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Jornalista ANPG

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Um abaixo-assinado pela recomposição das bolsas de estudos e do orçamento das agências Capes e CNPq foi lançado, neste dia 20 de setembro, com apoio de 54 entidades de pós-graduandos, acadêmicas, de estudantes e docentes. A iniciativa, capitaneada pela ANPG, é mais um movimento da sociedade civil para pressionar o governo federal e sensibilizar o parlamento a buscar soluções que salvaguardem a educação e a ciência do risco de colapso de financiamento.

A adesão ao documento “TireAMãodaMinhaBolsa – Em defesa das bolsas de estudos, das agências de fomento (CAPES e CNPq) e do orçamento da Educação e Ciência e Tecnologia” pode ser feita por qualquer pessoa ou entidade que queira manifestar solidariedade e preocupação com as medidas do governo que afetam essas áreas. A expectativa dos organizadores é fazer a entrega do manifesto e das assinaturas no Congresso Nacional ao fim da Marcha Pela Ciência, dia 02 de outubro. Também nessa data, foi convocada a greve nacional da pós-graduação, que deve paralisar universidades de todo o país em defesa da ciência e da educação.

O abaixo assinado online está disponível no link  bit.ly/TireaMaodaMinhaBolsa . Pedimos que todos assinem e compartilhem para ampliarmos essa mobilização em defesa das bolsas, da CAPES, CNPq e da ciência e tecnologia do país.

A Associação Nacional dos Pós-Graduandos, em conjunto com a comissão de bolsistas CAPES e CNPq da Universidade de Brasília (UnB), acaba de lançar a Campanha + Pesquisa + Educação, destinada a sensibilizar o Congresso Nacional para a emergência de instituições de fomento à ciência diante dos sucessivos cortes orçamentários que têm sido alvos. A iniciativa também é parte da Campanha S.O.S Ciência, lançada pela entidade em julho.

Na tarde de 18 de setembro, as lideranças estudantis já fizeram uma “blitz” na Câmara dos deputados, visitando parlamentares de diversos partidos políticos para que estes se comprometam a garantir os recursos necessários para Educação e Ciência e Tecnologia no orçamento de 2020. Para Flávia Calé, presidenta da ANPG, “o acompanhamento cotidiano do parlamento é fundamental para assegurar o êxito das pautas da pós-graduação. A batalha orçamentária em curso no Congresso Nacional é decisiva para que sejam satisfatórios os recursos das bolsas e de áreas importantes, como a educação e a ciência e tecnologia”.

Segundo Amanda Vitória Lopes, mestranda do programa de Ciência Política da UnB, a ideia de procurar parlamentares surgiu de conversas com amigos que trabalham no legislativo e detectaram que havia espaço em diversos segmentos políticos para ouvir as reivindicações de quem é diretamente afetado pelos cortes. “A receptividade tem sido muito boa. Nosso lema é “ninguém diz não para a educação, ninguém diz não para a ciência e para o desenvolvimento do país”. Todo mundo está de acordo, o que a gente está precisando é lembrar eles disso”, afirma.

O diretor de Comunicação da ANPG, Vinicius Soares, participou da ação na Câmara e relatou as intensas articulações para reverter a situação de inanição a que o governo submeteu a educação e a ciência. “Hoje conversamos com deputados, nos gabinetes ou nas comissões, para tentar ampliar o orçamento da CAPES e do CNPq. Fizemos isso mostrando relatórios de como os cortes impactam em cada estado. A ideia é sensibilizar e chegar no relator do orçamento”, disse.

Para que a Campanha + Pesquisa + Educação ganhe mais força e capilaridade, as lideranças estão orientando que a iniciativa se reproduza nos estados e municípios, que são as bases eleitorais de deputados e senadores.

Cortes e crise na pós-graduação
O CNPq, órgão fundamental para o fomento à pesquisa responsável por 84 mil bolsistas, esteve ameaçado cortar os repasses para todos os estudantes a partir de setembro. A situação relativa ao ano de 2019 só foi resolvida graças à pressão das grandes manifestações da comunidade acadêmica que ajudaram a viabilizar o acordo de repasse de 250 milhões dos recursos recuperados da Petrobrás.

No caso da CAPES, após ter congelado 11.800 bolsas ao longo do ano, o MEC autorizou a reabilitação de pouco mais de 3000 benefícios na semana passada. Ainda assim, a proposta de orçamento enviada pelo governo ao Congresso prevê corte de mais de 1 bilhão nos recursos da agência para 2020.

Corte de recursos terá impacto direto na sociedade

 

Vahan Agopyan

Nas últimas semanas, um assunto recorrente tem sido as dificuldades enfrentadas pelas agências federais em manter o número de bolsas de estudo e honrar os auxílios já concedidos decorrentes do contingenciamento financeiro.

Nesse quadro, destacam-se as bolsas de pós-graduação. Elas beneficiam jovens talentosos dos cursos de mestrado e doutorado do país, que estão se preparando paras as carreiras de pesquisador e de docente. Essas instituições oferecem outros tipos de bolsas, como as de iniciação científica, para os alunos de graduação, e as de pós-doutoramento, destinada aos novos doutores que se envolvem em projetos de pesquisa, sem vínculo empregatício.

Os dirigentes das principais agências —como a Capes, vinculada ao Ministério da Educação, e o CNPq, ligada ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações— estão se desdobrando para reduzir o impacto negativo da restrição orçamentária no ambiente científico nacional, mas os orçamentos dessas instituições precisam ser recompostos com medidas emergenciais neste ano e na proposta orçamentária de 2020.

Os jovens que estão envolvidos ou pretendem seguir na pós-graduação stricto sensu terão suas aspirações frustradas. Muitos deles poderão abandonar o sonho de desenvolver uma pesquisa e ingressar na vida profissional. Outros, mais persistentes, devem continuar como alunos de pós-graduação em tempo parcial, prolongando suas atividades na universidade por longos anos.

Esse quadro é sombrio. A produção científica mundial é fortemente apoiada nas pesquisas desenvolvidas nos programas de pós-graduação. Mesmo nas instituições científicas não universitárias, a pesquisa depende dos pós-graduandos e dos pós-doutorandos.

Portanto, a redução do número de bolsas está diretamente relacionada à diminuição do volume de pesquisas e do ritmo de formação de recursos humanos qualificados —e, em última instância, do desenvolvimento econômico, tecnológico, social e cultural do nosso país.

As universidades são inábeis na divulgação de suas atividades e, por isso, muitos perguntarão se de fato a redução da pesquisa trará prejuízos para o Brasil. Você que lê este artigo, por exemplo, provavelmente já se beneficiou de algum estudo conduzido na USP, mas este é um tema que não pode ser discutido em um espaço reduzido como este.

O corte dos recursos não surtirá efeitos negativos apenas no aspecto acadêmico das instituições, mas terá impactos diretos na sociedade e na qualidade da vida das pessoas.

O número de bolsas disponíveis não é grande. A USP, que é o maior centro de pós-graduação do país, com 30 mil alunos e 7.000 mestres e doutores formados por ano, recebe 12 mil bolsas em todas as áreas do conhecimento, das quais 75% são oriundas das agências federais.

Mesmo que parte considerável dos alunos não necessite de bolsa, pois tem empregos que estimulam esse tipo de atividade, a universidade teria capacidade para receber mais 5.000 ou 6.000 bolsas, já que os programas de pós-graduação da USP são muito concorridos e os ingressantes passam por seleção rigorosa, com grande potencial de sucesso. Se tivéssemos mais bolsas de pós-graduação, o volume de pesquisa da USP seria ainda maior.

As universidades estaduais paulistas, que respondem por quase 40% da produção científica brasileira, são afetadas pela crise das agências de fomento federais. Um eventual colapso nesse sistema terá reflexos nas instituições e em toda a pesquisa nacional.

Talvez seja uma falha da academia ter suposto que era óbvia para a sociedade a compreensão de que o investimento em ensino e pesquisa é garantia de um futuro melhor para a nação. Devemos assumir a mesma abordagem dos países que são considerados por muitos como modelos, caso de Coreia do Sul e Israel, que nunca deixaram de investir em ensino e pesquisa, mesmo nos momentos mais desfavoráveis, como em meio à guerra e à fome.

Vahan Agopyan

Reitor da USP e professor titular da Escola Politécnica

Folha de São Paulo

Recursos são parte do que foi recuperado pela Lava Jato e vão atender ainda ministérios de Direitos Humanos e Cidadania

Cristiane Sampaio

Brasil de Fato | Brasília (DF), 18 de Setembro de 2019

O ministro Marcos Pontes disse que o recurso extra pode ser canalizado para o pagamentos de bolsas suspensas / Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes decidiu, na terça-feira (17), que R$ 2,6 bilhões da quantia total recuperada pela operação Lava Jato deverão ser canalizados para ações nas áreas de educação, preservação da Amazônia e ciência e tecnologia, entre outras. A decisão surgiu com a homologação do acordo firmado entre governo federal, Senado, Câmara e Procuradoria-Geral da República (PGR) para definir o destino dos recursos.

Segundo o STF, o valor deverá obedecer ao seguinte fatiamento: R$ 1,06 bilhão para preservação da Amazônia Legal; R$ 1 bilhão para o Ministério da Educação (MEC); R$ 250 milhões para o Ministério da Cidadania; R$ 250 milhões para o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTIC); e R$ 100 milhões para o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos.

A decisão, tomada no meio da tarde, gerou questionamentos sobre a alocação da verba em Ciência e Tecnologia, setor hoje imerso numa crise relacionada ao financiamento das bolsas de pesquisa no país. Questionado pela imprensa a respeito da possível canalização dos R$ 250 milhões para o custeio das ações do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) até o final do ano, o ministro Marcos Pontes disse que tem essa como “uma das grandes preocupações”.

Ele destacou que o orçamento previsto para 2019 não cobre todos os gastos do CNPq, que precisa de R$ 330 milhões para fechar o ano. O ministro afirmou que fez um remanejamento para injetar R$ 82 milhões na instituição e assegurar o orçamento do mês de setembro, cuja verba está garantida apenas até o dia 5 de outubro.

“Isso é tudo que eu tenho em termos de recursos, mas ainda depende do Ministério da Economia pra me dar o limite pra eu poder pagar. São detalhes de administração pública. Agora, falta o restante do ano, que poderia ser completado com esses R$ 250 milhões. Ótimo, porém, esses recursos eram, originalmente, pra projetos como o Sirius, pra conectar o Nordeste e o Norte com fibra ótica e outros projetos que são também importantes para o país”, afirmou.

Pontes disse ainda que o governo tenta negociar um incremento orçamentário para a área por meio de um projeto no Congresso, mas ainda não há decisão legislativa a esse respeito. “Prefiro que entre um recurso novo como crédito-limite para o CNPq e que sejam preservados os R$ 250 milhões pra a utilização nos demais projetos. Se tiver que usar em emergência, eu vou usar, mas o ideal é que nos transferissem recursos novos. É isso que estou batalhando com o Paulo Guedes”, disse à imprensa.

::Como os cortes de bolsas afetam a vida de milhares de cientistas no Brasil::

Futuro

A notícia sobre a decisão do STF foi comemorada pela Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), mas a entidade afirma que o eventual repasse do dinheiro para as agências de pesquisa não soluciona de forma integral o problema.

“A gente não pode dar isso como a batalha final porque o orçamento que está sendo discutido pro CNPq pro ano que vem coloca o mesmo desafio. Ele já vai com déficit e existe um corte de 87% dos recursos de investimento do CNPq, então, ele praticamente, segundo a proposta de LOA, vai pagar só bolsas, e a função da agência é muito maior que isso”, pontua Flávia Calé, presidenta da entidade.

Ela explica que a instituição assume também outros gastos, como o financiamento da infraestrutura de projetos de pesquisa por meio do custeio de equipamentos, materiais de laboratórios e outros insumos. Diante do atual quadro orçamentário, a presidenta aponta que diferentes projetos podem sofrer um revés.

“A gente corre o sério risco de cair na mesma situação em que está este ano, que é essa batalha sem trégua pra conseguir fechar o orçamento ou então você vai ter um corte drástico que vai prejudicar muito a ciência. É o tipo de um problema que você não consegue nem mensurar as consequências”, alerta.

A crise de recursos que afeta o CNPq repercute também em outras agências de pesquisa. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por exemplo, anunciou, no início deste mês, o corte de 5.613 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado previstas para o último quadrimestre do ano por falta de verbas.

Edição: João Paulo Soares

Mesmo com recuo parcial do MEC, cientistas temem “uberização de pesquisadores” e exigem “revogação de medidas de austeridade sobre a educação”; governo celebra recomposição do orçamento

Por Rafael Gregorio, Valor Investe — São Paulo
 

Em resposta ao “congelamento” de 8.378 bolsas da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em 2019 pelo governo federal, a classe científica planeja uma greve e uma marcha em reação ao que vê como um “colapso” da ciência brasileira.

O movimento tem uma lista de exigências:

  • revogação imediata de todas as medidas de austeridade que atingem educação, ciência e tecnologia;
  • repasse imediato dos R$ 330 milhões necessários para o cumprimento do orçamento de 2019 do CNPq e a garantia do pagamento das bolsas da agência;
  • descontingenciamento de verbas das universidades federais e de instituições de ensino e pesquisa;
  • recomposição do orçamento dos Ministérios da Educação e da Ciência e Tecnologia, com ampliação para 2020, para cumprir as metas do Plano Nacional de Educação e do Plano Nacional de Pós-Graduação;
  • R$ 948 milhões para recompor o quadro de professores e funcionários e reajustar bolsas de estudos;
  • aplicação de 10% do PIB para educação;
  • destinação de 25% dos recursos do pré-sal para Ciência e Tecnologia;
  • revogação imediata da Emenda Constitucional 95, que instituiu o teto de investimentos por 20 anos.

Especialistas ouvidos pelo site dizem temer uma elitização da pós-graduação stricto sensu e uma “uberização” de cientistas. Também apontam o desperdício de recursos e os prejuízos ao Brasil na corrida por tecnologia de ponta.

As críticas se mantêm mesmo após o recuo parcial da gestão Jair Bolsonaro, que há uma semana descongelou 3.182 das 11.560 bolsas da Capes que haviam sido suspensas.

Em maio, havia 98.627 bolsistas da entidade na pós-graduação. Após os três congelamentos deste ano, são 90.249 beneficiados.

Além disso, falta garantir o orçamento de 2020 do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que tem papel importante no custeio da pós-graduação, e agências estaduais – como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) – veem suas verbas ameaçadas.

A justificativa do governo para os cortes na Capes é economizar cerca de R$ 15 milhões em 2019 e até R$ 544 milhões nos próximos quatro anos. E o Ministério da Educação almeja rever critérios de avaliação de pesquisas – leia na entrevista do presidente da entidade ao Valor Investe.

“Os cortes põem em colapso o sistema de pós-graduação e afetam a existência das carreiras científicas. Na sociedade do conhecimento em que vivemos, deixar de investir em autonomia tecnológica significa relegar o Brasil a ser eternamente dependente. É muito grave”, sintetiza Flávia Calé, presidente da ANPG.

Hoje, só 0,8% dos brasileiros entre 25 e 64 anos concluíram mestrados, segundo o relatório “Education at a Glance”, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A média dos países do grupo é de 13%.

Flávia também vê nos cortes um implícito desperdício de recursos públicos que haviam sido investidos nos anos passados em pesquisas que, agora, serão suspensas. Para a presidente da ABPG, as opções que restam aos pesquisadores são residuais e deve haver uma fuga de cérebros. “Já estávamos no sexto ano sem reajuste na bolsa, e agora teremos um sem número de trajetórias interrompidas. Essas pessoas vão fazer o quê depois de ficarem oito anos estudando?”, pergunta Flávia.

Ela mesma responde: “Ou esses jovens vão deixar o país e ir desenvolver outras nações, ou vão se tornar força de trabalho precarizada. Vão ser Uber.”

A Receita Federal registrou no primeiro semestre mais de 21,8 mil pedidos de saída definitiva do Brasil. Embora os números não especifiquem cientistas, a continuar esse ritmo, 2019 terá quase o dobro de saídas de 2018 e cinco vezes o total de 2011 – sem contar quem se muda sem avisar as autoridades.

Preconceito do meio empresarial

Graças à ampla exigência de dedicação exclusiva nos cursos de mestrado e doutorado (ou seja, à proibição de acumulação com outras atividades remuneradas), a bolsa equivale ao salário do pesquisador, diz Anna Carolina Venturini, pós-doutoranda pelo IPP-Cebrap, o programa de pós-doutorado internacional do Centro Brasileiro de Pesquisa e Planejamento.

Anna concluiu há pouco um doutorado em ciência política em que estudou editais de 2.763 programas de pós-graduação no Brasil. Além da interrupção de estudos importantes, ela prevê uma elitização ainda maior na classe científica.

“Só as pessoas que têm recursos pessoais ou familiares vão continuar pesquisando. A outra opção seria os programas reduzirem a exigência de dedicação exclusiva. Mas, em algumas áreas, isso é muito difícil. Para quem faz trabalho de campo ou atua em laboratórios, os horários dificultam conciliar com outra atividade.”

Nesse ponto, diz a pesquisadora, pesa o que ela vê como um preconceito do meio empresarial brasileiro, principalmente com temas ligados às ciências humanas. “As empresas costumam valorizar cursos de especialização, ou seja, de pós lato sensu. Algumas mantêm programas que subsidiam estudos dos funcionários. Mas, em cursos acadêmicos, isso é muito raro.”

Segundo Anna, são vários os exemplos de pesquisadores que estudavam temas importantes, como a cura da zika, e não terão condições de continuar. Foi assim no Rio, com profissionais fomentados pela Faperj: “Com a crise do Estado, aqueles bolsistas já enfrentavam atrasos no pagamento das bolsas. Eu vi vários alunos desesperados porque não tinham dinheiro para pagar a passagem de ônibus e assistir à aula.”

Para Anna, sobressai uma má vontade dos gestores públicos.

“Lá fora, as pessoas entendem o benefício que a pesquisa pode trazer em inovação e políticas públicas, inclusive a iniciativa privada. É uma diferença de mentalidade, de ver como investimento, não como custo, como sinalizam as falas do governo atual.”

Presidente da Capes comemora verbas adicionais

Já o governo prefere celebrar recentes recomposições de verbas para 2020. Junto do “descongelamento” de bolsas, há uma semana, o ministro da educação, Abraham Weintraub, anunciou um aumento de R$ 600 milhões no orçamento da Capes em 2020, elevado de R$ 2,45 bilhões para R$ 3,05 bilhões.

Segundo Anderson Ribeiro Correia, presidente da entidade, o recente implemento é suficiente para garantir as renovações de bolsas e a manutenção dos fomentos existentes – em outras palavras, mais nenhum pesquisador entre os bolsistas que sobreviveram aos cortes seriam prejudicados.

Mas, como ele mesmo explica, essa verba adicional ainda depende de aprovação pelo Congresso e pelo presidente Jair Bolsonaro.

Correia também antecipou que há tratativas com deputados da comissão de educação da Câmara para vitaminar o orçamento da Capes no ano que vem em mais R$ 300 milhões.

Com isso, o total destinado à entidade chegaria em R$ 3,3 bilhões.

Em 2018, o orçamento da Capes previa R$ 4,2 bilhões, mas, após Bolsonaro congelar R$ 800 milhões, ficou em torno de R$ 3,4 bilhões, dos quais R$ 3 bilhões já foram pagos, segundo Correia.

POR QUE PARALISAR AS ATIVIDADES NO DIA 02 DE OUTUBRO?
A Pós-graduação, a Educação e a Ciência e Tecnologia tem sido os alvos preferenciais dos ataques do governo Bolsonaro. Os ministros Paulo Guedes e Abraham Weintraub, em menos de seis meses, promoveram cortes de mais de 11.800 bolsas de estudos da pós-graduação, 300 milhões do orçamento da CAPES, 30% dos recursos para custeio das universidades federais.
Além disso, reduziram drasticamente o orçamento do CNPq, ameaçando a suspensão da oferta de cerca de 4,5 mil bolsas “ociosas” – que seriam distribuídas entre estudantes de iniciação científica, mestrado e doutorado – e o não pagamento de bolsas de mais de 84 mil pesquisadores dessa agência, a partir do mês de outubro.
Essas medidas, associadas à escassez e defasagem das bolsas de estudos, que não são reajustadas desde 2013, têm jogado luz à destruição do patrimônio educacional e científico brasileiro construído há mais de 50 anos, e contribuído para condenar a Nação a um prolongado ciclo de desigualdade e subdesenvolvimento.
Não nos resta outra opção a não ser continuar ocupando as ruas para defender o país contra os desmandos do governo obscurantista de Bolsonaro. Por isso, a ANPG, em conjunto com trabalhadores da ciência e tecnologia, convoca os pós-graduandos, pesquisadores, professores e demais setores da sociedade civil a se somarem à Greve Geral da Pós-Graduação e da Ciência e Tecnologia e à Marcha à Brasília, no próximo dia 02 de outubro.
Não é possível pensar no desenvolvimento do país sem investimento em nosso povo. Não aceitaremos o desmonte nacional! Acreditamos no Brasil e em suas potencialidades, por isso, paralisaremos as nossas atividades no dia 02 de outubro para exigir:
A revogação imediata de todas as medidas de austeridade que atingem a educação e ciência e tecnologia;
O repasse imediato dos R$ 330 milhões necessários para o cumprimento do orçamento 2019 do CNPq e a garantia do pagamento das bolsas da agência;
Descontingenciamento do orçamento das universidades federais e outras instituições de ensino e pesquisa;
Recomposição do orçamento do Ministério da Educação e da Ciência e Tecnologia com ampliação para o de 2020 de modo a atender o cumprimento das metas do Plano Nacional de Educação e do Plano Nacional de Pós-Graduação;
Repasse de R$ 948 milhões para recomposição do quadro e reajuste das bolsas de estudos;
Aplicação dos 10% do PIB para educação.
25% do Pré-sal para Ciência e Tecnologia.
Revogação imediata da Emenda Constitucional 95.

São Paulo, 10 de setembro de 2019.
Associação Nacional de Pós-Graduandos – ANPG

Região Sul
Porto Alegre 15h – Parque Farroupilha – http://bit.ly/porto_alegre7S
Curitiba 11h – Praça Santos Andrade – http://bit.ly/Curitiba7S
Florianópolis 8h30 Catedral – http://bit.ly/Florianopolis7S

Região Sudeste
São Paulo 09h Praça Oswaldo Cruz – http://bit.ly/Sao_Paulo7S
Belo Horizonte 09h Viado Santa Tereza- http://bit.ly/Belo_Horizonte7S
Rio de Janeiro 09h Uruguaiana- http://bit.ly/Rio_de_Janeiro7S
Vitória 08h Praça do Porto de Santana- http://bit.ly/Vitoria7S

Região Centro-Oeste
Cuiabá 15h Praça Cultural CPA II- http://bit.ly/Cuiabá7S
Brasília 8h Rodoviaria do Plano Piloto- http://bit.ly/Brasilia7S
Campo Grande 8h Na Rua Candido Mariano- http://bit.ly/Campo_Grande7S
Goiânia 8h30 Catedral de Goiânia- http://bit.ly/Goiania7S

Região Norte
Manaus 15h Praça da Saudade- http://bit.ly/Manaus7S
Belém 8h Mercado São Brás – http://bit.ly/Belem7S
Porto Velho 15h Av. Imigrantes- http://bit.ly/Porto_Velho7S
Boa Vista 16h Avenida S4 ao lado da Escola América Sarmento – http://bit.ly/Boa_Vista7S
Macapá 15h Rua Leopoldo Machado – http://bit.ly/Macapa7S

Região Nordeste
Salvador 8h Praça do Campo Grande – http://bit.ly/Salvador7S
São Luís 10h Areinha – http://bit.ly/Sao_Luis7S
Recife 8h Praça do Derby – http://bit.ly/Recife7S
Fortaleza 08h Av. Dioguinho – http://bit.ly/Fortaleza7S
Natal 8h Praça Herói dos Pescadores – http://bit.ly/Natal7S
Maceió 9h Praça Sinimbu – http://bit.ly/Maceio7S
Aracaju 9h Praça Fausto Cardoso – http://bit.ly/Aracaju7S
Teresina 8h Patio Assembleia Legislativa – http://bit.ly/Teresina7S
Palmas – http://bit.ly/Palmas7S

Dia 06 de Setembro
João Pessoa 14h Igreja de Nossa Senhora das Neves – http://bit.ly/Joao_Pessoa7S

Desde a nossa tardia revolução burguesa, em 1930, que começou a fundar as bases para a industrialização, e, depois, dos contornos mais desenvolvimentistas da década de 1950 ao ciclo progressista de poucos anos atrás, o país já passou por muita coisa. Tivemos governos democráticos e ditatoriais, períodos de crescimento econômico mais expansivo ou contido, momentos de maior afirmação da soberania ou de cedência às imposições das potências mundiais. Mas, na história recente, nunca houve um governo títere, cujo objetivo primeiro e único fosse a neocolonização do país. Pois é diante desse risco que ora nos defrontamos sob o governo Bolsonaro.

Engana-se quem pensa que ele nada fez até agora. Bolsonaro tem conseguido impor uma agenda de destrutiva, focando na radicalização política e insuflando as divisões no seio do povo, que de fato ameaça a Nação. Temos visto a tentativa de desconstrução acelerada de todas as bases políticas, sociais, econômicas e científicas de formação do Estado e da identidade brasileira.

O Brasil foi o último país latino-americano a fundar uma universidade. Mas, em relativamente pouco tempo, conseguiu estabelecer uma rede robusta de universidades federais e estaduais públicas, capaz de formar milhares de jovens todos os anos, sendo que mais recentemente iniciou um auspicioso processo de democratização do perfil do estudante no ensino superior. Essas universidades não apenas formam mão de obra qualificada, mas são centros de excelência em que fervilham os debates sobre os dilemas do país, são polos fundamentais para o amálgama da identidade nacional.

Também logrou construir um sistema nacional de ciência e tecnologia de larga e reconhecida produção, que contribui tanto para formar as novas gerações de professores universitários, como para o desenvolvimento nacional e o combate às desigualdades regionais. Esse sistema é fortemente assentado na pós-graduação, que não existiria sem a política de bolsas de estudos vinculadas às agências CAPES e CNPq, ambas criadas no início dos anos 1950. Mas tampouco pode prescindir de instrumentos de planejamento e pesquisa do Estado, como o INPE, o INPA, o IBGE e outros mais, e de empresas públicas ou de economia mista cuja missão se coaduna com os interesses do desenvolvimento do país.

Quanto a isso, vale dizer, o Brasil não seria a potência agropecuária que é se não tivesse uma política de Estado que concebeu e investiu na formação da Embrapa, com seu plantel de pesquisadores e cientistas. Menos ainda seria referência mundial em prospecção de petróleo em águas profundas ou teria descoberto a riqueza do pré-sal não fossem o investimento e o trabalho denodado da Petrobrás. Jamais dominaríamos ciclos virais e formularíamos vacinas e fármacos que salvam vidas sem as pesquisas, desinteressadas de lucro, realizadas em universidades como a Unifesp ou institutos como a FioCruz. Esses são alguns exemplos que orgulham – ou deveriam orgulhar – o país.

É contra tudo isso que se volta o governo Bolsonaro. Ele não é obscurantista apenas porque é intelectualmente fraco ou porque mobilizou e agrupou o que há de mais reacionário na sociedade brasileira. O projeto de neocolonização do país, do qual Bolsonaro é um estafeta, depende antes de tudo da destruição da capacidade de formulação, de aniquilamento e rendição da inteligência nacional, do desmonte dos sistemas de educação, de ciência e tecnologia e dos instrumentos do Estado capazes de sustentar o esforço de desenvolvimento soberano. O projeto lesa-pátria necessita aniquilar as universidades, a pós-graduação, o CNPq, a CAPES, o INPE, esquartejar e vender a Petrobrás, a Eletrobrás e o que mais puder. Sem eles, não haverá pesquisa, não haverá indústria, não haverá competição por um lugar ao sol no concerto das nações, mas, sobretudo, não haverá capacidade de resistência à traição nacional.

Bolsonaro destrói a imagem do país no exterior e cria as condições para potências flertarem com a internacionalização da Amazônia, enquanto desfila seu falso nacionalismo nas redes sociais. Cinicamente, fala em vestir verde e amarelo no dia da Independência enquanto beija e bate continência para a bandeira norte-americana e diz que o Brasil é um lixo. Sua patriotada de araque não engana ninguém, é falsa como nota de três.

Um Brasil independente requer um projeto nacional de desenvolvimento soberano, que leve em conta as necessidades próprias do país e do povo, que seja alavancado pela educação, pela ciência e tecnologia, que respeite e valorize a cultura e formação do país. Um Brasil independente requer, principalmente, democracia, pois ela é pré-condição para combater Bolsonaro. Por isso, neste dia 7 de Setembro, nós, estudantes, que amamos verdadeiramente a pátria, vamos de preto na roupa, simbolizando a tristeza pelos dias trágicos que vivemos, mas vamos de verde e amarelo no rosto e no coração, traduzindo a esperança e a capacidade de lutar pelo Brasil de nossos sonhos.

Flávia Calé, presidenta da ANPG