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Apesar dos avanços, o desempenho inovador das empresas brasileiras ainda é baixo

O ambiente brasileiro para iniciativas inovadoras melhorou nos últimos dez anos, do ponto de vista de alguns indicadores. As empresas, por exemplo, têm nas universidades e institutos de pesquisas parceiros importantes para a implementação de novos projetos.

Em São Paulo, cerca de 6% dos recursos que as três universidades públicas estaduais – Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade de São Paulo (USP) – dedicam à pesquisa têm origem em contratos com o setor privado.

Nos Estados Unidos, a média de participação de recursos de empresas no total de investimentos em pesquisa de grandes universidades é de 6%. Comparadas com as universidades dos EUA, as três universidades paulistas estariam entre as 20 que mais recursos recebem de empresas para apoio à pesquisa. Os gastos públicos e privados com pesquisa e desenvolvimento (P&D) em São Paulo somam, atualmente, 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, percentual superior ao de Espanha, Itália ou Chile.

Apesar dos avanços, o desempenho inovador das empresas brasileiras ainda é baixo, com taxa de inovação de 35,7% – de acordo com a Pesquisa de Inovação (Pintec) 2011 -, percentual que, por fatores conjunturais, foi até inferior aos resultados da Pintec 2008, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou taxa de inovação de 38%.

Um grande desafio é a criação de ideias patenteáveis nas empresas, quesito no qual a indústria no Brasil e em São Paulo também mostra pouca competitividade. Em São Paulo, mesmo com o grande dispêndio em P&D feito por empresas, para cada mil pesquisadores empregados por empresas geram-se apenas cinco patentes registradas no país (Inpi), proporção que cai para 1,9 quando se contam as patentes no United StatesPatentandTrademark Office (USPTO).

No Reino Unido o mesmo número de pesquisadores em empresas gera 29 patentes nacionais e 36 no USPTO; na Coreia do Sul, cada grupo de mil pesquisadores de empresas gera 333 patentes no país para seus empregadores e 41 nos Estados Unidos; enquanto na Espanha mil pesquisadores empregados por empresas criam 47 patentes no país e 7 no USPTO.

Os entraves para a inovação foram pauta do encontro Inovar na Inovação, organizado pela FAPESP com o apoio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), que reuniu representantes de empresas, universidades, institutos de pesquisas e do governo do Estado de São Paulo em 31 de março, na sede da Fundação.

“Ainda estamos longe de poder transformar o conhecimento científico em melhor qualidade de vida para a população: faltam políticas públicas para isso”, constatou Eduardo Moacyr Krieger, vice-presidente do Conselho Superior da FAPESP.

O Brasil ainda carece de políticas públicas alinhadas a paradigmas da economia do conhecimento, avaliou Rodrigo da Rocha Loures, presidente do Conselho de Inovação e Competitividade da Fiesp, durante o encontro. “É preciso construir ambiente de confiança e de colaboração para romper estratégias da velha economia”, disse.

Modelos colaborativos, que promovam o empreendedorismo inovador, devem fazer parte da agenda das universidades, das empresas e do governo, sublinhou José Arana Varela, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP.

Novos modelos de inovação
Os modelos de inovação inspiram-se, em sua grande maioria, em imagens matemáticas – modelos lineares, poligonais, de redes colaborativas e de concentrações – ou biológicas, como o da hélice tríplice, entre outros. “Em que pesem os avanços com o uso desses modelos, questiona-se a efetividade real dos mecanismos existentes e dos recursos aplicados para fazer da inovação um eixo estruturante do desenvolvimento econômico e social”, afirmou Ary Plonski, da Faculdade de Economia da USP.

“Há novas ideias-força em gestação”, sublinhou na palestra sobre Ecossistemas de Inovação. Uma delas é a de ecossistemas de inovação, que descreve a articulação “virtuosa” do amplo conjunto de atores e de recursos necessários para a implementação da inovação, envolvendo empreendedores, investidores, pesquisadores, universidades, investimento de riscos, assim como negócios e serviços relacionados a design, capacitação de pessoal, entre outros.

O exemplo mais conhecido de um ecossistema de inovação bem-sucedido é o Vale do Silício, na região de São Francisco, nos Estados Unidos, que reúne em uma mesma região condições para questartups e empresas de base tecnológica, fabricantes, principalmente, de circuitos eletrônicos, eletrônica e informática, cresçam com base em forte articulação, conectividade e cooperação entre atores.

A medicina também empresta modelo para a consolidação de ambientes inovadores. “A pesquisa translacional, instrumento originalmente utilizado em pesquisa médica, altera a velocidade entre a descoberta e a aplicação. Trata-se de uma forma de acelerar a eficiência de um processo, contribuindo para ampliar as experiências, a compreensão de doenças epidemiológicas e dos mecanismos básicos de doenças”, disse José Eduardo Krieger, presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo e pró-reitor de pesquisa da USP, na palestra sobre Pesquisa Translacional.

Nos últimos anos, a compreensão dos mecanismos básicos de doenças tem ganhado proeminência. Tanto que, atualmente, o medicamento mais vendido em todo o mundo está voltado ao combate do colesterol elevado – principal responsável por doenças circulatórias. “Nos últimos anos, a eficiência da pesquisa translacional cresceu e está chegando aos consumidores.” Demanda, porém, um ecossistema de conhecimento.

(Claudia Izique/Agência FAPESP)

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

Originalmente publicado em Agência FAPESP.

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

 

Educadora discute por que a curiosidade e o interesse por temas científicos diminuem à medida que avança a vida escolar. E aponta, como um dos itens responsáveis, a incapacidade dos adultos de lidar de forma salutar com o questionamento.

Publicado em 27/03/2014 | Atualizado em 27/03/2014

Por: Vera Rita da Costa

Como dizia Carl Sagan, pode haver questões ingênuas, enfadonhas, mal formuladas, mas não há perguntas imbecis: toda pergunta é um grito para compreender o mundo. (foto: Chris Baker/ Sxc.hu)
Como dizia Carl Sagan, pode haver questões ingênuas, enfadonhas, mal formuladas, mas não há perguntas imbecis: toda pergunta é um grito para compreender o mundo. (foto: Chris Baker/ Sxc.hu)

É praticamente uma ideia de senso comum que as crianças são ‘cientistas inatos’. Elas são curiosas, observadoras, perguntadoras e experimentadoras ativas. Qualquer pai ou professor sabe disso. Mas também é notável e reconhecido por muitos o declínio da curiosidade e do interesse pela ciência que vai marcando o passar dos anos na escola.

Conforme os estudantes avançam na escolarização, a curiosidade e o interesse pelas coisas e fenômenos do mundo declinam acentuadamente, de tal maneira que, para desespero dos professores de ciências, parece ser possível traçar uma curva descendente que representa a perda do status das disciplinas científicas ao longo dos anos escolares – uma curva que parte da curiosidade extrema da criança da educação infantil, aos 4 e 5 anos, e chega ao tédio e à indiferença, praticamente absolutos, dos adolescentes do ensino médio.

Há, certamente, muitas explicações possíveis para isso e nenhuma delas, por si só, parece dar conta de um processo tão complexo. Isso não invalida, no entanto, refletir sobre elas, sobretudo se formos professores e quisermos interferir nesse declínio do interesse. Também, se formos pais, pois, embora nem sempre se discuta isso, a ciência (ou a forma de pensar da ciência) é conteúdo indispensável para o desenvolvimento da criticidade e da autonomia.

Não faria mal, portanto, se nossos filhos adquirissem um pouco mais de conhecimento científico e, com ele, um pouco mais desses ingredientes, não é mesmo?

Como praticamente tudo em educação (e em termos de comportamento humano), as explicações para o declínio do interesse e da curiosidade pelo mundo ou pela ciência se dividem em dois grupos: há aqueles que consideram ser esse processo motivado por causas biológicas e há os que veem as causas culturais como suas motivadoras. Existe ainda uma terceira possível visão do assunto: a que considera ambos os fatores – biológicos e culturais – como integrados e, portanto, como necessários para explicar o desinteresse gradativo do jovem pelo mundo que o cerca.

Um dos argumentos que sustentam a visão biológica é o fato de a atividade científica envolver muitas habilidades relacionadas à exploração ativa e à obtenção de conhecimentos sobre o mundo (como a observação, o questionamento, a coleta, a classificação e a experimentação), e de essas habilidades serem vantajosas, do ponto de vista da sobrevivência.

Como tivemos oportunidade de discutir em outro artigo, o brincar é uma das marcas registradas da infância. Por meio das brincadeiras, a criança explora o entorno (físico e social) e aprende, imitando e antecipando situações que serão vividas de forma real mais adiante em sua vida de jovem e adulto. É interessante, portanto, que na infância as pessoas ajam como ‘pequenos cientistas’, explorando ativamente o mundo em que se encontram. Também é interessante que se perguntem sobre ele, buscando com aqueles que consideram mais experientes (os adultos) respostas para o que lhes inquieta.

Porquês necessários
Ou seja, sob o ponto de vista biológico, mesmo aquele perguntar inesgotável que caracteriza a ‘fase dos porquês’ na infância teria uma função importante: adquirir rapidamente informações sobre o mundo, colocando em ação um conjunto valioso de habilidades relacionadas à curiosidade. Entre essas habilidades estão a capacidade de se admirar com o que se encontra no mundo, de se autoquestionar sobre o que é descoberto e buscar ativamente informações a respeito. Habilidades que, como se percebe, são imprescindíveis na ciência.

Ao imaginar, a criança ensaia suas primeiras hipóteses, da mesma forma que, quando experimenta algo novo, testa seus primeiros ‘experimentos’ para comprová-las. O mesmo acontece com suas perguntas: ao fazê-las, ela exercita uma de nossas habilidades mais primorosas – a capacidade de buscar ativamente informações sobre o mundo e registrá-las como aprendizados valiosos.

Mas é aqui justamente que os argumentos biológicos começam a se entrelaçar com os culturais. O que acontece com essas habilidades ao longo da vida? Será que pura e simplesmente elas declinam e desaparecem? Ou começam a ser minadas em nosso processo de socialização e, principalmente, de escolarização?

No que diz respeito à capacidade de perguntar, por exemplo, o que fazem os professores e os pais, assim como outros adultos, diante dos questionamentos insistentes das crianças? Como agem diante desse impulso natural e valioso que envolve o querer saber mais sobre o mundo em que se encontram?

De forma geral, os adultos ficam desconcertados diante das perguntas das crianças, desviam-se delas ou oferecem repostas prontas e banais. Isso, quando não se irritam ou zombam das questões dos pequenos.

Leia a entrevista na íntegra aqui!

Fonte: Ciência Hoje

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Por Joseph E. Stiglitz*

Em todo o mundo, há enorme entusiasmo pelo tipo de inovação tecnológica simbolizada pelo Vale do Silício. A engenhosidade dos EUA representa sua verdadeira vantagem comparativa, que outros lutam para imitar. Mas há um quebra-cabeça: é difícil detectar os benefícios dessas inovações nas estatísticas do PIB.

O que acontece hoje é análogo ao que ocorreu há algumas décadas, no início da era dos computadores pessoais. Em 1987, o economista Robert Solow – Prêmio Nobel por seu trabalho pioneiro sobre o crescimento – lamentou que “você pode ver a era do computador em todo lugar, menos nas estatísticas de produtividade”. Há várias explicações possíveis para isso. Talvez o PIB não capture a melhora no padrão de vida que a inovação tecnológica está engendrando. Ou talvez essa inovação seja menos significativa do que seus entusiastas acreditam.

Recorde como há alguns anos, logo antes do colapso do Lehman Brothers, o setor financeiro se orgulhava de sua capacidade de inovação. Dado que as instituições financeiras atraíam os melhores e mais brilhantes de todo o mundo, não se podia esperar menos. Mas, após inspeção detalhada, tornou-se claro que a maior parte da inovação envolvia criar meios mais eficazes de enganar os outros, manipular os mercados sem ser apanhado (pelo menos por um longo tempo) e explorar o poder desses mercados.

Nesse período, quando os recursos fluíam para este “inovativo” setor, o crescimento do PIB foi marcadamente menor do que antes. Mesmo nos melhores anos, não levou a uma elevação dos padrões de vida (exceto para os banqueiros), e acabou numa crise da qual só agora estamos nos recuperando. A contribuição social líquida de toda essa “inovação” foi negativa.

De forma similar, a bolha das ponto.com que precedeu aquele período foi marcada pela inovação – sites na internet pelos quais se podia encomendar on-line comida para cachorro ou refrigerantes. Pelo menos, esta era deixou um legado de ferramentas de busca eficientes e estrutura de fibra ótica. Mas não é algo simples calcular como a economia de tempo proporcionada pelas compras via internet, ou a redução de custo que poderia resultar do aumento da competição (devido à facilidade de comparação de preços on-line), afeta nosso padrão de vida.

Duas coisas devem ficar claras. A primeira: a lucratividade de uma inovação pode não ser uma boa medida de sua contribuição para nosso padrão de vida. Em nossa economia tipo “o vencedor leva tudo”, um inovador que criar um site melhor para compras on-line e entrega de comida de cachorro pode atrair todos os que usam a internet para comprar esse produto, obtendo enormes lucros. Mas, sem o serviço de entrega, grande parte dos lucros simplesmente iria para outras pessoas. A contribuição para o crescimento econômico dos sites na web pode ser de fato relativamente pequena.

Além disso, se uma inovação, como os caixas automáticos de bancos, eleva o desemprego, nada relativo ao custo social – nem o sofrimento dos que são demitidos nem o aumento do custo fiscal para pagar-lhes seguro-desemprego – se reflete na lucratividade da companhia. Da mesma forma, nossa métrica do PIB não reflete o custo do crescimento da insegurança para os que temem a perda do emprego. Igualmente importante, ela não reflete acuradamente a melhora do bem-estar resultante da inovação.

Num mundo mais simples, em que a inovação simplesmente significa baixar o custo de produção de, por exemplo, um automóvel, era fácil calcular o valor de uma inovação. Mas quando a inovação afeta a qualidade de um automóvel, a tarefa é muito mais difícil. E isto é ainda mais aparente em outras áreas: como avaliar com eficácia o fato de que, devido ao progresso da medicina, o sucesso da cirurgia cardíaca é muito maior hoje do que no passado, resultando em significativo aumento na expectativa e na qualidade de vida?

Ainda assim, não se consegue evitar a desagradável sensação de que a contribuição das recentes inovações tecnológicas na melhora dos padrões de vida pode ser bem menor do que apregoam os entusiastas. Um grande esforço intelectual tem sido devotado a maximizar os orçamentos de propaganda e marketing – enfocando consumidores, especialmente os afluentes, que podem realmente comprar o produto. Mas os padrões de vida poderiam ter subido ainda mais se todo esse talento inovador tivesse sido alocado para pesquisa mais fundamental – ou mesmo para pesquisas aplicadas que poderiam ter levado a novos produtos.

Sim, estar mais bem conectado aos outros, via Facebook ou Twitter, tem seu valor. Mas como comparar essas inovações com o laser, o transistor, o mapeamento do genoma humano? Cada um deles levou a uma enxurrada de produtos inovadores.

*Artigo do economista Joseph E. Stiglitz publicado em O Globo. 
Fonte: Jornal da Ciência
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A lógica produtivista e a avaliação quantitativa na pós-graduação em saúde: um olhar sobre os efeitos danosos na formação profissional

 

Artigo com contribuições ao debate da formação na pós-graduação em saúde, publicado nos Cadernos de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz).
 
Por David Soeiro Barbosa
 
Camargo Jr. 1 é muito feliz em colocar este debate em pauta, que já se fazia de forma ocasional entre os mais distintos espaços de produção acadêmica de saúde coletiva do país. Digo isso, pois é evidente um descontentamento de muitos pesquisadores com as metodologias atuais de avaliação da produção científica e dos programas de pós-graduação, porém, apesar dos avanços e (re)adequação de indicadores ainda são tímidos o contraponto e a busca de estratégias de fato inovadoras neste processo. As alternativas que são apresentadas não ecoam ou ganham forma, pois evidentemente existem justificativas para cada indicador adotado nas avaliações, que apesar de restritos aos indicadores bibliométricos, são discutidos e propostos por nossos mais distintos pares inseridos no universo da produção intelectual em saúde coletiva. Não há que se desconsiderar o bom e árduo trabalho desses atores no processo.
 
É importante destacar o que foi pontuado por Souza 2 (p. 1718): “a comunidade científica tem tido a possibilidade de definir ela própria os mecanismos de avaliação a que se aceita a ser submetida, ainda que não possa simplesmente se recusar a se autoavaliar“. Luz 3 destaca os efeitos danosos que a política de avaliação quantitativa pode gerar, na qual inclui a competitividade entre indivíduos e instituições, além de ser um dificultador para uma produção mais criativa e inovadora.
 
Revisitar o processo de avaliação dos pesquisadores e dos cursos deveria permitir repensar do processo de identificação de fragilidades da produção intelectual em saúde coletiva, da avaliação dos cursos e dos pesquisadores deste campo. Nesse sentido, acredito que a proposta de Camargo Jr. 1 de se posicionar a favor de uma ruptura com o ranqueamento que considera somente indicadores quantitativos de produção é bastante válida, trazendo à tona o debate quantitativo versus o qualitativo na avaliação, com uma tendência que a academia tem em dicotomizar estas diferentes abordagens tal qual no método da pesquisa científica, superado no fato de que podem ser complementares nos mais diferentes contextos. Uma “falsa polêmica” posteriormente retratada pelo autor 4. Como colocado por Struchiner 5 (p. 1717): “… não podemos abrir mão de nenhuma fonte de informação. Se utilizadas separadamente, essas avaliações serão ilusórias“.
 
Essa lógica produtivista também cerceia e enfraquece o debate do campo da saúde coletiva no momento da formação na pós-graduação, quando não é mais prioridade situar e problematizar as diferentes áreas e o campo de atuação do profissional de saúde coletiva no seu momento de formação. Nosso debate de sociedade e dimensão política das necessidades de saúde enfraquece junto com a fragmentação e compartimentalização das áreas, onde pesquisar o detalhe, o específico é prioritário e considerado suficiente. Como investigar as árvores sem perder de vista a floresta (que em alguns contextos, está em chamas)? Como preparar um indivíduo comprometido com as necessidades da sociedade brasileira e do SUS a fazer as perguntas que devem ser respondidas?
 
Da mesma forma, é escasso o incentivo para o “pensar pedagógico” na formação de mestres e doutores. A formação de docentes/educadores encontra-se fragilizada por esse contexto que não contribui para a politização e visão crítica sobre o ato de educar. Assim é necessário revisitarmos a Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional 6 que trata, em seu Art. 66, do tema: “a preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pós-graduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado“. Tal fato não tem ocorrido de forma consistente e ampliada, assim reproduzimos a lógica do “ensinando se aprende”, porém sem teorizar criticamente este processo, gerando um ciclo vicioso em que a prática e a leitura de bases pedagógicas não são importantes.
 
Por fim, parabenizo a disponibilidade para análise crítica tão pertinente de todos os nossos mestres que contribuíram neste debate, resultado de um amadurecimento científico nos últimos anos do campo em relação ao tema, e que demonstra a permeabilidade/mobilidade do movimento de saúde coletiva que continua vivo e disposto ao debate. Aproveito ainda para fazer uma chamada aos pós-graduandos para um envolvimento maior nos processos e espaços decisórios sobre os rumos da pós-graduação em saúde. Certamente ampliaremos a sensibilidade e incorporaremos novos olhares no debate, contribuindo para a valorização de indicadores de excelência educacional junto aos de pesquisa, nas múltiplas facetas que incorrem nos processos avaliativos neste campo de saberes em nosso país.
 
Agradecimentos
 
Agradeço à Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG) e as contribuições de Adriana Aguiar, Mauro Marzochi, Lúcia Guerra, Mariana Bertol Leal e Pedro Felipe Santos.
1. Camargo Jr. KR. Produção científica: avaliação da qualidade ou ficção contábil? Cad Saúde Pública 2013;29:1707-11.         [ Links ]
2. Souza LEPF. O desafio da avaliação da produção científica. Cad Saúde Pública 2013;29:1717-9.         [ Links ]
3. Luz MT. Prometeu acorrentado: análise sociológica da categoria produtividade e as condições atuais da vida acadêmica. Physis (Rio J.) 2005;15:39-57. [ Links ]
4. Camargo Jr. KR. Sigamos em frente? Cad Saúde Pública 2013;29:1727-30. [ Links ]
5. Struchiner CJ. Avaliação da qualidade da produção científica e suas consequências imprevistas e indesejadas: um conceito autoevidente? Cad Saúde Pública 2013;29:1716-7. [ Links ]
6. Brasil. Lei no 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União 1996; 23 dez. [ Links ]
 
 

 

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Por Vanderlan da S. Bolzani*
 
(artigo originalmente publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 12/02/2014)
 
Este ano, a Lei de Inovação Tecnológica completa 10 anos, e uma celebração nacional deveria apontar para uma reflexão sobre o que representou neste tempo para a melhoria das relações universidade/institutos de pesquisa/empresas.Os BRICs, nome dado pelo economista britânico Jim O’Neill em 2001 para as economias emergentes como Brasil, Rússia, Índia, China e da África do Sul, incorporada em 2010, são um bom exemplo da velocidade que as economias globais estão ditando as tendências deste século. Elas são tão voláteis que, com a crise econômica mundial que se arrasta e a recente desaceleração econômica dos BRICs, acredita-se que países como México, Indonésia, Nigéria e Turquia poderão se tornar economias fortes nas próximas décadas, sendo já citados como os MINTs.
 
Neste cenário novo cheio de desafios, é imperativo o papel das universidades para todos os países e principalmente para os emergentes e emergidos. Ao longo do tempo a missão da Universidade evoluiu de um foco centrado no ensino com o surgimento da Universidade no Século XI, para um foco no ensino e pesquisa desde o Século XIX, para um foco na participação direta no processo de desenvolvimento econômico, social e cultural.
 
O desafio principal das instituições de ensino e pesquisa nesta nova ordem econômica e social vem por conta da necessidade de um desenvolvimento mundial sustentável, capaz de suprir as necessidades da vida moderna e garantir o das futuras gerações. A sobrevivência da humanidade está proporcionalmente associada ao avanço do conhecimento e de como esse saber pode impulsionar a competitividade, tornando-se um instrumento robusto de riqueza e poder das nações. Nesta ótica, a informação e o conhecimento passam a alicerçar todo o capital, inclusive no campo das finanças, exigindo alterações no modo de gestão e de criação do trabalho intelectual e científico o que se caracteriza hoje a “sociedade do conhecimento”.
 
Sem conhecimento e sem ciência, tecnologia e inovação, não é possível sustentar os bilhões de seres humanos com os limitados recursos do globo terrestre, ou administrar e prover de serviços essenciais uma sociedade urbana, cada dia mais populosa. Em países como o Brasil, as universidades com produção de conhecimento de reconhecida excelência e de impacto poderão contribuir de forma marcante para a solução de problemas de ordem tecnológica no setor empresarial e/ou de políticas públicas.
 
A Lei de Inovação Tecnológica criada em 2004 e regulamentada em 2005, normatizou uma resolução para proteger o conhecimento gerado pelas pesquisas nas universidades federais, estaduais e municipais e institutos de pesquisas, bem como a criação de empresas de base tecnológica por pesquisadores e alunos e do uso dos laboratórios e demais recursos de infraestrutura por parceiros empresariais. Estas atividades embora já desempenhadas há algum tempo por algumas instituições não se constituíam como prática formal das universidades e sua gestão era, em alguns casos, desempenhada pelas fundações de apoio à pesquisa sem regulamentação oficial. A Lei também instituiu a criação dos Núcleos de Inovação Tecnológica – NIT’s e a obrigatoriedade de planos de políticas de inovação.Um dos desafios dos NITs no país e especialmente da Agência Unesp de Inovação (AUIN), que completa 5 anos em 2014, é desenvolver a cultura de inovação no meio universitário e criar mecanismos ágeis para levar as pesquisas da academia para dentro das empresas, transformando-as em verdadeiros motores da inovação tecnológica no país.
 
*Vanderlan da S. Bolzani é professora titular do Instituto de Química da Unesp de Araraquara e diretora da Agência Unesp de Inovação (AUIN).
 
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