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A Associação Nacional de Pós-Graduandos repudia as intenções do presidente Jair Bolsonaro e seu Ministro da Educação, Abraham Weintraub, em “descentralizar investimentos em faculdades de filosofia e sociologia (humanas)” com a justificativa que essas áreas não dão retorno imediato e melhorias para a sociedade.
Esse posicionamento além de parecer uma tentativa de reviver os anos de banimento dessas ciências do arcabouço educacional brasileiro durante a ditadura militar, demonstra a não compreensão do governo federal sobre a realidade do país e seus desafios assim como desconhecimento sobre os impactos das ciências humanas e suas tecnologias na vida cotidiana da população.
As ciências humanas têm atuado e são responsáveis diretamente pela indução das transformações sociais e econômicas no Brasil ao longo do século passado e do início deste. Não é possível pensar um projeto nacional, com desenvolvimento industrial, tecnológico, geração de emprego e qualidade de políticas pública em qualquer área, sem o arcabouço científico das humanidades. Nada disso é possível, sem conhecimento profundo das origens da nossa formação econômico-social, através da História, dos desafios brasileiros de superação do subdesenvolvimento, da miséria, do analfabetismo, da desnutrição infantil, da carências do envelhecimento num país como o nosso, sem o auxílio das ciências sociais, econômicas, dentre outras.
Muito além disso, é fundamental resgatar que a origem das reflexões sobre relação entre o homem e a natureza, que se traduziram em fórmulas matemáticas e físicas, são antes de tudo, questionamentos filosóficos, sendo a Filosofia a grande estrutura basilar de todas as ciências.
Sendo assim, como seria possível pensar em avanços na medicina sem conhecermos a sociedade em que se manifestam os processos de saúde-doença, tais como no surto do Zika Vírus em 2012? Como enfrentar os desafios da urbanização do país com a engenharia e arquitetura sem conhecer os processos que levaram a formação das cidades brasileiras que estão submersas com problemas de mobilidade, moradia e “desastres naturais”? Como elaborar um projeto nacional de retomada do desenvolvimento brasileiro, com geração de emprego e renda, sem conhecimentos da história de nossas instituições e da industrialização?

Os investimentos na Ciências devem ocorrer de forma equilibrada em todas as suas áreas, já que se trata de conhecimentos complementares, e apenas juntos, são capazes de responder aos desafios brasileiros de superação da recessão econômica, do desemprego, da volta do Brasil ao mapa mundial da fome, do controle de epidemias, da fuga de cérebros e aprofundamento das desigualdades sociais.
O discurso de Bolsonaro e sua equipe da educação é mais uma demonstração do completo despreparo para lidar com toda complexidade de se governar um país com o tamanho e a dimensão do nosso. Mais do que isso, é um projeto que visa colocar o Brasil novamente numa condição subalterna no mundo. Evidencia não apenas sua inépcia em reverter o sucateamento da ciência e da educação, como coloca suas obsessões particulares do “fantasma doutrinador da esquerda” acima dos interesses nacionais.

Neste sentido, a ANPG, entidade representativa dos pós-graduandos no Brasil, se contrapõe com veemência a qualquer medida que vise o desestímulo e a perseguição às Ciências Humanas, e a retomada da Censura no país.

 

São Paulo, 30 de Abril de 2019
Associação Nacional de Pós-graduandos

Em meio à programação do II Encontro de Jovens Cientistas Negros e Negras da ANPG, foi realizada também a Conferência Livre de Saúde da Juventude Negra e Quilombola, etapa preparatória para firmar a participação dos pós-graduandos na 16ª Conferência Nacional de Saúde. A CNS será realizada em Brasília, entre os dias 4 e 7 de agosto.

Foi um dia inteiro de debates sobre questões candentes que impactam a vida dessa parcela da população. As mesas abordaram temas como o racismo estrutural e saúde, vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis, violência, mortalidade e saúde mental.

Manuelle Matias, enfermeira e vice-presidenta da ANPG, considera importante ter uma delegação de pós-graduandos na Conferência Nacional de Saúde para travar o embate em defesa do Sistema Único de Saúde. “O desmonte da política pública de saúde está muito acelerado, a gente vê uma política muito exitosa como o SUS sendo desmontado dia a dia e quem mais sofre com o desmonte das políticas públicas são os negros, a juventude negra, que são maioria entre os assistidos pelo sistema e a corda mais fraca dele”, diz.

Ela apresentou estatísticas devastadoras para quem ainda considera “vitimismo” a abordagem de especificidades que atingem determinadas parcelas da população. “A gente tem estatísticas que comprovam que o maior índice de suicídio é entre a juventude negra, a cada 10 suicídios de jovens, 6 são negros. Também tem o alto índice de doenças infecciosas, DST/AIDS, o alto índice de violência obstétrica nas mulheres negras, menor anestesia em procedimentos médicos. Daí a importância de um encontro nacional como este abordar esses temas”.

Fernanda Garrides, 1ª diretora de saúde da ANPG, disse que as atividades da conferência livre foram pensadas a partir do entendimento do racismo como causa social fundamental das desigualdades em saúde, já que os negros são maioria em funções no mercado de trabalho com baixos rendimentos e grande exposição a fatores de risco. “Alguns indicadores indicam a desvantagem da população negra [nas desigualdades em saúde], que apresenta menor expectativa de vida, maior mortalidade prematura, maior adoecimento por doenças infecciosas e maior prevalência de doenças crônicas”, alega.

Esse quadro, que já é grave, se manifesta de forma ainda mais efetiva no que tange à mulher negra. “O racismo coloca negros em pior situação na estrutura social, mas os modelos que mantêm o poder social da masculinidade e dos homens vão produzir subordinação, violência e inferiorização diferenciadas para as mulheres negras. São ela

Foi instalada, nesta terça-feira, na Assembleia Legislativa de São Paulo, a CPI das Universidades Públicas. O escopo da investigação é o orçamento das três instituições de ensino superior do estado – USP, Unesp e Unicamp – e a aplicação desses recursos, vinculados ao repasse de 9,57% do ICMS, projetados em 9 bilhões de reais em 2019.

Com domínio do PSDB no governo estadual nos últimos 24 anos, a Alesp tem tradição de ser uma casa dócil ao poder executivo. Durante décadas a oposição, notadamente as bancadas de partidos de esquerda, lutaram para implantar comissões de inquérito para investigar denúncias de desvios no Metrô, na Dersa e outras empresas públicas, nos pedágios, nas merendas escolares e uma infinidade de temas indesejados ao poder estadual.

Ficaram na saudade. A blindagem da tropa de choque governista sempre teve sucesso na tática de protocolar as CPIs “água com açúcar”, sobre temas irrelevantes para o Palácio dos Bandeirantes, como a da gordura trans ou das autopeças, instaladas apenas para evitar as mais espinhosas, porque o regimento interno da casa só permite o funcionamento de 5 comissões ao mesmo tempo.

O que houve, então, para que neste início de governo João Dória fosse possível investigar tema tão relevante como as maiores universidades estaduais do país? Ao que tudo indica, a Inquisição que o governo federal visa dirigir contra a academia e aquilo que chamam de “doutrinação ideológica” ganhou, em São Paulo, um empurrãozinho: a aliança do ultraliberalismo de legendas como o Novo e o obscurantismo representado pelo PSL e setores radicalizados da bancada evangélica.

Aliança obscurantismo-ultraliberalismo

Logo após a sessão inaugural, o presidente eleito da comissão, o deputado Wellington Moura (PRB) concedeu entrevista e disse que, embora a investigação tenha um escopo, outros temas podem ser explorados, como novas formas de eleição e indicação dos reitores e até mesmo a cobrança de mensalidades nas universidades. A intenção manifestada, contudo, além de extrapolar o objeto da CPI, é também um atentado contra a autonomia universitária, prevista no artigo 207 da Constituição Federal.

Para a presidente da ANPG, está em curso no país uma escalada autoritária que tem como um de seus principais alvos a academia. “Temos visto o crescimento de uma onda de perseguições contra professores, cientistas e a comunidade acadêmica em geral. As forças ultraconservadoras sabem que a universidade livre representa um enclave de resistência contra o projeto autoritário e antissocial que querem impor ao país”, afirma.

O embate na comissão vai ser acirrado, caso a base evangélica e o bolsonarismo optem por esse caminho. “Aqui a gente não vai permitir perseguição com vínculo partidário, que queiram diminuir os professores, essa história de taxar que tem ideologia disso e daquilo. Se perceber que tem isso, nós vamos pra cima”, garante a deputada estadual Leci Brandão, do PCdoB.

Desmoralizar e enfraquecer para privatizar

Desejo antigo de grandes grupos privados de educação e do capital financeiro, a privatização das universidades públicas parece ser o amálgama que une os ultraliberais ao conservadorismo neopentecostal. Com efeito, o deputado Daniel José, do Novo, é autor do projeto que visa a cobrança de mensalidades nas universidades públicas. “O conceito de universidade pública, gratuita e estatal deveria deixar de existir”, argumentou o parlamentar em recente entrevista ao jornal Estadão.

Os argumentos privatistas do Novo, que visam acabar com a gratuidade das estaduais e abrir imenso filão ao setor empresarial, cheiram a naftalina. As universidades públicas, além de custarem muito caro e dispenderem muito com professores e servidores de carreira, ao fim seriam frequentadas pelos filhos da elite, que podem pagar. Tal ideia, é claro, não leva em conta que a privatização sepultaria de vez a chance de estudantes pobres acessarem o ensino superior e ignora o papel estratégico da universidade pública na produção de pesquisas essenciais para o desenvolvimento do país e para o bem-estar da população, como as vacinas e fármacos, por exemplo.

Leci Brandão não tem dúvidas: “o pano de fundo da CPI é privatizar as universidades”, sustenta. “O pessoal fala de salários de professores, de gastos, mas existe auditoria, as contas são aprovadas. Agora mesmo, a casa (Assembleia) está parada porque o Dória o PL 01, com as empresas (estatais) que quer acabar”, diz a parlamentar comunista, apontando a conexão entre os movimentos.

A presidenta da ANPG concorda que a ambição de privatizar as universidades é o que move muitos setores que hoje atacam a academia. “Querem estigmatizar o pensamento crítico e a pluralidade de opiniões existentes no ambiente acadêmico, desmoralizar a universidade pública e atacar sua autonomia para, ao fim, privatizá-la”, aponta Flávia Calé.

A sociedade deve pressionar contra os retrocessos

Já na instalação da comissão, os movimentos estudantil e sindical ligados às universidades compareceram à sessão, mostrando que a sociedade organizada está antenada aos debates e mobilizada para evitar retrocessos. Dadas as demonstrações do presidente da CPI e a composição atual da Assembleia Legislativa, a pressão será mesmo necessária.

“Eu tenho que estar lá para defender a universidade, os estudantes. Eu, a Bebel (deputada e presidenta da Apeoesp) e Caruso estamos nessa caminhada. Os movimentos têm que vir para cá, fazer pressão mesmo. Só na pressão essa gente vai entender que eles não vão ficar no poder para sempre. O país tem dono e o dono é o povo”, conclui a deputada Leci.

De São Paulo, Fernando Borgonovi

Foto – karla Boughoff

Confira as os planos de saúde Hapvida

 

Por Cristiano da Silva Paiva*
*Especialista em Desenvolvimento, Etinicidade e Políticas Públicas na Amazônia – IFAM,
Mestrando em geografia – UFAM e Presidente da APG UFAM

UMA PAUTA, DUAS CAUSAS – DEFENDER A AMAZÔNIA É RESGUARDAR A SOBERANIA NACIONAL

Cem dias de governo, pouca ação e muita preocupação. Assim avalio o início de mandato do atual presidente, Jair Bolsonaro (PSL). Para exemplificar, gostaria de falar sobre a Ciência e Tecnologia no país (que deve parar em meados deste ano, vide a falta de orçamento) e as declarações sobre a entrega da Amazônia para exploração pelos Estados Unidos. Como estes temas se correlacionam? Quais as variáveis deste tipo de política? A cobiça de potências estrangeiras pela Amazônia Legal não é nenhuma surpresa. Desde o século XVII seus exploradores e pesquisadores documentam os encantos e as potencialidades da imensidão amazônica que era até então, considerada o refúgio do El dourado. Além disso, sua extensão territorial é de grande valor e ocupa 61% do território brasileiro, o equivalente à metade do continente europeu. A região faz fronteira com Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela. É evidente para todos a exorbitante importância de suas bacias hidrográficas não apenas para o mundo, mas para o Brasil de forma mais restrita, uma vez que 80% da água disponível no país está na Região Amazônica, e o restante distribui-se desigualmente para o consumo de 95% da população. Em sentido amplo 8% de toda a água doce do planeta está concentrada em nosso país. O rio Amazonas é o soberano da Terra em volume de água e possui um quinto da água doce do planeta. A região ainda possui o recém descoberto, aquífero de Guarani e ao que consta possui maior volume de água que o próprio rio Amazonas. Segundo avaliações da ONU, o século 21 será marcado por graves conflitos entre as nações, com origem numa única causa: a escassez de água potável.

O interesse pela Amazônia é tamanho ao ponto de os Estados Unidos institucionalizar um acordo de cooperação em ciência e tecnologia denominado LBA – Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia voltado especificamente para as geociências e, em especial, à ecologia, no qual o mesmo é executado em conjunto com a NASA! Apesar do projeto ser liderado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais; o envolvimento da NASA no projeto é suficiente para demonstrar o grande significado geopolítico e ambiental da Amazônia.

Entretanto, o recente rombo de 300 milhões nas contas da C&T, a desvalorização do papel do cientista e da educação no atual governo coloca em risco o desenvolvimento da região, de projetos e das agencias ministeriais. Fica evidente que a Amazônia, sem capacidade de absorver ou gerar tecnologias, colocará em risco a sua soberania, pois estará fadada a viver na pobreza, sem condições de promover o seu desenvolvimento.

Em 2005 o Senado Federal aprovou um relatório intitulado “A QUESTÃO
GEOPOLÍTICA DA AMAZÔNIA” o qual suas mais de quinhentas páginas certamente, nunca
foram lidas pelo presidente ou seus ministros. Este já apontava que “o apoio dos países ricos,
na qualidade de fornecedores de tecnologia e certamente de capitais, implicará, evidentemente,
que a região tenha de sofrer sérias restrições a sua soberania”, afinal esses países jamais
poderão maximizar seus investimentos na Amazônia sem disporem de ampla liberdade de
atuação, o que levará, necessariamente, à maximização das restrições à soberania nacional sobre
a Região.

A Amazônia deveria ser o encanto nacional. Nossa economia de vanguarda poderia ser
facilmente desenvolvida pela biotecnologia aperfeiçoando a tecnologia de energias alternativas
como a biomassa. É indispensável também, mencionar que não fossem as riquezas encontradas
na Amazônia a medicina moderna não seria a mesma. A tecnologia química e farmacêutica, via
conhecimento tradicional das populações que aqui vivem, são constantemente biopirateadas
para o estrangeiro pelos grupos fortes economicamente, detentores de tecnologias, que
ingressam na região das mais diversas maneiras à procura desses produtos. Depois
industrializam e revendem para nós mesmos com valores infinitamente altos.
A cidade de Manaus possui mais da metade da população do estado do Amazonas, já é
responsável por 8% da capacidade industrial do país e poderia ser potencializada como um
grande eixo desse desenvolvimento. Outra estratégia de ação indispensável para defesa da
soberania da Amazônia é o fortalecimento institucional dos órgãos de poder público que atuam
na Região. Preliminarmente, das agências federais, como SUDAM, BASA, Museu Goeldi,
INPA, EMBRAPA, FUNASA e as agências ministeriais.

Por fim, acredito que o grande problema destas questões no que tange ao atual governo,
está no fato que soberania e democracia são faces de uma mesma moeda. Isto meus caros, não
é nem de longe o forte destes que estão no poder!

 

*As opiniões aqui reproduzidas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião da entidade.

Fonte da imagem: http://agriculturaconsciente.com.br/amazonia-precisa-de-pesquisa-cientifica-para-sua-protecao-e-manejo-sustentavel/

No sábado, a programação do II Encontro de Jovens Cientistas Negros e Negras da ANPG teve um de seus debates mais prestigiados, tratando sobre “O epistemicídio do pensamento negro”. Participaram da mesa, que foi mediada por Flávio Franco, secretário-geral da ANPG, o professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), Gabriel Nascimento; a mestranda da UFMG Dandara Tonantzin e Gabriel Gaspar, jornalista que fez mestrado sobre a história de Zumbi dos Palmares.

Flávio Franco, secretário-geral da ANPG , II Encontro de Jovens Cientistas Negros e Negras, O epistemicídio do pensamento negro

“Epistemicídio” é um conceito, elaborado pelo professor português Boaventura de Souza Santos, que trata da destruição de formas de conhecimento e culturas que não são assimiladas pela cultura do Ocidente branco.

Gabriel Nascimento – Professor, II Encontro de Jovens Cientistas Negros e Negras, O epistemicídio do pensamento negro

O professor Gabriel Nascimento apresentou uma crítica ao pensamento humanista, que hoje vive uma crise com a ascensão de governantes autoritários. Para ele, tal conceito separou a Humanidade: “o humanismo do Ocidente criou uns como humanos e outros como animais”.

Mas, ao falar da atual conjuntura, Gabriel disse que o momento atual exige a defesa até mesmo desse conceito, pois o fascismo volta a emergir. “A era do humanismo está acabando e quem acabou com ele não foi o negro. Quem acabou com o humanismo foram os fascistas neoliberais brancos, Donald Trump nos EUA, Jair Bolsonaro no Brasil, os partidos de extrema direita na Europa. Então, o humanismo está sendo terminado pelas mesmas mãos brancas que secularmente criaram os modelos de escravização e colonialismo no mundo inteiro”.

Gabriel Gaspar – Jornalista, II Encontro de Jovens Cientistas Negros e Negras, O epistemicídio do pensamento negro

O jornalista Gabriel Gaspar questionou se o heroísmo mítico criado entorno da figura de Zumbi não é uma forma de epistemicídio, já que este foi transformado em uma “espécie de Che Guevara negro”.

Para tanto, lembrou que o autor gaúcho Décio Freitas narra uma suposta infância cristã de Zumbi, que teria sido criado por um padre, representação da cultura do opressor, e depois retornaria para liderar os oprimidos. “Ao inserir Zumbi nesse padrão ocidental branco, não seria um marco de epistemicídio? Ainda que o objetivo dela seja criar um herói negro universal, que luta até as últimas consequências pela liberdade, isso continua sendo um epistemicídio?”, indagou.

Gaspar também problematizou se os marcos teóricos desenvolvidos na academia atualmente conseguem superar os conceitos liberais. “Será que os conceitos que temos desenvolvido academicamente estão à altura dos desafios contemporâneos? Lugar de fala, empoderamento, apropriação cultural, acho que esses conceitos não tem a consistência teórica necessária para ultrapassar a logica liberal da representatividade. Dependem de um limite teórico que é a propriedade privada”, analisou.

Dandara Tonantzin, II Encontro de Jovens Cientistas Negros e Negras, O epistemicídio do pensamento negro

Dandara Tonantzin abordou a experiência histórica dos negros na academia, que, a seu ver, tem os componentes da estigmatização e da exclusão, mas também da resistência e da superação. “É importante a gente entender o racismo institucional, as formas pelas quais opera para legitimar esse discurso que nos retira desse lugar de protagonismo”.

Para ela, há um ponto de contato entre o epistemicídio negro nas universidades e o desmonte de políticas públicas democratizantes do acesso e da permanência, pois existe uma forma não oficial, mas efetiva, de afastar os negros da academia em razão de um suposto perfil de “estudante ideal” associada a obstáculos econômicos que dificultam a popularização das universidades. “Pensar o epistemicídio é pensar para além da morte simbólica das nossas produções, mas pensar naquilo que está nos matando cotidianamente a ponto de nos fazer evadir da universidade, que não estamos conseguindo concluir nossos cursos porque estão, por exemplo, esvaziando o PNAES, o Plano Nacional de Assistência Estudantil, cortando bolsas”, avaliou.

O II Encontro de Jovens Cientistas Negros e Negras da ANPG somou os pós-graduandos na resistência unitária dos movimentos sociais contra a ofensiva conservadora no país. No mesa sobre conjuntura política, os representantes da UNPG, UNE, Unegro, Levante Popular da Juventude, RUA e parlamentares do campo progressista apontaram que a situação exige unidade de trabalhadores, estudantes e academia para impedir que os retrocessos se imponham em todas as áreas.

Para Verônica Lima, primeira mulher negra eleita na cidade de Niterói, amplos setores precisam se aglutinar para responder e derrotar o obscurantismo que emerge atualmente. “Precisamos de uma unidade ampla, porque nossos inimigos podem ter diferenças, mas eles têm unidade no programa que querem implantar no Brasil. Se eles têm unidade, temos que responder com a nossa, e não só para resistência, mas também para acumular força e reverter esse processo”, disse.

Dani Monteiro, eleita a mulher mais jovem deputada estadual da ALERJ, considerou que o atraso do Brasil em sua inserção econômica faz parte do projeto dos países ricos para manter a dependência de uma das maiores economias do mundo. “O que determina o preço do café não é o custo da mão de obra. É a empresa que domina a cadeia produtiva e define, compra o café aqui a vinte centavos e vende na Europa a 40 euros. É o processo do Brasil de extração de comodities que ainda existe no mundo globalizado”.

O discurso de ódio que tem ganhado peso e influência política na sociedade é resultado do esgotamento dos padrões da democracia liberal em tempos de crise do sistema capitalista, na opinião Thais Carvalho “A democracia liberal tornou-se inconciliável com o capitalismo. A “nova direita” canalizou o ódio para, ao invés de as pessoas serem contra o sistema, serem contra o outro. “O problema da luta das mulheres é que elas pegam um vagão para elas na hora que os trabalhadores estão voltando”, ironiza. Mas salienta que isso também é fruto da força que os movimentos sociais e as lutas contra hegemônicas ganharam no último período: “a reação da nova direita também é porque a gente é a juventude que foi pra universidade, que saiu do armário e não volta mais, que não vai largar nosso território”, conclui.

O II Encontro de Jovens Cientistas Negros e Negras da ANPG continua no domingo e deve aprovar propostas da entidade para a democratização da pós-graduação, entre eles a luta pela adoção da política de cotas.

Baixe a Cartilha do 2º Encontro de Cientistas Negros da ANPG

 

Passaram-se 15 anos desde que a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) realizou o primeiro processo de seleção com as chamadas “cotas raciais”, reservando parte das vagas para vestibulandos negros e negras.

A atitude pioneira da UERJ atendia a reivindicação antiga do movimento estudantil, mas só logrou virar política pública nacional, abrangendo universidades e institutos federais, a partir de 2012, com a Lei 12.711 sancionada pela presidenta Dilma Rousseff.

A expansão do ensino superior público, as políticas de financiamento estudantil e as políticas afirmativas de reparação histórica promoveram um importante processo de democratização do acesso à universidade no país. Segundo o IBGE, o número negros e pardos entre 18 e 24 anos a frequentar cursos de nível superior quase dobrou entre 2005 e 2015, saltando de 5,5% para 12,8%.

A ampliação da presença de negros e negras na graduação também se refletiu na pós-graduação. Os dados da PNAD mostram que os mestrandos e doutorandos negros aumentaram de 48 mil para 112 mil entre 2001 e 2016, feito que poderia ser ainda maior se vigorasse uma política de cotas para a pós-graduação.

Mesmo com os avanços do último período, a atualidade das políticas afirmativas se revela diante do quadro de que os negros ainda são apenas 28% entre os pós-graduandos. “Temos entorno de 12 anos de políticas de ações afirmativas no âmbito da graduação e, ainda assim, a pós-graduação se constitui num espaço de privilégios e reprodução da estrutura racista que existe na sociedade brasileira”, diz Flávio Franco, estudante da Unicamp e secretário-geral da Associação Nacional de Pós-Graduandos.

Para alterar essa situação, desde 2014 a entidade vem pautando a necessidade de introduzir a política de cotas também para as vagas de mestrado e doutorado nas universidades públicas. “A ANPG vem fazendo uma grande movimentação, discutindo com pró-reitorias, com o GT Social da Capes no sentido de ocupação de negros e negras em todo o processo de desenvolvimento tecnológico, científico da produção dos conhecimentos e dos saberes existentes na universidade”, assegura Flávio.

O II Encontro de Jovens Cientistas Negros e Negras será realizado momento histórico em que são comemorados 15 anos do início dessa experiência exitosa que tem mudado o perfil da universidade, mas também num contexto de resistência dos movimentos sociais contra os retrocessos representados pelo governo Bolsonaro. “É um momento de balanço positivo desses 15 anos, mas principalmente de lutas contra os ataques e tentativas de retrocessos nas políticas afirmativas vindos de um governo autoritário. As dificuldades do presente devem despertar ainda mais a luta pela garantia da liberdade e a democracia no ambiente acadêmico. Por isso, a ANPG reafirmará sua disposição de conquistar as cotas na pós-graduação”, aponta Vinicius Soares, diretor de Comunicação da entidade.

 

Antônio Etevaldo Teixeira Junior
Ulisses Carlos Silva Ferreira Silva
Doutorandos em População, Território e Estatísticas Públicas na ENCE/IBGE

Os Levantamentos populacionais são realizados no país desde 1892. A partir da fundação do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1938, que assumiu a responsabilidade pela
condução da operação censitária, o censo demográfico vem sendo realizado decenalmente 1 .
Ao longo desse período o Censo passou por várias modificações, sempre no sentido de
introduzir as metodologias mais apropriadas, sejam elas em relação: à qualidade do dado coletado, às
técnicas de amostragem; aos métodos de coleta utilizados na operação. Dessa forma, a operação
censitária realizada no Brasil se tornou referência para muitos países.
Seus dados são utilizados para os mais diversos fins, servindo de referência para:
– o repasse de verbas federais para cada um dos municípios brasileiros, por meio do
Fundo de Participação dos Municípios (FPM);
– mensurar os contingentes populacionais por idade e sexo, de forma a permitir a
implementação das mais diversas políticas públicas, com destaque para aquelas
relacionas a saúde e educação e servir de referência para a produção das estimativas
populacionais;
– o planejamento das pesquisas amostrais, sejam elas do IBGE, de outros órgãos
produtores de estatísticas oficiais ou dos mais diversos institutos privados de pesquisa.
Diariamente as pesquisas que o IBGE realiza são utilizadas pela sociedade, seja a imprensa
para divulgar dados sobre o desemprego, a desigualdade e o perfil sócio demográfico da nossa
população ou através de análises realizadas por pesquisadores, estudantes, governantes e gestores
sobre os mais diversos assuntos. Esses dados contribuem não apenas para ter um retrato do Brasil,
mas também são importantes para avaliar e planejar políticas públicas.
Os dados provenientes de sua amostra são a única fonte de informação existente no país em
nível municipal para temas como mercado de trabalho (considerando o emprego não-formal),
mobilidade urbana, migração, nível de instrução, entre outros.
Reduzir a quantidade de perguntas no Censo, com o objetivo de reduzir os custos da
operação, além de ser uma medida questionável sob a ótica de sua eficiência, eficácia e efetividade,

1 Exceto em 1991, durante o governo Fernando Collor de Melo.

significa lançar mão de informações sobre temas tão importantes para o desenvolvimento de um país,
justamente em um momento em que o nosso ministro da Economia, ao qual o IBGE está subordinado,
se diz tão preocupado com os jovens e com o futuro do país. Abrir mão dessas informações no nível
municipal acaba por dificultar demasiadamente o planejamento de políticas públicas para os 5.570
municípios brasileiros, principalmente para aqueles que mais pobres e/ou pequenos, ou seja, a
grande maioria dos municípios brasileiros, pois estes terão muita dificuldade para gerar dados sobre
temas tão importantes para o planejamento público, seja por falta de recursos, seja pela falta de
capacitação técnica para conduzir operações para coletar esses dados.
Desse modo, a realização de um Censo Demográfico nessas proporções traz benefícios
imensuráveis ao país, pois o primeiro passo para conseguir superar problemas históricos como a
desigualdade é conhecer a nossa realidade, objetivo esse que o levantamento consegue fazer de uma
forma que é referência e respeitada pelo mundo.

A internacionalização da educação superior é um dado da realidade atual em todo o planeta. Inúmeras iniciativas tem sido geradas no sentido de integrar os sistemas universitários de distintas regiões do globo. Desde a Reforma de Córdoba, levada adiante pelos estudantes argentinos no ano de 1918, pautamos a necessidade de uma educação à serviço da integração regional. O feito dos estudantes do país vizinho repercutiu em todo o planeta e fora uma referência para movimentos importantes como o Maio de 1968 na França. Ao mesmo tempo, marca os debates quanto a paridade, extensão e atualização dos currículos no dia a dia das universidades de todo o mundo.

Com o avanço das políticas de integração da América Latina que redundaram no fortalecimento do Mercosul, na criação da ALBA, UNASUL, CELAC, BRICS, entre outros o papel da educação nesse processo passou a ocupar espaço de destaque. Entre as iniciativas desenvolvidas, ressaltamos a criação da UNILA, UNILAB, projetos de reconhecimento de estudos e diplomas, programas de mobilidade acadêmica, etc. Pode-se destacar também a reativação do FOCEM (Fundo para a Convergência Estrutural do MERCOSUL) como instrumento para promover o trânsito de estudantes, professores, servidores e dirigentes de nossos países. Da mesma forma, merece destaque as propostas de criação do Espaço Latino-americano e Caribenho de Educação Superior (ELACES) cujo propósito consiste na integração dos sistemas universitários da região.

As políticas de integração construídas ao longo das últimas décadas, no eixo sul-sul devem ser preservadas e fortalecidas. Estreitar laços com a produção científica e acadêmica do Continente Africano, assim como Asiático e os países do Oriente Médio é estratégico para o país e para a humanidade. Essa integração pode dar inúmeras contribuições ao pensamento científico mundial e contribui para superar a dependência científica e tecnológica dos países centrais. Por outro lado, é preciso considerar que nesse processo de internacionalização e luta pela integração regional recebemos muitos estrangeiros que contribuem de maneira significativa para a nossa ciência. Para entender o papel do estrangeiro na ciência brasileira é necessário compreender também os motivos que levaram o mesmo a migrar pro Brasil. Isto exige também conhecer os processos políticos e sociais na América Latina e no mundo. Cada dia vemos como mais estrangeiros põem seus olhos no Brasil e nas suas universidades federais. Elas conseguiram através de anos lutas adquirir direitos fundamentais quando comparados com outros países de América Latina. Atualmente, cerca de 80% das pesquisas da região são realizadas nas universidades brasileiras. Ainda mais, a grande presença de latino-americanos nas universidades brasileiras revela, também, um processo de ‘fuga de cérebros’. Uma vez que muitos veem na vinda para o Brasil uma oportunidade para qualificar-se, devido as condições precárias para exercer seus estudos em seu país de origem. É nesse contexto que devemos pensar o desenvolvimento e a contribuição da acadêmica brasileira para a ciência mundial e a superação das disparidades sociais e regionais. Assim como, o enriquecimento que pesquisadores de distintos países podem trazer para o Brasil.

Durante o mes de junho de 2018, estudantes, professores, trabalhadores, ministros, representantes de órgãos governamentais, redes universitárias, conselhos de reitores e órgãos multilaterais vinculados à educação reuniram-se em Córdoba, na Argentina, para debater os rumos da educação no continente. Nesta cidade argentina realizou-se a III Conferência Regional de Educação Superior (CRES) convocada pela UNESCO com o objetivo de apontar políticas relacionadas à integração dos sistemas universitários da região, além de preparar a Conferência Mundial de Educação Superior que acontecerá em 2019, em Paris. O evento ocorreu nos marcos da crise mundial do capitalismo e da comemoração do centenário da Reforma de Córdoba. Assim, o legado dos estudantes argentinos de 1918 que transformaram a realidade latino-americana nos permitem lutar por uma universidade à serviço da união da América Latina e a construção de um mundo justo resistindo ao avanço da mercantilização da educação. Assim, ainda que em um cenário de defensiva para os setores que defendem a educação pública, a declaração final da III CRES afirma que “A educação, a ciência, a tecnologia e as artes devem ser um meio para a liberdade e a igualdade, garantidas sem distinção social, de gênero, etnia, religião ou idade. A educação não é uma mercadoria. Por isso, instamos aos Estados nacionais a não subscrever tratados bilaterais ou multilaterais de livre comércio que impliquem conceber a educação como um serviço lucrativo, ou estimulem formas de mercantilização em qualquer nível do sistema educativo”.

A ANPG deu a sua contribuição incluindo nos acordos finais importantes propostas para os estudantes. Entre elas podemos destacar políticas relacionadas à licença maternidade, ações afirmativas, democratização do acesso, liberdade de pensamento, reconhecimento de títulos, etc. Durante a Conferência constituiu-se o Espaço Latino americano e Caribenho de Educação Superior (ELACES), um importante instrumento para construir pontes entre os países da América Latina. A concretização das propostas aprovadas durante a conferência estão sendo discutidas e a ANPG joga papel de destaque na defesa da educação pública e na resistência à ofensiva conservadora que atinge ao conjunto da região. Estamos vivendo um momento onde os setores ligados ao mercado retomam ofensiva no continente. A ANPG, portanto, cumpre importante papel no fortalecimento dessas relações, ao participar ativamente da construção de espaços como estes, em conjunto e/ou representando a Organização Continental Latino americana e Caribenha de Estudantes (OCLAE) que tem a função de aprofundar ainda mais esses laços.