O movimento dos pós-graduandos e pós-graduandas do Brasil deverá intensificar a luta a favor da democracia e contra o golpe no próximo período. Esse foi o tom das declarações dos quatro participantes da mesa “Desafios do Movimento Nacional de Pós-Graduandos”, que aconteceu no início da noite do sábado (11), no 25º Congresso da ANPG, em Belo Horizonte. Os estudantes reforçaram a necessidade do crescimento da entidade nesse momento histórico, marcando a posição da academia pela democracia.

O vice-presidente da ANPG, Cristiano Flecha, defendeu a radicalização das ações do movimento no próximo período, quando será votada no Senado Federal a proposta ilegítima de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. “Precisamos debater a paralisação dos pós-graduandos brasileiros nesse momento, uma greve geral que possa ser construída de forma efetiva. Nossa categoria pode parecer invisível, pois somos 300 mil em um país de 200 milhões de pessoas. Mas precisamos lembrar que 300 mil pessoas são muita gente e podemos dar uma grande contribuição na luta pela democracia”, destacou.
A campanha “Fora Temer” também deve ser amplificada, na opinião da diretora de Relações Internacionais da entidade Aline Diniz. Ela lembrou que a resistência ao golpe passa também pela defesa dos direitos básicos na sociedade e na pós-graduação. Ressaltou a questão de gênero, o crescimento da luta contra o assédio sexual e o machismo na universidade. “Esse tema deve ser nacionalizado”, defendeu.
O diretor de comunicação da ANPG Gabriel Nascimento lembrou que os pós-graduandos têm muito a perder com o golpe: “Hoje já somos um conjunto que não tem acesso à assistência estudantil do estado e, ao mesmo tempo, não temos direitos trabalhistas pela nossa atuação. Precisamos nos unir, massificar o nosso movimento”, disse.
Já Guilherme Rolim, da diretoria de Ciência, Tecnologia e Inovação falou sobre o desafio de organizar os estudantes da pós-graduação: “É urgente pensar medidas imediatas que permitam mais tempo e espaço para os pós-graduandos pensarem e agirem politicamente”, opinou. Segundo ele, é necessário também quebrar a lógica de “chefe” e “trabalhador” que vigora nas relações dos estudantes e pesquisadores com as instituições.
O 25o Congresso da ANPG termina neste domingo com a definição das resoluções da entidade para o próximo período, além da eleição da sua nova diretoria e presidência.
Artênius Daniel, de Belo Horizonte

Não é o momento para se calar: a crise política no Brasil chama à luta. Em defesa da democracia, os pós-graduandos do país promoveram um ato de resistência durante este sábado (11), no 25º Congresso da ANPG, na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.

Na ocasião, Tamara Naiz, presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG), afirmou que, nesse momento, onde temos os princípios da democracia ameaçados, é pertinente debater o tema no congresso e convidar um conjunto de entidades importantes do movimento social brasileiro para compartilhar sua experiência de luta. “A ANPG nasceu em 1986, depois da reabertura. Antes disso, não se podia organizar-se politicamente”, lembrou.
Prestes a completar 30 anos, a entidade quer revisitar sua trajetória e reafirmar a importância do estado democrático brasileiro que garanta as conquistas sociais ao povo. “Os pós-graduandos brasileiros estão comprometidos em continuar avançando por um Brasil mais justo”, afirmou Tamara.

Para Cristiano Flecha, vice-presidente da ANPG, a associação está inserida em um movimento crescente contra o governo golpista. “Temos como tarefa, a exemplo de como já acontece em várias universidades, criar comitês e realizar assembleias contra o golpe para construirmos a mobilização necessária para derrubar esse governo usurpador. A greve geral sugerida pela CUT é importante nesse sentido”, disse.
Além da presidência da ANPG, o ato contou com a presença de Ariovaldo de Camargo, representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Edson Carneiro (Índio), presidente da Intersindical, Isabella Miranda, das Brigadas Populares, Lúcia Rincon, presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM), Carina Vitral, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Camila Lanes, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), Késsia Cristina, presidente da União Colegial dos Estudantes Secundaristas de Minas Gerais (UCESMG), Raul Pereira, da União Estadual de Estudantes de Minas Gerais (UEEMG) e Alysson Syffete, representante da UFMG.

“Primeiramente, fora Temer”. Foi assim que Ariovaldo de Camargo, representante da CUT, entregou logo de antemão o seu recado. Para ele, não há outra saída que não o enfrentamento ao golpe. Ele citou como reações positivas o ressurgimento da juventude interessada em debater o seu futuro e a criação das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. “Nós precisamos reverter a situação que aí está por uma questão de existência: nossa e daqueles que querem construir de fato um estado democrático de direito no Brasil”, defendeu.

Lúcia Rincon, da UBM, destacou o caráter machista do golpe da primeira presidente mulher eleita no país. “A força do capital se entrelaça com a força do patriarcado”, ponderou. Para ela, é preciso colocar nas mãos do povo a decisão sobre o caminho a se seguir. “Vamos fazer eleições? Vamos colocar a Dilma com um congresso liderado pelo Eduardo Cunha?”, indagou.

Já Carina Vitral, da UNE, destacou que nesses 30 anos de luta, a ANPG enfrenta agora o desafio de debater os direitos estudantis em meio a uma grave crise política, um golpe. Ela lembrou que a associação precisa salvar a universidade pública da privatização, que prevê cobranças de mensalidade, além de uma série de outros retrocessos como corte de auxílios aos estudantes. “A ANPG está na linha de frente para salvar os direitos dos pós-graduandos e conquistar ainda muito mais coisas que estão por vir”, disse.
Camila Lanes, da UBES, ressaltou a importância da luta pela educação que se espalha pelo país todo: da ocupação do Centro de Referência da Juventude em BH, até as 180 escolas tomadas pelos estudantes no Rio Grande do Sul. Segundo ela, os pós-graduandos são parceiros dos secundaristas na discussão de uma nova escola, regida pelos princípios cidadãos — uma antiga pauta do movimento. A presidente da UBES conta que as entidades estão se organizando para em breve colocar em cena uma agenda de ocupação total. “Todo mundo sofre com a queda dos direitos sociais. A unidade é a palavra principal deste momento. As organizações estão dialogando e falando a mesma coisa: fora Temer, não nos representa e nós queremos repensar a educação pública no país”, ressaltou.
Por Shirley Pacelli, de Belo Horizonte
Pós-Graduandos(as) de Saúde debatem o tema “Desafios para a Formação em Saúde: Participação Social e Políticas de Equidade” no 25º CNPG
Os pós-graduandos da área da Saúde que vieram ao 25º Congresso de Pós-Graduandos, em Belo Horizonte, se encontraram neste sábado (11) em uma roda de conversa no Centro de Atividades Acadêmicas da Universidade Federal de Minas. No centro do círculo formado por pesquisadores de diversos cursos, de diversas regiões do país, um tema principal: a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e a necessidade de transformar a formação acadêmica no Brasil em prol da saúde pública e do atendimento às comunidades mais vulneráveis.
Para trazer seus olhares e experiências na área, o professor João Henrique, do departamento de Odontologia da UFMG representou a Rede Unida, uma associação voltada a construção de projetos comuns de instituições, indivíduos, universidades e comunidades para o desenvolvimento da Saúde. “Temos como missão cuidar das pessoas não apenas na questão biológica em si. Apesar disso parecer uma coisa óbvia, ainda precisamos torná-la o grande pano de fundo do debate sobre a saúde no país”, disse.

Segundo ele, as questões sociais e de atendimento que envolvem o SUS precisam estar fortemente vinculadas à formação multidisciplinar das diversas especialidades da área da Saúde. Para isso é necessário enfrentar o preconceito que ainda existe com o sistema, assim como o lobby dos sistemas privados que fazem frente a consolidação do modelo público. “Nós que defendemos o SUS não deixamos de conhecer os seus problemas e desafios. Mas acreditamos nele e temos que promover a conscientização sobre a sua importância”, disse.
Outra entidade presente na conversa foi o Conselho Nacional de Saúde, por meio do representante Eni Carajá. Ele também problematizou a formação dos cursos da área e lembrou a necessidade de superar a dependência da Atenção Básica com a promoção da saúde preventiva. “Sabemos que a Atenção Básica é a porta de entrada no sistema, mas precisamos de um modelo de saúde que comece antes, que evite que as pessoas precisem procurar a saúde pública porque já estão livres da doença”, disse.

Ele lembrou que o Brasil vive um quadro epidemiológico grave e preocupante, com o surgimento de novas patologias e novos problemas para os quais não estamos preparados. Lembrou que esse é um cenário que interessa somente à indústria farmacêutica e outros grandes grupos como o do setor dos agrotóxicos no alimentos. “Quando há uma morte causada por doenças dos agrotóxicos, a causa mortis não é registrada em nome do produto que a provocou”, declarou.
Entre os outros temas que permearam a discussão estiveram os parâmetros curriculares dos cursos da área, a valorização profissional das diversas categorias da Saúde, a integração do sistema com a comunidade, a mudança na formação dos docentes e no modelo de residência médica do país.
Por Artênius Daniel, de Belo Horizonte
“Eu, mulher preta, sofro racismo. Sofro machismo. Recaem sobre mim todas essas opressões. E eu preciso que a gente pense políticas públicas que respondam a todas essas especificidades”, reivindicou Biamichelle Munduruku, mestranda da Universidade de São Paulo, durante um debate sobre assédio, discriminação e desigualdade no 25º Congresso Nacional de Pós-graduandos. Realizada neste sábado (11), na Universidade Federal de Minas Gerais, a mesa de discussão contou com a presença de Mariana Venturini, diretora da União Brasileira das Mulheres (UBM) e de Gislaine Caresia, advogada especialista em direito da mulher.
Enquanto Mariana destacou como historicamente as universidades reproduzem e alimentam ambientes machistas e segregadores, Gislaine deu dicas de como denunciar e fortalecer movimentos de combate a situações opressoras nas instituições.
“Nas universidades, as mulheres estão nas humanidades, na pedagogia. Ela é a enfermeira, não a médica. É sempre a função auxiliar. E têm o teto de vidro. Os estudantes negros, assim como as mulheres, fazem cursos considerados de menor prestígio social, como letras ou história”, explicou a diretora da UBM. Ela disse ainda que o assédio nesses espaços não se dá apenas na forma de violência sexual. Pode ser desde aquele professor que não dá voz à aluna, pretere o orientando negro ou, ainda, desqualifica intelectualmente uma estudante apenas pelo seu gênero.
“A universidade não é uma bolha. Tem gente que acha que a universidade é um lugar idílico, um templo, onde só emana o conhecimento. Não é. É uma reprodução do que é a sociedade, que historicamente foi construída por homens, para homens”, afirmou Mariana. Segundo ela, as instituições são locais de perpetuação de preconceitos que, muitas vezes, não são enxergados como o assédio.
Alessandra Aniceto, doutoranda da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), reforçou que determinados grupos são mais opressores, como os homens brancos cisgênero. “Me parece que a gente está sempre à sombra das figuras masculinas. Que a gente tem que gritar para ser ouvida ou citar 50 autores para dizer que eu tenho a mesma capacidade que o colega que está do lado para que meu professor; homem, branco, cis e médico; me escute”, desabafa.
Segundo Marcos Moraes, mestrando da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), as escolas abrem vagas destinadas aos indígenas e estudantes estrangeiros de países africanos, mas não têm dado condição para que eles façam sua pesquisa e sejam respeitados dentro da instituição. “Tem que tratar o diferente de forma diferente”, refletiu.
Tamara Naiz, presidenta da Associação Nacional de Pós-graduandos, destacou uma pesquisa feita, em 2015, pelo Instituto Data Popular acerca da realidade cruel das universidades brasileiras. De 1,8 mil acadêmicos ouvidos no Brasil todo, quase 70% das mulheres envolvidas disseram que já sofreram violência dentro das universidades (sexual, física e moral) “E 42% das mulheres disseram sentir medo dentro das instituições. É uma situação alarmante”, lembrou.
A advogada Gislaine Caresia observa que é preciso, primeiramente, questionar ações que fazem parte da rotina dos pós-graduandos. “Por que você tem que ir à casa do professor para ser orientado?”, disse. Segundo ela, relações de assédio são caracterizadas por uma estrutura vertical de subjugação. É preciso identificar e denunciar esses atos.
“As queixas mais comuns são ameaças do corte da bolsa, agressões verbais, comentários depreciativos, desinteresse até os assédios sexuais”, explicou.
As denúncias podem ser feitas de maneira coletiva, para resguardar a integridade do aluno, que pode se sentir perseguido pela universidade por “manchar o nome da instituição”. O Ministério do Trabalho é um dos órgãos que pode e deve ser acionado. Segundo a advogada, o ideal seria a regulamentação dos bolsistas para que eles não dependam da vontade do outro. Sigam regras estabelecidas por lei, numa situação mais democrática. “E, no dia a dia, é preciso de fato se fortalecer. Trazer o debate para dentro das universidades. Formar coletivos, como o Grupo de Trabalho dentro da Universidade de São Paulo. E nunca subestimar as redes sociais. Elas têm força importante”, sintetizou.
Shirley Pacelli, de Belo Horizonte.
O crescimento da intolerância no Brasil e o recrudescimento do debate dos Direitos Humanos foi um dos assuntos do 25º Congresso Nacional de Pós Graduandos neste sábado (11), na Universidade Federal de Minas Gerais. No debate “Participação Social, Democracia e Direitos Humanos”, os estudantes dos programas de mestrado e doutorado de diversas regiões do país debateram o combate ao machismo, ao racismo, à LGBTfobia, assim como a defesa das políticas públicas de juventude e voltadas para as parcelas menos favorecidas na periferia das grandes cidades.
Participaram da conversa com os pós-graduandos e pós-graduandas o presidente do Conselho Nacional de Juventude, Daniel Souza, a diretora da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros), Deidine Souza, o presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES), Emerson Santos, e a deputada federal, Jô Moraes.

A possibilidade de perda de direitos fundamentais com a tentativa de golpe sobre a democracia brasileira foi um alerta permanente na fala de todos os convidados da mesa. Para o presidente do Conjuve, uma das preocupações do momento é a ameaça ao Estatuto da Juventude, marco legal aprovado após as manifestações de junho de 2013 e que trouxe a garantia de políticas voltadas a esse público.
“O estatuto é, por exemplo, o primeiro marco legal que afirma que o jovem brasileiro tem direito ao ensino superior. O Prouni por exemplo é uma política de juventude. É contra esses direitos que o golpe se instala”, declarou. Uma das sinalizações do ministério da Educação do governo Temer é, justamente, a redução de investimentos nos programas sociais como o Prouni e o Fies.
Já a diretora da ABGLT explicou como o governo golpista tenta construir a imagem de que direitos básicos seriam supostamente privilégios: “Eu, como transexual, quero o direito da identidade. Por que a deputada Tia Eron pode utilizar o seu nome social eu não posso utilizar o meu?”, provocou. Ela prevê uma realidade de muita luta e muitos ataques à população LGBT no próximo período.
A deputada Jô Moraes criticou fortemente a reforma ministerial do interino Michel Temer ao unificar os ministérios de Proteção às Mulheres e Igualdade Racial dentro do ministério da Justiça. Segundo ela, os rumos desse governo são baseados na lógica do pensamento positivista de que a sociedade não deve sofrer interferência e deve seguir o seu rumo natural de explorações e injustiças.
“É tudo parte de uma concepção que nega a dimensão do humano. É uma agenda que acontece exatamente em sintonia com o desejo das classes dominantes produtores. Precisamos constatar que as elites deste país se unificaram neste momento. Estão condizentes com a perda de direitos, o essencial é apenas o mercado, não os Direitos Humanos”, afirmou. constatar que as elites deste país se unificaram neste momento. Estão condizentes com a perda de direitos, o essencial é apenas o mercado, não os Direitos Humanos”, afirmou.
Artenius Daniel
Nas rodas de conversa e nos corredores do Centro de Atividades Acadêmicas da Universidade Federal de Minas Gerais, pesquisadores e pesquisadoras de diversas regiões do país que participam do 25o CNPG (Congresso Nacional de Pós-Graduandos) dividem uma mesma preocupação: qual horizonte se desenha no Brasil com a extinção do seu Ministério da Ciência e Tecnologia?
A decisão do governo interino de Michel Temer de fundir o MCTI ao Ministério das Comunicações é considerada um retrocesso de grandes proporções pela imensa maioria da academia brasileira. Manifestações e atos públicos têm acontecido nas maiores universidades do Brasil e somam-se às pautas dos movimentos sociais que resistem à tentativa de golpe à democracia que está em curso.
Entre os que repudiam tal medida está o vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) Ildeu Moreira, que participou de um debate sobre o tema junto com Paulo Sérgio Beirão, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa de MG (Fapemig). “É a extinção de um projeto que já tem 60 anos no Brasil, que é o movimento pela implantação de um sistema nacional de Ciência e Tecnologia. Foi uma medida que não teve nenhum diálogo ou consulta à comunidade científica, pelo contrário, que contou com as nossas críticas”, lamenta.


O argumento utilizado pelo governo interino para o fim do MCTI foi a redução de gastos e uma suposta proximidade entre a pasta e a área de Comunicações, o que também vem sendo rebatido pelas sociedades científicas. A economia alcançada com a fusão dos ministérios não se provou significativa e o espaço para a ciência e tecnologia no novo ministério é extremamente reduzido. “As justificativas para a medida são muito frágeis”, opina Ildeu Moreira.
Segundo o professor, o fim do ministério e o corte de investimentos na área é também um grande erro em um momento de crise econômica e vai na contramão do que outros países têm feito. “China, Índia, Estados Unidos estão na verdade é apostando mais na Ciência e Tecnologia, porque essa é uma possibilidade de sair da crise, de fazer inovação, de construir sistemas mais eficientes, políticas sociais, de meio ambiente, reduzir recursos disso atualmente é um retrocesso enorme”, critica.
O 25o Congresso da ANPG segue neste sábado com oito debates e um ato polítco em defesa da democracia, com a participação dos movimentos sociais. No domingo será realizada a plenária final com a definição dos rumos da entidade pelos próximos dois anos e a eleição da nova diretoria e presidência.
Artênius Daniel
Quando direitos são vistos apenas como “bônus”, há na sociedade um grave problema. Esse foi um dos pontos levantados pelo público durante o debate dos direitos estudantis e trabalhistas no 25º Congresso Nacional de Pós-Graduandos, que teve início sexta-feira (10) em Belo Horizonte.

A mesa que debateu os direitos dos pós-graduandos contou com a presença do professor Elson Moraes, do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace), Sergio Hanriot, presidente do Fórum de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (Foprop) e Hercilia Melo, diretora da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).
Para Sergio Hanriot, os direitos na pós-graduação devem ser garantidos por meio de uma política de Estado, que independa dos governos. Segundo ele, é por meio dos fóruns que se fomenta as discussões onde são identificadas as pautas objetivas. “Existe um Plano Nacional de Pós-graduação e ele vai até 2020, com uma série de ações colocadas. Uma delas é que se eleve o número de doutores por habitante para um certo patamar. Era em torno de 2,5 e 2,8 por mil habitantes até 2020. Há quatro anos a gente tinha 1,8 doutores por habitante — número muito mais baixo que o de Portugal, com 2,4. Na Suíça são 8, Estados Unidos 6″, disse.
Ele justificou que, sem esses parâmetros de base, é preciso renegociar e repactuar tudo a cada novo governo. “A gente tem mecanismos de luta e pressão. Temos que mostrar o que a gente espera. É a reposição das bolsas? É que essas bolsas contem como aposentadoria?”, provocou.
Iberê Martí, pós-graduando da Universidade Federal de Lavras, questionou esse quadro, dizendo o que é preciso ir além da política do Estado: “A gente tinha o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Tinha. Era uma política de Estado. Por que não foi mantida?” indagou. Para ele, só haverá políticas de Estado bem estabelecidas quando se radicalizar a democracia, ampliando a participação ativa popular em todos os espaços.
O professor Elson Moraes também destacou as dificuldades vividas devido à instabilidade democrática no país. “Estou ansioso para chegarmos em outubro, quando recebemos do Congresso o orçamento das universidades. Não sei o que vai ser de 2017”, desabafou. Para ele, os direitos dos pós-graduandos devem ser garantidos na legislação brasileira e não como planos de governo.
Hercília Melo, diretora da ANPG nordeste, afirmou que o grande problema da assistência estudantil é a necessidade de contemplar o tripé moradia, alimentação e transporte. “Todo mundo está temeroso de cortes ou que essa política governamental não esteja presente mais nos cotidianos das instituições”, disse.
Ela lembrou ainda a ausência da licença maternidade, seguro de vida e os constantes relatos de problemas de saúde referentes à própria pesquisa. “Indo a campo, fazendo atividades de coletas, os estudantes enfrentam ambientes insalubres”, pontuou.
Já Leonardo Reis, doutorando na Universidade Federal de São Carlos, questionou o “produtivismo acadêmico”, que leva o estudante ao acúmulo de deveres diante da ameça de cortes de benefícios. “Na UFSCAR a gente tem programas que ameaçam os pós-graduandos com a retirada da bolsa caso não tenham um determinado número de publicações no ano ou não vá a determinado número de congressos”, contou. Segundo ele, essa situação, somada à necessidade de dar aulas para complementar a renda, gera uma vulnerabilidade cada vez maior dos pós-graduandos.
Shirley Pacelli, de Belo Horizonte.
Ao cumprimentar toda a diretoria nacional e as diretorias estaduais, delegados, delegadas, suplentes, observadores e observadoras, convidados e autoridades presentes no 5º Congresso da União de Negros pela Igualdade, desejamos a todos e todas um vitorioso congresso.
Num momento de conjuntura difícil, em que a hostilidade aos movimentos sociais, aos povos tradicionais e aos avanços da última década se apresenta cada vez mais forte, a vida do povo negro está em risco. Com esse governo ilegítimo e sua equipe usurpadora, o direito do povo negro está em risco.
Reunidos neste 25º Congresso Nacional de Pós-graduandos, nós, pós-graduandos negros, expressamos nossa preocupação com um futuro incerto repleto de mais fome, mais miséria e mais escravização moral, patrimonial e laboral do nosso povo negro.
O papel desse 5º Congresso da UNEGRO é o mais central possível no sentido de organizar e reorganizar nosso movimento e pautas no sentido de resistência a todo e qualquer retrocesso. Um governo usurpador e que não chegou ao poder através do voto já começa a tentar rediscutir as cotas na graduação, no sentido de retroagir o país em uma década, mudar a tipificação do trabalho escravo e infantil, levando a uma guinada conservadora que vai escravizar ainda mais o povo negro brasileiro.
Os escravocratas que mataram nossos avós continuam a matar dezenas de milhares de jovens negros todos os anos com uma polícia e um Estado policial. A nossa luta, aqui e aí, é para fortalecer esse movimento de resistência e constituir um novo ciclo de transformações na vida do nosso povo. Aqui e aí estamos lutando por cotas na pós-graduação e por ações afirmativas que combatam o racismo para que a Tia Anastácia vire a doutora Anastácia, para que a filha da Tia Anastácia possa ser cientista, e para que a ciência cumpra seu papel de transformar a realidade e todos que estão nela. Não descansaremos enquanto a ciência só representar o racismo científico e as instituições, entidades e organizações de direita e de esquerda reproduzirem esse racismo de forma vertical e automática. Negros e negras precisam estar em todos os espaços de poder, a postos, prontos para dar o Brasil a conquista das metas ousadas que queremos. Temos dito sempre que não é o negro e a negra que precisam da ciência e de entrar na universidade, mas a universidade e a ciência que precisam do povo negro. Nenhuma ciência terá impacto social enquanto o povo negro não participar da elaboração de seus objetos científicos, enquanto os brancos falarem sobre os negros e enquanto entrar na universidade, na pós-graduação, disputar espaços estratégicos forem tabus para salvaguardar a falsa democracia racial que vivemos. Por cotas na pós-graduação, por mais negros e negras nos espaços de poder, por mais negros e negras mobilizados na resistência democrática, cumprimentamos de forma assertiva a dimensão da reunião de negros e negras no mais importante espaço de unidade do nosso movimento. Viva os negros pós-graduandos! Viva a ANPG! Viva a gloriosa União de Negros pela Igualdade.
Gabriel Nascimento
Giovanny Kley
Flávio Franco
Franciane Conceição da Silva
Nadson Vinícius dos Santos
A cada dez brasileiros, cinco são negros. A cada dez pós-graduandos, apenas dois são negros. A falta de acesso da população negra à universidade, que já acontece na graduação, também é um dos grandes entraves nos cursos de mestrado e doutorado pelo país. O tema tem sido debatido intensamente no último período, tanto no movimento negro como na Associação Nacional dos Pós Graduandos, e norteia uma das mesas do 25o Congresso da entidade nesta sexta-feira na Universidade Federal de Minas Gerais.

Uma das reivindicações da ANPG é a devida implantação da portaria do Ministério da Educação que define políticas afirmativas de inclusão racial nos programas de pós-graduação das instituições federais de educação superior. O documento foi assinado no mês de maio. A luta por essa medida vem sendo travada há cinco anos, de acordo com um dos seus principais defensores, o fundador da ONG Educafro: “Ameaçamos ocupar a Capes, depois ocupar o Ministério da Educação para que nossa voz fosse ouvida nessa questão. Conseguimos avançar, mas ainda não estamos satisfeitos”, declara.
Também participam do debate o presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN) Paulino Cardoso, Wescrey Portes, diretor da ONG Enegrescer, Luciene de Oliveira Dias, professora da UFG e Gabriel Nascimento, diretor da ANPG. Os pós-graduandos também discutiram o tema da democracia racial no Brasil e os desafios para a superação do racismo no país.
“O espaço de poder no mundo eurocêntrico é o espaço do poder de fala. Por isso, quanto mais negros e negras estiverem empoderados do conhecimento, mais poderemos fazer avançar as nossas causas. Precisamos combater o domínio do eurocentrismo na academia e buscar a efetivação de programas de mestrado e doutorados que tenham como foco as questões do povo negro, do povo indígena”, explica Frei David.
Ele cita outros exemplos de universidades que exploram o conhecimento de forma plural, mesmo estando em um eixo cultural menos diversificado que o Brasil: “A própria universidade de Harvard leva a sério essa composição diversa do conhecimento abrindo espaço em meio ao predomínio dos saberes europeus. No Brasil não avançamos nisso. Há um saber mal explorado que vem a partir do mundo africano. Esse conteúdo precisa se mostrar em toda sua inteireza e integridade”, defende.
A luta das entidades do movimento negro, agora, é para a definição de uma porcentagem mínima para as cotas raciais na pós-graduação e para a ampliação da assistência estudantil para os estudantes negros.
Artênius Daniel
Com um tom combativo, foi aberto nesta sexta-feira (10) o 25º Congresso Nacional de Pós-Graduandos, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horizonte. O evento tem como tema “Democracia para superar a crise e conquistar mais direitos” e atraiu estudantes de todo o Brasil em busca da discussão de meios para enfrentar o momento de crise política pelo qual passa o país.
Durante a cerimônia de abertura, Tamara Naiz, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), ressaltou a importância do evento como um momento de reflexão e, mais que isso, de reinvenção das formas de participação política para conquistar mais direitos. A presidente lembrou que, em 1996, a UFMG foi cenário do 11º congresso dos pós-graduandos, com o tema de reestruturação da associação.
Segundo ela, desde essa data, a classe passou por um ciclo virtuoso que deve continuar avançando e se fortalecendo. “(O ciclo) não pode ser interrompido pelas ameaças à democracia no nosso país. Não pode ser promovido por uma política econômica que não coloque no seu centro o investimento em áreas estratégicas como a educação, a ciência e tecnologia”, disse. Tamara ainda ressaltou a inventividade dos jovens brasileiros, que podem ajudar a desenvolver cada região do país. “Para conquistar o Brasil que a gente sonha é preciso muita luta”, afirmou.
Jaime Arturo Ramires, reitor da UFMG, destacou que além do importante debate acadêmico e a evolução da realização de uma mostra científica, é o momento para se debater política. “Não há como no nosso país discutir, hoje, educação, ciência, tecnologia, saúde, direitos de minorias, se não abordarmos a questão política. Não podemos aceitar, de forma alguma, aceitar os recuos, os graves retrocessos. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação é só um exemplo. A fusão do MCTI com o de Comunicações descaracteriza o ministério, que foi uma conquista da sociedade acadêmica e científica, há 31 anos estruturado”, disse.
A abertura contou ainda com a presença de Késsia Cristina, presidente da União Colegial de Minas Gerais (UCMG), Luanna Ramalho, presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE), Luanna Bonone, secretária adjunta regional da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Evaldo Vilela, presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) e Marcio Rosa Portes, subsecretário de ensino superior da Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia e Ensino Superior (SECTES).
As reflexões da presidente da ANPG e do reitor da UFMG estão em sintonia com os anseios dos pós-graduandos participantes do congresso. O mineiro Stephano Ridolfi, mestrando em ciências florestais na Universidade Federal de Lavras (UFLA), acredita que neste momento de crise política é importante defender os direitos dos pós-graduandos. Ele citou a discussão sobre a cobrança de mensalidades e os cortes nas bolsas sanduíches, essenciais para as qualificações dos doutores. “Vemos que a pós não é prioridade desse governo. Temos que discutir para tomar à frente e frear essa barbárie”, disse.
Já Eliseu dos Santos França, doutorando em matemática na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), disse que além das questões políticas do país, tem como foco discutir a permanência estudantil, especialmente as cotas raciais. “O poder não é feito de vácuo. Se a gente não preenche o espaço, outros vão. É meu dever participar. Ainda mais numa situação de crise como essa, onde temos outro golpe acontecendo”, ressaltou.
São esperadas mais de 600 pessoas na 25ª edição do congresso da ANPG, que se estende até o domingo, 12.
Shirley Pacelli, Jornalista
