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A Associação Nacional de Pós-graduandos, entidade representativa de todos os pós-graduandos no Brasil, fundada em 1986, vem a público expressar sua preocupação e seu posicionamento em relação à conjuntura eleitoral desenhada no segundo turno das eleições presidenciais neste ano de 2014.

Partimos da compreensão de que o futuro do país está em jogo e que há dois projetos distintos claramente apresentados: o primeiro é representado pela candidata à reeleição, presidenta Dilma Rousseff, enquanto o segundo é representado por Aécio Neves, senador mineiro. Diante dessa conjuntura, acreditamos ser necessário tomar lado e disputar os rumos do desenvolvimento de nosso país. Afinal, o resultado do segundo turno não é indiferente à vida de nenhum de nós.

À vista de tal polarização, que não se resume a partidos e sim a projetos e modos de governo, posicionamo-nos em apoio à candidatura de Dilma Rousseff, pois compreendemos que o Brasil tem avançado e se transformado nos últimos 12 anos. As desigualdades sociais e econômicas têm se reduzido e houve uma forte expansão do acesso à educação em nosso país, sobretudo com o expressivo crescimento das vagas no ensino técnico e nas universidades, tanto na graduação como na pós-graduação. Amostra da consequência destas políticas é esta ser a primeira eleição brasileira em que o número de eleitores com ensino superior é maior do que o número de eleitores analfabetos e com o Brasil fora do mapa mundial da fome. É importante destacar que há uma mudança no papel do Estado, agora assumindo uma posição de indutor do desenvolvimento.

Hoje somos mais de 200 mil estudantes de mestrado e doutorado (sendo 84% matriculados em instituições públicas de ensino), mais de 12 mil residentes em saúde e medicina e mais de 3 milhões de especializandos em todo o país.

Vimos, nos últimos 12 anos, a pós-graduação ter saltos quantitativos e qualitativos importantes. Houve um incremento de 187% no número de bolsas concedidas pelas CAPES. O CNPq aumentou em 166% o número de bolsas concedidas. Ocorreram cinco reajustes das bolsas de pesquisa, que, embora não tenha resultado em aumento real, contrapõem os oito anos de arrocho, sem aumento algum, no governo FHC. A bolsa para o mestrado saltou de R$ 724,52, em 2002, para R$ 1500,00, em 2014. A de doutorado passou de R$ 1072,89 para R$ 2200,00 no mesmo período. O Brasil alcançou o patamar de 2,7% da produção científica mundial. É pouco, mas há 12 anos era 1,65%. Ademais, houve aumento expressivo das vagas nas universidades públicas, com a criação de mais de uma centena de novos campi e a volta dos concursos públicos para professores.

Acreditamos que as políticas públicas são importantes, como o Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado recentemente pelo Congresso Nacional e sancionado pela Presidenta Dilma, o que impõe novos e antigos desafios para a pós-graduação brasileira. O primeiro deles é atender à demanda de mestres e doutores para lecionarem no ensino superior. Estima-se que 75% do corpo docente tenha uma dessas titulações até 2022. O PNE também tem como meta a formação de 60 mil mestres e 25 mil doutores por ano. Isso implica em triplicar os recursos destinados à pós-graduação brasileira e que 50% dos docentes da educação básica tenham pós-graduação. Embora não cite a modalidade, a experiência recente aponta para a formação strictu sensu (mestrado).

Consideramos que há ainda muito a avançar em nosso país e sabemos que a desigualdade socioeconômica construída há séculos, e reforçada ao longo de nossa história, não vai ser sanada em poucos anos. Temos claro o desejo de que não podemos retroceder. Nós temos memória e conhecemos nossa história! Sabemos que na década de 1990, em que vigoraram as políticas tucanas, o governo federal defendia e praticava o Estado mínimo na promoção do bem estar social. No governo FHC, além de não expandir, as universidades públicas foram submetidas a um processo de sucateamento e de não oferta de vagas para professores permanentes, mas apenas como temporários. O neoliberalismo era o paradigma do desenvolvimento, reflexos disso foram a depauperação da educação pública, as privatizações das estatais, o pouco investimento em áreas estratégicas (como na Educação e em Ciência, Tecnologia e Inovação), a penalização dos trabalhadores e o combate à inflação a partir de cortes de gastos, juros altos e desemprego. Nesse segundo turno, está em jogo a escolha do terreno em que escolheremos lutar pelos próximos quatro anos e o candidato Aécio representa um modelo contrário ao ensino superior público e de qualidade, bem como as forças que o defendem.

Sabemos que é necessário iniciar um novo ciclo de desenvolvimento para avançarmos muito mais nas mudanças pelas quais o Brasil precisa passar. Portanto, diante de projetos tão distintos que se apresentam nestas eleições, acreditamos que é necessário que os pós-graduandos, juntos com a ANPG e suas entidades de base, tomem lado em defesa da educação pública, por mais investimentos em Ciência e Tecnologia, melhores condições de pesquisa e mais direitos.

Por tudo isso, entendemos que quem melhor representa esses interesses é a candidata Dilma Rousseff, que assume o compromisso com a reforma política e com a implementação do Plano Nacional de Educação, com metas para a expansão da pós-graduação, destinando 10% do PIB para a educação, além da vinculação dos royalties do petróleo e da riqueza do Pré-Sal para a educação pública.

Em defesa da continuidade dessas políticas e em repúdio ao receituário neoliberal, já experimentado no passado, reafirmamos nosso compromisso EM DEFESA DA EDUCAÇÃO E DA CIÊNCIA NACIONAL, assegurando que o Brasil siga avançando nas mudanças que precisa, com a reeleição de Dilma Rousseff.

Reafirmamos, portanto, apoio à Dilma Rousseff e conclamamos todos os pós-graduandos brasileiros a irem às urnas defenderem o projeto mais avançado e que possibilita mais mudanças para nosso país. Acreditamos que a neutralidade não é uma opção neste momento, pois o poder não aceita vacância.

São Paulo, 15 de outubro de 2014.

Diretoria da ANPG

Vão até a próxima segunda-feira (20) as inscrições para o I Colóquio sobre Resolução de Conflitos, que vai acontecer na UEMG – Unidade Diamantina, entre os dias 05 e 07 de novembro. As mesas redondas e palestras abordarão temas como Conciliação, Arbitragem e Mediação, sob a perspectiva das Políticas Públicas, da Educação, no ambiente familiar, na comunidade, dentre outros.

Há também o espaço para a apresentação de comunicações e publicação de resumos expandidos nos anais do evento, dentro dos Grupos de Trabalho:
• GT1: Políticas públicas e o emprego de técnicas de mediação e conciliação no Judiciário
• GT2: A promoção da diversidade e da inclusão social através da mediação escolar e comunitária
• GT3: Direitos Humanos e mediação de conflitos
• GT4: Mediação e conciliação: desafios e resultados

>>Mais detalhes sobre o evento, podem ser encontrados no site http://coloquioresolucao.blogspot.com.br/

O I Encontro Internacional sobre Educação, Promoção da Saúde e Difusão do Conhecimento, que será realizado de 22 a 25 de outubro, na Universidade de Brasília, reunirá alunos de graduação e pós-graduação da UNB, além de Coordenadores de Pós-Graduação em Ciências da Saúde, Enfermagem e Administração da regional centro-oeste de saúde, que incluem os Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul e Distrito Federal.

A situação de saúde mundial tem sido caracterizada pela tendência de crescimento das condições crônicas e agravada pela persistência das condições agudas nos países em desenvolvimento, como o Brasil.

Neste panorama, o modelo hospitalocêntrico encontra sérias dificuldades determinadas pela alta admissão Hospitalar por pacientes em condições crônicas que poderiam ser atendidos em outras modalidades de atenção à saúde, mas que acabam competindo com pacientes em condições agudas, urgências e emergenciais.

Diante da demanda exagerada acionada pela população nos hospitais pelo Brasil, a análise dos limites e possibilidades em se deshospitalizar pacientes portadores de doenças crônico‐degenerativas.

Frente a isso, este evento contribuirá significativamente para o fortalecimento de políticas públicas relacionadas à internação domiciliar no âmbito do SUS visto que se inicia com duas Regionais de Saúde populosas no Distrito Federal, gerando conhecimento sobre os limites e possibilidades na deshospitalização desta população que poderá fomentar análises futuras para as demais Regionais de Saúde do Distrito Federal.

Dentre os objetivos do Encontro, estão:
1. Analisar as políticas públicas de saúde no Brasil e Portugal dentro do enfoque promocionista de saúde;
2. Caracterizar as linhas de pesquisas dos programas de pós-graduação participantes na perspectiva de cooperação internacional na área de saúde e administração;
3. Descrever e analisar indicadores de qualidade do Programa Saúde Escola;
4. Descrever e analisar indicadores de qualidade do Programa de Educação Tutorial em Saúde na perspectiva de intercâmbios com alunos de graduação e pós-graduação.
5. Produzir conhecimento e reflexões em torno da temática educação, promoção da saúde e cooperação Internacional.
6. Difundir conhecimento na área de saúde, educação e administração.
Programação:
>> 22.10.2014
19h – Abertura Oficial Autoridades regionais e convidados internacionais – Cerimonial da UNB
19h30 – Conferência de Abertura Dra. Helena Monteiro – ISCPS Lisboa Portugal
>>23.10.2014
9h às 12h Reuniões de Trabalho:
Termo Aditivo – Cooperação Internacional Portugal X Brasil na área de Saúde.
Coordenação de Pós-graduação em Ciências da Saúde, Administração e Enfermagem
Convidada: Dra. Helena Monteiro – Portugal
Coordenadores dos Programas de PG:
– Enfermagem
– Ciências da Saúde
– Administração (mestrado profissional)
(Aberto a pesquisadores interessados)
INT – Assessoria Internacional UNB
8h10 – Mesa Redonda: MODELO DE ATENÇÃO EM SAÚDE
Saúde do Idoso
Saúde da Família: programa focalizado ou uma estratégia para a reorganização da atenção básica à saúde no Brasil?
Medicina de família: dilemas e desafios
Dra Viviane Peterle – HRPa DF
Dr. Carlos Leonardo Figueiredo Cunha – IESC- UFRJ/ LASER- FIOCRUZ
Dr. Tiago Neiva – ESF – DF
8h às 12h –  Sessão Posters Hall da FS
Coord. Dr. Felipe Belluci – MCT
14h as 16 Conferência: Formação Contemporânea em saúde: avanços, desafios e perspectivas no Brasil Convidado do MS (a confirmar)
Dr. Helsio Pinto – a confirmar
16:30 às 18h Lançamento de Livros Dr. Carlos Leonardo Figueiredo Cunha – FIOCRUZ.
Dra. Onã Silva – PPGENF – SESDF
Dra. Karen Caetano – São Paulo
Dr. William Malagutti – Universidade Estácio de Sá – SMS – SP – Vigilância Epidemiológica
>>24.10.2014
8h10h – (1) Conferência: As competências da promoção da Saúde na formação dos profissionais da saúde no Brasil: análise das diretrizes curriculares nacionais. Dra. Ana Cláudia Germani-Faculdade de Medicina-USP
10:30 às 12h – Conferência: Agenda estratégica da PS na América Latina no contexto de reorientação da formação em saúde.
Dr. Marco Akerman- Vice Presidente da União Internacional de Promoção e Educação em Saúde/ Região Latino-America
Coordenador do Grupo Temático de Promoção da Saúde da Abrasco
Professor Titular da Faculdade de Saúde Pública-USP
14 às 16h30 – Debate: Novos modelos de formação universitária no campo da Saúde
Debatedores:
1. Apresentação de resultados parciais apresentados ao MS
2. Debates em grupos de trabalhos
3. Apresentação dos encaminhamentos dos trabalhos em grupo
Dr. Naomar Almeida Filho – UFPA
Dra. Dais Rocha – DSC – UNB
Dr. Adriano – DSC – UNB
Um representante do MS- PROSAUDE.
Coordenadores do PET SAUDE Grupo 1, 2 e 3
17h às 18h – Sessão de Homenagens pelos 22 anos do Nesprom e 12 do LEPS
Entrega de Diploma de Honra ao Mérito
Homenagem Póstuma “Amilton Paulino” Convidados especiais, homenageados.
Local: Auditório da Reitoria da UNB
Editorial em Homenagem Póstuma ao DR. Amilton Paulino pela Revista Gestão e Saúde
>>25.10.2014
9h – Comissão de avaliação
Toda equipe.
Da redação

Debate UFF

Os pós-graduandos da Universidade Federal Fluminense (UFF) e a ANPG realizaram o debate, na última quarta-feira(8), com tema “Campanha Nacional pelo Reajuste das Bolsas com a Associação Nacional de Pós-Graduandos”, no prédio da Física da Universidade.

Participaram do debate a diretora de comunicação e o diretor de relações internacionais da ANPG, Gabrielle Paulanti e Gabriel Mendoza, respectivamente; além dos pós-graduandos da UFF.

Os pós-graduandos expuseram, em primeiro lugar, a própria dificuldade de organização e mobilização, que também é um resultado das próprias condições precarizadas de pesquisa. Nesse sentido, a universalização das bolsas de pesquisa foi apontada como uma prioridade, garantindo condições mínimas para o exercício da pesquisa e da atuação como agente transformador da sociedade e para o exercício da cidadania plena. Assim, a falta do direito à greve é flagrante das relações instrumentalizadas na academia, onde os representantes discentes não tem autonomia de atuação e os pós-graduandos são obrigados a submeter-se a rotinas de trabalho não regulamentadas.

Como a maioria dos alunos eram vinculados ao curso de Física, uma grande preocupação é falta de seguro insalubridade e periculosidade. Muitos alunos trabalham nos laboratórios, em contato direto com materiais nocivos à saúde ou mesmo perigosos. Assim, o documento de direitos surgiu como uma ferramenta imprescindível no avanço para melhores condições de pesquisa e de vida, demonstrando a importância da campanha por mais direitos às pós-graduandas e pós-graduandos brasileiros.

Inflamados pelos últimos comentários do professor Jorge Guimarães, presidente da Capes, acerca da contratação de professores e pesquisadores via Organizações Sociais, a conjuntura política também foi tema do debate. Foram levados em conta os anos de sucateamento da universidade pública nos anos 80 e os evidentes avanços na estrutura e democratização da pós-graduação. Entretanto, essa nova ameaça ao caráter público e autônomo da universidade apareceu com uma grande preocupação dos pós-graduandos. Por isso, também foi discutida a conjuntura política geral brasileira, evidenciando a mudança de perfil da pós-graduação nos últimos anos e as concessões políticas e econômicas feitas pelo atual governo.

“Esse debate foi muito importante para aproximar ainda mais a ANPG dos pós-graduandos fluminenses e de suas urgências específicas. Mais uma vez, pudemos perceber que os maiores entraves e dificuldades na vida acadêmica são coincidentes entre as diferentes realidades da pós-graduação brasileira, por isso torna-se urgente a campanha por mais direitos aos pós-graduandos”, diz Gabrielle Paulanti, diretora de comunicação da ANPG.

“Saímos com o indicativo para novas discussões, tentando cada vez mais integrar os pós-graduandos, e o início de uma mobilização em prol do restabelecimento da APG-UFF”, acrescentou.

“Tivemos a oportunidade de debater as dificuldades de mobilização, incluindo as componentes de um período eleitoral em que um projeto que contempla (não sem problemas) Ciência & Tecnologia voltada ao desenvolvimento soberano, se confronta com outro que é o retrocesso no ensino superior e na C&T. Em linhas gerais, o recado que pudemos dar é que a luta dos pós-graduandos não pode ser indiferente às necessidades do povo oprimido”, diz Gabriel Mendoza, diretor de relações internacionais da ANPG.

Da redação

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), entidade representativa dos pós-graduandos brasileiros, vem por meio desta manifestar-se contrária e externar sua preocupação diante das declarações do Presidente da CAPES, Jorge Guimarães, no Simpósio Internacional Excelência no Ensino Superior, realizado no Rio de Janeiro. Com autorização do MEC e MCTI, o presidente da Capes anunciou, no dia 22 de setembro, a proposta para contratação de professores com a criação de de Organizações Sociais (OSs), visando eficiência da administração pública e internacionalização das universidades.

“A ideia já tem sido levada aos nossos ministros há bastante tempo. Agora, o ministro Paim deu o sinal verde para fazermos um primeiro estudo. Entregamos a ele, e agora ele quer que a gente passe para a segunda etapa, que é a criação da OS propriamente dita. Isso implicará fazer contratos pela via de CLT, o que as universidades públicas não podem fazer porque é tudo regime jurídico único,[…]” (veja a notícia completa aqui)

Nos preocupa que a CAPES, sem nenhuma discussão com a comunidade acadêmica, lance num evento com centenas de pesquisadores uma proposta de tamanha envergadura sem apresentar, consistentemente, os pleitos para que esta proposta avance. A reivindicação do processo de criação de uma Organização Social com a finalidade de contratar docentes para as universidades sem a realização de concursos públicos, fora do Regime Jurídico Único, atende a entidades, sindicatos e movimentos sociais em defesa da educação? Em virtude das notas lançadas desde o evento promovido pela ABC, avaliamos que a proposta não esteve em diálogo e reafirmamos que nós, pós-graduandos, responsáveis por 90% das pesquisas realizadas no Brasil, também queremos contribuir sobre a questão.

“O ministro [da Educação, José Henrique] Paim e o ministro [da Ciência e Tecnologia, Clelio] Campolina estão nos autorizando a fazer uma organização social para contratar [professores], saindo do modelo clássico que demora e que nem sempre acerta muito […]” (veja a notícia completa aqui)

Para a ANPG que luta pela garantia dos fins democráticos da educação, a proposta de contratação de professores sem concurso público como forma de atrair jovens pesquisadores para as instituições de ensino superior brasileiras representa um ataque à carreira no magistério do ensino superior, com ingresso de professores com menos direitos trabalhistas, com remuneração aquém das suas atividades e, portanto, trabalhando em um regime precarizado. Com contratos deficientes e sem regime de trabalho estável, aumentam-se as dificuldades para que os trabalhadores apresentem reivindicações por melhores relações e processos de trabalhos frente aos rumos da universidade.

O exercício da carreira docente atual, por exemplo, está sendo regulada com o funcionamento de Estatutos oriundos da ditadura militar, estes que não refletem as necessidades educacionais vigentes e que necessitam de uma atualização urgente. Bastando, então, a contratação de professores via CLT para propiciar uma reconfiguração nas universidades?

“Já o contrato que hoje as universidades fazem no chamado Regime Jurídico único é para 30 anos, ninguém é mandado embora. Eu não conheço um caso assim. Então, não está funcionando e o governo já deveria ter feito isso” (http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/materias/detalhe.php?id=3365)

Diretamente, a proposta que se apresenta, alcança os pós-graduandos brasileiros, considerando que muitos de nós têm como projeto de vida a carreira de professor e pesquisador universitário. No entanto, já sentimos no nosso cotidiano as dificuldades de atração para fazer pesquisa. Não alcançamos a concessão de direitos que correspondam à tarefa que assumimos e temos dificuldade de acessar incentivos para a mobilidade acadêmica, apesar da defesa da internacionalização das universidades.

No 24º Congresso Nacional de Pós-Graduandos (CNPG), realizado em maio deste ano, aprovamos o Documento de Direitos e Deveres das Pós-Graduandas e Pós-Graduandos, apontando que valorizar o pesquisador é crucial para o desenvolvimento cientifico do país que queremos alcançar. Fortalecer a pós-graduação e oferecer uma formação digna são caminhos importantes para que tenhamos pesquisadores, cientistas e professores com atuação cada vez mais pujante para as necessidades e realidades sociais.

Neste sentido, a ANPG é contra essa proposta e se solidariza com todos os docentes, entidades e sindicatos nacionais que já se pronunciaram, inclusive pela acusação do “jogo de cartas marcadas” nos concursos públicos. Em defesa de melhores condições de trabalho e estudo, registramos aqui a necessidade de recomposição de quadros nas instituições e a reestruturação da carreira no magistério.

Lembramos ainda que as OS foram criadas pela Lei nº 9.637/98 no governo FHC com o objetivo expresso de desresponsabilizar o Estado pela manutenção de serviços públicos. Portanto, tornando-se um verdadeiro mecanismo de privatização desses serviços com consequências nefastas com atesta o colapso dos serviços de saúde pública do Estado de São Paulo que já entregou mais de 13 hospitais à administração de OSs.

O resultado disso foi a limitação dos concursos públicos, precarização dos serviços e das condições de trabalho dos profissionais da saúde e, pasmem, a venda de 25% dos leitos dos hospitais públicos para as empresas privadas do setor de saúde. O 24 CNPG posicionou-se ao lado das questões trabalhistas ao se solidarizar com as lutas de dezenas de sindicatos e entidades da área da saúde, por exemplo. E da mesma maneira, vemos que este é o momento de mantermos uma posição firme em solidariedade à categoria docente e suas entidades representativas.

Diante das nossas resoluções do 24º CNPG (link da resolução) e pronunciamentos dados durante o referido Simpósio, inclusive do ministro Campolina (http://www.sbpcnet.org.br/site/noticias/materias/detalhe.php?id=3364), nos colocamos favoráveis à:

·Favoráveis à revogação da Lei das OSs – Lei nº 9.637/98, solidarizando-nos com dezenas de sindicatos e entidades da área da saúde;
·Contrários à criação de OSs para a contratação de professores;
·A favor da diversificação dos modelos de bolsa e recebimento de verbas para a mobilidade estudantil a todos os estudantes;
·Favoráveis à representação discente no âmbito da IES;
·A favor da indissociabilidade do ensino-pesquisa-extensão;

Somos contrários à criação de Organizações Sociais para a contratação de professores e queremos diálogo para garantir a valorização do pesquisador no bojo do debate sobre a internacionalização das universidades.

Dito isto, a ANPG convoca todos os pós-graduandos e suas entidades a manifestar suas posições frente a proposta apresentada pela CAPES, fomentar a discussão dentro das instâncias com representação estudantil e a reunir esforços para que este modelo de contratação não se concretize. A todos os pós-graduandos e entidades que têm envidado esforços em mobilizar reuniões e manifestos à respeito: seguimos juntos em direção ao Presidente da CAPES para que seja interrompido imediatamente o processo de criação dessa OS.

São Paulo, 13 de outubro de 2014.

Diretoria da ANPG

Links relacionados:

Carta aberta da UFRGS

Artigos de opinião sobre o assunto:

Autoritarismo nas IFES e contratação de professores via OS: o enterro da carreira docente no ensino superior

Internacionalização das Universidades brasileiras e contratação de professores: Questões para o Debate

 

O Comitê Paris pela Constituinte agradeceu pelo apoio da Associação Nacional de Pós-Graduandos na luta dos estudantes e pesquisadores brasileiros residentes da Maison du Brésil. Além da ANPG, o professor da UFRJ, Francisco Esteves, a Associação Nacional de História (ANPUH), e outras entidades também apoiaram a causa dos estudantes ameaçados na França.

ANPG denunciou, em seus meios de comunicação, o abuso cometido pela Casa do Brasil na França; e contactou o Itamaraty, a embaixada da França no Brasil, o CNPq, a Capes e o MEC à respeito da situação das denúncias dos estudantes. Na quinta-feira (2), a entidade exigiu uma posição mais concreta do ministro José Henrique Paim e reforçou o pedido de intervenção do CNPq para que esta situação seja resolvida.

“A ANPG segue em contato com os estudantes e tem feito cientes diversas instâncias do governo a respeito da situação”, explica Hercília Melo, secretária geral da ANPG.

Graças à grande mobilização e à atenção que conseguiram atrair para o caso, os estudantes ameaçados não foram expulsos de seus apartamentos na Casa do Brasil na França. No entanto, as ameaças ainda não foram retiradas.

“A nota emitida pela ANPG e os contatos que tem feito no Itamaraty e MEC têm sido muito importante para nós, pois, como podem imaginar, a Direção da Maison começou uma campanha de calúnias contra os estudantes. Daí, termos publicado a carta do Prof. Francisco Esteves, da UFRJ, em defesa de sua orientanda”, declarou a direção do Comitê.

“O que pudemos compreender até agora é que a Direção da Maison, baseando-se em calúnias contra os estudantes, argumenta que a transferência acontecerá por razões disciplinares (perturbação da ordem na Maison, vandalismo, violência contra os outros moradores etc.). Essa é a resposta que estão dando à Embaixada, à CAPES e ao CNPq”, acrescenta.

Da redação

Para acompanhar a situação:
http://constituintecomiteparis.wordpress.com/
https://www.facebook.com/constituintecomiteparis

Da redação

Matérias relacionadas:

06/10/2014 – Nota da ANPUH em apoio aos estudantes ameaçados na França

06/06/10/214 – Professor titular da UFRJ defende estudante sob ameaça na França

30/09/2014 – Pesquisadores e estudantes brasileiros que vivem na Casa do Brasil na França denunciam arbitrariedades cometidas pela Instituição

A Associação Nacional de História (ANPUH) divulgou em seu site o modelo de uma moção de apoio aos estudantes brasileiros sob ameaça na França: http://www.anpuh.org/informativo/view?ID_INFORMATIVO=5097

O texto lembra que, “atualmente, milhares de estudantes e pesquisadores brasileiros, de todas as áreas do conhecimento, desenvolvem suas pesquisas no exterior. Muitos deles encontram-se na França, país que tem uma longa história de cooperação científica com o Brasil. Dezenas vivem na ‘Casa do Brasil na França’, a Maison du Brésil, residência estudantil sob a responsabilidade da CAPES localizada na Cidade Internacional Universitária de Paris.”

A moção, que deve ser endereçada aos membros do Conselho de Administração da Maison du Brésil e às autoridades diplomáticas brasileiras na França “condena o assédio moral e as ameaças de expulsão contra os estudantes e pesquisadores engajados na campanha pela Constituinte e contra aqueles que, para se defender das arbitrariedades cometidas pela Direção da Maison du Brésil, lutam para reconstruir o Comitê de Residentes.”

Da redação

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Professor titular da UFRJ defende estudante sob ameaça na França066665500996666Professor 30/09/

Pesquisadores e estudantes brasileiros que vivem na Casa do Brasil na França denunciam arbitrariedades cometidas pela Instituição

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O Professor Titular do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Francisco de Assis Esteves demonstrou seu “repúdio ao assédio moral realizado pela Direção da Maison du Brésil” contra uma de suas orientandas, que faz estágio na França.

Em Paris, a aluna participou de atividades da campanha do Plebiscito Constituinte e também integrou a Comissão Eleitoral que participaria da reconstrução do Comitê de Residentes. A Diretora da Maison du Brésil, Sra. Monica David, afirmou que a estudante poderia ser processada sob a acusação de “fazer parte de um grupo que quer promover a desordem na Maison du Brésil”.

No relato enviado ao Departamento de Relações Internacionais da CAPES, a aluna afirma que, poucos dias após a realização de uma assembleia de estudantes, foi ameaçada de expulsão pela Diretora da Maison du Brésil. Em seguida, a Diretora da Maison apresentou, como alternativa à expulsão, a transferência forçada da estudante para a residência de outro país dentro da Cidade Internacional Universitária, o que, além de uma punição, é uma clara tentativa de desarticulação do movimento estudantil na Casa do Brasil na França.

Informado sobre a situação, o Professor Francisco de Assis Esteves, orientador da estudante, deu a seguinte declaração:

“A estudante desenvolve pesquisas sob minha orientação desde 2006, quando ingressou no Laboratório de Limnologia da UFRJ para realizar a sua iniciação cientifica. Atualmente, a estudante faz parte do Programa de Pós-graduação em Ecologia da UFRJ, no qual desenvolve seu projeto de doutorado em uma das principais linhas de pesquisa coordenadas por mim. O seu longo histórico acadêmico sob minha orientação me permite comprovar seu excelente desempenho acadêmico, cientifico e profissional como pesquisadora. A bolsa de pesquisa no exterior concedida à estudante brasileira reflete a importância das suas pesquisas no Brasil e é o resultado de anos de dedicação à produção científica.

O assédio moral ao qual a estudante foi submetida nos últimos dias pela Direção da Maison du Brésil prejudica amplamente o trabalho acadêmico individual da pesquisadora, além de causar transtornos psicológicos que trazem diversas consequências para a vida acadêmica, profissional e pessoal da estudante.

A Maison du Brésil é um espaço que deveria oferecer condições adequadas de estudo e moradia no exterior para estudantes da pós-graduação brasileira, contribuindo para a realização de pesquisas essenciais ao desenvolvimento científico do país, e não causar transtornos injustificáveis durante a estadia dos pesquisadores na França.

Diante do acontecido e relatado pela estudante, solicito o fim imediato do assédio moral, das punições e ameaças contra a estudante. É inadmissível que a estudante seja perseguida por razões que foram caluniosamente utilizadas contra ela pela Diretoria da Maison du Brésil, gerando problemas que repercutem diretamente no desenvolvimento do seu projeto de doutorado e que não estão de acordo com a politica de pesquisa no exterior favorecida pelo Ministério de Educação e pela CAPES.”

Da redação

Matéria relacionada:

30/09/2014 – Pesquisadores e estudantes brasileiros que vivem na Casa do Brasil na França denunciam arbitrariedades cometidas pela Instituição

A Associação Nacional de Pós-Graduandos entrevistou os candidatos à presidência da República, abordando temas como Política Nacional de C,T&I, Financiamento de C,T&I, Regulamentação da Pós-Graduação Lato Sensu, o programa Ciência sem Fronteiras, as Bolsas de Pesquisa e os Direitos dos Pós-Graduandos.

A entidade enviou pedido de entrevista aos candidatos: Dilma Roussef (PT), Aécio Neves (PSDB), Marina Silva (PSB), Luciana Genro (PSOL) e Zé Maria (PSTU). Apenas  a candidata do Partido Socialismo e Liberdade e o candidato do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado responderam a entrevista até o fechamento dessa matéria.

No entato, a ANPG teve a oportunidade de entregar as resoluções do 24º CNPG e o Documento de Direitos dos Pós-Graduandos à presidenta Dilma, durante o encontro dos estudantes com a candidata, e à Marina Silva, durante sua conferência na 66ª Reunião Anual da SBPC. Esses documentos serão entregues aos demais candidatos na primeira oportunidade.

Confira as entrevistas!

Luciana Genro – PSOL


Política Nacional de C,T&I

ANPG: Historicamente, muitos países alcançaram elevados patamares de desenvolvimento quando foram capazes de apresentar inovações tecnológicas capazes de influenciar o cotidiano de seus cidadãos e, posteriormente, de cidadãos de outros países. Nesses casos, houveram fortes investimentos estatais (muitas vezes na área de Defesa Nacional) que impulsionaram a pesquisa básica para o posterior desenvolvimento tecnológico. Como o seu eventual futuro mandato pretende relacionar a questão Ciência&Tecnologia com o Desenvolvimento Nacional?

Luciana Genro: É verdade que a capacidade de inovação em Ciência e Tecnologia expressa sim um determinado patamar de desenvolvimento nacional. Aliás, a atual situação da C&T no Brasil é um indicador muito claro da situação submissa do país à hierarquia de poder estabelecida em escala mundial. Nesta pirâmide, ocupam as posições de comando as indústrias dos países que detém a chamada alta tecnologia. Segundo o relatório mundial sobre investimentos da UNCTAD, somente duas empresas brasileiras, a Petrobrás e a Embraer, constam do ranking de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Isso é um indicador inequívoco de que a gigantesca economia brasileira precisa ainda avançar muito em sua independência e soberania nacional.

E isso articula-se diretamente com o fato de que no Brasil não existe uma política industrial e tecnológica. A instituição que teria capacidade para fazê-la seria o BNDES, que é um dos maiores bancos de fomento do mundo, com orçamento superior ao do Banco Mundial. Mas não o faz. Pior, o BNDES destina a maior parte de seus recursos para o agronegócio, empreiteiras e o setor de extrativa mineral e apenas doze conglomerados econômicos recebem 60% dos desembolsos desse banco.

Segundo estudo do IPEA (2009), a balança comercial brasileira desagregada por intensidade tecnológica apresenta um déficit de cerca de US$ 22 bilhões para produtos de alta tecnologia (aeronáutica, aeroespacial, farmacêutica, informática, equipamentos de rádio, TV e comunicação, instrumentos médicos de ótica e precisão). E, para os produtos de média-alta tecnologia (máquinas e equipamentos elétricos, produtos químicos, máquinas e equipamentos mecânicos, entre outros) o déficit é de cerca de US$ 29 bilhões. Somente nos setores de média-baixa e baixa tecnologia e de produtos não industriais o Brasil apresenta saldo positivo. Este quadro não se alterou nos últimos anos, mas lamentavelmente se aprofundou com uma especialização regressiva do Brasil na divisão internacional do trabalho.

Sabemos que o capitalismo reserva uma função específica e limitada para a ciência e tecnologia. Quer dizer, o capitalismo se interessa por desenvolver ciência e tecnologia com duas finalidades principais. A primeira é economizar força de trabalho, o que gera desemprego. A segunda é política: contribuir para manter as hierarquias de poder em escala nacional e mundial. O coração da pesquisa chamada “de ponta” no capitalismo é a indústria da guerra. É o chamado complexo industrial-militar, responsável por conferir supremacia aos países imperialistas que são os guardiões da ordem mundial. Esse componente político é ao mesmo tempo econômico uma vez que a indústria bélica cumpre também o papel de absorver enormes somas de capital (excedentes que de outra forma gerariam bolhas e crises permanentes) em bens que se autodestroem quase imediatamente ao uso. Ou seja, uma produção destrutiva que gera uma demanda permanente por novos produtos bélicos, ao mesmo tempo em que, deixa um rastro de destruição que gera uma outra demanda, agora, por reconstrução. A indústria militar é, portanto, muito funcional ao capitalismo e uma forma de, ao mesmo tempo, aprofundar e mitigar as crises econômicas. Destruição e reconstrução, assim o capital usa a tecnologia para sobreviver nesta fase crítica em que vivemos.

Nós defendemos que a Ciência e Tecnologia tenha como finalidade a preservação da vida e a ampliação das liberdades humanas.

ANPG: O que propõem para aumentar o número de patentes registradas no Brasil? Quais suas considerações sobre a atual Lei de Patentes?

L.G.: Segundo dados recentes do INPI, as patentes de não residentes registradas no Brasil em diversos subdomínios tecnológicos revelam que as empresas estrangeiras dominam mais de 80% dos registros de patentes em áreas relacionadas à saúde, como química orgânica, farmacêutica-cosmética, química macromolecular e biotecnologia, assim como em telecomunicações, semicondutores e informática.

Isso revela o grau de subordinação tecnológica em que se encontra nosso país em áreas tão fundamentais como a saúde pública. Isso é gravíssimo.

Todo conhecimento científico é fruto de pesquisas e do trabalho acumulado por gerações. Na sociedade de mercado, as empresas e as economias mais poderosas privatizam o conhecimento socialmente produzido e registram patentes para serem as detentoras exclusivas de tecnologias e conhecimentos, cobrando royalties por seu uso. Nós queremos uma sociedade socialmente emancipada onde o conhecimento esteja a serviço da vida e não para acumular lucros privados.

Mas enquanto vivemos sob uma sociedade de mercado, pensamos que uma política de esquerda deve lutar pela revisão da Lei de Patentes. Tal medida é necessária para fortalecer, por exemplo, a saúde pública. Assim como a utilização, sempre que necessária, de ferramentas de licença compulsória para produção ou compra de medicamentos.

O governo brasileiro fez uso do expediente de licenciamento compulsório apenas em 2007, para o Efavirenz (combate a AIDS). Em muitos outros casos essa prática também se demonstra necessária. De acordo com o Grupo de Trabalho em Propriedade Intelectual (GTPI http://www.deolhonaspatentes.org.br), a Linezolida para o tratamento de tuberculose custa R$ 82 a unidade, quando a versão genérica poderia custar R$ 2,50. E o Rituximab para o tratamento de câncer, custa R$ 1.239 por unidade, enquanto que o genérico custaria apenas 65 centavos.

Defendemos o registro de patentes nacionais sob controle público das tecnologias oriundas de pesquisas nas universidades federais. Assim, como acreditamos que Lei de Patentes de 1996 incorre em ato de inconstitucionalidade ao prever patentes pipeline na Lei de Propriedade Intelectual. Não podemos permitir que se patenteie o que já é de domínio público em nosso país, revalidando patente estrangeira em detrimento do requisito da novidade. A Procuradoria Geral da República e o Supremo Tribunal Federal estão atuando de forma correta neste caso. Por outro lado, somos vítimas e, em particular os povos indígenas e os camponeses, da biopirataria. O Brasil deve fazer uso de todos os recursos disponíveis para proteger os saberes locais e colocá-los a serviço de toda a sociedade. Nesse sentido a FioCruz deve ser fortalecida.

ANPG: O crescimento da pós-graduação stricto sensu nos últimos anos se deu na esteira da expansão das Universidades Federais. Essa expansão tem aumentado significativamente a demanda por recursos. Quais suas propostas para atingir a meta de mestres e doutores expressa pelo PNPG?

L.G.: Ao lado da expansão das IFES, nosso programa de governo prevê a ampliação do financiamento à pesquisa, o fim da ingerência do capital privado no financiamento à pesquisa nas universidades públicas, investimento de 2% do PIB em Ciência e Tecnologia, gestão e controle democrático dos investimentos públicos da área e envio de lei ao Congresso que recomponha os recursos do FNDCT, entre outras medidas democratizantes. Agregaríamos ainda uma diretriz férrea de maior transparência em todos os processos de concessões de bolsas e critérios de financiamento nas agências de fomento à pesquisas e nas próprias universidades.

Penso que a meta de mestres e doutores não deve ter como foco apenas o quantitativo, mas também o qualitativo. Pois, não podemos cair em produtivismo acadêmico que provoque queda na qualidade dos trabalhos. Nesse sentido, a redução do tempo para a obtenção de títulos de mestres e doutores tem causado uma atomização dos problemas de pesquisa, que na prática tem sido orientada a temas cada vez menores a fim de serem factíveis em prazos tão exíguos. Essa fragmentação das abordagens pouco ou nada contribui para o verdadeiro salto qualitativo que o país necessita nesta área.

Além disso, para enfrentar os grandes temas, como a dependência tecnológica e o desenvolvimento nacional, precisamos estimular a socialização e a pesquisa coletiva. O individualismo metodológico predominante no meio acadêmico brasileiro não é apenas uma aplicação de uma determinada teoria, contribui, também, para um avanço restrito da pesquisa em temas de grande envergadura, que exigem um esforço articulado e colaborativo de pesquisa entre investigadores de diversas áreas e lugares. Pensamos que os intelectuais brasileiros podem oferecer um aporte fundamental para a mudança que o país necessita e confiamos que as universidades, seus professores, estudantes e servidores podem cumprir um papel central neste processo.

Financiamento de C,T&I


ANPG: A aprovação do PNE e da destinação de 75% dos royalties do pré-sal foram respostas às demandas por mais financiamento na Educação. A regulamentação, entretanto, trouxe esvaziamento de parte do FNDCT. Qual sua proposta para recompor esse fundo e para ampliar o investimento no setor?
L.G.: Os números do pré-sal não são bem assim. Os ¾ dos recursos do Pré-sal que iriam para a Educação equivalem a apenas 15% da produção e somente serão obtidos quando os campos começarem a operar plenamente. No caso do privatizado Campo de Libra isso ocorrerá apenas por volta de 2019. Além do mais, como alerta a Auditoria Cidadã da Dívida, o governo federal não tem destinado os recursos dos royalties para suas finalidades legais, mas em grande parte para o pagamento da questionável dívida pública, o que pode ocorrer novamente com a exploração do Pré-sal. Com relação ao FNDCT, nosso programa de governo prevê o envio de lei ao Congresso que recomponha seus valores. Assim, defendemos uma revisão imediatamente da legislação dos royalties garantindo que os valores referentes a contratos antigos e vigentes sejam também direcionados à educação e saúde. Apoiaremos uma partilha mais equânime dos recursos dos royalties e usaremos a parte da União para diminuir as desigualdades regionais.

Regulamentação do Lato Sensu


ANPG: A expansão do número de formados no ensino superior ampliou as expectativas do mercado sobre as especializações como fator de diferenciação. A proliferação de cursos de especialização aconteceu sem qualquer tipo de regulamentação por parte do governo. Qual sua proposta para regulamentação do ensino superior?

L.G.: O princípio que deve regular a ampliação da rede é a elevação da capacidade da sociedade para solucionar problemas e formular questões pertinentes na busca da superação de suas dificuldades. Não é uma questão que deva ser regulada pelo mercado. A regulamentação do ensino superior exige medidas diversas em se tratando do ensino público ou privado.

No caso do ensino público deve se basear em primeiro lugar no respeito à autonomia universitária. No entanto, pensamos que a autonomia vigente atualmente tem sido distorcida. Falta democracia nas instâncias das universidades. Temas como a paridade, com a participação tripartite de docentes, funcionários e estudantes nos conselhos e órgãos da universidade e a transparência nos processos internos de tomada de decisão devem ser amplamente discutidos no interior da universidade brasileira, rompendo com a atual dinâmica restritiva. Um novo ambiente no qual haja mais espaço para a renovação do que o peso da tradição que tem feito da universidade um espaço bastante conservador nas últimas décadas no Brasil. A juventude universitária deve ser valorizada neste processo, pois cumpre um papel progressista neste contexto, sejam graduandos ou pós-graduandos.

E, para além da gestão democrática, o principal aspecto regulatório consiste no respeito ao investimento constitucional de 10% do PIB em educação, com destinação de 100% dos recursos ao ensino público. Por outro lado, observamos uma crescente privatização e terceirização que vem afetando o caráter público da educação superior. Não somente com a ingerência de empresas nas pesquisas, o que é gravíssimo, mas também com a privatização da administração dos hospitais universitários com a EBSERH e a terceirização de serviços como segurança, alimentação oferecida nos restaurantes universitários, funcionários em diversos cargos, enfim. A chamada previdência complementar que vem sendo oferecida aos docentes, via FUNPRESP, por sua vez, é uma violação aos direitos à aposentadoria. Lança a aposentadoria dos docentes aos sabores da especulação no mercado financeiro onde operam esses fundos de pensão. Tudo isso contribui para a precarização das estruturas do ensino superior no país. Os docentes sabem quanto vão pagar mensalmente para esse fundo, mas não sabem o valor que irão receber de aposentadoria quando chegar a hora que mais precisam desses recursos duramente poupados. Uma nova regulamentação deveria primar pelo respeito aos recursos públicos em educação exclusivamente para a educação pública, para o fim das privatizações e terceirizações e pela garantia de aposentadoria integral aos trabalhadores das universidades. Precisamos reverter a lógica de ampliação do acesso ao ensino superior pelas instituições privadas, para priorizar a ampliação pelo setor público, até alcançarmos a universalização do ensino superior público. Hoje mais de 70% das matrículas no ensino superior estão nas instituições privadas.

No caso das instituições de ensino superior privado a problemática é de outra natureza. É preciso garantir a qualidade do ensino, a ampliação das bolsas de assistência estudantil. Universidades não são supermercados de diplomas. O que temos visto é a aquisição de faculdade privadas por fundos de investimentos estrangeiros sem qualquer vínculo com a educação. As faculdades controladas por esses fundos extinguem cursos considerados menos lucrativos, como as licenciaturas, e rebaixam os currículos, além de oferecer uma infinidade de cursos à distância com qualidade duvidosa. Além disso, precisamos garantir a liberdade de atuação do movimento estudantil.

CsF


ANPG: O programa Ciências sem Fronteiras é uma forte aposta no intercâmbio acadêmico com outros países. Qual sua opinião sobre o programa? Como resolver a contradição de oferecer bolsas de estudo para estudantes no exterior enquanto este benefício não está universalizado nas Universidades brasileiras?

L.G.: O problema principal diz respeito à qualidade do ensino das instituições do exterior. O processo de privatização das universidades em quase todo o mundo foi tão brutal e provocou uma queda acentuada da qualidade de ensino que é preciso ter muito cuidado com a escolha da instituição com a qual se fará o intercâmbio. Hoje a situação é muito diferente daquela do passado em que estudar no exterior era uma distinção no currículo. Por isso, nosso governo fará uma séria revisão na lista de instituições estrangeiras cadastradas pelo Ciências sem Fronteiras a fim de garantir que somente instituições de excelência acadêmica possam receber estudantes brasileiros, com isso duplicaríamos os investimentos no Programa “Ciência Sem Fronteiras”, incluindo os estudantes das áreas de ciências humanas e humanas aplicadas. A universalização do ensino superior é uma diretriz democrática que deve orientar todos os esforços de um governo de esquerda.

Bolsas de pesquisa: natureza, concessão e valorização


ANPG: O desenvolvimento econômico dos últimos anos elevou os salários de recursos humanos especializados. O mercado, através do pagamento de altos salários, passou a competir pelos melhores profissionais com a academia e a carreira cientifica, que oferece pífias bolsas de estudo ao passo que exige dedicação exclusiva. Em um futuro e eventual governo, como pretende lidar com o problema da falta de valorização das bolsas de pesquisa? Existe alguma outra proposta para manter o interesse de jovens profissionais na carreira acadêmica?

L.G.: Além do problema de o mercado disputar os profissionais, o governo está precarizando o trabalho docente. É estarrecedor que o Presidente da CAPES, Jorge Guimarães, venha a público defender que a Capes, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Ministério da Educação (MEC) criem uma Organização Social (OS) para contratar docentes para as Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes) por meio da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Atacando os direitos históricos conquistados pelo movimento docente, Guimarães alega que o Regime Jurídico Único “contrata professores por 30 anos e não manda ninguém embora” para defender a terceirização do trabalho docente. Esse é mais um ataque do governo do PT aos trabalhadores, depois das Reformas da Previdência, da não definição de uma data base para os servidores e docentes das IFES e da ampliação dos recursos públicos para as instituições privadas de ensino.

A ampliação da rede e a melhoria das condições de trabalho e o salário docente é o caminho para valorizar a educação superior no país e deve ser acompanhada de contratação de funcionários, pois hoje os professores passam mais tempo administrando a burocracia universitária do que se dedicando ao ensino, à pesquisa e à extensão. Nós vamos definir uma data-base para o funcionalismo público federal e cumprir os acordos firmados com o ANDES-Sindicato Nacional.

ANPG: As bolsas de pesquisa, ofertadas pela CAPES e CNPQ, sofreram forte desvalorização se comparadas com o salário mínimo nos últimos dez anos. Qual sua proposta para reverter essa tendência?
L.G.:
Como meta, defendemos que o valor das bolsas de pesquisa em nível de mestrado devem ser equiparadas ao salário mínimo do DIEESE, sendo ampliada progressivamente no doutorado e no pós-doutorado até o patamar de três salários mínimos do DIEESE, ou seja, orbitariam entre cerca de R$ 3 mil e R$ 9 mil reais.

ANPG: O que a sra. pensa sobre o acúmulo entre bolsa de pesquisa e vínculo empregatício?
L.G.: Em princípio, o valor da bolsa não poderia estar abaixo do salário mínimo necessário calculado pelo DIEESE, atualmente em torno de R$ 3 mil reais e o recebimento de bolsa de estudos deveria ser universal para os estudantes de mestrado e doutorado. De forma geral, é preciso melhorar substantivamente as condições para a pesquisa no país, não somente no que diz respeito a valores, mas a estrutura e ambiente acadêmicos que devem favorecer a pesquisa, como salas de trabalho e leitura, laboratórios, bibliotecas, fóruns de pesquisa, facilitação de trabalho de campo etc. A relação entre bolsa e vínculo empregatício varia caso a caso. Se, em benefício à pesquisa, o exercício de atividade empregatícia for positiva, excelente. Mas, na atual situação não há uma regra universal, em geral pelo baixo valor da bolsa. A pesquisa, em muitos casos, pode ser enriquecida por uma experiência docente. Isso deve ser avaliado pelo próprio pesquisador juntamente com seu orientador, caso a caso. Por isso, a regra no atual caso deve ser flexível.

Direitos dos pós-graduandos


ANPG: O pós-graduando ocupa uma função social híbrida. Ao mesmo tempo que é um estudante, é também um trabalhador, de quem se exige um produto (dissertação ou tese). Se esse produto não for entregue o pós-graduando bolsista pode ser acionado judicialmente para que o Estado receba de volta o valor pago a título de bolsas, afastando a interpretação de que a bolsa é um mero auxílio ou apoio assistencial. A ANPG tem se dedicado a debater as condições de trabalho dos pós graduandos. Qual sua opinião a respeito? Quais direitos devem ser garantidos? Como viabilizar essa demanda
L.G.: Acreditamos que a bolsa de estudo garante melhores condições para pesquisa e contribui para elevar o nível dos trabalhos realizados, por permitir em geral maior dedicação. Por isso, defendemos o recebimento de bolsas para todos os estudantes de mestrado e doutorado nas IFES. Isso, sem dúvida, representa um desafio do ponto de vista dos recursos. Porém, se orientarmos 100% dos recursos da educação para o ensino público e alcançarmos a meta de 10% do PIB para a educação pública e de 2% do PIB para a área de Ciência e Tecnologia, será possível ampliar grandemente os recursos para a pesquisa. Quanto às demais condições de trabalho, elas se relacionam com a recomposição da infraestrutura universitária, com funcionários, equipamentos, bibliotecas, salas de trabalho etc. Lamentavelmente, muitas IFES ainda estão sucateadas e isso precisa ser urgentemente revertido. Para tanto, é preciso aumentar os recursos, romper com o sistema da dívida pública que abocanha a 40% do orçamento da União para alimentar os rentistas. Sem isso, qualquer um que prometer ampliar os recursos, melhorar a situação da ciência e tecnologia e dar mais apoio à pesquisa estará fazendo promessas que não vão poder ser cumpridas.

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Entrevista Zé Maria – PSTU


Política Nacional de C,T&I


ANPG: Historicamente, muitos países alcançaram elevados patamares de desenvolvimento quando foram capazes de apresentar inovações tecnológicas capazes de influenciar o cotidiano de seus cidadãos e, posteriormente, de cidadãos de outros países. Nesses casos, houveram fortes investimentos estatais (muitas vezes na área de Defesa Nacional) que impulsionaram a pesquisa básica para o posterior desenvolvimento tecnológico. Como o seu eventual futuro mandato pretende relacionar a questão Ciência&Tecnologia com o Desenvolvimento Nacional?

Zé Maria: Não há desenvolvimento científico e tecnológico sem uma decidida política estatal que oriente e financie as iniciativas de pesquisa. E não existe desenvolvimento nacional autônomo sem uma política científica e tecnológica nacional. Quando falamos em desenvolvimento nacional não estamos pensando exclusivamente em crescimento econômico ou aumento do PIB. Essa é uma visão simplificadora. Nossa prioridade são os trabalhadores e trabalhadores deste país, por isso para nós desenvolvimento implica em bem-estar e proteção social. Nossa candidatura tem um firme compromisso com a destinação de 10% do PIB para o financiamento da educação pública. Também estamos comprometidos com a proposta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, que considera necessário que 2% do PIB sejam destinados para o desenvolvimento harmonioso da ciência básica, da ciência aplicada e da tecnologia nacional.

ANPG: O que propõem para aumentar o número de patentes registradas no Brasil? Quais suas considerações sobre a atual Lei de Patentes?

Z.M.: Uma observação preliminar: o problema não é o de aumentar simplesmente o número de patentes, mas o de desenvolver o conhecimento que possa aumentar o bem estar da população. A Lei de Patentes precisa ser rediscutida. Em sua forma atual destina-se a proteger os ativos das grandes corporações farmacêuticas e tecnológicas. Não achamos correto que os resultados de pesquisas realizadas com financiamento público sejam apropriados privadamente. Além disto, a propriedade de uma patente não pode se contrapor à necessidade pública, como muitas vezes ocorre no caso de medicamentos. O bem comum sempre deve prevalecer sobre a propriedade privada, inclusive no campo das ideias.

ANPG: O crescimento da pós-graduação strictu senso nos últimos anos se deu na esteira da expansão das Universidades Federais. Essa expansão tem aumentado significativamente a demanda por recursos. Quais suas propostas para atingir a meta de mestres e doutores expressa pelo PNPG?

Z.M.: O crescimento da pós-graduação tem ocorrido de maneira desordenada, assim como a expansão das universidades federais, a qual é orientada, muitas vezes, por critérios meramente clientelistas. A expansão das vagas sem uma expansão proporcional dos recursos é insustentável e demagógica. Sou a favor de uma ampla democratização do acesso às universidades em todos os níveis mas para isso a prioridade é a destinação de 10% do PIB para a educação. Sem recursos apropriados a expansão é feita sem qualidade e baseada na precarização e superexploração do trabalho dos docentes e servidores técnico-administrativos.

Financiamento de C,T&I


ANPG: A aprovação do PNE e da destinação de 75% dos royalties do pré-sal foram respostas às demandas por mais financiamento na Educação. A regulamentação, entretanto, trouxe esvaziamento de parte do FNDCT. Qual sua proposta para recompor esse fundo e para ampliar o investimento no setor?

Z.M.: O PNE compromete seriamente um ensino público, gratuito, universal, laico, unitário e de qualidade social, como dever do Estado e direito universal. Ele dilui o dever do Estado na garantia do direito à Educação Pública institucionalizando as Parcerias Público Privadas (PPP’s). Dois princípios norteiam nossa visão a respeito. Primeiro, o aumento dos recursos destinados à educação não pode ser uma moeda de troca para a privatização da exploração do petróleo no Brasil. Segundo, os recursos públicos não podem ser dirigidos para o benefício de instituições privadas, as verbas públicas devem ser destinadas a universidades e centros de pesquisa públicos e estatais. O caminho adotado pelo governo viola esses dois princípios. O PNE prevê a destinação de recursos públicos para empresas privadas de ensino. Consolida, assim, a política do governo federal, o qual destinou recentemente R$ 5 bilhões para o Fundo de Financiamento Estudantil, destinado a socorrer as instituições privadas de ensino. O esvaziamento dos recursos destinados ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico é a contrapartida dessa política privatista. Desse modo, a recomposição desse fundo passa pelo fim do financiamento público às instituições privadas, as quais reconhecidamente tem uma participação irrelevante na produção de novos conhecimentos, e pela destinação de 2% do PIB para C&T.

Regulamentação do Lato Sensu


ANPG: A expansão do número de formados no ensino superior ampliou as expectativas do mercado sobre as especializações como fator de diferenciação. A proliferação de cursos de especialização aconteceu sem qualquer tipo de regulamentação por parte do governo. Qual sua proposta para regulamentação do ensino superior?

Z.M.: O sistema nacional de ensino superior deve ser completamente público e gratuito. Seu objetivo deve ser a formação intelectual e profissional de nossa juventude e o combate às desigualdades sociais. As instituições particulares de ensino estão orientadas pelo lucro. Não tem outro propósito. É por essa razão que o ensino nessas instituições é geralmente de má qualidade e que a pesquisa feita nelas praticamente inexiste. A regulamentação dessas instituições particulares tem se revelado ineficaz. As recorrentes fraudes nos sistemas de avaliação e as artimanhas inventadas para elevar artificialmente os conceitos obtidos por essas instituições mostram que se trata de um beco sem saída. O ensino superior, e isto inclui o sistema de pós-graduação, deve ser completamente público e estatal. Esse é o começo de toda e qualquer regulamentação eficaz e de um planejamento consistente, que permita expandir o ensino e pesquisa onde as carências são maiores. A regulamentação do ensino superior deve ser parte de uma política de expansão com qualidade. Ela deve ser sensível às desigualdades regionais e as diferentes demandas das comunidades locais, garantindo padrões de qualidade e a relevância social das instituições. As instituições de ensino superior devem estar mais próximas do povo trabalhador e não podem estar subordinadas às necessidades imediatas do mercado ou subordinada a polícias clientelistas, como até o momento.

CsF


ANPG: O programa Ciências sem Fronteiras é uma forte aposta no intercâmbio acadêmico com outros países. Qual sua opinião sobre o programa? Como resolver a contradição de oferecer bolsas de estudo para estudantes no exterior enquanto este benefício não está universalizado nas Universidades brasileiras?

Z.M.: A universidade brasileira precisa se internacionalizar. Ela deve estar atenta ao que está ocorrendo no mundo, precisa trocar experiências com instituições de pesquisa de outros países. Não é possível produzir conhecimento inovador encerrado em um casulo. Por isso o intercâmbio acadêmico de estudantes, professores e pesquisadores com outros países é muito importante. Mas se o cobertor é curto uma parte vai ficar de fora. Enquanto as verbas para a educação continuarem a ser drenadas para pagar a dívida pública, esse cobertor continuará curto. Oferecer bolsas de estudo no exterior sem um aumento considerável das bolsas de estudo no Brasil é um absurdo. Mas é um absurdo perfeitamente compreensível, embora não justificável. O governo fez uma opção errada, uma opção preferencial pelos banqueiros.

Bolsas de pesquisa: natureza, concessão e valorização


ANPG: O desenvolvimento econômico dos últimos anos elevou os salários de recursos humanos especializados. O mercado, através do pagamento de altos salários, passou a competir pelos melhores profissionais com a academia e a carreira cientifica, que oferece pífias bolsas de estudo ao passo que exige dedicação exclusiva. Em um futuro e eventual governo, como pretende lidar com o problema da falta de valorização das bolsas de pesquisa? Existe alguma outra proposta para manter o interesse de jovens profissionais na carreira acadêmica?

Z.M.: A solução passa por uma política de valorização da pesquisa científica e da atividade docente, ou seja, valorização das bolsas e salários dos pesquisadores e docentes. Sem condições de uma permanência digna na universidade durante a formação e sem perspectivas profissionais razoáveis não conseguiremos segurar jovens promissores nas instituições de ensino superior. É preciso lembrar que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva acabou com um dos poucos atrativos da carreira docente, o direito à aposentadoria integral. Isso precisa ser revertido imediatamente. O Brasil não está perdendo talentos só para as grandes corporações. Está perdendo, também, para instituições de ensino e pesquisa no exterior.

ANPG: As bolsas de pesquisa, ofertadas pela CAPES e CNPq, sofreram forte desvalorização se comparadas com o salário mínimo nos últimos dez anos. Qual sua proposta para reverter essa tendência?

Z.M.: As bolsas de pesquisa precisam ser reajustadas imediatamente recuperando suas perdas históricas e é preciso definir uma política de reajuste automático de acordo com a inflação. Atualmente esses reajustes dependem da vontade arbitrária das agências de fomento.

ANPG: O que o sr. pensa sobre o acúmulo entre bolsa de pesquisa e vínculo empregatício?

Z.M.: Só se justifica se a atividade laboral tiver um número restrito de horas semanais, estiver diretamente associada às atividades de ensino e pesquisa e não implicar na precarização do trabalho do docente e do pesquisador.

Direitos dos pós-graduandos


ANPG: O pós-graduando ocupa uma função social híbrida. Ao mesmo tempo que é um estudante, é também um trabalhador, de quem se exige um produto (dissertação ou tese). Se esse produto não for entregue o pós-graduando bolsista pode ser acionado judicialmente para que o Estado receba de volta o valor pago a título de bolsas, afastando a interpretação de que a bolsa é um mero auxílio ou apoio assistencial. A ANPG tem se dedicado a debater as condições de trabalho dos pós graduandos. Qual sua opinião a respeito? Quais direitos devem ser garantidos? Como viabilizar essa demanda?

Z.M.: De maneira cada vez mais nítida estudantes de pós-graduação têm se tornado trabalhadores precários. Não se exige deles apenas um produto final. Trabalham cotidianamente em laboratórios e centros de pesquisa, muitas vezes participam de atividades pedagógicas e auxiliam na formação de colegas mais jovens. Essa precarização do trabalho intelectual tem que acabar. Eu defendo que os pós-graduandos tenham seus direitos trabalhistas assegurados, dentre eles, evidentemente, a seguridade social, a licença maternidade, férias e décimo-terceiro.

Da redação

O presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Jorge Almeida Guimarães, apresentou, no simpósio internacional Excelência no Ensino Superior, realizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro, em 22 de setembro, uma proposta para contratação de docentes para instituições federais de ensino superior (Ifes) por meio de Organizações Sociais (OS), que seriam criadas pelo MEC (Ministério da Educação) e MCTI (Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação). “Essa proposta está bem no começo, mas o ministro José Henrique Paim nos autorizou a avançar nisso e estamos trabalhando junto com a academia, o IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) e outros que têm mais experiência nisso”, explicou Guimarães na ocasião. 

Neste modelo proposto pela CAPES, os professores e pesquisadores seriam contratados de forma autônoma pelas instituições de ensino, e não passariam mais por concursos públicos, como é feito atualmente. Seriam regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que não prevê, por exemplo, dedicação exclusiva.

De acordo com Guimarães o plano funcionaria mais ou menos assim: o MEC ou a OS perguntaria à universidade sobre quantos setores gostaria de potencializar e com que perfil de pessoas, valendo para estrangeiros e brasileiros também. Ele criticou o modelo de contrato Regime Jurídico Único (RJU), que é para 30 anos. Esta proposta viabilizaria atrair docentes estrangeiros às universidades brasileiras – o que internacionalizaria as instituições.

“Não há outra forma de contratar, mais segura, pois seria CLT [Consolidação das Leis do Trabalho]. Já o contrato que hoje as universidades fazem no chamado Regime Jurídico único é para 30 anos, ninguém é mandado embora. Eu não conheço um caso assim. Então, não está funcionando e o governo já deveria ter feito isso. Para dar um exemplo simples, a Embrapa usa o sistema da CLT e é excelente, no IMPA [Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada] como OS quase todo mundo já é CLT. Então, o modelo está funcionando, podemos levar isso às universidades”, afirmou.

Polêmica

Para a Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) critica a proposta da CAPES, dizendo que o esta ação é uma terceirização do trabalho. Segundo publicação no site deles, este plano da CAPES se vale da “argumentação falaciosa de que o Regime Jurídico Único (RJU) contrata professores por 30 anos e não manda ninguém embora, e de que a OS garantiria e facilitaria a contratação de grandes pesquisadores estrangeiros”.

Paulo Rizzo, presidente do ANDES-SN, critica as declarações do representante da Capes.“Essa proposta agride o processo democrático de seleção de professores por meio de concursos públicos. Também agride a autonomia universitária, pois tira das mãos da universidade o controle do processo de seleção de seus docentes”, ressalta.

Respondendo à afirmação de Jorge Guimarães de que os concursos públicos para professores são “um jogo de cartas marcadas”, Paulo Rizzo defende novamente a autonomia universitária. “Na verdade eles querem, via OS, fazer um jogo de cartas marcadas. Ao invés do concurso com regras claras, definidas por cada instituição, com pontos e bancas definidos pelos colegiados de departamento, com direito de recursos aos candidatos, querem a escolha pela gerência de uma OS. Quem disse que a gerência não será corporativista? Quem escolherá os melhores quadros?”, questiona Rizzo.

Da redação com informações da EBC e Andes