Saúde aparecem sempre na liderança, com um percentual participativo variando de 19 a 17 % em relação ao total, sendo acompanhadas das Humanas e as Exatas e da Terra.Posteriormente, temos as Sociais, as Engenharias, as Agrárias e as Biológicas e Linguística.

Cabendo, contudo, destacar o grande crescimento da categoria “multidisciplinar” , que avançou da nona posição para terceira, elevando a sua participação de 4% para 13 %. Fato que, certamente, estaria associado à relevância de temas já citados neste artigo (energias renováveis e tecnologias verdes, como exemplo) necessitando de um conjunto de especialidades para o seu desenvolvimento e, consequentemente, toda uma infraestrutura e a busca de eficiência nos processos.

É fato consumado que, nestas mudanças e avanços dos indicadores, dois elementos exerceram e exercem um papel indiscutível – o FNDCT e a FINEP. Esta afirmação estaria embasada pela participação ativa no financiamento de inúmeros projetos que desenvolveram pesquisas básicas e aplicadas e aqueles que proporcionam os meios físicos para as suas realizações e para a formação de Recursos Humanos nas mais diversas áreas de conhecimento.

Objetivando ilustrar esta afirmação, quanto a importância do FNDCT e da FINEP, podemos usar, como exemplo, informações de algumas ações no período de 2008 a 2013.

Trabalhando com dadosdas Chamadas Públicas do Proinfra, Novos Campis, Estaduais e Municipais e Comunitárias, conclui-se que foram aprovados, aproximadamente, 689 propostas com uma disponibilidade financeira de R$ 2,056 bilhões em um segmento formado por 352 Instituições[1].

Observa-se, contudo, que 628 projetos foram contratados, alcançando um valor de R$ 1,931 bilhão, dos quais 13 Universidades, de um total de 194, participam com 32 % dos recursos aplicados, com uma variação média de 2 a 3 % cada uma.Fato que demonstra uma igualdade de qualidade das propostas e, principalmente, uma liderança destas Instituições[2].

Neste estudo que estamos realizando, destacamos quea aquisição de equipamentos de pesquisa e para pesquisa[3] representou a maior parcela dos recursos investidos, tendo sido aplicados, aproximadamente, R$ 1,004 bilhão.O que, salvo melhor juízo, estaria associado diretamente ao curto espaço de tempo para que estes equipamentos tornem-se obsoletos, o que exige trocas /atualizações constantes.

Limitando-se a comentar quanto aos de médio (valor de R$ 100 a 500 mil) e grande porte (acima de R$ 500 mil), observamos que foram investidos R$ 873 milhões na compra de 2.514 equipamentos.Valendo enfatizar que 86 % do quantitativo estaria vinculados aos de origem importada e 14% aos adquiridos na rubrica dos nacionais. Esta informação, em nossa opinião, caracterizaum atraso tecnológico da indústria local, que repercute na baixa qualidade do produto, compensando, por conseguinte, suportar fatores como a burocracia do processo de importação e o risco associado à variação cambial.

Pode-se, ainda, verificar que os de médio e grande porte respondem, respectivamente, com 51,09 % e 48,91 % do valor aplicado na aquisição destes. Sendo que, com relação ao quantitativo, os percentuais percebidos são de 82,54 % e 17,46 %. Estes dados representam uma carência ainda presente nas instalações existentes, bem como nas recém-construídas, de equipamentos.

Abrindo um pouco mais a informação, percebe-se que uma parcela de 42 % destes 2.514 seria composta porequipamentos mais complexos, como: magnetômetro, sequenciador de DNA, Plataforma de processamento de Polímeros, entre outros. Equipamentos citados ou reconhecidos como de vanguarda e diretamente necessários à inovação[4] e que, nem sempre, foram adquiridos e instalados nas Universidades que formam o grupo das 13 mais participativas.

Os dados, associados aos resultados demonstrados no Quadro I, comprovam que as Universidades e as Instituições de Pesquisa estariam voltadas, não só para as pesquisas básicas e aplicadas, mas também para questões mais de ponta, não necessariamente em todas as áreas de conhecimento.

Em se tratando de Obras e Instalações, foram investidosrecursos da ordem de R$ 600.000 mil para a construção de 399.576 metros quadrados. Destacando-se 313 prédios construídos, 120 centros de estudo e 184 laboratórios. Dados que comprovam que as Universidades e as Instituições de Pesquisa necessitam, ainda, dos meios físicos para avançar na formação do conhecimento. Principalmente, quando se constata o crescimento considerável no quantitativo de grupos de pesquisa (hoje somam 27.523) e de pesquisadores (atualmente são 128.892, dos quais 81.726 com o título de doutor) [5].

No que se refere às áreas de conhecimento, trabalhando com o que se conseguiu aferir, as 6 com maiores participações seriam as ciências biológicas (15,30 %) , exatas e da terra (15,06%), da saúde (11,95 %), engenharias (11,88 %) e agrárias (11,04 %). Cabendo, contudo, enfatizar os projetos com característica multidisciplinar, que são os mais expressivos (19,70 %).

Assim sendo, podemos dizer que alguns avanços foram conseguidos. Entretanto, apesar do apoio concedido e conquistas alcançadas (que ainda são consideradas modestas), a Comunidade Científica, em alguns debates e documentos, corrobora o que foi expresso até o momento neste artigo, onde se reconhece a importância da aplicação de recursos nos projetos de pesquisa e de infraestrutura e a oportunidade de incentivar o crescimento do conhecimento.

Esta Comunidade externa a necessidade constante da aquisição de equipamentos de pequeno, médio e grande porte – não só para grupos consolidados, como para os em consolidação (por representarem a base de sustentação dos laboratórios). Os pesquisadores enfatizam, ainda, a importância de dar continuidade ao apoio à realização de novas obras e a adaptação e/ou reforma das já existentes. Sendo condição sine qua non manter todo o acervo construído, o qual permite avanços na pesquisa, na formação de capital humano e ganhos competitivos para o capital privado, que absorve os conhecimentos gerados.

Existem outros dois pontos que consolidam a importância do apoio ao conhecimento. Um seriam as questões recentes de violabilidade de dados, as quais servem como um reforço para mostrar que os investimentos em C&T não foram, ainda, suficientes para colocar o Brasil em uma situação de destaque e/ou de simples segurança, autonomia e independência. Fato que levou o Governo Federal a reconhecer a necessidade de dar continuidade na aplicação de recursos que mantenham o Brasil atualizado tecnologicamente e que permitia a realização de pesquisas e a formação/capacitação de recursos humanos.

O outro viria do Relatório da UNESCO sobre Ciência (2010), do qual podem ser extraídos importantes dados e informações como o reconhecimento de que quanto mais conhecimento uma sociedade alcançar valendo-se do método científico, mais rica ela se torna. A UNESCO aponta, ainda, que sem Instituições adequadas de educação superior em ciência e tecnologia e em pesquisa, com uma massa crítica de cientistas experientes, nenhum país pode ter assegurado um desenvolvimento real.

Finalizando, diríamos queboa parte das necessidades do Brasil em se adaptar e se fortalecer na era do conhecimento vem do trabalho que é realizado pela FINEP, juntamente com o MCTI.

Devendo destacar, ainda, que o Ministério da Educação, a CAPES, o CNPq,as Universidades e as Instituições de Pesquisa são de extrema relevância no avanço do conhecimento em C, T & I, por desempenharem importantes papéis.

Chamamos atenção, contudo, que necessário se faz conseguir fontes adicionais de financiamento à ciência, de modo a que estejamos na fronteira como uma situação de avanço científico e tecnológico e não como um País “limitado” de condições de e para o conhecimento.

Precisando definir, ainda, se os apoios deverão ser focados somente em áreas consideradas como críticas para o progresso mundial e para o Brasil ou, também, naquelas em que o País possui grandes potenciais de liderança e vantagens comparativas como recursos hídricos, biodiversidade, fontes de energia renováveis, entre outras.

Agradeço a Equipe da ACIT que, diariamente, colabora para uma melhor execução dos projetos apoiados pela FINEP nas Universidades e nas Instituições de Pesquisa, fazendo com que os processos sejam internamente realizados com uma maior eficiência. Agradeço, também, a colaboração da área de planejamento da FINEP.

André Cabral de Souza é superintendente da Área de Apoio à Ciência, Inovação, Infraestrutura e Tecnologia (ACIT) da Finep

Luis Filipe Veilard Farias é aluno de graduação de Economia da UERJ e estagiário da ACIT

[1] Estão incluídos 40 Institutos Federais, 101 Universidades, 143 Faculdades, 05 Centros Universitários e 63 Comunitárias.

[2] Em se tratando da distribuição geográfica destas Instituições, 17,09 % das mesmas estariam localizadas no Sudeste; 10,30 % no Sul; 2,18 % no Centro Oeste e 2,01 % no Nordeste.
[3] Aqui estariam incluídos os de pequeno , médio e de grande porte. Com relação aos de pequeno porte, foram adquiridos 4.621 equipamentos (valor limite R$ 100 mil), sendo 3.572 com valores até R$ 50 mil e 1.049 com valores acima. Citamos como exemploautoclaves, microscópios, estações meteorológicas, analisadores de carbono, entre outros.

[4] Sequencialmente aparecem sistemas, com 22%; analisadores (7,6 %); espectrômetros (7,1 %) emicroscópios com 6,9 %.

[5] Informações extraídas da página do MCTI em 03/2014

Fonte: Jornal da Ciência

**Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

O físico Adilson de Oliveira fala, em sua coluna deste mês, sobre a importância da transmissão do conhecimento na sociedade

A linguagem é uma das maiores criações da humanidade. O fato de podermos nos expressar e transmitir nossos pensamentos, temores e ideias é sem dúvida um dos principais motores para o desenvolvimento da nossa civilização.

Nas eras mais primitivas da humanidade, as situações do cotidiano (caçadas, colheitas etc) e os eventos astronômicos (como eclipses e estrelas cadentes), por exemplo, eram registrados em cavernas na forma de pinturas rupestres. Era uma maneira de deixar gravados fatos importantes para que outras pessoas pudessem conhecê-los. A tradição oral, ou seja, a preservação de histórias, lendas, usos e costumes por meio da fala, também era uma forma de passar conhecimentos.

Com a invenção da escrita, por volta do ano 4.000 a.C. na Mesopotâmia, região onde atualmente se encontra o Iraque, os saberes puderam ser mais bem registrados. O advento da imprensa no século 15 fez aumentar a produção de livros, o que levou à popularização de várias obras e à maior disseminação do conhecimento.

Nessa mesma época, apareceram também os jornais, veiculando notícias periodicamente. A fotografia e o cinema surgiram no século 19 como novas formas de nos expressarmos e comunicarmos.

Finalmente, com a invenção do rádio e da televisão, no começo do século 20, e com a criação da internet, nos anos 1980, o conhecimento assumiu um papel central na nossa sociedade. Nunca antes ele esteve tão acessível.

Contudo, comunicar e ser entendido nem sempre é fácil. A linguagem a ser utilizada para cada público ou audiência deve ser diferenciada. Em particular, falar sobre ciência, principalmente para um público que não é da área científica, é um empreendimento maior ainda. Além de ser necessário muitas vezes transmitir ideias complexas, nem sempre as pessoas entendem como a própria ciência funciona.

Recriação do conhecimento
Para falar sobre ciência para o público em geral, é preciso também recriar o conhecimento, pois, quando este é formatado dentro de determinada área, utiliza-se uma linguagem própria. Por exemplo, a física usa a matemática para expressar seus conceitos. Dependendo do ramo da física, essa matemática pode ser tão complexa que apenas os especialistas que trabalham com o tema são capazes de entender.

Uma das áreas da física em que talvez seja mais difícil fazer essa recriação do conhecimento é a física quântica, que começou a ser elaborada no início do século 20 por físicos como Albert Einstein, Neils Bohr, Werner Heisenberg, Erwin Schrödinger, entre outros. A física quântica foi uma revolução científica, no sentido de que nossa visão da natureza teve que ser completamente reformulada para compreendermos os fenômenos que ocorrem na escala atômica.

Na física quântica, não somente foram criados novos conceitos, mas também foi preciso introduzir ferramentas matemáticas até então não usadas pelos físicos. Conceitos como a dualidade onda-partícula, incertezas nos valores das grandezas físicas, tunelamento quântico, emaranhado quântico, entre outros, são alguns de difícil compreensão até os dias de hoje. Equações diferenciais, matrizes e vetores de muitas dimensões, funções de ondas, ‘bras’ e ‘kets’ (usados para representar os estados quânticos) são algumas das ferramentas matemáticas empregadas na física quântica.

Essa teoria física não apenas nos levou a compreender novos fenômenos, mas também nos permitiu aplicá-los de inúmeras maneiras. Os dispositivos eletrônicos, indispensáveis no nosso cotidiano, são construídos com base em fenômenos quânticos, como o efeito transistor, que possibilitou o desenvolvimento de dispositivo de mesmo nome, e a magnetorresistência gigante, responsável pela leitura de informações nos discos rígidos dos computadores.

Mas como então falar de algo tão complexo, e ao mesmo tempo tão presente no nosso cotidiano?

Aliadas da divulgação
Entre as alternativas que normalmente uso, estão a analogia e a metáfora, ou seja, o emprego de palavras ou expressões em sentido literal ou figurado que resulta em comparação explícita ou implícita. Mas é preciso ressaltar que toda comparação tem um limite de validade.

Para exemplificar essa estratégia, podemos usar uma explicação do conceito de dualidade onda-partícula, introduzido pela física quântica. Existem determinados experimentos nos quais um elétron, partícula fundamental com carga elétrica negativa, se comporta como se fosse uma onda.

Nos antigos televisores de tubo (atualmente eles são feitos de cristal líquido, plasma ou LED), um filamento emitia elétrons e estes eram acelerados por um campo elétrico até atingirem a tela da TV. Nessa situação, os elétrons se comportam como pequenas esferas carregadas individuais (eis uma analogia), atingindo diferentes pontos da tela com intensidades variadas para produzir a imagem.

Por meio da interação com os leitores, tenho a esperança de aproximar cada vez mais a ciência do público, para que ela seja apreciada como parte da nossa cultura
Por outro lado, nos chamados microscópios eletrônicos usados para produzir imagens com grande aumento (de até cerca de 100 mil vezes), os elétrons são também emitidos por um filamento, mas, ao se chocarem com a superfície dos materiais, eles se comportam como uma onda. De fato, nessa situação, os elétrons ‘iluminam’ (eis uma metáfora) a superfície do material, permitindo a formação de uma imagem.

Portanto, na física quântica, o elétron pode ser uma onda ou uma partícula, dependendo da forma como está agindo. Na verdade, ele não é uma coisa nem outra, mas apenas podemos imaginá-lo se ora o considerarmos onda, ora partícula.

Explicar a ciência para o grande público é um grande desafio, mas é também uma tarefa de grande prazer. Cada vez que eu recebo uma mensagem de algum leitor desta coluna dizendo que aprendeu um novo conceito, ou começou a apreciar a física, a astronomia, a química, entre outras áreas, eu sempre me emociono. Por meio dessa interação, tenho a esperança de aproximar cada vez mais a ciência do público, para que ela seja apreciada como parte da nossa cultura.

Afinal, perceber que é possível compartilhar com as outras pessoas conhecimentos que me fascinam e também estimulá-las a refletir sobre eles não tem preço. Essa sem dúvida é a maior recompensa que eu recebo por fazer esta coluna mensalmente.

Adilson de Oliveira
Departamento de Física
Universidade Federal de São Carlos

Fonte: Ciência Hoje

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Artigo por Rogerio Meneghini

Ele faz uma analise sobre o programa Ciência sem Fronteiras

O Brasil tem tido uma posição sofrível nos recentes rankings mundiais de universidades. Quando indagados, os gestores das classificações apontam como principal causa a fraca interação internacional de nossos cientistas.

Embora existam outros fatores, este é apontando há tempos e que agora o governo procura atacar com o programa Ciência sem Fronteiras (CSF), sob a alçada do CNPq e Capes, órgãos do Ministério de Ciência e Tecnologia e Ministério da Educação, respectivamente.

O programa prevê 101 mil bolsas de estudos no exterior no período de 2012-2015. Até fevereiro de 2014, haviam sido concedidas 49.067 bolsas. Entre as várias categorias de bolsas, a grande maioria, 81%, é do tipo “sanduíche graduação”, em que alunos são selecionados para permanecerem de 12 a 18 meses em universidades estrangeiras. Durante a permanência, eles devem cumprir disciplinas de graduação relacionadas com seus cursos no Brasil e ganhar domínio de uma segunda língua.

Segundo dados da Unesco, em 2011 o total de alunos de graduação no exterior era de 3,8 milhões, e o Brasil alcançava apenas 0,8% deste total. Com o CSF/graduação, esse valor aumentará significativamente. Ainda assim, o privilégio de obter uma bolsa caberá a uma proporção muito baixa do alunato brasileiro de graduação. Porém, é incontestável que os contemplados constituem uma semente importante para uma mudança cultural e profissional, pela aquisição de uma visão mais cosmopolita, significativa para um país geograficamente isolado das nações mais avançadas.

Porém, é incorreta a ideia de que essas bolsas de graduação são um passo importante para a internacionalização de nossa ciência. Em primeiro lugar, é altamente improvável que, frente aos vários desafios a serem enfrentados pelos jovens, como aprendizagem de uma nova língua e de novas disciplinas, haja tempo para uma iniciação científica, que consiste de um trabalho científico efetuado sob a direção de um docente da instituição. Talvez por isso ela não seja exigida pelo CSF/graduação. Em segundo lugar, não há uma razão especial para se esperar que esses bolsistas tenham interesse superior aos dos demais concluintes da graduação em se tornar cientistas, algo em torno de 1%.

Portanto, não se trata de um caminho para internacionalizar a ciência brasileira. Não é claro por que o programa ficou da alçada do CNPq e Capes, duas instituições com técnicos e infraestrutura voltados para o progresso da ciência brasileira.

Há vários estudos mostrando que os programas de doutorado e pós-doutorado no exterior são, estes sim, de extraordinária importância para o avanço de nossa ciência. Em um recente levantamento de dados verificamos que, entre os 241 pesquisadores brasileiros mais destacados em biologia, química e física, segundo a Plataforma Lattes do CNPq, 213 fizeram doutorado ou pós-doutorado no exterior. Certamente, esses programas deveriam ser contemplados prioritariamente quando se visa uma maior internacionalização da ciência brasileira. Todavia, tal iniciativa não deveria prejudicar o CSF/graduação, cuja supervisão deveria caber ao Ministério da Educação.

Rogerio Meneghini, 73, é professor titular aposentado de bioquímica da Universidade de São Paulo e diretor científico do programa SciELO de revistas científicas brasileiras.

Fonte: Folha de S. Paulo

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Por Jouhanna Menegaz, representante da ANPG no Conselho Superior da Capes.
Abaixo ela faz um relato da sua participação nesse importante espaço institucional nos últimos dois anos

A atuação da ANPG no Conselho Superior da CAPES sempre foi na direção de apresentar a pauta política da entidade e reafirmar bandeiras em momentos necessários, bem como de possibilitar que demandas dos estudantes chegassem a agência ou fossem resolvidas com maior celeridade, visto que, todos os diretores da CAPES participam do conselho.

Exemplo destas práticas foram nosso pedido de esclarecimento e ação na primeira reunião de 2013 acerca da segunda parcela do reajuste de bolsas prometido no congresso de São Paulo que elegeu esta gestão, as constantes falas em defesa da assistência estudantil para pós-graduação e a fala da última reunião realizada em março de 2014 onde, frente a apresentação do balanço da CAPES, onde apresentou-se o dado de que 78% do orçamento é direcionado as bolsas e que isso era muito significativo, apresentamos que foi bom o orçamento da CAPES aumentar, mas que o do MCTI não acompanhar esse crescimento deixava a CeT debilitada e, portanto, esse fato devia ser uma preocupação também da CAPES, pois, o financiamento geral da CeT está sendo estrangulado; que ainda que se gaste muito com bolsa no contexto geral, isso ainda é pouco, pois, frente ao comemorado crescimento, os programas não chegam nem perto de atender a demanda que tem e que o valor é insuficiente e que cada vez vai ser mais insuficiente, considerando a mudança de perfil do estudante estimulada pelas políticas de cota; que ainda que a internacionalização seja relevante, é preciso ter cuidado para que o CSF não engula o PDSE, pois tem havido uma clara diferenciação de oferta e orçamento pras áreas contempladas em um e em outro e nossas intervenções caso a caso em defesa de estudantes cujas bolsas estavam em atraso no início da implantação do Programa Ciências sem Fronteiras.

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.