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ASSINE O ABAIXO ASSINADO: SEM PESQUISA NÃO HÁ FUTURO: PELA EXTENSÃO DA PRORROGAÇÃO DOS PRAZOS E DAS BOLSAS DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA ENQUANTO DURAR A PANDEMIA DE COVID-19 NO BRASIL

Nós, pós-graduandas e pós-graduandos, solicitamos aos coordenadores e membros dos conselhos de pós-graduação e pesquisa de todas as instituições de Ensino e/ou Pesquisa, ao Fórum Nacional de Pró-reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (FOPROP) e às diversas sociedades científicas de nosso país para que continuem a pressionar, de maneira mais incisiva, a CAPES, o CNPq e demais agências de fomento para que as bolsas de mestrado, doutorado e pós-doutorado sejam prorrogadas, com sobreposição de cotas, pelo tempo que durar o isolamento físico devido à pandemia de COVID-19.

Em que pese a decisão acertada das agências nacionais, e algumas estaduais, em prorrogar prazos e bolsas por, em média, 3 meses, fruto de uma mobilização da ANPG e de dezenas de Associações de Pós-Graduandos, devido à extensão do isolamento físico no país, essa medida não garante as condições isonômicas temporais e financeiras para todos continuarem o desenvolvimento de suas pesquisas e não serem prejudicados por fatores alheios a suas vontades. Ou seja, com isso muitos pós-graduandos estão impossibilitados, ainda, de darem continuidade às suas pesquisas por conta das limitações que a pandemia vem trazendo pois estão tomando atitudes em prol da preservação da vida, respeitando o isolamento físico conforme recomendam as organizações de saúde. Vale ressaltar que as prorrogações anteriores aconteceram sem que o Governo Federal mobilizasse mais recursos para esse setor, e consequentemente, para orçamento das bolsas, o que permitira que elas fossem prorrogadas sem prejudicar futuros bolsistas – a chamada sobreposição de cotas -, colocando os próximos processos seletivos para a pós-graduação em risco já que as bolsas prorrogadas não poderão ser repassadas aos novos discentes sem que os antigos tenham concluído seus trabalhos.

É preciso destacar, também, que o perfil socioeconômico do pós-graduando brasileiro não é homogêneo. E, assim, com as limitações colocadas pela pandemia, há ocorrência de centenas de situações, por exemplo: alguns pós-graduandos fazem pesquisas que dependem da realização de experimentos presenciais em laboratório, cujo prosseguimento não é possível; outros precisam se dedicar ao cuidado de pessoas em grupos de risco e/ou de crianças, que estão com as aulas suspensas na educação básica ou com creches fechadas, o que faz com que os pais e, principalmente, as mães pesquisadoras tenham uma demanda de trabalho ainda maior. Além disso, há dificuldades e incertezas em relação ao acesso à internet e a equipamentos que permitam a continuidade do trabalho em home office e de reuniões virtuais.

Sem a prorrogação dos prazos e das bolsas, as quais já estão há sete anos sem os devidos reajustes inflacionários, as agências de fomento levam-nos, mestrandos, doutorandos e pós-doutorandos, a uma situação de alto risco social e econômico, que compromete a própria qualidade da pesquisa e, por consequência, nossas carreiras científicas. Não é demais enfatizar que somos responsáveis em grande medida pela movimentação das áreas das ciências, tecnologia e inovação do país. Além disso, as regras para a concessão das bolsas de estudos incluem o requerimento de dedicação exclusiva, contudo, sem a garantia dessas bolsas por parte do Ministério da Educação e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, nós, trabalhadoras e trabalhadores da ciência, estamos sendo forçados à informalidade, devido à necessidade de encontrar outras fontes de renda para sobrevivência nesse período. Essa omissão em relação às políticas públicas voltadas à pós-graduação acentua desigualdades socioeconômicas e reforça problemas de exclusão social na educação superior no nosso país, bem como as desigualdades de raça e gênero.

Nesse contexto, é muito importante que a comunidade acadêmica, via coordenações de programas de pós-graduação, pró-reitorias de pós-graduação e pesquisa, sociedades científicas, além dos fóruns representativos, como o FOPROP, se manifeste, pressionando os governos federal e estaduais para que haja possibilidade da prorrogação dos prazos e bolsas de estudos, com sobreposição de cotas, pelo tempo que durar a pandemia de COVID-19. A pandemia de COVID-19 salientou, como afirmado na última Marcha Virtual pela Ciência realizada no primeiro semestre deste ano, que só é possível pensar em garantias sociais quando estão atreladas ao investimento contínuo nas atividades de pesquisa. As universidades públicas brasileiras tiveram e continuam tendo papel essencial no enfrentamento à pandemia, algo que só pôde ser construído com décadas de financiamento expansivo e com a estabilidade necessária. Arriscar esse trabalho de décadas é arriscar nosso futuro como brasileiros e como nação. Precisamos urgentemente de respostas concretas para salvaguardar a vida de milhares de pós-graduandos e a continuidade dos projetos de pesquisa em andamento, do próprio sistema nacional de pós-graduação e pesquisa e do futuro do país.

Essa é a terceira e ultima parte do estudo sobre a distribuição de bolsas e a portaria 34 que a ANPG realizou.

Leia as matérias anteriores:

1º – MAPEAMENTO NACIONAL DE BOLSAS DA CAPES

2º – NOVO MODELO DE DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS DA CAPES APROFUNDA DESIGUALDADES REGIONAIS

 

A edição da Portaria 34 ainda não acarretou desequilíbrios na política de concessão de bolsas da Capes. Nesse primeiro momento, houve até uma pequena expansão no número geral de benefícios nos mestrados e doutorados dedicados às três áreas de conhecimento: ciências da vida, ciências exatas e tecnológicas e humanidades. É o que se pode aferir pelo estudo realizado com exclusividade pela ANPG sobre o mapa situacional das bolsas de estudos ofertadas pela maior agência de fomento à pesquisa do país.

Em números gerais, na soma de mestrados e doutorados, a área de Ciências da Vida passou de 30.382 bolsas para 32.294; a de Ciências Exatas de 25.512 para 26.390 e a Humanidades das anteriores 24.378 bolsas para as atuais 25.585, um acréscimo de 3997 após a Portaria 34, em um total de 84.269concedidas (Veja os números no gráfico I) (*)

Gráfico 1. Quantidade de bolsas de estudos concedidas pela CAPES antes e depois da portaria 34, distribuídas por mestrado e doutorado entre as três grandes áreas de conhecimento.Legenda: Antes = Efeitos das portarias 18, 19 e 20; Depois = Efeitos da portaria 34; Empréstimo = Bolsas empréstimos; Programa = Bolsas por cota de programas e pro-reitoria. Fonte: Planilha CAPES disponibilizada no processo Inquérito Civil nº 1.29.000.001595/2019-65 da Justiça Federal do Rio Grande do Sul.

 

Contudo, a ampliação é toda baseada em bolsas na modalidade empréstimo, havendo um acréscimo no sistema de 12.118 benefícios nessa condição, que não serão devolvidas aos programas obrigatoriamente ao fim de sua utilização. Ou seja, pode-se dizer que um dos efeitos imediatos da Portaria 34 foi deslocamento de bolsas vinculadas aos programas (cotas por programas) para a modalidade empréstimo, sem o que teria acontecido um corte expressivo.

Na atual configuração de distribuição, as bolsas empréstimos já respondem por cerca de 15% do total de benefícios concedidos, sendo 4.630 na área de ciências da vida, 3.750 na área de exatas e tecnologia e 3.738 entre aquelas disponibilizadas para as ciências humanas. A Capes alega que as bolsas empréstimos serão mantidas no sistema, mas há apreensão na comunidade acadêmica devido à postura de confronto e desmonte de políticas que o MEC tem adotado desde o início do governo Bolsonaro, especialmente durante os 14 meses em que Abraham Weintraub foi o titular da pasta.

Para a presidenta da ANPG, Flávia Calé, monitorar e cobrar a manutenção dessas bolsas passa a ser uma prioridade para os pós-graduandos. “As cerca de 12 mil bolsas que estão na cota empréstimo são a grande preocupação. O acompanhamento da alocação delas é fundamental para que não haja desfalque na oferta de bolsas e mais desequilíbrios no sistema”, aponta.

A mesma questão aflige os pós-graduandos das Humanidades. Ao estipular o incremento das bolsas nos programas 6 e 7, em detrimento dos programas de conceitos 3, 4 e 5, a Portaria 34 aponta para uma sangria nas ciências humanas, já que 87% de seus cursos estão concentrados nos níveis que serão afetados (Tabela 1). Graças as bolsas da cota empréstimo, os cortes não ocorreram neste primeiro momento em relação à Capes, mas o governo tem testado formas de reduzir a oferta para essa área do conhecimento.

 

Tabela 1. Quantitativo de programas de pós-graduação por conceito e as três grandes áreas do conhecimento. Fonte: GeoCapes 2018. * = até o momento da publicação não tinha dados referentes a cursos nível A
Tabela 1. Quantitativo de programas de pós-graduação por conceito e as três grandes áreas do conhecimento. Fonte: GeoCapes 2018. * = até o momento da publicação não tinha dados referentes a cursos nível A

 

Uma das iniciativas nesse sentido veio através da Portaria 1.122, editada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, que retirou as ciências humanas dos eixos prioritários para os projetos de pesquisas a serem financiados entre 2020 e 2023. Editada em 19 de março, a repercussão foi tão negativa que o MCTIC reformou a portaria incluindo a área entre as prioridades.

Ainda assim, o CNPq chegou a anunciar um novo edital de bolsas de Iniciação Científica baseado nos critérios estabelecidos na Portaria 1.122, o que deu ensejo a uma carta aberta assinada por três conselheiros da agência. “A pré-chamada materializa as diretrizes da Portaria e, assim, reforça as dicotomias e exclusões estabelecidas na agenda do MCTIC. Considerando a gravidade do fato, que exige o empenho do Presidente e Diretores do CNPq em restabelecer a ordem institucional, solicitamos que essa decisão seja revista”, protestaram Maria Ataide Malcher, Regina Pekelmann Markus e Fernando Galembeck, representantes da comunidade científica no Conselho Deliberativo.

Quanto às bolsas da Capes, a Associação Nacional de Pós-Graduandos continua atuando pela revogação da Portaria 34 e para impedir que o novo modelo traga prejuízos aos estudantes. “A Portaria 34 acabou gerando impasse para a pós-graduação quando tentou acelerar um modelo de distribuição que deveria ter sido mais testado antes de sua implementação”, diz Flávia Calé.

Redução de áreas do conhecimento enfrenta resistência na academia

Também é vista com apreensão pela comunidade acadêmica a intenção manifestada pela Capes de “reduzir substantivamente” as áreas de avaliação existentes na pós-graduação, enquadrando as 49 atuais em nove grandes áreas do conhecimento. No último dia 16 de junho, o presidente da agência, Benedito Guimarães Aguiar, criou uma comissão especial com esse objetivo.

Os estudantes discordam da premissa por considerarem que a criação dessas 49 áreas partiu de um processo de debates históricos sobre as áreas do conhecimento e as particularidades de cada uma delas. “Um grande entrave para o desenvolvimento científico e que precisamos superar para melhorar nossa produção científica é avançar no reconhecimento e na importância das áreas transdisciplinares e isso não se resolve reduzindo as áreas [do conhecimento], mas possibilitando maior liberdade para o trânsito entre elas”, diz Flávia Calé.

Essa série de matérias, conteúdo produzido pela ANPG, traz um panorama da atual distribuição de bolsas de estudos da Capes e os impactos da Portaria 34 na pós-graduação brasileira. Segundo os estudos, que você poderá conferir nas matérias, entre os efeitos da nova forma de distribuição, nota-se um aumento das bolsas na modalidade “empréstimo”, em detrimento das vinculadas aos programas e redução do número de benefícios nas regiões Nordeste e Sul, aprofundando as desigualdades regionais na produção científica, além desproporções entre as bolsas concedidas, prejudicando cursos de programas 3, 4 e 5. Confira a série de reportagens exclusivas da ANPG.

 

 

MAPEAMENTO NACIONAL DE BOLSAS DA CAPES

Atualizado em 16 de julho de 2020

Há anos o movimento de pós-graduandos se depara com um problema objetivo para obter um diagnóstico completo do quadro de bolsas de estudos da pós-graduação: a falta de detalhamento quanto à distribuição entre modalidades de bolsas, programas e áreas do conhecimento. 

As informações da maior agência de fomento à pós-graduação do país, que possuem evidente interesse público, sempre foram genéricas, dificultando análises mais aprofundadas sobre o mapa situacional da pós-graduação. Contudo, após a judicialização da Portaria 34, por pedido de suspensão feito pelo Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul na Justiça Federal do mesmo estado, a agência foi obrigada a disponibilizar uma planilha oficial mais minuciosa sobre a atual distribuição das bolsas. O processo, em questão, foi finalizado no último dia 03 de junho, por parte do próprio MPF após recuperação das quase 6000 bolsas ao sistema no mês de abril. 

Foi com base nessas informações que a ANPG iniciou a montagem de um panorama das bolsas da Capes que estão ativas, possibilitando aos pós-graduandos e entidades da área o entendimento sobre os tipos de bolsas, os programas atendidos, sua distribuição geográfica e de áreas do saber.

A Capes disponibiliza quatro tipos de bolsas de estudos: Demanda Social, que atende programas de pós-graduação de nível A, 2,3, 4 e 5 em universidades públicas; Programa de Excelência Acadêmica (Proex), que abrange programas de conceitos 6 e 7; Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições de Ensino Particulares (Prosup) e Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições Comunitárias de Ensino Superior. 

Essas quatro modalidades de bolsas chegam aos estudantes, basicamente, através de duas formas, pelas cotas de programa ou via cotas de pró-reitorias, ambas dirigidas na ponta pelas universidades. Essas bolsas mantêm-se ativas após a conclusão do mestrado ou doutorado realizado pelo estudante que a utilizava, sendo então disponibilizada para que outro tenha acesso, normalmente no mesmo programa, caso seja do primeiro tipo, garantindo assim a continuidade do sistema de pós-graduação, relativamente resguardado de intempéries políticas ou de governos.

A partir de uma análise histórica dos últimos dez anos, com dados das leis orçamentárias de cada ano, é possível perceber que, em termos gerais, o pico de bolsas de mestrado e doutorado concedidas pela Capes foi em 2015, quando havia disponibilidade de 92.146 bolsas no sistema (Figura 1). Ressalve-se que a data também coincide, ainda, com o programa “Ciência Sem Fronteiras”, que custeava estudantes de graduação no exterior e foi ponto alto de financiamento da agência, que chegou a deter R$ 7,45 bilhões de orçamento global, sendo R$ 2,21 bi para as bolsas de estudos (apenas bolsas de mestrado e doutorado). Agora, em 2020, o recurso total da Capes é de R$ 3,76 bi, sendo apenas R$ 1,87 bi alocado em bolsas, o que na prática permite a concessão das 84.076 bolsas atuais. Esse número representa um corte de 8070 bolsas desde 2015.

Figura 1: Histórico dos últimos 10 anos do orçamento global da CAPES, fomento à bolsas de estudos e quantitativo de bolsas por valores de bilhões de reais. Fonte: Lei de Diretrizes Orçamentárias dos respectivo ano e CAPES.
Figura 1: Histórico dos últimos 10 anos do orçamento global da CAPES, fomento à bolsas de estudos e quantitativo de bolsas por valores de bilhões de reais. Fonte: Lei de Diretrizes Orçamentárias dos respectivo ano e CAPES.

Cabe destacar que o atual número de concessões só não é menor em virtude das mobilizações do Tsunami da Educação, que levaram milhares de estudantes às ruas do país em 2019. As manifestações ajudaram na reversão dos sucessivos cortes de mais de 6000 bolsas realizadas pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub, durante o ano passado. Além disso, também reforçou a pressão no Congresso Nacional para o incremento do orçamento da CAPES em 2020, pois na proposta original do governo havia redução de quase metade do orçamento (saindo de 4,19 bi em 2019 para 2,2 bi em 2020), o que resultaria na concessão de apenas 47.249 bolsas. Foi a conquista de 1,2 bi, através de emendas aprovadas nas comissões de educação e ciência e tecnologia, que possibilitou o atual número de bolsas 

 

 DESIGUALDADES NA DISTRIBUIÇÃO DE BOLSAS

O número total de bolsas concedidas no início desse ano ainda é confuso, pois a planilha disponibilizada pela CAPES apenas torna públicos o cenário “antes” – já sob as portarias 18, 19 e 21 – e “depois”, após vigência da portaria 34. Essas portarias foram publicadas para implementar um modelo oficial de distribuição de bolsas no sistema nacional de pós-graduação. 

Assim, sem um cenário de distribuição antes da portaria fica impossibilitada uma análise mais profunda sobre real impacto dessas portarias no sistema como um todo. Sem uma cronologia da disponibilização de bolsas, não é possível, por exemplo, comprovar que houve incremento de 3.386 bolsas no sistema, conforme alegado pelo Ministro Weintraub, em 27 de março. Ainda mais que, posteriormente, a CAPES alegou erro no saldo de bolsas, restituindo cerca de 6000 bolsas que foram contabilizadas pelo sistema como bolsas empréstimos. 

O que se sabe oficialmente, pelos próprios dados da CAPES, é que posteriormente às portarias 18, 19 e 21 haviam 80.272 bolsas concedidas, sendo 40.201 de mestrados e 40.071 de doutorado, e que hoje, após portaria 34, há 84.076 bolsas, sendo 41.306 de mestrado e 42.963 de doutorado (Tabela 1).  

Tabela 1. Quantidade de bolsas de estudos concedidas pela CAPES antes e depois da portaria 34, distribuídas por tipos de curso e conceito.

Legenda: Antes = Efeitos das portarias 18, 19 e 20; D= Doutorado; Depois = Efeitos da portaria 34; E = Bolsas empréstimos; M= Mestrado; N = Bolsas por cota de programas e pro-reitoria. Fonte: Planilha CAPES disponibilizada no processo Inquérito Civil nº 1.29.000.001595/2019-65 da Justiça Federal do Rio Grande do Sul .

Além disso, ao correlacionar esses dados a partir da quantidade dos programas de pós-graduação (PPG) por conceito, percebe-se a já existente desigualdade na distribuição das bolsas CAPES no sistema nacional de pós-graduação (SNPG). Embora os programas de pós-graduação de nível 3 representem quase 35% de todo o sistema, esses abarcam apenas 8,5% (7.211) do total de bolsas, enquanto os de nível 6 e 7, que correspondem juntos a 11,4%, possuem quase 30% do total de bolsas (Figura 2). Não obstante, os programas de nível 5 são 18% do total de PPGs, mas possuem quase 30% das bolsas. 

Para Flávia Calé, presidenta da ANPG, os novos critérios para alocação de bolsas deveriam ser precedidos de ampliação dos benefícios e das verbas da agência e não o esvaziamento de programas. “Qualquer discussão sobre novo modelo de distribuição de bolsas deveria pressupor novas bolsas e ampliação do orçamento da CAPES e não a retirada de bolsas de determinados programas, de forma repentina. Sem contar as consequências, como a concentração de recursos de fomento nas regiões mais ricas do país e os transtornos aos pós graduandos que já haviam se planejado, deixado empregos, mudado de cidade e de repente se viram sem bolsa de estudo”, afirma.

Figura 2: Distribuição dos programas de pós-graduação no Brasil por conceito. Fonte: GeoCapes2018. Não há dados para programas nível 2 para o GeoCapes 2018, último até a data de publicação da matéria.

O SÚBITO CRESCIMENTO DAS BOLSAS EMPRÉSTIMOS

Ademais, percebe-se que cerca de 10 mil bolsas foram transformadas em modalidade empréstimo após publicação da portaria 34. E é justamente aqui que mora o perigo para o sistema nacional de pós-graduação. Essas ditas “bolsas empréstimos” são um terceiro tipo virtual de bolsas, que possuem concessão ativa, mas que, ao término da vigência atual, voltarão ao sistema nacional de bolsas, e, na teoria, serão redistribuídas no sistema. Ou seja, o programa ou pró-reitoria não podem fazer novas indicações de bolsistas a partir delas, como acontece para os demais tipos de bolsas. 

Segundo a CAPES, essas bolsas voltarão ao sistema à medida que forem terminando suas atuais vigências e serão redistribuídas a partir do modelo disposto na portaria 34. Hoje, são 14.761, mas nesse periodo 12.118 bolsas foram convertidas em empréstimos, distribuídas majoritariamente em PPGs 3, 4 e 5 (1975, 4570, 3544, respectivamente) (Tabela 1). 

Assim, é preciso vigilância de toda a comunidade acadêmica e cientifica para que elas não aumentem as estatísticas das bolsas cortadas do sistema. Há ainda um agravante: caso sejam redistribuídas pelas regras da portaria 34, isso poderá significar o colapso desses programas, uma vez que o modelo atual, além de aumentar o teto de perda de bolsas dos programas, privilegia aqueles de maiores conceitos, ampliando a já desigual distribuição de bolsas entre os programas.

“A Capes informa que não houve cortes, mas na prática com a retirada de bolsas de um programa para outro, houve sim. Você pode não ter retirado bolsas do sistema, mas retirou uma bolsa que estava prometida para um pós-graduando. O que tem colocado centenas de pós-graduandos ainda na incerteza do recebimento desse direito”, avalia Vinícius Soares, diretor de Comunicação da ANPG. 

 

 

Abaixo, segunda parte da matéria produzida pela ANPG sobre o detalhamento da distribuição de bolsas de estudos da Capes

 

Novo modelo de distribuição de bolsas da Capes aprofunda desigualdades regionais

 

Atualizada em 16 de julho de 2020

 

Nesta segunda matéria produzida pela ANPG sobre o detalhamento da distribuição de bolsas de estudos da Capes (acompanhe a primeira parte aqui), fica demonstrado que o novo modelo, previsto pela Portaria 34, tende a acarretar uma maior concentração da pesquisa científica, agravando ainda mais as assimetrias regionais do país. 

Embora não tenham acontecido cortes no número geral de benefícios nesse primeiro momento, o novo modelo provocou expressiva perda para os pós-graduandos das regiões Nordeste e Sul, em proveito de uma concentração ainda maior no Sudeste.

Antes da Portaria 34, a região Nordeste detinha 7.595 bolsas de mestrado (7.031 vinculadas aos programas e 564 empréstimo) e 7.791 de doutorado (7.585 programa/206 empréstimo), totalizando 15.386 estudantes. Sob os efeitos dos novos critérios, que reduzem as concessões particularmente de programas 3, 4 e 5, o Nordeste passou a contar com 14.266 bolsas, na soma de mestrado (7.682) e doutorado (6.584), uma redução de 1.120 benefícios, aí já incluídas as que migraram de programas para empréstimo (mais detalhes no gráfico I).

 

Gráfico I. Quantidade de bolsas de estudos concedidas pela CAPES antes e depois da portaria 34, distribuídas por mestrado e doutorado entre as regiões do país. 

Legenda: Antes = Efeitos das portarias 18, 19 e 20; Depois = Efeitos da portaria 34; Empréstimo = Bolsas empréstimos; Programa = Bolsas por cota de programas e pro-reitoria. Fonte: Planilha CAPES disponibilizada no processo Inquérito Civil nº 1.29.000.001595/2019-65 da Justiça Federal do Rio Grande do Sul.

Cássio Borges, pós-graduando da Universidade Federal do Piauí e vice Nordeste da ANPG, considera que historicamente a região esteve excluída do acesso a bons cursos de pós-graduação strictu sensu, o que torna mais injusto o corte de bolsas nos programas 3, 4 e 5. “Se pegarmos o caso da UFPI, até 2013, só tínhamos 10 cursos de mestrado e 4 de doutorado. Hoje, temos mais de 50 mestrados e 20 doutorados, que, a cada nova avaliação quadrienal da Capes, vêm obtendo melhores resultados. Porém, até que esses programas possam ser conceituados com excelência é necessária produção acadêmica, o que só será possível se as condições materiais forem ofertadas. Cortar as bolsas de programas com conceitos 3, 4 e 5 é um golpe de morte para a pós-graduação do Nordeste”, afirma.

Movimento similar pode ser observado na região Sul do país, o que redundou em perda geral de 782 bolsas, refluindo dos anteriores 20.217 para os atuais 19.435. Com efeito, nas denúncias recebidas pela Ouvidoria da ANPG quando 6 mil bolsas foram desligadas por erro no sistema da Capes, o maior número de queixas individuais veio de estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Mas há uma diferença no padrão de cortes entre as regiões: no Nordeste, a redução impacta fortemente o doutorado, que decaiu de 7.791 bolsas para 6.584; enquanto no Sul, o prejuízo se concentrou no mestrado, que refluiu de 10.636 para 9.417, ao passo que os doutorandos ganharam 437 bolsas (9.581 antes e 10.018 após a Portaria 34).

As regiões Norte e Centro-Oeste ficaram praticamente estáveis, com 3.323 (acréscimo de 55) e 5.771 (acréscimo de 234) bolsas, respectivamente. Em compensação, o grande beneficiário do novo modelo de concessão é o Sudeste, o que revela o caráter concentrador dos critérios da Portaria 34.

Os estados da região mais rica e desenvolvida do país, que somados detinham 38.015 bolsas de mestrado e doutorado, agora chegam a 41.122 bolsas, um acréscimo de 836 nos mestrados e 2.371 nos doutorados.

Para Flávia Calé, presidenta da ANPG, o olhar acurado nesse fluxo de distribuição das bolsas mostra uma tendência preocupante, que prejudica o desenvolvimento de regiões do país. “O estudo que a ANPG fez mostra um viés concentrador e, portanto, elitista da formação das novas gerações de pós-graduandos, o que tenderá a agravar as assimetrias regiões na produção científica”, aponta. 

A dirigente da ANPG considera que elaborar propostas para equalizar esses desníveis regionais é um desafio do movimento de pós-graduandos. “É preciso pensar em novas saídas para enfrentar esse problema, porque repercute objetivamente em concentração de riqueza e expansão de pobreza. Não se constrói um projeto nacional de desenvolvimento ignorando e agravando as diferenças históricas na formação econômica e social do país”, finaliza Calé.

Essas discrepâncias ficam claras quando são observados os dados da distribuição dos programas de pós-graduação entre as regiões do país (Tabela 1), pois ainda refletem os históricos e massivos investimentos nas universidades e na pós-graduação no eixo centro-sul, desde o surgimento da primeira universidade brasileira até o primeiro programa de pós, cerca de 50 anos depois. E, embora se tenha avançado ao longo dos primeiros quinze anos deste século, com a descentralização de investimentos que permitiu uma gradual diminuição das desigualdades regionais na pós-graduação, ainda há muito para caminhar. 

Cabe destacar que até os anos 2000, cinco estados da região Norte não possuíam nenhum programa. Em 2005, o Amapá foi o último estado brasileiro a ter um programa de pós, conceito 3, e até hoje, essa região, que deveria despontar pela alta riqueza mineral, natural e social, ainda não possui nenhum programa nível 7, um reflexo do histórico de concentração de investimentos.

Tabela 1. Quantitativo de programas de pós-graduação por região brasileiras e seus respectivos conceitos. 

Fonte: GeoCapes 2018

 

 

Abaixo, a terceira e última parte da matéria produzida pela ANPG sobre o detalhamento da distribuição de bolsas de estudos da Capes.

 

Sem cota empréstimo, Portaria 34 cortaria bolsas em todas as áreas do conhecimento

 

A edição da Portaria 34 ainda não acarretou desequilíbrios na política de concessão de bolsas da Capes. Nesse primeiro momento, houve até uma pequena expansão no número geral de benefícios nos mestrados e doutorados dedicados às três áreas de conhecimento: ciências da vida, ciências exatas e tecnológicas e humanidades. É o que se pode aferir pelo estudo realizado com exclusividade pela ANPG sobre o mapa situacional das bolsas de estudos ofertadas pela maior agência de fomento à pesquisa do país.

Em números gerais, na soma de mestrados e doutorados, a área de Ciências da Vida passou de 30.382 bolsas para 32.294; a de Ciências Exatas de 25.512 para 26.390 e a Humanidades das anteriores 24.378 bolsas para as atuais 25.585, um acréscimo de 3997 após a Portaria 34, em um total de 84.269concedidas (Veja os números no gráfico I) (*)

Gráfico 1. Quantidade de bolsas de estudos concedidas pela CAPES antes e depois da portaria 34, distribuídas por mestrado e doutorado entre as três grandes áreas de conhecimento.Legenda: Antes = Efeitos das portarias 18, 19 e 20; Depois = Efeitos da portaria 34; Empréstimo = Bolsas empréstimos; Programa = Bolsas por cota de programas e pro-reitoria. Fonte: Planilha CAPES disponibilizada no processo Inquérito Civil nº 1.29.000.001595/2019-65 da Justiça Federal do Rio Grande do Sul.

Contudo, a ampliação é toda baseada em bolsas na modalidade empréstimo, havendo um acréscimo no sistema de 12.118 benefícios nessa condição, que não serão devolvidas aos programas obrigatoriamente ao fim de sua utilização. Ou seja, pode-se dizer que um dos efeitos imediatos da Portaria 34 foi deslocamento de bolsas vinculadas aos programas (cotas por programas) para a modalidade empréstimo, sem o que teria acontecido um corte expressivo.

Na atual configuração de distribuição, as bolsas empréstimos já respondem por cerca de 15% do total de benefícios concedidos, sendo 4.630 na área de ciências da vida, 3.750 na área de exatas e tecnologia e 3.738 entre aquelas disponibilizadas para as ciências humanas. A Capes alega que as bolsas empréstimos serão mantidas no sistema, mas há apreensão na comunidade acadêmica devido à postura de confronto e desmonte de políticas que o MEC tem adotado desde o início do governo Bolsonaro, especialmente durante os 14 meses em que Abraham Weintraub foi o titular da pasta.

Para a presidenta da ANPG, Flávia Calé, monitorar e cobrar a manutenção dessas bolsas passa a ser uma prioridade para os pós-graduandos. “As cerca de 12 mil bolsas que estão na cota empréstimo são a grande preocupação. O acompanhamento da alocação delas é fundamental para que não haja desfalque na oferta de bolsas e mais desequilíbrios no sistema”, aponta.

A mesma questão aflige os pós-graduandos das Humanidades. Ao estipular o incremento das bolsas nos programas 6 e 7, em detrimento dos programas de conceitos 3, 4 e 5, a Portaria 34 aponta para uma sangria nas ciências humanas, já que 87% de seus cursos estão concentrados nos níveis que serão afetados (Tabela 1). Graças as bolsas da cota empréstimo, os cortes não ocorreram neste primeiro momento em relação à Capes, mas o governo tem testado formas de reduzir a oferta para essa área do conhecimento.

Tabela 1. Quantitativo de programas de pós-graduação por conceito e as três grandes áreas do conhecimento. Fonte: GeoCapes 2018. * = até o momento da publicação não tinha dados referentes a cursos nível A
Tabela 1. Quantitativo de programas de pós-graduação por conceito e as três grandes áreas do conhecimento. Fonte: GeoCapes 2018. * = até o momento da publicação não tinha dados referentes a cursos nível A

Uma das iniciativas nesse sentido veio através da Portaria 1.122, editada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, que retirou as ciências humanas dos eixos prioritários para os projetos de pesquisas a serem financiados entre 2020 e 2023. Editada em 19 de março, a repercussão foi tão negativa que o MCTIC reformou a portaria incluindo a área entre as prioridades.

Ainda assim, o CNPq chegou a anunciar um novo edital de bolsas de Iniciação Científica baseado nos critérios estabelecidos na Portaria 1.122, o que deu ensejo a uma carta aberta assinada por três conselheiros da agência. “A pré-chamada materializa as diretrizes da Portaria e, assim, reforça as dicotomias e exclusões estabelecidas na agenda do MCTIC. Considerando a gravidade do fato, que exige o empenho do Presidente e Diretores do CNPq em restabelecer a ordem institucional, solicitamos que essa decisão seja revista”, protestaram Maria Ataide Malcher, Regina Pekelmann Markus e Fernando Galembeck, representantes da comunidade científica no Conselho Deliberativo.

Quanto às bolsas da Capes, a Associação Nacional de Pós-Graduandos continua atuando pela revogação da Portaria 34 e para impedir que o novo modelo traga prejuízos aos estudantes. “A Portaria 34 acabou gerando impasse para a pós-graduação quando tentou acelerar um modelo de distribuição que deveria ter sido mais testado antes de sua implementação”, diz Flávia Calé.

Redução de áreas do conhecimento enfrenta resistência na academia

Também é vista com apreensão pela comunidade acadêmica a intenção manifestada pela Capes de “reduzir substantivamente” as áreas de avaliação existentes na pós-graduação, enquadrando as 49 atuais em nove grandes áreas do conhecimento. No último dia 16 de junho, o presidente da agência, Benedito Guimarães Aguiar, criou uma comissão especial com esse objetivo.

Os estudantes discordam da premissa por considerarem que a criação dessas 49 áreas partiu de um processo de debates históricos sobre as áreas do conhecimento e as particularidades de cada uma delas. “Um grande entrave para o desenvolvimento científico e que precisamos superar para melhorar nossa produção científica é avançar no reconhecimento e na importância das áreas transdisciplinares e isso não se resolve reduzindo as áreas [do conhecimento], mas possibilitando maior liberdade para o trânsito entre elas”, diz Flávia Calé.

A ANPG tem sido procurada por estudantes que se inscreveram no Programa Capes-Yale de Doutorado em Ciências Biomédicas, convênio destinado ao intercâmbio de brasileiros na universidade norte-americana, para denunciar o descumprimento das regras estabelecidas e o corte de 90% das bolsas previstas pela agência federal.

No edital 20/2019, a Capes se compromete a custear 10 bolsas de estudos, durante um período de até 6 anos, no valor de U$ 3.045, 83 mensais, além de passagens áreas, auxílio para a instalação dos estudantes selecionados e seguro-saúde.

Porém, segundo os relatos, após a seleção dos 10 classificados pela Universidade de Yale, as disposições foram descumpridas pela Capes, que atrasou a divulgação dos nomes e, quando o fez, contemplou apenas uma das bolsas previstas, sem fornecer qualquer explicação aos selecionados.

Em nota, a Capes afirma que não houve corte de bolsas, mas sim uma “readequação” em razão da pandemia de Covid-19, que alterou os calendários das universidades, e de problemas orçamentários agravados pela alta do dólar. “A CAPES informa que as ações de implementação de bolsas de programas internacionais estão condicionadas ao retorno à normalidade das atividades das universidades de destino dos brasileiros. A medida não significa cancelamento de qualquer iniciativa, mas apenas o seu adiamento ou a readequação dos programas, em conformidade com a nova realidade mundial, incluindo questões de ordem orçamentária.”

A estudante Ilze Mari Olivi Gomes, que faz mestrado em genética na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, foi uma das selecionadas do programa não contempladas com a bolsa. Ela critica o descaso da Capes quanto ao edital. “Temos informação de que até mesmo o presidente da Universidade de Yale enviou uma carta solicitando a manutenção dos 10 alunos selecionados, mas o presidente da Capes não manifestou qualquer reação”, diz.

Ilze aponta que não fazem sentido as alegações do presidente da Capes para justificar o corte e diz que outros processos seletivos internacionais transcorreram normalmente. “A Universidade de Yale irá receber os alunos somente em agosto de 2021. Logo, por que usar a pandemia como desculpa?”. Quanto a restrições financeiras, a estudante denuncia que a agência utilizou apenas um terço de suas verbas até agora. “Consta que a Capes utilizou 1 bilhão do orçamento de 3 bilhões previsto para esse ano. Outros editais, com orçamentos superiores ao nosso, não tiveram cortes dessa proporção. O último edital para pós-graduação na Alemanha, que foi lançado o resultado na semana passada, contemplando 15 bolsas das 15 bolsas prometidas, que vão até 3,1 mil euros”, afirma.

O maranhense Lucas Weba Soares, mestre em genética e biologia molecular pela Universidade Federal de Goiás (UFG), passou na seleção de Yale em 5º lugar e abriu mão de uma bolsa de doutorado na perspectiva de ser chamado. Agora, vive a incerteza decorrente do corte. “Não tem justificativa alguma a “readequação” de 90% desse processo, levando em consideração que pelo menos outros 3 processos seletivos internacionais finalizados no mesmo período não sofreram tal readequação”, diz.

Lucas levou o caso Capes-Yale ao conhecimento da Assembleia Legislativa do Maranhão, seu estado natal, na expectativa que a pressão política faça a agência rever a decisão. Conseguiu o apoio do deputado estadual Duarte Junior, que enviou um pedido de reconsideração a Benedito Guimarães, presidente da Capes. Ele mantém as esperanças. “A perspectiva é rir de tudo isso no ano que vem, em Yale, com todos os demais 10 selecionados e fazer o que eu amo, em um ambiente inacreditável para ganho de conhecimento”.

O descumprimento dos editais também gerou reação no Congresso Nacional. A deputada Tábata Amaral já protocolou um requerimento de informações ao Ministério da Educação sobre o caso Capes-Yale e outros concursos cujas bolsas não foram disponibilizadas. “Houve uma baixa na quantidade de bolsas efetivamente disponibilizadas nos editais de números 17/2019, 20/2019 e 26/2019, o que não se aproxima ao que estava previsto nos respectivos editais”, aponta o documento, que solicita ainda “esclarecimentos quanto aos critérios de diminuição tão brusca de bolsas por edital, bem como gostaríamos de entender qual será o destino do recurso restante e que estava previsto para as bolsas”.

A ANPG, através do ofício 14/2020, também solicitou informações sobre o corte no programa e pediu uma reunião com a Capes para tratar da pauta. Rai Campos Silva, doutorando em Química pela USP e diretor da entidade, diz que a medida deixa a pós-graduação brasileira em situação cada vez mais dramática e vai na direção oposta às práticas internacionais. “Governos do mundo inteiro declaram guerra à grave crise sanitária provocada pelo novo coronavírus, estão investindo parcelas significativas de seus PIBs na ciência e fortalecendo colaborações científicas internacionais, enquanto o Brasil segue na contramão, sem investir no combate à pandemia”.

Segundo Rai, o MEC atravessa uma crise permanente, fruto da subestimação do governo com o setor. “A grave crise política e institucional pela qual passa o Ministério da Educação indica falta de responsabilidade e projeto para uma área tão importante para qualquer sociedade, como a Educação e Ciência. A extinção do Programa Nacional de Pós-Doutorado [o PNPD tem passado por um processo de esvaziamento neste governo] e remanejamento de recurso da área de internacionalização da ciência apontam para consequências devastadoras e um cenário desolador”.

“Portanto, é preciso que o MEC recomponha os recursos contingenciados da Capes e a agência cumpra o compromisso de implementação das bolsas originalmente previstas nos editais e garanta aos pós-graduandos selecionados a mobilidade internacional para o desenvolvimento de suas pesquisas”, finaliza o diretor da ANPG.

Um grupo de médicos (as) psiquiatras e pesquisadores (as) da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP tem estudado o impacto do isolamento social na saúde mental e no uso de drogas entre universitários, sejam graduandos, pós-graduandos e residentes.

A saúde mental dos estudantes universitários possui vasta literatura e é sabido que há altas prevalências no consumo de álcool, tabaco e drogas ilícitas entre estudantes brasileiros. O objetivo da pesquisa é saber se há aumento no uso de substâncias entre os estudantes em isolamento e o isolamento tem impactado a saúde mental daqueles que em poucos anos serão profissionais.

Para ajudar, encaminhe o link dessa pesquisa aos alunos de sua universidade. Em anexo, há uma imagem que pode ser encaminhada de forma mais fácil! O questionário é anônimo e dura cerca de 10 minutos para ser respondido! Para responder, é só clicar no link shorturl.at/bgoN6.

Para saber mais, acessa a matéria no site oficial da Unifesp: cutt.ly/Unifespdrogasnoiso

O projeto também foi citado nesta coluna da filósofa Djamila Ribeiro na última sexta: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/djamila-ribeiro/2020/07/guerra-contra-as-drogas-nao-reduz-consumo-e-favorece-os-donos-de-helicopteros.shtml?origin=folha

Quem quiser, também pode entrar em contato com os pesquisadores pelos canais abaixo:

Prof Dr Thiago Marques Fidalgo
Professor de Psiquiatra da UNIFESP
Coordenador da pesquisa
[email protected]

Vitor Tardelli
Psiquiatra
Master of Sciences pela Columbia University
Doutorando do departamento de psiquiatria e psicologia médica da UNIFESP
[email protected]

Ana Bresser Tokeshi
Psiquiatra
Doutoranda do departamento de psiquiatria e psicologia médica da UNIFESP
[email protected]

@drogas.no.isolamento

Pesquisa aprovada pelo CONEP em 02/06/2020
CAAE: 31098820.9.0000.5505
Caso você tenha dúvidas e/ou perguntas sobre seus direitos como participante deste estudo ou se estiver insatisfeito com a maneira como o estudo está sendo realizado, entre em contato com o Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Federal de São Paulo, situado na Rua Botucatu, 740, CEP 04023-900 – Vila Clementino, São Paulo/SP, telefones (11) 5571-1062 ou (11) 5539-7162, às segundas, terças, quintas e sextas, das 09:00 às 12:00hs ou pelo e-mail [email protected].

Veja a nota aqui em PDF

NOSSAS BOLSAS DE ESTUDO (SALÁRIOS) SÃO ASSISTENCIALISMO? 

Salvador, 04 de julho de 2020.

 

No dia 2 de julho, que marca as diversas lutas históricas pela independência da Bahia, nós, estudantes/trabalhadores/as da pós-graduação, recebemos com pesar e indignação o último ofício da Fundação de Amparo à Pesquisa do estado da Bahia (FAPESB). A agência encaminhou o ofício circular Nº 010/2020, sobre o pagamento de bolsas durante o atual quadro de pandemia. Em um primeiro momento, esse ofício, que poderia acatar a prorrogação das bolsas, reivindicação do/as estudantes, indica o corte das bolsas de quem não possui condições de continuidade das pesquisas.

Nesse contexto, os seguintes cenários são postos pela FAPESB:

1- A pesquisa que está sendo realizada possui impedimento total a sua execução no momento e não pode ser retomada em tempo futuro. Nesse caso, entende a PCT/PGE, a bolsa deve ser cancelada;

2- A pesquisa não está sendo realizada no momento, mas pode ser retomada num futuro próximo. Para tal situação, a PCT/PGE explicita que o pagamento da bolsa deve ser suspenso e retomado quando houver condições para a realização das atividades, inclusive com a prorrogação do Termo de Outorga, por igual período da suspensão;

3 – As atividades de pesquisa não se encontram totalmente interrompidas. ocorrendo atividades virtuais ou em ambiente que não permita aglomeração. Nessa condição, as bolsas podem continuar a serem pagas, desde que as atividades sejam efetivamente registradas e descritas nos relatórios parcial e/ou final dos bolsistas.

As condições acima, postas pela Procuradoria Geral do Estado da Bahia, e acatadas pela FAPESB, indicam a suspensão ou cancelamento das bolsas neste período, sem precedentes, de crise sanitária e humanitária. Um período com aprofundamento das desigualdades e vulnerabilidade sociais, e que deveria ser marcado pelo papel do Estado em assegurar condições mínimas para sobrevivência de seus cidadãos. Cabe destacar que nenhuma dessas medidas supracitadas foram tomadas por outras Agência Estaduais ou Nacionais de Amparo à Ciência. A saber, a CAPES e CNPq, vinculadas ao governo federal, prorrogaram as bolsas e prazos acadêmicos.

É importante sinalizar que as bolsas de estudos são, hoje, a única fonte de renda desses pesquisadores, graduandos e pós-graduandos. Assim, possuem papel fundamental para subsistência desses trabalhadores da ciência que possuem dedicação exclusiva e contribuem decisivamente para a produção cientifica brasileira. Além disso, o perfil socioeconômico do pós-graduando, no país e na Bahia, é heterogêneo, e nesse contexto de isolamento social, a bolsa torna-se parte ou a totalidade da renda familiar, especialmente no momento de descontinuidade de pagamentos de salários e aumento de desemprego para muito brasileiros.

Além disso, enfatizamos a importância de assegurar a vida e saúde mental dos pesquisadores e pesquisadoras, visto que, durante a pandemia, tem sido constantemente ameaçada frente à produtividade acadêmica requerida pelas agências de fomento, nesse caso, também pela FAPESB, e também frente às consequências psicológicas da epidemia. Vivemos um momento no qual a saúde mental de todas e todos encontra-se extremamente abalada, com a morte de mais de 60 mil pessoas em nosso país. Poderíamos apresentar, ainda, situações como a das pesquisadoras mães que, além de suas pesquisas, precisam continuar com o cuidado de seus filhos, encarando a dupla jornada de trabalho; dentre tantas outras.

Essa situação, se não revista, agravará a já precária situação dessas pesquisadoras e pesquisadores. É preciso a manutenção e prorrogação das bolsas, que são, na verdade, o salário dessas trabalhadoras e trabalhadores da pesquisa, enquanto cumprem a quarentena, seguindo as orientações sanitárias ainda vigentes, em prol não só de sua saúde, mas também da saúde pública.

Na atual conjuntura, há um impedimento real de acessarmos os nossos laboratórios, pesquisas de campo, bibliotecas, entre outros, a fim de darmos continuidade às nossas pesquisas. A preocupação da Procuradoria Geral do Estado da Bahia deve ser com o bem-estar de todos, ou seja, garantir que nenhum direito seja revogado e nenhuma bolsa tenha indicativo de suspensão ou cancelamento. A situação se agrava, pois ainda no começo do ano, ocorreu o impedimento de que houvesse outros vínculos empregatícios e foi exigida dedicação exclusiva no processo de recebimento das bolsas para a nossa categoria. Aqui está posta a contradição: não permitem outra fonte de renda e, agora, tratam a prorrogação enquanto assistencialismo? Qual é a lógica dessa medida se não a precarização das nossas condições de trabalho/pesquisa?

Esse contexto é extremamente preocupante sobretudo na atual crise sanitária. Cabe ao Estado fomentar a Ciência e garantir a vida, além de oferecer condições adequadas de trabalho aos seus pesquisadores e pesquisadoras. Nesse sentido, a nossa luta é pela defesa da manutenção e prorrogação todas as bolsas nesse período, além da dilatação de prazos acadêmicos.

Nesse sentido, a Associação de Pós-Graduandas/os (APG) da UFBA e a APG da Fiocruz e Associação Nacional de Pós-Graduandos, vêm, por meio desta carta, denunciar esse fato e requerer que essa orientação da Procuradoria Geral do Estado da Bahia seja imediatamente revogada pelo Governo do Estado, garantindo, assim todos os direitos já conquistados.

 

PELA MANUTENÇÃO E PRORROGAÇÃO DE TODAS AS BOLSAS DE ESTUDOS! NENHUMA BOLSA A MENOS!

 

Associação de Pós-Graduandos da UFBA

Associação de Pós-Graduandos da Fiocruz-BA

Associação Nacional de Pós-Graduandos.

 

A demissão de Carlos Alberto Decotelli, antes mesmo de ser empossado no MEC, é um retrato triste, porém fiel, da completa falta de preparo e respeito do governo Bolsonaro com a educação pública.Decotelli foi nomeado no último dia 25, em substituição a Abraham Weintraub, que se notabilizou como o pior ministro da história. Antes dele, houve ainda a lamentavel passagem de Ricardo Velez pelo cargo.

Decotelli, o breve, caiu a partir de uma série de informações inverídicas que vieram à tona quando seu currículo foi exposto ao escrutínio público. As universidades de Rosário, Wumperttal desmentiram seus títulos e a FGV seu vínculo como professor. Fragilizado, optou por entregar o cargo que sequer tomou posse.

É inadmissível que o Ministério da Educação, pasta fundamental para a construção de um projeto de desenvolvimento do país, que lida com os destinos de milhões de estudantes brasileiros, esteja acéfalo há um ano e meio, à mercê de grupelhos ideológicos e disputas mesquinhas.

O caráter do governo Bolsonaro, por si, já obriga estudantes e pós-graduandos a uma agenda de resistência contra as tentativas de desmonte da educação e da ciência. Continuaremos mobilizados e vigilantes até que o MEC volte a cumprir suas missões para com o Brasil.

 

São Paulo, 01 de julho de 2020

Associação Nacional de Pós-Graduandos

Assine o manifesto!

 

Ao mesmo tempo que o mundo atravessa uma grave crise econômica, vivenciamos uma crise sanitária e humanitária sem precedentes, decorrente da COVID-19. No Brasil, país marcado por históricas desigualdades, segregação social e violação dos direitos humanos, assistimos uma forte ascensão de um negacionismo cientifico, com sucessivas tentativas de enfraquecimento do Estado de Direito e ataques à democracia.
Esse cenário atual, capitaneado pelo governo Bolsonaro, tem dificultado a construção de uma resposta coletiva, qualificada e integral para o enfrentamento das múltiplas crises que nos assolam. A promoção dos direitos humanos, incluindo o direito à saúde e à educação, associado à ciência, são elementos centrais para garantia da sobrevivência e soberania do nosso povo, a democracia e a retomada do desenvolvimento sustentável. Desse modo, é imperativo que tenhamos a responsabilidade política e social para unificar a sociedade brasileira na defesa de um Pacto pela Vida, que nos conclame a não deixar ninguém para trás, reafirmando o valor e a dignidade humana de cada pessoa.
Entretanto, há de se destacar e reconhecer que a crise não é homogênea e atinge alguns grupos sociais, que foram historicamente excluídos, de forma mais brutal, causando mais violência e segregação social. Nesse caso, é notável a crescente vulnerabilidade social e institucional das populações LGBTQI+. Social, quando se percebem os crescentes índices de violência e homicídios movidos por LGBTfobia. E institucional, pois sequer esses dados são contabilizados pelo Estado brasileiro, que está dirigido por pessoas que elevam e repetem o discurso de ódio e intolerância.
Ademais, são esses os agentes que desmontam cotidianamente o arcabouço de políticas públicas de promoção à equidade que garantiriam o direito fundamental de ser e amar nesse país. Com isso, permitem a reprodução de uma cultura discriminatória, excluindo essas populações do processo educacional e científico, tanto como atores e atrizes quanto sujeitos de suas histórias e necessidades.
Não haverá desenvolvimento social sustentável, com crescimento da economia e redução das desigualdades sem valorização e respeito à diversidade do nosso povo. Portanto, é uma necessidade urgente a contenção dos retrocessos e a promoção das políticas afirmativas para os segmentos LGBTQI+, contemplando a interseccionalidade das múltiplas desigualdades incidentes nesses grupos. É preciso construir uma política de reparação histórica a esses segmentos marginalizados, pois há parcelas que ainda não conseguem atingir um ensino fundamental médio completo devido as expressivas violências que os assolam. É preciso que nossa ciência cumpra seu papel e permita levar a emancipação social para todas as brasileiras e brasileiros e, assim, o protagonismo na implementação dos direitos humanos em relação à orientação sexual e identidade de gênero, tais como redigidos nos Princípios de Yogyakarta.
Ou seja, faz-se necessária uma CIÊNCIA FORA DO ARMÁRIO, superando as amarras da LGBTfobia e permitindo a promoção daquelas e daqueles que já estão inclusos no processo de desenvolvimento humano, mas também incluir aquelas e aqueles que ainda são marginalizados em nossa sociedade. Apenas por caminho conseguiremos superar as múltiplas crises e reconstruir esta Nação com base na potência da diversidade do povo brasileiro.

 

Veja as entidades apoiadora da causa:

Associação Nacional de Pós-graduandos
União Nacional LGBT
União Nacional dos Estudantes – UNE
União Brasileira dos Estudantes Secundaristas – UBES
Associação Brasileira de Estudos da Homocultura – ABEH
Associação de Pós-Graduandos da Fiocruz – RJ
Associação de Pós-Graduandos da UFPI
Associação de Pós-Graduandos da UFV
Associação de Pós-Graduandos PUC-MG
Associação de Pós-Graduandos PUC-SP
Escola Nacional dos Farmacêuticos
Federação Nacional dos Farmacêuticos – FENAFAR
Rede Brasileira de População e Desenvolvimento – REBRAPD

Comissão Pró Associação de Pós-Graduandos da Universidade Federal de Ouro Preto
Associação de Pós-Graduandos USP-RP
Associação de Pós-Graduandos UERJ
Associação de Pós-Graduandos Unicamp

SOMUS LGBT+-Sociedade do Município de Santana de Lésbica Gay Bissexual Travestis +

DIRETÓRIO ACADÊMICO DE LICENCIATURA EM CIÊNCIAS BIOLÓGICAS – BERTHA LUTZ / UFRPE

 

 

 

Assine o manifesto!

O governo anunciou o senhor Carlos Alberto Decotelli da Silva como novo ministro da Educação, o terceiro em menos de 1 ano e meio de governo, o que, por si, já demonstra a falta de compromisso com essa área fundamental. Ele assume após a fuga de Abraham Weintraub, o pior ministro da história do MEC, o que lhe traz certo conforto comparativo para iniciar seu trabalho.

Embora possua trajetória acadêmica e possa vir a representar o deslocamento de um grupo na gestão, o novo ministro não tem experiência vinculada à educação, mas sim nas áreas financeira e militar, o que é sempre motivo de preocupação. O problema central não é meramente de nomes, mas de qual agenda se pensa para a educação, que não pode ser tutelada nem por grupelhos ideológicos e nem estar a serviço dos interesses do mercado financeiro.

Os estudantes conduziram grandes mobilizações em defesa da educação durante o governo Bolsonaro e permanecerão mobilizados e atentos contra qualquer tipo de ataque. É preciso superar a lógica que elegeu a educação e a ciência como inimigas, frear o projeto de desmonte das áreas e adotar o caminho de investimentos robustos para assegurar que estas possam cumprir suas missões diante da profunda crise de saúde pública e econômica que o país atravessa.

Entendemos que o próprio governo Bolsonaro é uma limitação para um projeto de fato compromissado com a educação e com os estudantes brasileiros. Mas reafirmamos nossa luta para que o MEC assuma uma agenda fundamental para o momento, que envolve pautas como: a aprovação urgente do novo FUNDEB permanente; saídas para a educação básica durante a pandemia; realização do Enem de maneira segura e no tempo adequado; garantia de auxílio aos estudantes das universidades privadas para pagar as mensalidades; investimentos emergenciais na ciência e nas universidades públicas para permanência estudantil; valorização e investimento na pós-graduação; e todos os esforços de combate ao COVID-19.

UNE – União Nacional dos Estudantes
UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas
ANPG – Associação Nacional dos Pós-graduandos