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O fomento à pesquisa científica e à pós graduação é um dos principais gargalos do país, fruto da política de desmonte da educação operada pelo MEC tendo à frente o ministro Weintraub. Entre os cortes feitos em 2019 e a luta empreendida pelos jovens pesquisadores brasileiros para revertê-los, ainda resta um déficit de 7.590 bolsas, que foram suprimidas do sistema de pós graduação brasileiro.

Os dados divulgados pela Folha de São Paulo (17/02), em matéria do jornalista Paulo Saldaña, escancaram os reais impactos da política de desinvestimento na educação e na ciência e revelam a contradição, ou melhor dizendo, a farsa do discurso que o MEC tem feito para justificar tais medidas.

A primeira incoerência diz respeito à falsa contradição sobre os montantes de recursos destinados às áreas de humanidades ou exatas. Apesar de o ministério alegar que a realocação de bolsas deve privilegiar as áreas duras, na prática isso não se verifica, já que foram as engenharias que sofreram as maiores baixa. Nós acreditamos que todas as áreas do conhecimento são fundamentais para o desenvolvimento de qualquer nação, devendo os investimentos serem distribuídos de forma equilibrada e coerente com um projeto nacional.

A segunda se encontra no âmbito dos critérios utilizados para se promover esses cortes. Conforme alertamos, a política de extinção linear e sumária das bolsas dos programas 3, 4 e 5 afetou principalmente as regiões em que a pós graduação é menos consolidada, mas possui grande impacto local, o que ampliará as tão nefastas assimetrias regionais. O Nordeste foi o mais afetado, proporcionalmente, pelos cortes de bolsas de estudo, com uma redução de 12%.

Do ponto de vista do tipo de bolsas cortadas, 64% estão no mestrado e 30% no doutorado. Esse dado pode evidenciar também um outro objetivo subterrâneo: o gradativo corte no financiamento dos mestrados, sob a falaciosa alegação de que o Brasil tem muitos mestres e tais cursos não são mais necessários. Podem estar mirando, portanto, o seu fim.

Além de cumprir um papel importante na formação do pesquisador, de maturação de pesquisas e levantamento e coleta de dados nas distintas áreas, os mestrados também cumprem papel para o fortalecimento e qualificação de profissionais dos serviços públicos brasileiros, com destaque para as áreas de educação e saúde. O desmonte dos metrados seria trágico para o país.

O ano de 2020 se inicia com uma dramática marca. Completamos 7 anos sem reajuste das bolsas de estudo no país. Isso tem levado a uma queda na procura pela pós-graduação e um desestímulo aos jovens que buscam na ciência uma possibilidade de carreira. É cada maior o número de pesquisadores que deixam o país para exercerem suas vocações em outros locais, assim como é crescente o número de pessoas de alta qualificação que só conseguem alocação em trabalhos precários.

Nossa agenda estará centrada na recomposição de todas as bolsas de estudo cortadas e na campanha nacional pelo reajuste das bolsas de estudo. Além disso, estaremos firmes e vigilantes em defesa do sistema nacional de ciência e tecnologia, combatendo os intentos de fusão da Capes e CNPq, assim como a nefasta PEC 186, que revoga os fundos estabelecidos em lei, entre eles o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia.

A mobilização da sociedade também será necessária para impedir mais retrocessos sociais, como a desvinculação de recursos para a educação e a saúde e a perda de direitos dos servidores públicos, ataques que o governo levou ao Congresso através de outras emendas constitucionais e do chamado projeto da reforma administrativa.

Dia 18 de março reiniciamos nossa jornada nas ruas pela mudança desse cenário de desmonte conduzido por um governo obscurantista e lesa pátria. Apenas unidos conseguiremos mudar a rota da desesperança e reconstruir o Brasil dos nossos sonhos, com desenvolvimento e felicidade para nossa gente. Fora Weintraub!

Flávia Calé é mestranda em História Econômica na USP e presidenta da ANPG

No dia 27 de outubro os uruguaios irão às urnas para eleger seu próximo presidente da República. A disputa ocorre em meio a um cenário conturbado na região, marcado pelas dificuldades dos governos conservadores eleitos na América do Sul em encontrar saídas para a crise em seus países. Tal realidade reflete a grave situação econômica, social, democrática e ambiental que vivem Brasil, Argentina e Equador, principalmente.
O outubro eleitoral, que terá pleitos no Uruguai, Argentina e Bolívia, pode impactar significativamente os rumos do continente. Ao mesmo tempo, pode representar um freio ao avanço conservador e uma retomada do ciclo virtuoso vivido nos primeiros anos do século XXI.
Neste cenário, ao longo do desenvolvimento da campanha eleitoral uruguaia vai se conformando de maneira mais nítida a polarização entre dois campos antagônicos, que expressam dois projetos de país distintos. Assim, o 27 de outubro vai assumindo um caráter plebiscitário centrado nas candidaturas de Daniel Martinez, intendente de Montevidéu pela Frente Ampla, e Luis Alberto Lacalle Pou, filho de Luis Alberto Lacalle, ex-presidente uruguaio durante o período neoliberal. Além da eleição presidencial, os uruguaios responderão, de fato, a um plebiscito. Isso porque está em discussão no país a realização de uma reforma constitucional que altere as disposições com relação à segurança pública promovida pela campanha “Vivir sin miedo”
Diante de um quadro de aumento da insegurança no Uruguai e de fortalecimento do pensamento conservador na região, o senador do Partido Nacional Jorge Larrañaga liderou a campanha “Vivir sin miedo”. A mobilização tem como objetivo reformar a constituição do país para criar medidas de segurança mais rígidas. A campanha se desenvolveu tendo por centro os debates acerca do cumprimento e revisão de penas para aqueles que cometeram crimes relacionados a estupro, abuso sexual, homicídio, tráfico de pessoas, entre outros. Aliado a isso, o senador propõe a prisão perpétua para casos de abuso sexual, estupro e homicídio de menores, com revisão após 30 anos de pena. A proposta inclui a possibilidade de emissão de mandados de busca noturnos, atualmente proibidos pelo artigo 11 da Constituição do país.
Contudo, o que mais chama a atenção é a proposta de conformar uma guarda composta por militares, subordinada ao Ministério da Defesa para reforçar o trabalho das polícias. A proposta tem a rejeição de grande parte da sociedade. A central de trabalhadores PIT-CNT, Madres y familiares de desaparecidos y detenidos políticos, Casa Grande e o Partido Comunista do Uruguai já se manifestaram contra, bem como o Conselho Universitário da Universidade da República (Conselho Universitário da UDELAR).
Lacalle Pou: del dicho al hecho, hay un trecho.
Ainda que seja possível afirmar que a candidatura de Lacalle Pou tenha colocado a campanha na rua nos primeiros momentos do processo, o candidato do Partido Nacional encontra-se em meio a dificuldades. Ele busca apresentar a imagem de novidade política e renovação programática, porém, carrega consigo o fato de ser filho do ex-presidente Luis Alberto Lacalle. Nada mais antigo na América Latina que filhos de políticos tradicionais que ingressam na política pelas mãos de papai. Tal fato advoga contra o candidato blanco (denominação atribuída aos membros do PN), uma vez que sua suposta mensagem de futuro esbarra nas medidas do governo do pai. Durante o governo de Luis Alberto Lacalle o país platino aderiu às políticas do “Consenso de Washington”, o que levou o Uruguai a quase comprometer as estruturas de bem-estar construídas ao longo de sua história. Assim, ao prometer um futuro de prosperidade, os uruguaios se perguntam: quem é Lacalle Pou? Esse que fala na manutenção da política de valorização do salário e do diálogo democrático e plural entre empresários e trabalhadores ou o que repetirá as políticas de seu pai, que quis esvaziar os Conselhos de Salários (instâncias tripartites em que governo, empresas e sindicatos negociam os aumentos salariais)?
De outra parte, pode-se dizer que Lacalle Pou busca canalizar o programa de toda a oposição ao governo, afirmando referidas vezes que conduzirá um governo de coalizão. Entretanto, tal projeto não está consensuado entre as demais organizações da direita uruguaia, nem mesmo no próprio Partido Nacional, demonstrativo de que líder blanco terá trabalho para costurar um entendimento.

Essa realidade tem levado à candidatura de Lacalle Pou a estabelecer um discurso pendular. Precisa prometer políticas sociais para angariar votos ao mesmo tempo em que deve responder aos setores políticos, sociais e econômicos com os quais está comprometido. Com uma mão, portanto, oferece promessas de garantias sociais e com a outra defende uma agenda de cortes de gastos públicos, ajuste fiscal e austeridade. Dessa forma, tem buscado dialogar com o cenário de fortalecimento de ideias conservadoras na sociedade, em decorrência da crise e da eleição de governos conservadores na região, para apresentar-se como representantes desses interesses.

Assim, se por um lado Lacalle Pou afirma que não está de acordo com o projeto “Vivir sin miedo”, afirma que é favorável ao direito de auto-defesa dos policiais diante de abusos cometidos durante operações. O discurso de Lacalle Pou fica, portanto, limitado pela realidade eleitoral e os compromissos sociais e políticos que assume. Como sustentar um discurso que defende um Uruguai próspero e desenvolvido e indicar Pablo Bartol, amplamente conhecido membro da Opus Dei, como possível ministro de Desenvolvimento Social?!
Resta ao representante da direita uruguaia dedicar-se a explorar o desgaste de quem governa o país há 15 anos – e atravessa um período de crise da economia mundial – e vender um futuro vazio, sem propostas concretas para o país enfrentar a crise. Assim, em sintonia com seus pares a nível regional, acusa o caráter bolivariano das relações internacionais estabelecidas pelos governos frenteamplistas, afirma que é fundamental “desideologizar” a política exterior do país, colocando-o ao lado das nações que defendem o livre mercado, cuja maior expressão é a economia chilena.
Pode-se dizer que até o debate realizado no dia 01 de outubro não havia um clima de campanha efetivamente no país, quadro que mudou diante do fortalecimento da polarização entre os candidatos da Frente Ampla e do Partido Nacional. Ao mesmo tempo, o ingresso tumultuoso da campanha frenteamplista no processo provocou uma virada, tanto no clima quanto na disputa eleitoral.
Defender lo bueno, hacerlo mejor!
A partir do final do mês de setembro é possível identificar uma virada na campanha eleitoral que permitiu uma mudança qualitativa no processo. Este salto se deve à mobilização social em torno da defesa das conquistas alcançadas nos últimos 15 anos. Assim, o processo eleitoral ganhou clima de campanha a partir do momento em que os atores do movimento social organizado ocuparam as ruas contra o retrocesso representado pela candidatura de Lacalle Pou.
A militância social saiu às ruas apresentando um país distinto daquele pintado pelo candidato do Partido Nacional. A candidatura de Daniel Martinez, portanto, se apoia nas conquistas obtidas ao longo dessa década e meia de governos da Frente Ampla, que buscaram construir no Uruguai uma nova matriz produtiva. Ainda que o país não tenha conseguido superar o modelo monocultor, mudanças substanciais foram promovidas na construção de um novo modelo sustentado de crescimento econômico, justiça social, soberania, democracia e integração regional. Tendo o Estado como promotor do desenvolvimento, distintos ramos da economia e da sociedade uruguaia ganharam centralidade nesse objetivo.
À luz da construção dessa nova matriz produtiva políticas foram implementadas e permitiram ao Uruguai manter um ritmo de crescimento econômico contínuo ao longo desses 15 anos, o maior da história do país. Considerando os dados somente de 2011 até a presente data, ou seja, após iniciada a crise internacional, os orientais obtiveram um crescimento de 19% do PIB, segundo dados oficiais. Tal orientação permitiu reduzir a dívida do Estado, que representava 78% do PIB, em 2004, para 41%, em 2018.
O crescimento econômico, relativamente regular, permitiu a implementação de um conjunto de políticas que converteram o Uruguai no país mais igualitário da América do Sul, com a maior média salarial da região. Um dos elementos centrais para isso foi o fortalecimento dos Conselhos de Salários. Um dos pilares do Estado de Bem-Estar construído no país ao longo do século XX, os Conselhos de Salários, instituídos nos anos 40, são instâncias que estabelecem uma relação de mediação do Estado entre empresas e sindicatos. A consolidação dessas instâncias como espaços plurais, que respeitem a diversidade do movimento sindical e considerem as distintas realidades dos trabalhadores, bem como da indústria nacional, estabeleceu uma política de equidade dentre as distintas esferas da produção.
Aliado a isso, a participação ativa do Estado na promoção de políticas sociais fez com que os uruguaios tivessem um aumento de 61% dos salários ao longo dessa década e meia. Entre 2004 e 2019, os governos frenteamplistas promoveram um aumento de 300% no salário mínimo do país, reduziram a pobreza de 39,9%, em 2004, para 8,6%, em 2018; e a indigência de 4,5% para 0,1% durante o mesmo período. No total, houve um incremento dos investimentos públicos e o que se chama de gasto social de 136% ao longo de 13 anos. Resultados de um projeto de país que perseguiu uma mudança qualitativa na dinâmica social, em que o crescimento econômico e o combate às desigualdades sociais andam juntos pois fazem parte da mesma engrenagem.
Outro elemento que permite visualizar a convergência de fatores para um mesmo modelo de desenvolvimento diz respeito à educação. Segundo Cristina Contera, pesquisadora de IESALC-UNESCO (Instituto Internacional da UNESCO para Educação Superior na América Latina e o Caribe) e da Associação de Universidades do Grupo Montevidéu, até 2004 o Uruguai contava com um dos menores investimentos em educação da região. Atualmente, 4,2% do PIB são investidos na área e as matrículas no Ensino Superior cresceram 40%, de acordo com a pesquisadora. Inicialmente, em 1 de março de 2005, aprovou-se um incremento de 50% no orçamento da Universidad de la República (UDELAR), que passou a ser ator central no projeto de desenvolvimento nacional. Atualmente a UDELAR possui 5949 docentes, 7358 cargos diretivos, é responsável por mais de 200 diplomas e títulos de graduação e pós-graduação e concentra 80% das pesquisas no país. Essa expansão permitiu a Universidade um protagonismo ainda maior em nível regional, convertendo-se em um ator importante para a integração educacional e científica da América Latina.
Incluído com papel central no projeto de desenvolvimento, além de contribuir para a elevação da qualidade de vida da população, o Ensino Superior uruguaio joga um papel nevrálgico para a autonomia científica e tecnológica do país, bem como da integração nacional. Através dos centros regionais foram geradas mais 20 mil matrículas e contratados 250 docentes. Entretanto, esses investimentos e políticas não podem ser vistos de maneira isolada, uma vez que refletem a concepção de universidade que permitiu este protagonismo. Assim, ampliou-se a autonomia universitária e a relação PIB-investimentos em educação superior assimilando a universidade no projeto de desenvolvimento nacional. Para atender a essa demanda, a universidade precisou deixar de ser apenas uma prestadora de serviços ou um centro de formação de uma elite intelectual para compreender que a qualidade está diretamente vinculada à pertinência social da educação.
É o contrário do que propõe Lacalle Pou, que defende a adoção de vouchers e sistemas seletivos mais rígidos para o ingresso ao ensino superior, o que, segundo o candidato, elevaria a qualidade do ensino, copiando o modelo falido chileno. A declaração do candidato do Partido Nacional gerou reação da comunidade acadêmica. Para o reitor da Universidad de la República (UDELAR), Rodrigo Arim, em entrevista ao periódico La Diaria, as manifestações do candidato são “preocupantes”. Na sequência, disparou: “se terminan profundizando los sesgos negativos desde el punto de vista de quienes logran acceder a la educación terciaria superior”. Para o professor, “los mecanismos selectivos no son objetivos ni razonables”. Nesse mesmo sentido o dirigente da Federación de Estudiantes Universitarios del Uruguay (FEUU), Mauro Conti, chamou de “lamentáveis” as declarações de Lacalle Pou. E agregou: “No puedo creer que un aspirante a presidente diga que la Udelar no está en los rankings, cuando es la institución que produce 85% del conocimiento científico de Uruguay.”
Pode-se afirmar, por fim, que a construção dessa nova matriz produtiva, proposta pela Frente Ampla, que combina desenvolvimento econômico e combate às desigualdades, foi o fator central que permitiu abrir as portas para conquistas de outra natureza. Tão conhecidos mundo afora, ganharam destaque a aprovação do casamento homoafetivo, legalização da maconha e aborto legal. Entretanto, tais medidas não podem ser vistas como alheias ao projeto de desenvolvimento que permitiu ao Uruguai atingir taxas sociais invejáveis para muitos países. Muito pelo contrário, advém dele pois estão integradas a ele.
Portanto, o debate entre Martinez e Lacalle Pou acerca dos governos da Frente Ampla atribui o caráter plebiscitário do processo no país vizinho. Se o candidato do Partido Nacional busca se apoiar no desgaste dos anos de governo e das consequências da crise mundial, Martinez tem um balanço para apresentar. Entretanto, é a perspectiva de futuro que determinará o pleito. As condições apresentadas aqui amarram a candidatura blanca e limitam sua capacidade de apresentar um projeto de futuro que vincule seus interesses econômicos e os anseios da população. Por outro lado, a palavra de ordem frenteamplista, que defende a necessidade de preservar as conquistas e superar limitações, permite visualizar a perspectiva de um novo ciclo de desenvolvimento que precisa se abrir.
Está claro que um novo ciclo de mudanças exigirá também um conjunto de reformas estruturais que permitam, principalmente, superar o modelo primário exportador. Como todo processo histórico real e concreto, esses 15 anos foram permeados por contradições e limitações. Porém, diante de um quadro de avanço conservador na região, sob a condução da Frente Ampla estabelecem-se condições mais favoráveis para resistir aos retrocessos e lutar por avanços mais profundos na sociedade uruguaia. A virada começou e as últimas pesquisas mostram Daniel Martinez com 41% das intenções de voto, contra 22,6% de Lacalle Pou. A questão está nos demais candidatos de direita, como Ernesto Talvi, do Partido Colorado, que tem 16%, seguido pelo ex-comandante do Exército, Manini Ríos (Cabildo Abierto) com 11,5%. Se é verdade que a divisão da direita beneficia a Frente Ampla, num eventual segundo turno as coisas podem complicar. Nas pesquisas, os cenários de segundo turno ainda são desfavoráveis aos frenteamplistas.

*Mateus Fiorentini é professor de História, mestre em Integração da América Latina pelo Programa de Pós-graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (PROLAM-USP). Atualmente é Diretor de Relações Internacionais da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), integra o Comitê Executivo do Espaço de Encontro Latino-americano e Caribenho de Educação Superior (ENLACES) e compõe a Fundação Maurício Grabois (FMG).

 

As opiniões aqui reproduzidas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião da entidade.

Por Stella Ferreira Gontijo – Diretora de Mulheres da ANPG, militante do coletivo Kizomba e da Marcha Mundial das Mulheres – com Letícia Perét – Militante do coletivo Kizomba e da Marcha Mundial das mulheres

A pauta do direito ao aborto se consolida no interior dos feminismos latino-americanos a partir da década de 1980, com os processos de redemocratização em vários países que viveram, por décadas, violentas ditaduras. Hoje, muito se fala do direito ao aborto como uma questão de saúde pública e, de fato, essa é uma das faces para as quais devemos olhar. As mulheres abortam, seja esta prática legalizada ou não, e continuarão abortando, seja pela falta de condições materiais para prosseguir com a gestação e criar aquele filho, por exemplo, seja por suas condições psicológicas, ou seja, por uma decisão sobre destino e projeto de vida que não inclui aquela gestação. Só no Brasil a cada ano são realizados entre 700 mil e 1 milhão de abortos, o que corresponde ao fato de que 1 em cada 5 mulheres brasileiras já realizaram aborto em algum momento (PNA, 2016). Além disso, segundo a Pesquisa Nacional de Aborto, em 2016, cerca de metade das mulheres precisou ser internada para finalizar o aborto. Ao contrário do que diz o senso comuns, quem realiza aborto são mulheres comuns, de todas as classes sociais, raças e das mais diversas religiões (PNA, 2016). Entretanto, pelo aborto ser criminalizado no Brasil, ele acontece de maneira clandestina, deixando entre as vítimas de complicações e mortes, em sua maioria, as mulheres negras e periféricas. São elas grande parte das mulheres que não têm acesso aos métodos utilizados para um procedimento seguro e que têm dificuldade em alcançar um acompanhamento posterior, tanto médico quanto psicológico.

A questão que nos propomos a colocar em reflexão é que, além de uma questão de saúde pública, devemos tratar a criminalização do aborto a partir da ótica do feminismo anticapitalista, antirracista, contra o patriarcado heteronormativo, e que deve responsabilizar o Estado pela criminalização do aborto que, por sua vez, coloca a vida das mulheres em risco. Essa perspectiva no trato da questão deve substituir aquela ótica do feminismo liberal que trata o aborto meramente enquanto um direito individual e que não aprofunda nos debates estruturais, de classe e raça. Para isso, voltemos ao início da consolidação da sociedade moderna, quando os conhecimentos produzidos pelas mulheres sobre seus corpos e sobre a reprodução foram gradual e violentamente criminalizados. A queima das bruxas foi o meio pelo qual se consolidou a dominação sobre as mulheres e seu isolamento da esfera pública, através da violência. Também fez parte desse processo a transformação do momento do parto, que até então era conduzido por mulheres. As mulheres parteiras, com seus conhecimentos passados de geração a geração, foram retiradas desse espaço para dar lugar ao médico homem, que deveria deter todo o controle sobre o procedimento, cada vez mais medicalizado. Tudo isso se deu com o propósito de retirar das mulheres sua autonomia e, com isso, o direito aos seus corpos, colocando a mulher, assim, a serviço do capital. A mulher se torna, então, mera reprodutora de força de trabalho, sem um valor dentro da lógica do que é considerado trabalho produtivo e remunerado. Este processo, sustentado até os dias de hoje pelo neoliberalismo, nos nega esse direito de autonomia e liberdade, e retira do Estado a responsabilidade pelas nossas vidas.

No contexto em que vivemos em 2019, com o avanço do conservadorismo não só no Brasil, mas em toda a América Latina (e no restante do mundo), nossos corpos e nossas vidas seguem sendo atacados. A ascensão de governos marcadamente com tendências antidemocráticas e fascistas – como é o caso de Bolsonaro no Brasil e Macri na Argentina -, nos expõe à violência e à privatização ainda maior dos nossos corpos, colocados a serviço do capitalismo patriarcal, racista e LGBTfóbico. No anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2019) está retratado, em números, o aumento da violência contra as mulheres, com o crescimento do feminicídio em 4%, e da violência sexual em 4,1%, em relação ao ano de 2018. Nesse cenário, o Conselho Federal de Medicina, em um ato pouco divulgado mas extremamente grave e violento, por meio da Resolução nº2232 de 17 de julho de 2019, dá respaldo ético à violência obstétrica ao retirar da mulher o direito à recusa terapêutica, dando prioridade, mais uma vez, à vida do feto, acima da vida das mulheres.

O debate sobre a descriminalização e a legalização do aborto deve se dar levando em consideração a discussão sobre a autonomia das mulheres, que tiveram, por centenas de anos, suas existências colocadas a serviço do capitalismo patriarcal. O direito de escolha, de decidir sobre o próprio corpo, é um direito da mulher negado pelo Estado neoliberal. Por isso, no dia 28 de setembro, as mulheres da América Latina e do Caribe se unem em defesa do aborto, autonomia e igualdade.

“Resistimos para viver. Marchamos para transformar.”

 

 

 

Referências bibliográficas:

Cartilha da SOF – Sempreviva Organização Feminista. Direito ao aborto, autonomia e igualdade. São Paulo, 2018;

DINIZ, Debora; MEDEIROS, Marcelo; MADEIRO, Alberto. “Pesquisa Nacional de Aborto”. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2017, vol.22, n.2, 2016, pp.653-660.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa. Mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Elefante, 2017.

Stella Ferreira Gontijo – Diretora de Mulheres da ANPG, militante do coletivo Kizomba e da Marcha Mundial das Mulheres – com Letícia Perét – Militante do coletivo Kizomba e da Marcha Mundial das mulheres.

 

*As opiniões aqui reproduzidas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião da entidade.

 

No Brasil, quem produz ciência é a universidade pública. E é a pesquisa pública que busca atender ao interesse público, incluindo aí as necessidades em saúde de uma população. Nesse sentido, causa enorme preocupação o projeto em curso no Brasil de sucateamento e privatização das políticas de educação superior e ciência, tecnologia e inovação. Diante deste contexto, a UAEM Brasil une-se às vozes que bradam pela resistência a esses retrocessos. Um de nossos 4 projetos em curso em 2019 atua na valorização e no incentivo à inovação biomédica democrática, direcionada às necessidades da população brasileira, e a defesa do financiamento público de pesquisa. Busca, sobretudo, levar ao conhecimento da sociedade brasileira a importância das universidades públicas no desenvolvimento soberano e democrático do nosso país. E é com muito orgulho e vontade de somar que, como produto do projeto Investir em pesquisa pública é desenvolver o Brasil, lançamos a primeira edição do Boletim da UAEM Brasil em 2019.

Acesse a versão online aqui: https://issuu.com/uaembr/docs/boletim_ippdb_08.2019

Baixe o PDF aqui: Boletim IPPDB 08.2019

Os desafios a nós colocados são imensos. Todos eles passam pela necessidade de criarmos uma ampla e irrestrita coesão social em torno da defesa do SUS público, universal, integral, equânime.

 

Manuelle Matias*

O Sistema Único de Saúde (SUS) é a maior conquista política e social do povo brasileiro na contemporaneidade.

Havíamos enterrado (?) a sangrenta ditadura militar que assolou este país por 21 longos anos. O SUS nascia no bojo das lutas pela redemocratização do país, como a principal expressão do ideário da Reforma Sanitária Brasileira, movimento que tinha por objetivo o alcance de uma verdadeira revolução social, fundada no horizonte do socialismo, que se implantaria a partir da reforma da saúde.

Em 1988, a Constituição Cidadã proclamaria a saúde como direito de todos e dever do Estado, um marco inédito e histórico da nossa formação enquanto país. Surgia uma nova era, de esperança e conquista de direitos. Com a Constituição nascia o que parecia ser um sólido sistema de proteção social.

Embora o Movimento da Reforma Sanitária Brasileira almejasse a constituição de um sistema de saúde estatal, tal como consta no Relatório da 8ª Conferência Nacional de Saúde de 1986, a correlação de forças dadas naquela conjuntura permitiu a inclusão da iniciativa privada no interior do SUS, o que nos legou um sistema que se intitula “único”, mas que é complementado pela iniciativa privada.

É bem verdade que o SUS constitucional não estava pronto, dado desde o início, mas foi sendo constituído ou “esculpido a golpes de portaria”, diriam alguns. O financiamento do Sistema Único de Saúde, por exemplo, permaneceu com relativa instabilidade até a promulgação da Emenda Constitucional 29, do ano 2000, que estabeleceu recursos mínimos para o financiamento de ações e serviços públicos de saúde nas três esferas de governo. E, assim, desse modo sui generis, o SUS foi se consolidando.

O fato é que, inegavelmente, a descentralização desta política nos estados e municípios tem contribuído, ao longo dos anos, para elevar consideravelmente os indicadores de saúde pelo acesso a serviços e ações com uma orientação humanizada no cuidado em saúde, ajudando a combater desigualdades.

Desde antes e até hoje, muitas são as disputas que se colocam em torno do SUS, o que talvez impeça sua efetiva consolidação enquanto sistema de saúde universal. A própria concepção de universalidade entra em questão quando setores do mercado colocam em discussão a proposta de “cobertura universal à saúde”, numa tentativa de fragmentar o direito e dar sequência ao processo de mercantilização da saúde.

No momento presente, assistimos boquiabertos e com uma sensação de impotência a uma brutal retirada dos direitos sociais arduamente conquistados pelo povo brasileiro. Infelizmente, o SUS e o direito universal à saúde, junto a uma série de direitos sociais duramente conquistados, encontram-se ameaçados.

O que julgávamos sólido parece desmanchar-se pelo ar. Inclusive, a nossa jovem democracia. O passado parece querer insinuar-se no presente, a nos assombrar, em permanente disputa. Mesmo o sentido do que é “Democracia” coloca-se em disputa.

Em tempos de “pós-verdade” e “fake news” urge reafirmar o valor fundamental da nossa democracia e do nosso Sistema Único de Saúde, nascido, justamente, neste mesmo contexto democrático. A democracia e o SUS nasceram em uma relação de intrínseca dependência.

Muitos são os desafios que estão postos e que nos exigem disposição de luta e enfrentamento. Com a Emenda Constitucional 95/2016, que congela os gastos públicos em saúde por 20 anos ao estabelecer um teto de gastos a partir da inflação, estamos diante de uma possibilidade concreta de desmonte do SUS.

Não bastasse isso, a Desvinculação das Receitas da União, proposta pela EC 93/2016 até o ano de 2023, prevê o desvio de até 30% das receitas governamentais para outras finalidades que não as originais, situação que acarretou, apenas no ano de 2017, uma perda de 113 bilhões do orçamento da Seguridade Social, segundo dados do SIGA Brasil.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, entretanto, não satisfeito, declarou que pretende desvincular todas as receitas da União, dos estados e municípios, ou seja 100% do orçamento. Isso significaria o fim das obrigações constitucionais de investimento mínimo em Saúde, Educação e Previdência.

A proposta de reforma da Previdência, tal como está colocada, além de ser um gravíssimo atentado a todo o povo brasileiro, põe fim à cara noção do que entendemos por Seguridade Social estabelecida constitucionalmente, ao separar as receitas para cada área: Saúde, Assistência, Previdência.

Sem falar no desemprego aviltante que tem conduzido milhares de pessoas ao adoecimento físico e mental, um cenário desolador indubitavelmente exacerbado pela Reforma Trabalhista, aprovada em 2017. Somado a isso, temos o fim de uma exitosa política de provimento de profissionais para o SUS: o Programa Mais Médicos e as mudanças nefastas na Política Nacional de Atenção Básica (PNAB).

Nesse cenário de graves retrocessos sociais, o sistema privado vai oferecendo formas complementares e tende a se expandir, ameaçando a sobrevivência do SUS universal e público.

Os desafios a nós colocados são imensos. Todos eles, contudo, passam pela necessidade de criarmos uma ampla e irrestrita coesão social em torno da defesa do SUS público, universal, integral, equânime, de qualidade e com financiamento adequado.

Com a absoluta convicção de que o entendimento do direito à saúde como direito social universal deve ser bandeira de luta do conjunto da sociedade brasileira.

Nós, conselheiras e conselheiros nacionais de saúde, convocamos todas e todos à participação na 16ª Conferência Nacional de Saúde (8ª + 8), que pretende resgatar o espírito de combate e resiliência que nos orientou lá atrás, na histórica 8ª Conferência Nacional de Saúde nas lutas por Democracia e Saúde.

Ato “Saúde, Democracia e Direitos Sociais para todos e todas nós”

Dia: 5 de agosto de 2019

Horário: 17 horas

Começam a ser organizadas em todo o país as Marchas Pela Ciência. Em São Paulo, o evento será no domingo, dia 7.

FLÁVIA CALÉ,
especial para Direto da Ciência.*

O Brasil foi o último país latino-americano a ter universidade. Os primeiros cursos superiores por aqui datam da vinda da família real, no início do século 19. A primeira universidade, compreendida como instituição pluridisciplinar, é a UFRJ, de 1920. Também retardou a constituição de um plano estruturado para formação de mestres e doutores que pudessem produzir conhecimento científico, além de formar e qualificar as novas gerações – nosso primeiro Plano Nacional de Pós-Graduação é de 1975.

É uma conquista notável que, em relativamente pouco tempo, o país tenha construído uma importante rede pública de universidades federais, muitas delas referências na produção científica, secundada por diversas instituições de ensino superior estaduais, que também têm destacado papel nas realidades locais. Completam o sistema as instituições de fomento que, a partir da Capes, do CNPq e a da rede Fundações de Amparo estaduais, são responsáveis pelo grosso do financiamento à pesquisa e à produção científica no país.

Esse conjunto é um patrimônio de valor inestimável para os brasileiros. Os profissionais ligados a essas instituições estão presentes na descoberta de uma vacina ou fármaco capaz de curar moléstias e salvar vidas; quando se desenvolve uma nova técnica ou se fabrica um defensivo agrícola que aumenta a produtividade do agronegócio; na realização de um novo estudo sobre a formação econômica e social da nação.

Imagem: ANPG.

Esse edifício do saber, construído durante décadas e a muitas mãos, corre o risco de ruir. Seus alicerces estão sendo minados por uma política irresponsável que, por um lado, corta drasticamente o financiamento e, por outro, asfixia a democracia e a autonomia universitária. Não foi força de expressão quando Bolsonaro disse que sua missão não é construir, mas descontruir.

O que são os R$ 300 milhões retirados da Capes, que se viu forçada a cortar milhares bolsas de estudo, para um país que arrecadou em impostos e contribuições R$ 1,45 trilhão em 2018? Há outros lugares para cortar: dados do TCU apontam que no ano passado foram gastos R$ 279,6 bilhões com juros e encargos da dívida. Vejam: o número depois da vírgula é o dobro do que se pretende “economizar” com o fim das bolsas.

Quando se corta uma bolsa e se interrompe um projeto de pesquisa, ao se perder um jovem talento obrigado a sair do país para continuar sua pesquisa, o dano não é conjuntural – é um prejuízo que impactará o país por décadas. Um verdadeiro crime de lesa-pátria!

A reação dos estudantes e pesquisadores a um governo que elegeu a educação e a ciência como inimigas foi assertiva: as históricas mobilizações realizadas nos dias 15 e 30 de maio. Não sairemos das ruas. Começam a ser organizadas em todo o país as Marchas Pela Ciência. Em São Paulo, o evento será no domingo, dia 7 de julho, no Masp, e contará com uma feira científica pela manhã, sendo concluído com a Caminhada Contra o Obscurantismo, à tarde.

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) chega aos 33 anos neste mês de julho. Nascemos no frescor dos ventos que dissiparam a névoa da ditadura, sabemos bem o valor da democracia e de tudo que ela nos proporcionou conquistar. É em sua defesa que marchamos.

FLÁVIA CALÉ é mestranda em História Econômica na Universidade de São Paulo e presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).

Desde 2015, o Brasil vive imerso no que muitos especialistas apontam como a mais grave crise econômica de sua história. A esperada recuperação, após a brutal recessão que fez o PIB retroceder 7,3% em dois anos, até agora não passou de expectativa. Para piorar a situação, a inépcia política do atual governo tem frustrado setores econômicos que apostaram no caminho ultraliberal e, como resultado, as projeções otimistas para 2019 já dão lugar a estimativas de que o crescimento não supere o 1%.

Resultado de um conjunto de fatores internos e externos, a depressão econômica brasileira levou de roldão grande parte dos avanços sociais que o país vinha acumulando no período anterior. O que chama mais atenção é o desemprego: se em 2014, os índices beiravam o pleno emprego – 4,8% na média do IBGE -, chegaram aos 12,7%, atingindo mais de 13 milhões de pessoas em idade ativa. Aos desempregados fazem companhia cerca de 28 milhões subocupados, que trabalham menos horas do que poderiam e, em geral, de maneira precária.

Mas, ao contrário do que se poderia pensar, desemprego e subocupação não são realidades que afligem apenas pessoas de menor escolaridade ou que estavam em funções que, pouco a pouco, vão sendo extintas pelos avanços tecnológicos. É o que mostram os números de desemprego entre mestres e doutores, que chegam até ao dobro da média nacional, atingindo 25% desses profissionais, segundo recente reportagem do jornal Correio Braziliense.

A contínua redução dos orçamentos empregados na educação e na ciência e tecnologia contribuem para esse quadro, uma vez que as universidades públicas são responsáveis por mais de 90% da pesquisa por aqui produzida. Portanto, a situação tende a se agravar na atual conjuntura, já que, além da crise, agora o governo federal age deliberadamente contra os investimentos nas universidades e para reduzir o número de mestres e doutores.

A tempestade perfeita, que fecha as portas do mercado de trabalho aos pós-graduandos, se completa com o processo de desindustrialização do país, uma vez que esses profissionais altamente qualificados acabam não sendo absorvidos pela produção. Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) dá a exata dimensão do problema: a indústria de transformação atingiu, no ano passado, seu menor índice de participação no PIB nacional desde 1947, apenas 11,3%.

Ora, se, por um lado, os centros de excelência que produzem conhecimento e realizam o grosso da pesquisa científica passam por um estrangulamento financeiro sem paralelo na história recente e, por outro, a produção com valor agregado está condenada a definhar, qual caminho sobrará para o pós-graduando no mercado de trabalho?

Em outras palavras, o jovem que decide estudar não poderá mais ser professor porque as universidades não voltarão a abrir concursos tão cedo; não poderá pesquisar, já que não terá mais o respaldo do Estado através de políticas de bolsas de estudo porque o ministro da Educação acha que “o Brasil tem mestres e doutores demais”; e não poderá usar seu conhecimento para agregar valor aos produtos da indústria nacional porque logo ela sucumbirá à ausência de uma política industrial.

Nesse cenário, tem crescido o fenômeno conhecido como “fuga de cérebros”. Pelo quarto ano consecutivo, em 2018, cresceu o número de brasileiro que foram morar legalmente nos EUA, sendo que aumentaram em 27% os vistos emitidos para aquele país. Isso significa que a realidade acima descrita faz com que a Inteligência construída em nossas universidades, após anos de investimento e pesquisa, será utilizada para o incremento tecnológico norte-americano. Ou seja: financiamos indiretamente o desenvolvimento deles.

Evidentemente, estamos diante de um projeto político que aspira condenar o Brasil ao eterno subdesenvolvimento, atraso tecnológico e dependência externa. De certo, não é algo planejado aqui, mas que conta com aliados em nossas classes dominantes, a começar das que sustentam um governo de viés autoritário, antipopular e antinacional.

Interromper esse ciclo que ameaça desestruturar os pilares da nação é o desafio da atual geração de estudantes, pesquisadores e cientistas. As gigantescas manifestações realizadas pelo movimento estudantil em 15 e 30 de maio demonstraram que há espaço na sociedade para a defesa de certas trincheiras, que, caso ultrapassadas, representariam verdadeiros retrocessos civilizatórios. Elas também trouxeram vitórias concretas, obrigando o governo a recompor parte dos recursos cortados da educação e das bolsas de estudos, o que deve impulsionar e não arrefecer o movimento.

O próximo capítulo será a greve geral de 14 de junho, dia de entrelaçar as bandeiras que motivaram estudantes e professores a tomarem às ruas com a justa reivindicação dos trabalhadores pelo sagrado direito à dignidade na velhice. Será uma tarefa a ser realizada por milhões de mãos e corações que amam verdadeiramente o Brasil, numa grande frente em defesa da democracia, do emprego, dos direitos sociais – principalmente à aposentadoria -, da soberania e do Estado Democrático de Direito.

Nestes dias 8 e 9 de maio, representações das mais diversas entidades científicas e acadêmicas nacionais estiveram reunidas no Congresso Nacional e no Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) como parte das mobilizações do Movimento “Ciência Ocupa Brasília”, coordenado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Foram realizadas audiência pública, reunião com representantes de entidades científicas e MCTIC e o lançamento da Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br).

A audiência pública com o ministro de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, Marcos Pontes, contou com ampla representatividade de parlamentares, assessores e entidades científicas, que chegaram a ficar barradas sob a justificativa de superlotação do plenário. A iniciativa significou um gesto de abertura à escuta dos principais dilemas que afetam a comunidade científica nacional.

O ministro não escondeu o cenário de caos do MCTIC com um bloqueio da ordem de 42,27% em seu orçamento, situação que reflete diretamente o rebaixado financiamento a que está submetida a ciência brasileira. Deixou bem claro que o orçamento destinado ao CNPq só está garantido até setembro deste ano, depois do que não se sabe o que será feito.

Não bastasse isso, o Ministério da Educação, sob a gestão de Abraham Weintraub, em um gesto estapafúrdio, delibera o corte de 30% do orçamento das universidades e institutos federais. Na prática, os cortes impostos às universidades e IFs inviabilizarão o funcionamento das instituições por impactarem diretamente em despesas ordinárias, que afetam a estrutura básica de manutenção necessária ao acolhimento de estudantes, professores, técnicos e toda a comunidade acadêmica.

Ora, bem sabemos que 95% da produção científica nacional é feita dentro das universidades públicas, com investimento público, muito especialmente no âmbito da pós-graduação, e conta com o protagonismo importante de pós-graduandos e pós-graduandas. Sem garantias de recursos para as universidades, a ciência brasileira está fortemente ameaçada.

O diálogo entre Ministério da Educação e Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações parece inexistir. A discrepância entre os discursos dos ministros parece um abismo que dificilmente produzirá propostas convergentes e necessárias para a saída da crise em estamos mergulhados. O Ministério da Economia parece não ter clareza sobre o papel estratégico que pode exercer a ciência para o desenvolvimento nacional, sobretudo em tempos de crise.

Completando o cenário, fomos surpreendidos com a notícia de suspensão das bolsas Capes, um fato que só atesta o desprezo do governo Bolsonaro pela ciência brasileira e o desrespeito deste governo com os jovens pesquisadores cientistas. Colocamos a posição da ANPG em relação a este cenário: se os cortes e suspensão de bolsas se mantiverem, veremos no Brasil um cenário de terra arrasada na ciência. Isso porque, confirmada a manutenção do congelamento das bolsas, não haverá recursos para que os pós-graduandos subsidiem suas pesquisas e deem conta de sua sobrevivência material. Veremos um cenário de esvaziamento das pós-graduações, pois nossos jovens deixarão de ver a ciência como um caminho com perspectiva de atuação e, finalmente, em consequência disso, assistiremos a uma redução drástica na produção científica nacional.

A ANPG segue buscando o diálogo e linhas de atuação conjunta com os mais diversos atores, entidades científicas, movimentos sociais e toda a sociedade civil para que possamos defender a ciência e a educação nesse contexto generalizado de desmonte e desconstrução. Nessa perspectiva de atuação, lançamos no Congresso Nacional, no bojo do Movimento “Ciência Ocupa Brasília”, a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.br), que discutirá junto a parlamentares, entidades científicas e movimentos sociais saídas para esse cenário devastador. Uma delas, se aprovada, pode nos garantir um desafogo temporário para tempos de crise. Trata-se do PL 5876/2016, de autoria do deputado Celso Pansera, que prevê a destinação de 25% do Fundo Social do Pré-sal para a área de ciência e tecnologia.

A ciência brasileira grita por socorro, a universidade grita por socorro!

Todas e todos temos o dever de ir às ruas neste dia 15 de maio rumo à Greve Nacional da Educação. Que sintam do que o povo organizado é capaz!

Manuelle Matias é vice-presidenta da ANPG

Ao longo da história, as mulheres travaram inúmeras lutas para conquistar os seus direitos, uma delas foi o acesso à Previdência Social, institucionalizada por meio da Constituição Federal de 1934, garantindo proteção às mulheres parturientes e àquelas que não mais possuíam plenas condições de seguirem a exercer o seu ofício, seja por invalidez ou por idade.

Entretanto, em um contexto de ataque aos direitos das trabalhadoras, essa conquista está ameaçada. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 6/2019, de autoria do governo Bolsonaro, propõe inúmeras mudanças no sistema de Previdência Social, como por exemplo, o aumento progressivo do tempo de contribuição e da idade mínima para o acesso da população feminina ao benefício previdenciário.

A população trabalhadora feminina é a parcela que mais irá sofrem com essa PL, caso ela seja aprovada, já que estas são sobrecarregadas cotidianamente com dupla (e às vezes até tripla) jornadas de trabalho.

Essa sobrecarga conferida às mulheres é reflexo da construção social patriarcal que possuiu as suas origens na propriedade privada, desta forma a parcela mais pobre da população feminina sempre esteve, ainda que de forma precária, inserida no mercado de trabalho o que não as aliviava das tarefas domésticas.

As funções exercidas pelas trabalhadoras, em particular quando essas se referem à esfera privada, são invisíveis para à sociedade e ao Estado, pois mesmo essenciais para a reprodução social, foram historicamente atribuídas, pelo patriarcado, como uma obrigação biológica feminina.

Portanto, o capitalismo, além de explorar o trabalho das mulheres, se utiliza do patriarcado como um instrumento facilitador de sua reprodução, pois, ao invisibilizar e tornar uma obrigação natural as tarefas desempenhadas por elas, garantem assim a reprodução do exército de reserva de trabalhadores sem gerar ônus e/ou gastos aos empregadores.

Ainda sobre a população feminina merece destaque mais outro fardo, que é o cuidado com a prole, os idosos e doentes. Tal circunstância faz com que em situações extremas como a falta de vagas em creches públicas, adoecimento de membros da família e a necessidade de atenção os idosos, as mulheres se afastem do mercado formal de trabalho, ainda que de forma temporária.

Essa circunstância, consequentemente tende a se refletir diretamente no processo de aposentadoria, que exige idade mínima e/ou tempo de contribuição e, até mesmo, em alguns casos, a combinação desses fatores. Assim, a PEC 6/2019, é mais que perversa, é desumana e machista, pois aumenta ainda mais os mínimos parâmetros capazes de garantir o beneficio da aposentadoria a população feminina, em especial das mais humildes.

Para concluir, é necessário que as mulheres se organizem para dizer não a essa proposta nefasta do governo Bolsonaro, no próximo dia 15 de maio em todo o Brasil!

*As opiniões aqui reproduzidas são de responsabilidade de seus autores e não representam, necessariamente, a opinião da entidade.

FLÁVIA CALÉ,
especial para Direto da Ciência.*
Quarta-feira, 8 de maio de 2019

 

Na sabatina do ministro Abraham Weintraub ontem, terça-feira (7), na Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, ficou evidente seu despreparo para comandar uma das pastas mais importantes da República. Demonstrou desconhecimento dos desafios da educação brasileira e, pelo que se viu, sua missão se resume a fazer do ministério um instrumento de chantagem com a sociedade pela aprovação da Reforma da Previdência.

Repetiu como um mantra, numa nítida subestimação dos senadores que o questionavam e da população que o assistia, que as medidas anunciadas não se tratam de cortes de 30% no orçamento das universidades federais, mas, sim, de contingenciamentos desses recursos, que podem ser revertidos se o Congresso Nacional aprovar a nova reforma da Previdência.

Ora, em primeiro lugar, são bastante controversos os resultados econômicos que o governo proclama que virão após o ataque à Previdência pública. Lembremos que a reforma trabalhista foi vendida como a grande saída da crise econômica, mas seu resultado prático não alavancou a atividade econômica nem gerou um emprego a mais sequer. Mas, além disso, o ministro mente quando diz que esses cortes não terão impacto nenhum nas universidades.

Em nota, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) aponta que o bloqueio dos recursos equivale a R$ 37,3 milhões e que serão afetados o pagamento de despesas ordinárias, ou seja, pagamento das contas de água, energia, telefone, manutenção de espaços e equipamentos, pagamento de terceirizados, entre outras questões básicas para seu funcionamento. Ou seja, os “bandejões” podem ser, sim, afetados, diferentemente do que afirmou Weintraub ao garantir que a medida não atingiria a alimentação dos estudantes.

Mente ainda ao dizer que foi obrigado a realizar os cortes em função da Lei de Responsabilidade Fiscal. Conforme apresentou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), o orçamento, quando aprovado nas casas legislativas, já está enquadrado nos parâmetros da lei, não necessitando de alterações em função dela. Faltou o ministro, portanto, responder para onde vão esses recursos do contingenciamento.

Na realidade, o projeto é deixar as universidades à míngua do ponto de vista financeiro e de pires na mão para buscar recursos na iniciativa privada – numa espécie de privatização branca –, já que essas instituições não seriam espaços “sacrossantos”, que não possam buscar “outras formas” de custear sua manutenção. A independência do orçamento público que ele defende é inconstitucional. A Autonomia Universitária, como a conhecemos, diz respeito à gestão financeira, ou seja, pressupõe que existam recursos públicos a serem geridos de acordo com os projetos definidos autonomamente em cada universidade.

Mas o que chama mesmo a atenção é sua percepção do que é o povo brasileiro. Ao esboçar um superficial raciocínio sobre a composição étnica do povo brasileiro e a nossa miscigenação característica, chega à conclusão de que somos um bando de vira-latas.

Como sabemos, quem consagrou a expressão “complexo de vira-latas” foi Nelson Rodrigues, que usou esse termo para explicar o sentimento de inferioridade entre brasileiros, inclusive cronistas esportivos, que previam o fracasso na Copa de 1958 da Seleção Brasileira, que acabou sendo campeã. O complexo seria, então, essa visão pequena de si mesmo, uma permanente sensação de incapacidade de realização de grandes feitos. Este sentimento está presente quando fala em difundir startups pelas universidades do Nordeste para “espalhar capitalismo” pela região. É como se o Nordeste fosse feudal!

Ao dizer que somos “vira-latas”, o ministro fala mais sobre si do que sobre o Brasil. Revela a mediocridade com que enxerga nosso país, já apresentada nas diversas observações pejorativas às nossas instituições educacionais e de pesquisa. Quando busca um patamar para a educação brasileira, não olha a nossa dimensão continental, as nossas riquezas naturais. Ignora que nossa produção científica e tecnológica, apesar de todo o desinvestimento, produz conhecimento de ponta. Desdenha o fato de sermos ainda a oitava economia do mundo. Pasmem, o ministro disse que sua meta é transformar o Brasil no Chile, com todo respeito aos nossos “Hermanos”.

Não, ministro, isso não aceitaremos. Não temos o complexo de vira-latas partilhado pelas elites que têm vergonha do país e acham que tudo que vem do Norte da América é melhor. Somos orgulhosos do povo miscigenado que construímos, ainda que tenha sido um processo doloroso e sofrido. É um povo que tem orgulho e conhece o valor de ser brasileiro. Seguiremos resistindo e nosso próximo encontro será no dia 15 de maio, nas ruas do país.

FLÁVIA CALÉ DA SILVA é mestranda em História Econômica na Universidade de São Paulo e presidenta da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG).