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Jornalista ANPG

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“O Rancho do Novo Dia
O Cordão da Liberdade
E o Bloco da Mocidade
Vão sair no carnaval
É preciso ir à rua
É preciso ter coragem
(…)
Minha gente, vamos lá
Nossa turma vai sair
Nossa escola vai sambar
Vai cantar pra gente ouvir
Tá na hora, vamos lá
Carnaval é pra valer
Nossa turma é da verdade
E a verdade vai vencer”

A eleição de Jair Bolsonaro para Presidência do Brasil representou o fim de um ciclo político no Brasil estabelecido pelo primado democrático da Constituição de 1988. O momento atual é de resistência e traz novos desafios para o povo brasileiro.
O governo vai concluindo o seu terceiro mês e já demonstra para que veio. Seu viés é de direita ultraliberal na economia, conservador nos costumes e politicamente autoritário, não aceitando as regras democráticas expressas na Constituição. Um governo que ameaça a democracia, o patrimônio, a soberania nacional, os direitos sociais e persegue abertamente os movimentos socias e os partidos políticos de esquerda.
Não obstante, os tempos atuais estão marcados por ataques à ciência brasileira, que nos últimos tempos vinha crescendo e se fortalecendo. Vivemos sucessivos cortes e contingenciamentos do orçamento para o setor, o que atingiu, entre outros projetos, as duas principais agências de fomento à pesquisa nacional – a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) -, desmantelando todo o parque tecnológico brasileiro e colocando em risco pesquisas cientificas que são importantes para o país.
As universidades e empresas públicas e estatais estão às voltas com a escassez de recursos e ameaçadas por investidas privatizantes e entreguistas. Além desse estrangulamento nos investimentos, instituições, pesquisadores e professores ainda estão tendo que lidar com a perseguição ao pensamento livre e crítico através da criminalização da atividade docente, cerceamento de ideias.
Diante desse cenário, muitos desafios se descortinam para nós, pós-graduandos. Ainda mais porque somos um dos elementos fundamentais da produção científica brasileira, mas continuamos produzindo ciência sob condições precárias. Estamos ligados diretamente a cerca de 90% da produção cientifica do país, porém ainda não temos direitos trabalhistas e estudantis garantidos por lei. A situação é agravada pela inexistência de mecanismo de reajuste anual para as bolsas de estudos, o que já lhes consumiu 1/3 de seu valor real ao longo desses últimos seis anos sem reajuste.
Os pós-graduandos devem estar unidos para enfrentar uma tarefa histórica nesse próximo período: a defesa do Reajuste de Bolsas Já! Defender a urgência do reajuste das bolsas é valorizar o pesquisador e a ciência. A valorização da ciência e tecnologia como elementos fundamentais a um projeto de desenvolvimento soberano do país, se entrelaça com defesa da democracia brasileira, dos direitos sociais e previdenciários. Por isso, nesse próximo dia 28 de Março, vamos sair às ruas junto aos estudantes secundaristas e universitários em uma grande jornada de lutas por:

1- EM DEFESA DO REAJUSTE DAS BOLSAS DE ESTUDO. Investir em ciência é desenvolver o Brasil: Reajuste de Bolsas já!
2 – EM DEFESA DA EDUCAÇÃO PÚBLICA e DA CIÊNCIA BRASILEIRA: defesa do cumprimento do Plano Nacional de Educação, do Plano Nacional de Pós-Graduação e da destinação de 10% do PIB para a educação e a manutenção das cotas; Em defesa do pré-sal pra educação, ciência e tecnologia. Defesa da garantia de orçamento para a educação, da revogação da Emenda do Teto dos Gastos. Em defesa do fomento à pesquisa e às políticas de assistência estudantil.
3 – LIBERDADE DE PENSAMENTO E AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA: Em defesa da escola e da educação democrática. Defendemos a liberdade e a laicidade do ensino, o respeito às diferenças de ideias e não permitiremos a volta da censura e da perseguição política autoritária com as implicações do projeto “Escola sem Partido”. Defendemos que as consultas para reitor nas universidades federais mantenham o peso do voto do estudante igual ao dos professores e técnicos.
3 – LIBERDADES DEMOCRÁTICAS E CONSTITUIÇÃO: Reafirmamos nosso compromisso com a democracia brasileira e a liberdade. Diremos não a qualquer ameaça à nossa frágil democracia e à qualquer apologia a volta da ditadura.
4 – EM DEFESA DA LIVRE ORGANIZAÇÃO: Defesa das entidades e liberdade de organização do movimento estudantil. Contra qualquer perseguição aos movimentos sociais. Nossos centros acadêmicos não são “ninhos de rato”, como disse Bolsonaro, e não toleraremos que a rede do movimento estudantil seja ameaçada pelo presidente.
5 – CONTRA AS PERSEGUIÇÕES POLÍTICAS: denunciamos que a prisão de Lula se trata de uma arbitrária condenação. Exigimos justiça para Marielle Franco e Anderson; que sejam encontrados os mandantes desta execução política. Lamentamos profundamente que Jean Willys não tenha tomado posse para o mandato eleito por voto popular e exigimos saber quem o ameaça. Denunciamos também as perseguições espetaculosas que a Polícia Federal tem feito com reitores, como no caso do ex-reitor da UFSC, Cancellier. Ainda, é preciso identificar a rede de robôs e empresas de disparo de mensagens que criam e propagam fakenews.
6 – EM DEFESA DE NOSSA SOBERANIA: Não permitiremos que vendam nosso patrimônio nacional. Defenderemos nossas estatais, nossa biodiversidade, nossa produção de tecnologia e lutaremos contra as privatizações previstas por Bolsonaro.
7 – EM DEFESA DOS DIREITOS SOCIAIS: Não aceitaremos que haja retrocessos nos direitos sociais duramente conquistados pelo povo brasileiro. Defendemos um SUS de qualidade e acessível para todos, uma educação pública, gratuita, emancipadora e de qualidade para todos, o direito à moradia, à terra e à demarcação das terras indígenas e quilombolas.
8 – EM DEFESA DO DESENVOLVIMENTO: lutaremos pela retomada da geração de empregos em nosso país e em defesa de um desenvolvimento que reduza as desigualdades, emancipe nosso país e preserve o meio-ambiente. Crimes como o de Brumadinho, causado pela Vale, precisam ser investigados e os responsáveis da empresa punidos e obrigados a pagar o prejuízo a comunidades.
9 – CONTRA AS REFORMAS DA PREVIDÊNCIA E TRABALHISTA: Defendemos uma ampla articulação do movimento estudantil com as centrais sindicais e sindicatos para a organização da resistência à Reforma da Previdência que Bolsonaro e Paulo Guedes apresentam ao país. Somos contrários à fraude da chamada “carteira verde e amarela”,
10 – EM DEFESA DA PAZ E DA AUTO-DETERMINAÇÃO DOS POVOS: O movimento estudantil brasileiro tem na sua história a defesa da solidariedade internacional e o princípio da não-intervenção, também princípio ratificado pela constituição. Por isso rechaçamos a ameaça de intervenção militar no Venezuela, visto que seus efeitos seriam desastrosos e em nada resolveriam os problemas econômicos do país, alimentados pelo boicote das grandes empresas e as medidas de sanção econômica de países imperialistas.
11 – CONTRA O PACOTE DE SÉRGIO MORO E O GENOCÍDIO DO POVO NEGRO: O pacote de Sérgio Moro em relação à segurança pública apenas reforça o cenário de elevados índices de homicídio no Brasil, cujas principais vítimas são jovens negros e moradores das periferias urbanas. O projeto visa instituir a “licença para matar” aos profissionais de segurança pública, bem como objetiva o encarceramento em massa. Devemos, portanto, encampar um projeto de segurança em aliança com os demais movimentos sociais, que seja baseado na valorização da vida e no aumento de investimento público para políticas de prevenção à violência. Chega de guerra nas periferias!

Dando sequência aos encontros com representantes da comunidade científica e autoridades de governo para apresentar as demandas da pós-graduação, a ANPG participou da 183ª reunião do Conselho Deliberativo do CNPq, no último dia 20 de março. Na ocasião, estiveram presentes os presidentes da Capes, Anderson Ribeiro Correia, e da Finep, Waldemar Barroso, além de Júlio Semeghini e Marcelo Morales, dirigentes do Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações.

Vinicius Soares, diretor de Comunicação da ANPG, apresentou as duas propostas prioritárias da atual gestão, a Campanha Nacional pelo Reajuste das Bolsas e a destinação de parte dos recursos do fundo social do pré-sal para a ciência e tecnologia.

O representante dos pós-graduandos alertou para os impactos negativos para o desenvolvimento brasileiro acarretados pela falta de recursos e de prioridade estratégica para a ciência e tecnologia. “O que está acontecendo no Brasil é um enorme desperdício de talentos, uma fuga de mão de obra altamente especializada para desenvolver outras nações porque não damos condições para o pesquisador prosseguir na carreira”, ponderou.

A defasagem nas bolsas de estudo, sem reajuste desde 2013, é tamanha que se tornou praticamente impossível para o estudante sobreviver mantendo dedicação integral à pesquisa. “Em 2013, a palavra de ordem das manifestações de junho era “mãos para o alto, R$3.20 é um assalto”. Pois bem, de lá pra cá a passagem de ônibus em São Paulo, estopim do movimento, chegou a R$4.30. Só a bolsa do pós-graduando continua o mesmo valor”, comparou Vinicius. A campanha nacional pelo reajuste ganhará novo impulso no próximo dia 28, com a jornada nacional de lutas dos estudantes, que tem essa questão como uma de suas principais pautas.

As agências de fomento e o MCTIC têm demonstrado sensibilidade para a urgência do reajuste das bolsas, tanto que, em palestra realizada na Fiocruz no dia 13/3, o presidente da Capes elencou a ampliação do financiamento como uma das prioridades de sua gestão. “Minha primeira ideia para a Capes é aumentar o orçamento, porque sem isso, as ideias serão só ideias”, afirmou, em relação às restrições financeiras que, entre outras coisas, impactam o reajuste das bolsas de estudo.

Sem projeto de desenvolvimento, explode desemprego entre mestres e doutores

E ainda que consiga passar o rubicão e conclua seu projeto de pesquisa, a persistir a realidade atual, nada indica que as portas do mercado estarão abertas para o novo profissional. Por isso, a ANPG tem defendido uma política permanente de valorização da ciência e tecnologia e dos pesquisadores, através da destinação de parte dos recursos do fundo social do pré-sal para a área. Atualmente, existe um projeto de lei sobre o assunto tramitando no Senado Federal.
Segundo pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o processo de desindustrialização do país fez com que a indústria de transformação regredisse a menor participação no PIB desde 1947, sendo responsável por apenas 11,3% do total. O impacto dessa baixa na absorção de mão-de-obra qualificada é brutal e ajuda a compor um cenário de desemprego avassalador entre mestres e doutores.

“É um escândalo que 25% de mestres e doutores no país estejam desempregados. É como se o Brasil investisse para formar o profissional qualificado e dissesse: “olha, agora que você está pronto, vá gerar riqueza para outro país”. É como renunciar a um futuro melhor. Daí que é tão fundamental investir parte dos recursos do pré-sal nessa área vital para o desenvolvimento nacional”, conclui Vinicius Soares.

Da Redação

Desde o ano passado as bolsas de pós-graduação da Fundação a Amparo da Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) estão em atrasos. “Em fevereiro pagaram as bolsas de novembro, mas não a dezembro, nem janeiro e nem fevereiro. São três meses em atraso”, explica a Diretora Acadêmico e Científico da ANPG, Raísa Vieira.
A ANPG sempre esteve, incessantemente, em busca de algum posicionamento oficial sobre esses atrasos. Nesta última segunda-feira, 18 de março, a diretora da entidade conseguiu uma reunião com o presidente da FAPEG, Robson Vieira, para falar sobre o assunto. “A FAPEG cobra o relatório final dos bolsistas, que precisam ser entregues pessoalmente, independentemente se o estudante mora longe da Capital, mas não cumpre a sua parte do contrato com esses atrasos constantes”, disse Raísa.

Na reunião, o presidente da Fundação explicou que existe uma crise em Goiás, os servidores públicos também estavam com pagamentos atrasados. “Reforçamos que para os pós-graduandos a bolsa é a única fonte de renda e são cerca de 700 bolsistas”. De acordo com a Diretora, Robson Viera afirmou que sabe da importância da Bolsa e esta negociando com a Secretária da Fazenda.
Após a reunião, na terça-feira, 19, a FAPEG lançou um comunicado oficial sobre o assunto. “Conforme determinação do governador Ronaldo Caiado, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg) se prepara para realizar o empenho das bolsas relacionadas ao exercício do ano de 2019. A Fundação aguarda a liberação do sistema por parte da Secretaria da Economia para iniciar o trâmite que envolve diversas etapas internas, incluindo empenho, liquidação e alocação de recursos financeiros para a finalização do pagamento.” Lei nota completa aqui: http://www.fapeg.go.gov.br/comunicado-pagamento-de-bolsas/
A diretora da ANPG, Raísa Viera, afirmou que mesmo com o comunicado é preciso que a pós-graduação fique atenta. “O presidente da FAPEG afirmou que as bolsas de dezembro estão sendo pagas agora em março. Já estamos pressionando para saber quando acontecerão os demais pagamentos e quando a situação irá se normalizar”.

Créditos fotos: Mateus Figueiredo

Comprometidos com dedicação exclusiva, mestrandos e doutorandos enfrentam dificuldades para se manter com valores que recebem.


FLAVIA CALÉ
especial para Direto da Ciência*

Entre os imensos desafios que o país precisa enfrentar, o de resgatar o papel da ciência e tecnologia como área estratégica para o desenvolvimento soberano da Nação talvez seja um dos mais importantes. Para fazê-lo será preciso enfrentar uma intensa disputa política.

Como se sabe, estamos imersos em uma crise econômica prolongada, com efeitos devastadores nas contas públicas que se refletem na insolvência de estados e municípios, no corte de salários e serviços públicos essenciais. Nesse contexto, a saída única apresentada pela equipe econômica do novo governo consiste em reduzir o déficit fiscal por meio do enxugamento da máquina, do corte em políticas sociais e direitos, desinvestimentos, privatizações e contingenciamentos ou cortes drásticos no orçamento de ministérios.

Obviamente, diante de tal quadro, fica mais difícil fazer o debate político sobre as prioridades estratégicas, sobre a urgência da recomposição de investimentos em ciência, tecnologia, pesquisa, inovação. Afinal, como convencer alguém que não tem como pagar as contas imediatas a não cortar da área cujo resultado é futuro? Pois é esse o desafio que precisa ser enfrentado.

É inadmissível que um país com as dimensões do Brasil naturalize a não realização de suas potencialidades, que aceite a “fuga de cérebros” brasileiros para desenvolver outras nações, que assista passivamente a carreira científica deixar de ser opção viável para as novas gerações. Tal escolha ou inação equivale a eternizar o subdesenvolvimento, tornando-o política de Estado.

A situação internacional aponta para uma guerra comercial entre EUA e China, que disputam o protagonismo global no próximo período. Está em andamento a chamada quarta revolução tecnológica, um salto gigantesco no sistema produtivo, que já está substituindo o trabalho humano em muitas áreas, criando novas e extinguindo antigas profissões, propiciando imensa acumulação de riquezas nos países dinâmicos e trazendo ameaças neocoloniais aos países periféricos.

A pergunta é: como vai se portar o Brasil diante disso? Buscaremos nosso lugar nesse cenário ou ficaremos inertes, esperando que as grandes potências decidam qual o nosso lugar no sistema de produção mundial? Sem valorizar a ciência, a pesquisa e o pesquisador, estaremos condenados à segunda opção.

 

Precarização e desestímulo

Estima-se que 90% da pesquisa científica nacional seja proveniente da pós-graduação. É um capital humano de alto nível, qualificado, que deveria ser valorizado. No entanto, as bolsas de mestrado e doutorado oferecidas no Brasil giram entre R$ 1.500 e R$ 2.200, respectivamente, e não são reajustadas há seis anos  –  é uma verdadeira calamidade.

Para efeitos de comparação, segundo dados disponíveis no Secovi, o aluguel de um apartamento de 50 m2 e um dormitório no centro de São Paulo fica em torno de R$ 1.400, sem contar o condomínio. A tarifa de ônibus custa R$ 4,30 a viagem, mesmo valor do metrô. O valor médio da refeição na capital paulista fica na faixa de R$ 30. Ou seja: o mestrando tem de escolher se mora, almoça ou se transporta com o recurso da bolsa, que é destinada para dedicação exclusiva.

À precarização, somam-se a estafa própria da rotina de pesquisa e as dificuldades posteriores de absorção no mercado, cada vez mais restrito diante das privatizações, da falta de investimentos para contratação de trabalhadores em institutos de pesquisa e universidades públicas e do baixo investimento da iniciativa privada em pesquisa e inovação.

A resultante é o desestímulo à carreira científica para muitos jovens, que acabam migrando para outras áreas. Outros tantos se veem obrigados a buscar oportunidades no exterior. Além de perdermos talentos, ainda financiamos indiretamente o incremento tecnológico de outros países, dos quais depois importaremos produtos de alto valor agregado.

Em busca de alternativas para essa situação, a Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG) lançou a campanha nacional Pelo Reajuste de Bolsas Já! A bolsa deveria ser compreendida como a remuneração de um trabalho de extrema relevância para o país e, como tal, precisaria ter uma política de reajuste anual de acordo com a variação da inflação, além da recuperação das perdas dos últimos seis anos em que ficou estagnada.

Não há desenvolvimento e redução de desigualdades que prescindam de ciência e tecnologia e, consequentemente, da pesquisa científica. Por isso, valorizar o pesquisador é condição precípua para uma reinserção soberana do país no mundo.

FLÁVIA CALÉ DA SILVA é mestranda em História Econômica na Universidade de São Paulo e presidenta da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG).

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), representante dos pós-graduandos e pós-graduandas brasileiros, expressa sua solidariedade aos pós-graduandos(as) e pesquisadores argentinos, que estão em luta pela valorização das bolsas, da carreira científica e da ciência e tecnologia Argentina.

Os colegas argentinos enfrentam uma situação semelhante à brasileira, de cortes de investimentos em C&T, desvalorização das bolsas e sobrecarga de trabalho na pós-graduação sem contrapartidas de direitos. Diante dessas condições, têm realizado diversas mobilizações e organizado intervenções frente ao “Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas” – CONICET, órgão federal da Argentina que possui funções semelhantes ao CNPq e CAPES.

Apoiamos a luta dos jovens cientistas argentinos por entender a importância da ciência e tecnologia e da valorização dos pós-graduandos para a construção da soberania em nossa região. Esse é um passo fundamental para superar a dependência científica e econômica da América Latina, não aceitar o entreguismo de nossas riquezas e a fuga de nossos cérebros.

Por fim, fazemos votos de que a luta das (os) Hermanas (os) argentinas (os) sirva de exemplo para fazermos do dia 28 de março de 2019, “Dia Nacional de Paralisação em defesa da valorização da pesquisa e dos pesquisadores no Brasil”, um grande marco na história de luta dos pós-graduandos e pós-graduandas brasileiros.

Todo apoio aos pós-graduandos, pós-graduandas e pesquisadores argentinos!

Imagem: diarioarapiraca

Nota de apoio à reitoria da UFAL

A ANPG expressa sua solidariedade à Reitora da UFAL, professora Valéria Correia; ao vice-reitor, professor José Vieira da Cruz, e aos servidores públicos daquela gestão, ante o pedido de prisão realizado por petição da Adufal – Sindicato dos docentes da UFAL, e do Sintufal – Sindicato dos trabalhadores da UFAL na semana passada.

Esse ato ocorre no primeiro trimestre do Governo Bolsonaro, cuja figura e seus ministros, ao expressarem propostas políticas para educação, ciência e tecnologia, tratam a Universidade e o sistema nacional de Pós-Graduação como espaços a serem atacados. Realizam uma política de cortes substanciais no orçamento para as universidades públicas, para a CAPES e para o CNPq, disfarçada de reestruturação da área. Paralelamente, efetuam uma cruzada ideológica com objetivo de identificar a universidade brasileira e o sistema de pesquisa construído no país como lugar de produção da subversão e de descompromisso social.

Diante desse quadro e do inegável perfil engajado da Reitora da UFAL, magnífica professora Valéria Correia, que já demonstrou nacionalmente seu compromisso com a construção de uma universidade socialmente referenciada nos grupos e classes populares, apresentamos esta nota de solidariedade, de irrestrito apoio à construção da autonomia universitária brasileira e de repúdio às tentativas de judicialização da política!

 

São Paulo, 20 de março

Associação Nacional de Pós-Graduandos

A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) está com inscrições abertas para diversos cursos de especialização na área de educação, oferecidos gratuitamente e na modalidade EAD.

O aluno que cumprir satisfatoriamente todas as exigências do curso receberá Certificado de Pós-Graduação Lato Sensu, em nível de Especialização, expedido pela instituição e credenciado pelo MEC.

Os cursos ofertados são (em ordem alfabética):

* Especialização em As Áfricas e suas Diásporas;
* Especialização em Bullying, Violência, Preconceito e Discriminação na Escola;
* Especialização em Educação em Direitos Humanos;
* Especialização em Ensino de Filosofia no Ensino Médio;
* Especialização em Informática em Saúde;
* Especialização em Literaturas de Língua Portuguesa, Identidades, Territórios e Deslocamentos;
* Especialização em Saúde Indígena.

Requisitos:

Possuir formação de nível superior, em nível de graduação, em curso reconhecido pelo MEC. Ter familiaridade com o uso de computador, acesso à internet e e-mail.

Período de inscrição:

Das 0h do dia 14/03/2019 até as 23h59min do dia 14/04/2019 (horário de Brasília).

Para realizar sua inscrição, acesse::

https://webapp.sead.unifesp.br/index.php?c=Formulario&m=preencher&cod=152

Para ler o Edital de chamada, acesse:

https://www.pebsp.com/wp-content/uploads/2019/03/Edital-UAB_2019-202_Alunos.pdf

Aos interessados, portanto, inscrevam-se!

O Brasil hoje tem cerca de 13 milhões de desempregados que representam mais de 12% da população, sem contar o universo de subempregados, pessoas que estão na informalidade, ou que estão em trabalho precário. Como isso atinge a juventude?

Primeiro é importante saber que, no Brasil, a juventude já tem uma taxa de participação muito alta. Taxa de participação é a quantidade de pessoas em idade de trabalhar que está trabalhando ou procurando emprego. No caso dos jovens de 15 a 29 anos, o Brasil é o segundo com a maior taxa, só perde para o Paraguai na América Latina. Quando se tem uma taxa de participação muito alta, quer dizer que nessa economia existe um número muito elevado de pessoas pressionando para ingressar no mercado de trabalho. O que eu quero dizer com isso é que no Brasil o jovem precisa trabalhar, ele não tem a opção de não procurar emprego. A gente não quer que os jovens de 15 a 18 anos estejam trabalhando nem procurando emprego, o ideal seria que eles estivessem ampliando a sua escolarização. Só que no Brasil não é possível fazer isso. Porque nós temos um tipo de mercado de trabalho em que, na maioria das vezes, a renda desses jovens é fundamental para compor a renda familiar. Quanto mais pobres as famílias, mais esses jovens contribuem para ingressar precocemente no mercado de trabalho. E isso reproduz a desigualdade, porque os jovens que puderem ingressar depois [no mercado de trabalho] poderão ampliar sua escolarização e alçar ocupações de melhor qualidade, com melhor projeção na carreira, salários maiores. Uma das características do nosso mercado de trabalho é um excedente estrutural da força de trabalho. Tem gente demais procurando emprego. Desde que se aboliu a escravatura, a gente deixou uma margem de pessoas fora do mercado de trabalho, pressionando para ingressar, e por isso elas estão o tempo inteiro margeando entre a formalidade e a informalidade, o que a gente chama de subemprego. E isso contém sempre o nível de preço do salário, que já é historicamente baixo no Brasil. Criar uma situação para que o jovem seja obrigado a ingressar no mercado de trabalho contribui para essa dinâmica. Nos anos 2000, ocorreu uma redução da taxa de participação porque houve uma ampliação das rendas das famílias. Isso permitiu que a gente reduzisse a de18 sigualdade também porque os jovens saíram do mercado de trabalho. Os jovens de famílias mais pobres puderam ingressar na universidade também porque não estavam trabalhando. Porque se o jovem tem que trabalhar dez, 11 horas por dia, contando o deslocamento nas grandes cidades, é impossível conciliar e ele acaba abandonando o estudo.

 

 

Uma das críticas que recaiu sobre a reforma do ensino médio, aprovada no governo Michel Temer, é que ela visa acelerar a entrada do jovem no mercado de trabalho. Recentemente, o ministro da Educação causou polêmica ao afirmar que a universidade não é para todos, argumentando, entre outras coisas, que ela não gera emprego. Nessa relação entre educação e trabalho, qual é a política adequada para a juventude?

No Brasil, na verdade, a universidade nunca foi para todos, só que ninguém nunca verbalizou isso. Esse governo não só entende que não é para todos, como quer tornar para menos – e diz isso. No Brasil, a educação sempre foi dual. Sempre houve uma educação voltada para os filhos dos ricos, para a elite, para formar com pensamento crítico, com capacidade de visão prospectiva, e outra para os pobres, voltada para romper com o analfabetismo funcional, para que as pessoas conseguissem operar a vida no cotidiano, sobretudo a partir das décadas 1970, 80, quando se amplia a urbanização no Brasil. O grande objetivo é criar formações para os filhos dos trabalhadores apenas para reproduzir a força de trabalho o mais funcional possível, ao passo em que se responsabilizam os estudantes pelo seu fracasso e pelo seu desemprego. Quando se flexibiliza o mercado de trabalho supondo que isso vai aumentar o mercado de emprego, estáse tentando responsabilizar o trabalhador pelo seu desemprego. Quando se diz que as pessoas estão desempregadas porque não têm qualificação, está-se responsabilizando os jovens, ou os trabalhadores como um todo, pelo seu fracasso na vida profissional. Um paradoxo do nosso sistema educacional é que nós temos uma educação pública de ótima qualidade nos Institutos Federais, com ensino médio e técnico. Se a educação brasileira fosse do mesmo nível dos IFs, estaria entre as melhores do mundo. Agora, a questão é que essa educação, que parte de um princípio meritocrático, bloqueia a entrada de uma grade parcela de jovens, sobretudo os que precisariam de uma educação melhor para romper com a condição de pobreza. E faz com que se ofereça ensino técnico, voltado para o mercado de trabalho, para quem ingressa ali apenas para se preparar para o curso superior.

 

Mas se só entrar nos Institutos Federais quem vai direto para o mercado de trabalho e não para a universidade, a gente não acaba reproduzindo também a lógica da dualidade educacional? Os filhos dos trabalhadores não devem ter acesso a escolas como os IFs, que têm educação profissional, mas também poderem ir para a universidade?

A situação ideal seria, além de garantir grandes políticas universais, também ampliar a possibilidade de escolha. A escolha do filho do jovem da periferia de não fazer um curso superior na universidade pública é a não escolha. Mesmo que ele diga que escolheu não prestar o vestibular. A gente deveria conseguir universalizar a educação com a qualidade que existe nos Institutos Federais. Eu não vejo como problemático universalizar a educação técnica, para que pessoas que vão fazer o curso superior tenham um ensino prático. Isso acontece em vários países desenvolvidos e pode contribuir para constituir uma vida mais completa. O ideal seria dar essa qualificação para todas as pessoas e dar também as condições de elas escolherem não fundadas nos limites socioeconômicos, nos limites de exclusão que a gente tem no Brasil hoje. Os jovens brasileiros que precisam contribuir com a renda familiar têm poucas escolhas. Isso é diferente em países como França, Alemanha e Noruega, em que existe um aparato de proteção social que permite que as pessoas tomem suas decisões não fundadas pela [necessidade de garantir] sua subsistência. Já no Brasil, as propostas estão sempre fundadas em reduzir qualquer tipo de proteção, para levar os trabalhadores de forma mais contundente, mais violenta, a terem qualquer ocupação.

 

Programas como Prouni e Fies levaram mais jovens de famílias pobres e de classe média baixa à universidade. Isso se reverteu em mais emprego ou mais empregabilidade? Jovens com curso universitário de fato têm mais chances de serem empregados?

Houve uma forte ampliação da escolarização na década de 1980, entre pessoas com menos de 15 anos. Nos anos 1990, o desemprego aberto como a gente conhece hoje passou a ser muito relevante, sobretudo entre os jovens. E isso aconteceu ao mesmo tempo em que houve o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, o que foi uma mudança brasileira de costumes, mas também uma mudança econômica porque tão logo se ampliaram as grandes cidades, as mulheres precisaram passar a contribuir numa vida mais mercantilizada. Isso começa a pressionar ainda mais [o mercado de trabalho]. A taxa de desemprego dos jovens era muito elevada, porém com elevação da escolarização. Ampliamos a escolarização, só que o salário se reduziu. Se houvesse um dado histórico, como a gente tem agora com a PNAD [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio] Contínua, a gente provavelmente veria uma ampliação profunda da subutilização da força de trabalho. Se fizermos um paralelo, nos anos 2000 ocorreu também uma ampliação da escolarização, dada pelo acesso ao curso superior, privado ou público. Mas aconteceu também uma ampliação da renda. O processo mais importante do mercado de trabalho nos anos 2000 foi a elevação da renda, e isso não ocorre por conta da alteração da escolarização. Os jovens reduzem a sua participação [no mercado de trabalho], ingressam nas universidades e o nível dos salários se eleva porque o Brasil estava crescendo economicamente. A ampliação de salários e da política de transferência de renda fez com que a economia também crescesse por conta do 19 consumo. Vários departamentos da nossa indústria começaram a contratar mais, num ciclo virtuoso. A taxa de emprego deriva do nível de consumo e de investimento de uma economia. O mercado de trabalho não é um dado isolado. A ampliação do salário mínimo gerou efeitos tanto em ocupações informais, quanto nas ocupações formais e [benefícios] previdenciários. Em várias regiões do país, que têm menos dinamismo econômico, a ampliação do salário mínimo e do benefício previdenciário é fundamental para ampliar a atividade econômica naquele lugar. É um processo de transferência de renda. Então, o que ocorreu nos anos 1990 foi ampliação da escolarização, com redução de salário, ampliação do desemprego e da informalidade. Nos anos 2000 ocorre o contrário: ampliação da escolarização, de salários e do nível de emprego. Portanto, se tem alguma coisa que a gente pode dizer sobre a relação entre nível de emprego e nível de salário, é: sempre que houver nível de emprego muito baixo, vaise construir um processo de redução de salário.

 

Mas, segundo dados da OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico], no Brasil os adultos graduados recebem em média 149% a mais do que aqueles que pararam no ensino médio. Existem dados que comprovem essa relação?

Se você cruzar, vai conseguir uma correlação positiva entre nível de escolarização e taxa de emprego e nível de salário, sobretudo. Em alguns momentos a gente ficou com um desemprego maior entre pessoas com escolarização maior. Isso varia de acordo com cada ciclo econômico. Mas eu acho que o mais importante de se constatar é que deveríamos enxergar a educação como um elemento de constituição da nossa humanidade. Eu acho, de verdade, que estabelecer essa correlação direta [da empregabilidade] com a educação é um equívoco porque inverte causa e efeito. A nossa desigualdade aparece antes de o sujeito ingressar no mercado de trabalho e na escolarização. Quando a gente olha os dados, vê que a desigualdade no começo da juventude é muito menor e se amplia muito no transcorrer da vida. Os jovens dos 20% das famílias mais pobres ganham um salário mínimo. Os jovens dos 20% mais ricos ganham um salário mínimo e meio. Então, você olha e fala: ‘nossa! Esse valor é baixo’. Só que esse jovem das famílias mais pobres que entra com um salário mínimo é um repositor de supermercado. O outro jovem é um estagiário de empresa multinacional. Se você olhar pelo salário, vai dizer que são iguais. Mas os jovens mais ricos vão ampliar [o salário] inexoravelmente. O jovem mais pobre pode virar caixa, depois de ser repositor pode ser gerente, se se esforçar muito. A gente acaba reproduzindo a ideia de que a vida dos nossos jovens é um fracasso porque eles não conseguiram ingressar na USP, e por isso não têm um salário de R$ 10 mil, R$ 15 mil. A partir disso, começa a surgir esse tipo de correlação, de que a desigualdade é fruto exclusivamente das desigualdades educacionais. A desigualdade educacional é uma expressão da nossa desigualdade de renda. O Jessé [Souza] fala uma coisa interessante: que a relação que os filhos da classe média estabelecem com a educação, com a leitura, com o pensamento prospectivo é muito distinta das famílias pobres, porque estas têm um senso de urgência muito profundo. Nas famílias mais pobres, muitas vezes se tem uma relação subjetiva com a escolarização como um obstáculo para garantir a subsistência no curto prazo. Então, é fundamental que se consiga ampliar a escolarização e reduzir a desigualdade, mas eu acho que não está na escola nem na universidade exclusivamente a redução da desigualdade. É óbvio que quem conseguiu estudar medicina na USP ou na Unicamp pode ter um salário de R$ 20 mil, R$ 30 mil por mês. Agora, qualquer pessoa pode cursar medicina na USP ou na Unicamp?

 

Dados do Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] de dezembro de 2018 apontam que 23% dos jovens brasileiros nem trabalham nem estudam. São os chamados jovens nem-nem. Desses, 31% estão procurando emprego e não encontram, sem contar que 64% dedicam-se a trabalhos domésticos, principalmente mulheres. Por que isso acontece?

A gente tem um processo histórico de desigualdade de gênero no mercado de trabalho muito grande. As meninas, as mulheres, pressionaram para ingressar todo o tempo. E esse problema é maior ainda porque nós não temos um aparato de proteção social como existe em países mais desenvolvidos. Ou seja, o cuidado com os idosos e com os menores recai sobre as mulheres, sobretudo as jovens. Então, tudo isso vai constituindo um tipo de trabalho não remunerado que a gente não contabiliza. A escolarização das mulheres no Brasil é maior desde pelo menos a década de 1970. E mesmo assim o fosso salarial [entre homens e mulheres] e no acesso ao mercado de trabalho sempre foi muito grande. Se a teoria do capital humano é verdade, por que as mulheres não ganham mais do que os homens? Precisamos ressignificar o conceito do desemprego. As famílias mais pobres não podem se dar ao direito de ficar verdadeiramente desempregadas. O sujeito está tão acostumado com a informalidade que quando perde o emprego pega a caixa de isopor e vai vender água no farol. Temos que fazer mesmo pesquisas com relação aos ‘nem-nem’, mas devemos evitar comparação como se fossem análogos aos ‘nem-nem’ da França, da Alemanha ou de Portugal, por exemplo. Porque na Europa esse é um fenômeno da classe média, enquanto no Brasil é eminentemente de pobres que não têm acesso à escolarização nem a um emprego formal.

 

A geração de emprego para os jovens é preocupação central do governo e argumento para a defesa de mudanças nas relações trabalhistas. Notícias da imprensa, inclusive, disseram que o governo usaria a data de nascimento para especificar quem poderia optar pela carteira verde e amarela. Por que esse foco na juventude?

20 Quando você imprime uma mudança no mercado de trabalho, em geral isso se dá inicialmente com a juventude. Uma hipótese minha é que, quando a gente quer olhar como vai ser o mercado trabalho para frente, deve olhar como os jovens estão ocupados agora: o tipo de relação, vínculo empregatício, níveis de salário… Porque isso tende a se reproduzir no mercado trabalho como um todo. É por isso que quando você faz reformas em períodos de crise, elas em geral rebaixam muito a média de qualidade da vida das pessoas. Como os jovens estão ingressando agora e precisam de experiência para conseguir ter alguma trajetória na vida profissional, eles aceitam qualquer condição. E assim, num período de muito desemprego, esses jovens se submetem a coisas ainda piores. Na década de 1990 houve país, se eu não me engano a Bolívia, em que o Carrefour colocava jovens para trabalhar em supermercados, com coletes escritos: ‘meu salário é sua gorjeta’. Conforme a pobreza vai aumentando, com a crise, com outros membros da família desempregados, esses jovens são compelidos ainda mais a aceitar qualquer trabalho. E é nesses momentos de crise que surgem propostas de rebaixamento de salário e redução dos direitos trabalhistas visando reduzir o desemprego entre jovens. O problema é que não existe mercado de trabalho dos jovens, o mercado de trabalho é um só. E quando você reduz as condições de trabalho para os jovens, está indicando para o mercado que vale mais a pena contratar jovens e substituir o trabalhador adulto, que tem compromissos maiores com a manutenção da família. Isso reduz o nível de renda dentro das famílias e a média da remuneração do mercado de trabalho. Não faz sentido achar que reduzir direitos trabalhistas ou salários vai aumentar o número de empregados.

 

Por que não? Se não é a redução de direitos que resolve o desemprego, o que, de verdade, gera emprego?

Na base desse pensamento está a ideia de que os trabalhadores só não são contratados porque estão querendo receber salários maiores do que os empresários estão dispostos a ofertar. Essa percepção é tão ultrapassada, que na crise de 1929 – ou seja, daqui a pouco vai fazer um século – já foi constado que em alguns momentos de crise do capitalismo os trabalhadores estão dispostos a receber qualquer salário e, em situações extremas, até a não receber salário nenhum, trabalhando inclusive por comida. Se funcionasse assim, por essa lógica automática e simplória, poderíamos pensar que em todos os países desenvolvidos, com maior proteção social, o nível de desemprego seria muito maior do que nos países periféricos. É assim que ocorre? Não. No Brasil, o desemprego mais elevado, olhando de 2012 até 2018, sempre foi no Nordeste, ou seja, a região que tem o maior nível de informalidade no país. Mas eu não acho que existe engano teórico e metodológico em relação a essa ideia de que reduzir direitos gera emprego. O que existe é uma pressão profunda do empresariado brasileiro para pagar ainda menos, para garantir uma ampliação ainda maior desse excedente da força de trabalho, para criar margem de lucro. Todos os dados mostram que a ultraflexibilização gerada pela reforma trabalhista e pela regulamentação da terceirização não resolveu o problema do desemprego.

 

Mas algumas medidas da reforma trabalhista já aprovada, como, por exemplo, o trabalho intermitente, foram defendidas também mirando os jovens, com o discurso de que, assim, eles poderão trabalhar sem deixar de estudar. Qual a sua avaliação sobre isso?

A ideia de que é melhor algum emprego do que não ter emprego leva facilmente a gente a apoiar, por exemplo, o trabalho escravo. O trabalho intermitente não foi implementado para gerar emprego. De fato, ele pode reduzir a forma como a taxa de desemprego aberto aparece na estatística. Porque o sujeito pode estar empregado num trabalho intermitente, não ter trabalhado nenhuma hora naquele mês e aparecer como empregado. Ele não recebeu nem um real, mas tem que fazer a contribuição previdenciária. Do ponto de vista da estatística, é bom para o governo dizer que reduziu desemprego, porque no final das contas todo mundo pode ser um trabalhador intermitente. Mas não resolve o problema no nosso mercado de trabalho. Foi se vendendo uma ideia, que hoje alguns estudos começam a questionar, de que os jovens buscam ocupações mais flexíveis, que consigam captar o seu empreendedorismo. Só que dados, inclusive da OIT [Organização Internacional do Trabalho], mostram que os jovens querem emprego estável. Querem direito a férias, querem uma ocupação de qualidade, algum tipo de estabilidade. Dizer que o trabalho intermitente vai facilitar a educação também é uma falácia, porque não tem uma jornada estabelecida, o que é pior para a escolarização do que o sujeito saber que vai entrar às 9 h e sair às 18h. Porque o empregador pode chamá-lo para trabalhar no horário da faculdade. Ele tem a opção de ir ou não, mas quanto menor a renda, quanto piores as condições de trabalho, mais ele é compelido de forma contundente a fazer o que o patrão está exigindo.

 

Que tipo de emprego ou ocupação os jovens mais têm no Brasil?

A taxa de participação dos jovens de 18 a 24 anos tem crescido. A taxa de desemprego desses jovens fechou em 26% no terceiro trimestre de 2018, o que sugere que mais do que um a cada quatro jovens estão desempregados. A taxa de subutilização dessa mesma faixa etária está em 41%. Entre os jovens de 14 a 17 anos, essa taxa sobe para 68%. E existe aqui uma intersecção: eles são os jovens mais pobres, que além de terem que trabalhar muito cedo, também convivem com maior desemprego e pressionam ainda mais o mercado de trabalho. No Brasil também tem crescido muito o nível de informalidade entre a juventude e é por isso que tem ocorrido essa pressão para flexibilizar ainda mais. Os níveis de salário da juventude também têm se reduzido, junto com a ampliação do desemprego.

 

EUZEBIO JORGE DE SOUZA

Em breve, o Brasil pode ganhar uma nova carteira de trabalho, com uma mudança de forma e conteúdo: em vez da velha capinha azul, um design verde e amarelo; ao invés de direitos trabalhistas, o direito a não ter direitos, em nome da empregabilidade. A estratégia tem sido anunciada na imprensa pela equipe econômica do governo federal: não mexer na legislação que garante ganhos como o 13º salário e as férias, mas dar ao trabalhador a “opção” de abrir mão desses benefícios. Reportagens sobre o tema chegaram a afirmar que a data de nascimento pode ser usada como linha de corte para definir quem poderia ou não aderir à novidade, deixando claro que o foco principal dessa política é a juventude. As hipóteses que sustentam essa proposta, no entanto, estão longe de ser consenso – tanto no que diz respeito ao problema do desemprego quanto no se refere às soluções para a juventude. Euzébio Jorge Silveira de Souza é economista, presidente do Centro de Estudos e Memória da Juventude e está desenvolvendo, neste momento, uma tese de doutorado sobre ‘Juventude e trabalho decente’. Nesta entrevista, ele refuta a ideia de que a redução de direitos gera mais empregos, explica a relação entre escolaridade, empregabilidade e renda no Brasil, descreve o perfil do mercado de trabalho que se destina aos jovens hoje e defende um outro caminho de política pública para a juventude.

No último dia 22 de fevereiro, a FAPEMIG comunicou os cortes determinados pelo governo estadual no orçamento da agência de apoio à pesquisa científica reduzindo o repasse de cerca de 300 milhões para aproximadamente 60 milhões/ano, que manteria um fluxo de caixa de 6 milhões mensais. Os cortes impactam profundamente as Universidades e estudantes mineiros e mineiras. Todas as bolsas de Iniciação Científica e Iniciação Científica Junior foram suspensas ( cerca de 5 mil bolsas), além da suspensão de todo investimento em projetos de pesquisa e de bolsas inativas da pós-graduação.
Os constantes atrasos nos pagamentos das bolsas FAPEMIG já vinham impactando diretamente os estudantes e pesquisadores, resultando no atraso e interrupção de milhares de pesquisas em andamento no estado, além de afetar a própria sobrevivência dos pesquisadores que dependem dos recursos para o custeio de suas necessidades básicas.
A interrupção do financiamento de pesquisas representa uma perda inestimável para Minas Gerais e para o Brasil. O investimento em Ciência e Educação é a única solução viável para o enfrentamento duradouro e sustentável da crise fiscal que o assola o Estado. É o único caminho para libertar Minas da prejudicial dependência da exploração mineral.
É lastimável negligência do governo estadual recém-empossado com a Educação e a Ciência. Cortes de tal ordem podem resultar em anos de retrocessos no trabalho científico mineiro. Tais cortes afetam o desenvolvimento do estado, pois o tornará um retardatário na atual corrida técnico-cientifica no âmbito da Quarta revolução industrial.
Em quase cem dias de Governo Zema não há nenhum projeto e nem perspectiva para a Educação em Minas Gerais. Enquanto isso, o governador Romeu Zema (Novo) se apóia em ações e discursos velhos e marketeiros como venda do helicóptero oficial, dispensa da residência oficial e doação do seu primeiro salário, como se isso provasse o seu compromisso com necessidades do povo mineiro.
Todas essas ações de marketing são irrelevantes comparadas aos cortes na Ciência que colocará em risco não só o presente, mas também o futuro de Minas e o sonho de tornar nosso grande estado, desenvolvido, menos desigual e condutor do desenvolvimento brasileiro.
Mais uma vez, a União Estadual dos Estudantes apresenta à sociedade e ao poder público a proposta de criação do Fundo Social do Minério, com recursos 100% destinados à Educação e ao desenvolvimento científico e tecnológico. Dessa forma, a Educação tornar-se de fato o caminho de acesso a um outro futuro, tornando assim a atividade mineradora vinculada aos interesses da sociedade e não somente aos interesses de lucro máximo e criminoso das grandes mineradoras.
Nossa reivindicação imediata é o cumprimento da Constituição Mineira com o repasse de 1% da receita orçamentária para a FAPEMIG e o retorno imediato das bolsas e investimentos para o desenvolvimento de pesquisa nas universidades.
A CIÊNCIA NÃO PODE PAGAR PELA CRISE!
#ZemaDevolveMinhaBolsa

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Comprometidos com dedicação exclusiva, mestrandos e doutorandos enfrentam dificuldades para se manter com valores que recebem. Artigo de Flávia Calé, presidenta da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG), para o Direto da Ciência

Entre os imensos desafios que o país precisa enfrentar, o de resgatar o papel da ciência e tecnologia como área estratégica para o desenvolvimento soberano da Nação talvez seja um dos mais importantes. Para fazê-lo será preciso enfrentar uma intensa disputa política.

Como se sabe, estamos imersos em uma crise econômica prolongada, com efeitos devastadores nas contas públicas que se refletem na insolvência de estados e municípios, no corte de salários e serviços públicos essenciais. Nesse contexto, a saída única apresentada pela equipe econômica do novo governo consiste em reduzir o déficit fiscal por meio do enxugamento da máquina, do corte em políticas sociais e direitos, desinvestimentos, privatizações e contingenciamentos ou cortes drásticos no orçamento de ministérios.

Obviamente, diante de tal quadro, fica mais difícil fazer o debate político sobre as prioridades estratégicas, sobre a urgência da recomposição de investimentos em ciência, tecnologia, pesquisa, inovação. Afinal, como convencer alguém que não tem como pagar as contas imediatas a não cortar da área cujo resultado é futuro? Pois é esse o desafio que precisa ser enfrentado.

 

Fonte: Jornal da Ciência