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Capital sul-mato-grossense recebe evento nos dias 10 e 11 de setembro
 
O Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e o Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti) se reúnem mais uma vez para promover, em conjunto, o Fórum Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação. O encontro ocorrerá nos dias 10 e 11 de setembro, no Grand Park Hotel (Av. Afonso Pena, 5282), em Campo Grande (MS) e visa tratar de assuntos de interesse geral das Faps como agenda regular, das parcerias com as agências nacionais, além de debater acerca de projetos que estão em andamento.
 
As Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa se congregam regularmente a cada três meses, em uma região geopolítica diferente, de acordo com um calendário estabelecido anualmente. Esta edição do fórum será sediada em Campo Grande em comemoração aos 15 anos de trajetória da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia (Fundect) – a Fap local no estado do Mato Grosso do Sul. "Apesar de ser uma fundação relativamente nova, a Fundect tem uma ação bastante ativa e importante, a gestão de seus processos é bem atualizada e sua direção é muito atuante. No sistema Sifaps, por exemplo, tivemos a oportunidade de compartilhar e agregar muitas experiências", afirma o presidente do Confap, Sergio Gargioni.
 
Ele ainda acrescenta: "é fundamental que o fórum aconteça em diferentes estados, para que possamos conhecer de perto a cultura local e o modelo de gestão da Fap anfitriã e aprender as suas boas práticas. Cada fundação tem sua forma de gerir todo o processo administrativo burocrático e, neste caso, o exemplo de uma pode servir para a outra. Portanto, conhecer a realidade local é essencial assim também como mobilizar as autoridades de cada região, para que haja uma verdadeira movimentação pela causa do desenvolvimento científico e tecnológico em cada estado".
 
Principais autoridades da área de CT&I do Brasil e de Campo Grande já confirmaram presença no fórum. Entre elas, o secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luiz Antônio Elias; o secretário de Inovação do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Nelson Fujimoto; o gerente de marketing corporativo da 3M, Luiz Eduardo Serafim; o secretário de desenvolvimento tecnológico e inovação do MCTI, Álvaro Prata; o diretor executivo da Nastek, José Wanderley Scucuglia; o diretor de programas e bolsa no país – Capes, Márcio de Castro Silva Filho; os presidentes da Finep, Glauco Arbix; do CNPq, Glaucius Oliva; e da Telebras, Caio Bonilha; além do governador do estado do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli.
 
Inovação em pauta


Além dos temas tradicionais já citados, a programação (grade completa abaixo) dá destaque a temas ligados à inovação, como o lançamento da chamada pública Tecnova-MS, a assinatura do convênio de parceria entre o Consecti e a 3M do Brasil que também apresenta a palestra "Como desenvolver o país por meio da inovação" e ainda o painel "A inovação como instrumento indutor da industrialização", que será conduzido pelo secretário de Inovação do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Nelson Fujimoto.
 
Outros assuntos de relevo pontuados pelo presidente do Confap são o debate sobre o Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e a atualização dos programas com as diferentes Faps, principalmente no que diz respeito à legislação.
 
Para mais informações sobre o Fórum Nacional Confap-Consecti envie um e-mail para [email protected]. Outros detalhes pelo telefone (67) 3044-4444.
 
Confira abaixo a programação completa:
 
10 de setembro | terça-feira
 
9 horas | Abertura com autoridades convidadas
10 horas | Lançamento da chamada pública Tecnova-MS e assinatura do convênio de parceria entre o Consecti e a 3M do Brasil.
10h30 | "A importância das redes de pesquisa para o desenvolvimento regional" Luiz Antônio Elias – secretário Executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
– Lançamento da revista da rede de pesquisa e pós-graduação do Centro-Oeste e início do doutorado em biotecnologia e biodiversidade
12 horas | Almoço
14 horas | "Avaliação e acompanhamento do programa Tecnova/Finep"
Glauco Arbix – presidente da Finep
15 horas | "Como desenvolver o país por meio da inovação"
Luíz Eduardo Serafim – gerente de marketing corporativo da 3M
16 horas | "A proposta do MCTI para parques tecnológicos"
Álvaro Prata – secretário de desenvolvimento tecnológico e inovação
17 horas | "A inovação como instrumento indutor da industrialização"
Nelson Fujimoto – secretário de inovação no ministério de desenvolvimento, indústria e comércio exterior
18 horas | Nastek (National System of Techonology): Desafios de inovação em Mato Grosso do Sul
José Wanderley Scucuglia – diretor executivo
18h30 | Encerramento
20 horas | Confraternização
 
11 de setembro | quarta-feira
 
AGENDA CONSECTI
9 horas | Painel: "O papel da Telebrás para o PNBL"
Caio Bonilha – Presidente da Telebrás
10h30 | Pausa para o café
10h45 | Agenda interna (deliberações) e encerramento
12 horas | Almoço
 
AGENDA CONFAP
9 horas | Painel: "O papel da Telebrás para o PNBL"
Caio Bonilha – Presidente da Telebrás
OBS: Programação conjunta com o Consecti
10h30 | CAPES – Avaliação de programas com as Faps
Márcio de Castro Silva Filho – Diretor de programas e bolsas no país – Capes
Manoel Santana Cardoso – Assessor de planejamento e consolidação da informação
Idelazil Talhavini – Coordenadora de programas de indução e inovação
11h30 | CNPq – Avaliação de programas com as Faps
Glaucius Oliva – Presidente do CNPq
Liane Hentschke – Diretora de cooperação institucional do CNPq
Ana Paula Reche Correa – Coordenadora de parcerias estaduais do CNPq
12h30 | Almoço
14 horas | Debate: "Desafios de gestão das Faps" – Relato dos grupos de trabalho
15h30 | Deliberações
16 horas | Encerramento
 
(Assessoria de Imprensa Confap)
 
(Jornal da Ciência)

 

Com previsão de promulgação para dezembro, conjunto de leis poderá ter impacto de 70 bilhões de dólares na economia do país

Relator do PL 2.177/11, o deputado federal Sibá Machado explica como e por que a proposta que instituiria o Código Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação acabou sendo desmembrada em leis distintas. Em entrevista exclusiva para o Jornal da Ciência, ele afirma que em dezembro já estará sendo promulgado um conjunto de leis que promete mudar a vida do pesquisador brasileiro. Para ele, o impacto da nova legislação deve ser de mais de 70 bilhões de dólares na economia do país.
 
Como nasceu a ideia de uma nova legislação para CT&I?
Nasceu de uma reclamação antiga dos pesquisadores, principalmente em relação à lei das licitações, que mais engessa do que serve à pesquisa. Precisávamos substituir o princípio da Lei 8.666, que é o principio do baixo preço, pelo principio da qualidade. Esse foi o grande ponto de partida. Mas, quando nós começamos a construir o Código Nacional de Ciência e Tecnologia, nós vimos que precisaríamos mexer em assuntos para os quais o legislativo não está autorizado.
 
Por exemplo?
Tudo o que diz respeito à redução de taxas, à tributação. Em questões ligadas à área fazendária, nós não poderíamos tomar a iniciativa, e sim o executivo. Também existiam questões consideradas cláusulas pétreas da Constituição.
 
Será preciso promover modificações na Constituição?
Exatamente. Sem amparo constitucional nós não conseguiríamos fazer nada.
 
Por isso é que, além do PL 2.177, há uma proposta de emenda constitucional [PEC]?
Mais que isso. Chegamos à conclusão de que são necessárias cinco grandes leis. Três delas são de iniciativa do poder executivo. As duas do poder legislativo são a PEC que vai mudar a Constituição nesse assunto e o próprio PL 2.177.
 
E quais as leis de iniciativa do executivo?
O RDC [Regime Diferenciado de Contratações], que o governo vai encaminhar por projeto de lei ou por medida provisória; a legislação das fundações de apoio, que já foi aprovada na Câmara dos Deputados dentro da Medida Provisória 614; e a lei sobre o acesso à biodiversidade. Então, o PL 2.177 virou cinco leis.
 
E o marco legal da inovação? Não vai ter lei específica para o assunto?
Não. Ele será tratado no próprio PL 2.177. E também temos que alterar a Constituição nesse item porque ela sequer trata de inovação hoje. Temos que mudar artigos para criar um conceito e uma regra para inovação. Tem que ser criada a possibilidade para o Sistema Nacional de CT&I. Temos que criar linhas de diretrizes gerais para poder abrir um cenário para as relações entre as iniciativas públicas e privadas. Tendo essa base constitucional, a inovação vai ser tratada no PL 2.177 porque o que faltar nas leis específicas vai constar no PL 2.177. Por ser uma espécie de complemento, ele vai ser o último a ser aprovado. Ele vai ser a lei regulamentadora da Constituição.
 
Dentro desses cinco eixos, qual tem sido a maior dificuldade?
A biodiversidade, porque envolve a questão da segurança. Vou te dar um exemplo: um pesquisador da Amazônia que queira fazer doutorado e acaba fazendo com um laboratório do exterior. O material genético que ele colhe, ele manda para o orientador do exterior. Quando vem de lá, vem só a informação que ele precisa para fechar a tese. Mas tudo o que foi, o material que ele mandou pra lá, quem é que sabe? Aí nós estamos gerando patentes no exterior de maneira legal. É uma biopirataria legalizada. Então, a gente tem que tomar muito cuidado. Mas, por outro lado, hoje para ter licença para acesso a um material desse demora tanto… São problemas graves e contraditórios.
 
E o RDC, como vai funcionar?
Não tem segredo. Hoje o pesquisador é tratado como se trata um prefeito. A Lei 8.666 é regra para obras físicas. Isso é um problema. Na questão do preço, por exemplo, se eu vou comprar um microscópio, eu tenho que comprar o mais barato. Mas o mais barato nem sempre serve para o pesquisador. Ele quer comprar o que ele precisa. Então é uma dificuldade. Os órgãos da fiscalização são um terror nessa hora.
 
Como serão as novas regras?
Com base no que existe na lei da copa, nós estamos colocando na linguagem e dentro da visão e do interesse da ciência. Então, os prazos mudam. A pesquisa, em muitas áreas, não tem como dar um prazo, só uma estimativa de prazo. Não tem um prazo definido. O que é obra física para um laboratório? O que é material de pesquisa? Um microscópio, um computador de alta precisão? A lei diz que tudo tem que ser licitado como obras físicas. Nós vamos colocar na lei que tudo isso tem que ser contratado como material de pesquisa.
 
O que a lei das fundações de apoio traz de novidade?
As fundações de apoio voltam a ter uma importância muito grande dentro das universidades e vão poder fazer contratações diretas independentes da universidade. Claro que, em comum acordo, ela poderá contratar direto com empresas. Vamos autorizar esses contratos diretos. Não é papel do pesquisador mexer com burocracia. Para que o pesquisador não perca tempo com isso, nós propomos – e o governo já aceitou – que haverá uma equipe de administração dentro das fundações. Ele faz a pesquisa e a fundação faz a prestação de contas.
 
A proposta inicial era de que houvesse um Código Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. Pelo fato de o projeto estar sendo desmembrado em leis distintas, deixa de ser considerado um código?
Deixa. Formalmente não é mais um código. É inapropriado, mas continuamos chamando assim porque é um grande título. Nós não pudemos consolidá-lo numa única peça de lei porque é um conjunto de detalhes tão grandes que, algumas vezes, a velocidade de modificação é muito grande. Essa questão de inovação muda muito rápido. Então, se colocar num código não dá para mexer a qualquer hora. Por isso, os assuntos serão tratados em diferentes leis ordinárias.
 
As audiências públicas já realizadas influenciaram na decisão pelo desmembramento?
Sim. Eu propus essa metodologia e todos concordaram. O próprio governo concordou.
 
E de que forma a comunidade científica se manifestou?
Muito confiante. Você imagina cinco leis e a complexidade de cada uma delas. A gente conseguir aprovar com a rapidez com que está aprovando… Alguns não acreditavam. Isso tem motivado muito os pesquisadores. Temos tido contribuições, onde quer que a gente chegue. E vamos continuar debatendo nas audiências públicas.
 
Quais são as próximas?
Temos mais quatro aprovadas: Vitória, Salvador, Rio Grande do Sul e uma na UnB [Universidade de Brasília]. E ainda dentro da Câmara teremos ainda, pelo menos, mais duas. Cada lei dessas vai ter que organizar audiências próprias.
 
E os deputados, como se posicionam a respeito?
No início, eles não compreendiam de fato aonde eu queria chegar. Num momento, achavam que eu estava perdido; em outro, achavam que não valeria a pena.
 
E aonde o senhor quer chegar?
Como eu não tinha como ter o código numa lei só, eu tive que negociar com o governo os grandes gargalos e propor ao próprio governo que propusesse as leis de competência dele. Essa foi a grande conquista. Quando o governo concordou em desmembrar, a comissão entendeu.
 
O senhor acha que haverá resistência por parte dos parlamentares em aprovar as leis?
Não. O primeiro grande teste foi a aprovação da Medida Provisória 614 sem briga, sem confusão. Acredito que haja um amadurecimento. O pessoal entendeu que é o conjunto dessa obra que vai dar a resposta que os cientistas estão precisando.
 
Qual a perspectiva de que essa legislação esteja em vigor?
Dentro da Câmara, a gente tem cinco coisas para serem votadas até outubro. Aí temos novembro para ver se o Senado acompanha a mesma velocidade. E acho que vai. Até o Natal, estaremos promulgando tudo isso.
 
De que forma ela vai melhorar a vida do pesquisador?
Ah, é muito mais liberdade… Só o RDC, que é a espinha dorsal de tudo, vai ter um impacto enorme na área de importação e exportação. Nós estimamos que, em dez anos, o Brasil pode estar substituindo uma série de produtos de alto valor agregado, que hoje é o que tem desequilibrado mais a nossa balança comercial.
 
Então, vai ter um impacto considerável na economia do país…
Só para você ter uma ideia, o que estamos fazendo aqui foi feito lá nos Estados Unidos. E eles têm a expectativa de dar um impacto positivo de 3% na economia americana. Aqui, o impacto deve ser de mais de 70 bilhões de dólares, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.
 
(Mario Nicoll, Jornal da Ciência)


Lilian Cristina Monteiro França* para o Jornal da Ciência

Não existe pesquisa sem revisão de literatura e referencial teórico. Em um momento em que o fluxo de comunicação se acelera e a Internet disponibiliza uma vasta gama de artigos científicos, escritos sob as mais variadas perspectivas, orientações e matizes teóricos, uma nova barreira se apresenta.

Se, antes da rede das redes, o acesso à produção acadêmica envolvia o deslocamento até as grandes bibliotecas e a seus acervos de livros, revistas científicas, teses, dissertações e monografias, demandando recursos consideráveis para o transporte/alojamento, hoje, a cobrança por acesso a conteúdo (paywall systems) vai surgindo como nova preocupação, mais uma vez segmentando o acesso ao conhecimento.

Um pesquisador que deseje ler o artigo "n-3 fatty acids and lipoproteins: Comparison of results from human and animal studies", de William S. Harris, deve "comprar o artigo" por $39,95 (USD); aquele que quiser estudar as mudanças no jornalismo contemporâneo poderia, por exemplo, selecionar os artigos, "Dumbing down or shaping up: New technologies, new media, new journalism", "Journalism in a state of flux: Journalists as agents of technology innovation and emerging news practices", "New media and journalism practice in Africa: An agenda for research", "Coming to Terms with Convergence Journalism: Cross-Media as a Theoretical and Analytical Concept", "US Foreign Correspondents: Changes and Continuity at the Turn of the Century", e teria em seu "carrinho de compras" a quantia de $125 (USD), $25 (USD), pelo acesso a cada um dos cinco artigos.
 

Mas se o preço parece alto, existem alternativas, é possível alugar um artigo científico por 24h com valores que oscilam entre $1,99 (USD) e $12 (USD) ou optar pela compra de pacotes que dão direito à leitura de um determinado número de artigos por um preço mais baixo, por $9,99 (USD) ou $19,99 (USD) a depender da área.

Nesse shopping de artigos, a lei da oferta e da procura também funciona, artigos mais procurados têm valor mais elevado, assim como autores mais conceituados. Como determinam as estratégias de marketing, lançamentos são mais caros e artigos com mais de dois anos sofrem deflação, alguns chegam, mesmo, a entrar no espaço de liquidação, antes de serem liberados para os espaços de acesso gratuito. Grandes portais oferecem planos individuais e institucionais e descontos especiais para quem quiser voltar a ser assinante.

No site da DeepDyve-Search, Rent, Read é possível arrendar 40 artigos por $40 (USD) por mês, com a vantagem (sic) de poder manter os artigos alugados não utilizados nos meses seguintes ("Unused rentals get rolled over", afirma o site). O site promete também varrer a DeepWeb, zona não indexada da Internet, onde supostamente se encontram artigos e pesquisas raros além dos chamados materiais proibidos (como manuais terroristas, pornografia, tráfico de pessoas e drogas, entre outros) e que merece a constante vigilância dos serviços de informação. Em resumo, o DeepDyve protege (sic) o usuário que não precisa se arriscar a mergulhar nas águas turvas da "web invisível".

Ironias à parte, o mercado de artigos científicos vem se tornando cada vez mais rentável. Duas das maiores editoras de artigos científicos elevaram os preços de suas assinaturas on-line em mais de 145% nos últimos seis anos.

A crise promovida pelos paywall systems não atinge apenas os pesquisadores individuais. Recentemente, a universidade de Harvard publicou uma nota informando que não pode mais arcar com o custo da assinatura de revistas e portais científicos (cerca de 3,5 milhões de dólares por ano) e recomendou que seus pesquisadores passassem a publicar seus artigos em plataformas de acesso livre. Robert Darnton, diretor da Harvard Library, em entrevista ao jornal The Guardian, disse que o custo da assinatura de uma revista científica, como o The Journal of Comparative Neurology equivale ao custo de produção de 300 monografias (ver http://www.theguardian.com/science/2012/apr/24/harvard-university-journal-publishers-prices).

Um movimento chamado "primavera acadêmica", uma analogia à chamada "Primavera Árabe", capitaneado pelo matemático e pesquisador de Cambridge, Tim Gowers, prega um boicote à principal editora de publicações científicas, a Elsevier. O movimento conta com um site, o The Coast of Knowledge, em que os pesquisadores podem declarar o seu boicote e optar por publicar apenas em plataformas de acesso livre. O grupo também se recusa a atuar como parecerista para qualquer tipo de publicação que cobre por acesso, numa estratégia que pode desmontar os sistemas baseados na avaliação do tipo peer reviewed.

As três maiores editoras da área, Elsevier, Springer e Wiley, detêm mais de 20.000 publicações científicas e representam 42% de todos os artigos publicados no mundo e o lucro das três somam alguns bilhões de dólares.

Submeter artigos para a publicação em alguns periódicos também implica no pagamento de taxas. A pressão para que os pesquisadores tenham seus trabalhos publicados abriu um novo nicho de mercado; o preço para publicar artigos em algumas revistas chega a $5.000 (USD), como é o caso da revista Cell Report, que destaca: "To provide open access, expenses are offset by a publication fee of $5000 (USD) that allows Cell Reports to support itself in a fully sustainable way. This publication charge is the only fee that authors pay" (grifo meu). O valor da taxa é superior à maior parte dos salários mensais pagos a professores universitários no Brasil. A Cell Report não cobra pelo acesso aos artigos, inserindo-se no rol das publicações do tipo open acess.

Algumas publicações exigem pagamento mesmo para artigos que forem rejeitados, sob o argumento de que os pareceristas são remunerados para fazer a avaliação dos artigos. A remuneração varia, em média, entre $32 e $400 (USD), para cada artigo avaliado.

De todo modo, as contas não fecham. Os custos com impressão em offset não se justificam numa era em as publicações são majoritariamente baixadas pela web, os custos administrativos alegados e com os pareceristas também não justificam o fato de um artigo de vinte páginas custarem quase o dobro de um livro de cem páginas. Se a lógica fosse essa, as editoras já teriam fechado as suas portas.

O chamado "fator impacto" determina o "preço do prestígio", fazendo com que os pesquisadores invistam no pagamento para publicar, ameaçados pela pressão do "publicar ou perecer". Recentemente, quatro periódicos brasileiros foram punidos pela Thomson Reuters e suspensos do ranking por um ano, em virtude da aplicação de um algoritmo que fazia elevar o "fator de impacto" através do aumento do número de citações, fator este que é considerado nas avaliações de jornais científicos.

Em uma era marcada pela Web 2.0 e sua perspectiva de produção colaborativa, o mundo acadêmico parece sucumbir à lógica capitalista do lucro, monetizando a ciência e a produção do conhecimento.

Lilian Cristina Monteiro França é professora/doutora do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Sergipe (DCOS/UFS)

(Jornal da Ciência)


Inscrições serão abertas no dia 16 de setembro
 

Quem terminou a graduação e está em busca de uma especialização na área não pode perder esta oportunidade. O Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) estará com inscrições abertas de 16 de setembro a 05 de novembro de 2013 para o processo seletivo dos cursos de Pós-Graduação Lato e Stricto Sensu, referentes ao ano letivo de 2014.
 
É possível candidatar-se aos cursos de especialização em Educação de Jovens e Adultos – campus Nilópolis (15 vagas), Educação e Divulgação Científica – campus Mesquita (10 vagas), Ensino de Ciências com ênfase em Biologia e Química – campus Rio de Janeiro (15 vagas), Ensino de Ciências Naturais e Matemática – campusVolta Redonda (15 vagas), Ensino de Histórias e Culturas Africana e Afro-Brasileira – campus São Gonçalo (18 vagas), Gestão Ambiental -campus Nilópolis (15 vagas), Linguagens Artísticas, Cultura e Educação – campus Nilópolis (15 vagas) e Segurança Alimentar e Qualidade Nutricional – campus Rio de Janeiro (20 vagas). Também há oportunidades para o Mestrado Acadêmico em Ensino de Ciências – campus Nilópolis (10 vagas), Mestrado Profissional em Ensino de Ciências – campus Nilópolis (12 vagas) e Mestrado Profissional em Ciência e Tecnologia de Alimentos – campus Rio de Janeiro (10 vagas).
 
Os interessados devem pagar taxa de inscrição no valor de R$70 (cursos de especialização) e R$90 (mestrados), em qualquer agência do Banco do Brasil, através da Guia do Recolhimento da União – GRU, disponível no endereço eletrônico:https://consulta.tesouro.fazenda.gov.br/gru/gru_simples.asp
 
Os pré-requisitos variam de acordo com a vaga pretendida. O processo seletivo consta de avaliação escrita, análise de currículo e arguição (para os cursos de especialização, exceto os de Gestão Ambiental e Segurança Alimentar e Qualidade Nutricional, que é igual ao dos mestrados) e das mesmas etapas mais exame de suficiência em língua inglesa (mestrados).
 
Os editais estão disponíveis no site do IFRJ, em www.ifrj.edu.br – Concursos – Ensino de Pós-Graduação – Pós-Graduação Lato Sensu(cursos de especialização) e Pós-Graduação Stricto Sensu(mestrados).
 
(Assessoria de Comunicação do IFRJ)

(Jornal da Ciência)
 
Transporte e Logística, Finanças e Análise de Investimentos e Gerência de Produção são as áreas de concentração

O Departamento de Engenharia Industrial do Centro Técnico Científico da PUC-Rio (CTC/PUC-Rio) acaba de abrir inscrições para os cursos de Mestrado e Doutorado em Engenharia de Produção, com início em março de 2014. Os interessados na pós-graduação podem se inscrever até 29 de novembro no site http://www.ind.puc-rio.br.
 
As sete linhas de pesquisa oferecidas – sistemas de transporte, sistemas logísticos, mercado de capitais, finanças corporativas, gerência de operações, planejamento e organização de sistemas produtivos e engenharia de qualidade – estão inseridas nas áreas de concentração Transporte e Logística, Finanças e Análise de Investimentos e Gerência de Produção.
 
Os alunos têm a possibilidade de obter bolsas da CAPES ou do CNPq. Para mais informações, basta entrar no site ou enviar e-mail para [email protected].
 
(Assessoria de Comunicação CTC/PUC-Rio)
 
(Jornal da Ciência)
 
 
As inscrições podem ser feitas até o dia 16 de setembro pelo e-mail [email protected]
 
Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp) promove, no dia 20 de setembro, o simpósio "Os desafios da invenção e inovação no Brasil: Experiências de sucesso e insucesso no Estado de São Paulo", na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), interior de São Paulo, que será realizado no auditório Bento Prado Jr.
 
A reunião terá a participação de profissionais reconhecidos nas áreas de desenvolvimento de produtos, processos, patentes, interação com empresas, estudos e administração de ciência e tecnologia que discutirão o processo de invenção e inovação nas universidades e empresas do Estado de São Paulo.
 
As inscrições podem ser feitas até 16 de setembro pelo e-mail [email protected], colocando no assunto da mensagem "Simpósio Inovação São Carlos" e, no conteúdo, o nome, endereço e cargo atual.
 
O cartaz de divulgação pode ser conferido em www.acadciencias.org.br.
 
 
Decisão foi tomada após conversa com Helena Nader, presidente da SBPC
 
O senador Rodrigo Rollemberg (PSB/DF) vai apresentar um requerimento na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) solicitando a realização de uma audiência pública para debater o Projeto de Lei do Senado 387/2011, que trata dos repositórios das publicações científicas. A decisão do senador foi tomada ontem, após uma audiência com a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, sobre o assunto. O objetivo é ampliar a discussão do texto com diversas instituições ligadas ao setor, entre elas, a SBPC, a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (Capes) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
 
O projeto determina que as instituições de educação superior de caráter público e as unidades de pesquisa constituam repositórios institucionais de acesso livre na rede mundial de computadores à sua produção técnico-científica. Segundo o texto do projeto, nesses repositórios, deverá ser obrigatoriamente depositado "o inteiro teor da produção técnico-científica conclusiva dos estudantes aprovados em cursos de mestrado, doutorado, pós-doutorado ou similar, assim como da produção técnico-científica, resultado de pesquisas científicas realizadas por seus professores, pesquisadores e colaboradores, apoiados com recursos públicos".
 
Desse modo, deverá ser depositada nesses repositórios toda a produção científica resultado de pesquisas que receberem apoio financeiro dos governos federal, estaduais ou municipais. Em maio do ano passado, o senador Cristovam Buarque (PDT/DF) protocolou relatório favorável à aprovação do PLS 387/2011. Agora, após a audiência pública, o projeto deverá seguir para a Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT). Se aprovado por esta comissão, o projeto de lei será encaminhado para a Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE), para em seguida ser encaminhado à Câmara dos Deputados.
 
(Vivian Costa)

(Jornal da Ciência)

A Associação de Pós-graduandos da Universidade de São Paulo do Campus de Ribeirão Preto (APG-USP-RP) vem, desde 1976, refletindo e construindo junto à formação de cientistas, professores universitário, dirigentes de órgãos públicos e privados, durante seus anos de formação universitária. 

Esta nossa pequena contribuição para os rumos democráticos e jubilosos de nosso país se faz em um processo de diálogo e cooperação com as instituições que tradicionalmente tem em seus papéis uma vultosa responsabilidade neste direcionamento, concomitante a sensibilidade em ouvir aqueles que estão, em sua limitação, colocando proposições relevantes ao olhar do outro lado da prática cotidiana.
 
Neste intuito, inicialmente, gostaríamos de parabenizar a construção desta parceria de Universidades e Forças Armadas em uma proposta de Extensão Universitária voltada para a educação e o empreendedorismo social, superando a visão utilitarista e impositiva que muito tempo vigorou nas universidades e no círculo da intelectualidade brasileira na relação entre o saber sistematizado e o saber popular.
 
No mais pretendemos, brevemente, colocar algumas reflexões e proposições para construir em conjunto um novo desafio junto a estas práticas extensionistas de forma a ampliar seus êxitos já bem estabelecidos. 
 
Em termo de educação pós-graduanda, as políticas de Cultura e Extensão são demasiadamente desprezadas pela academia. Quando propomos a discussão sobre as relevâncias sociais de um projeto ou mesmo o planejamento de atividades de educação com a população, nos deparamos com um olhar de estranheza dentro dos colegiados ou grupo de pesquisas.
 
Outra evidencia que nos traz esta necessidade de fortalecer as atividades de extensão universitária junto à pós-graduação está na ausência explícita de indicadores de Cultura e Extensão, ou o baixo peso atribuído a estes, em avaliações institucionais oficiais.
 
Daí a imprescindibilidade de ampliarmos uma práxis sólida entre educação-pesquisa-desenvolvimento social-justiça social, como já vemos na graduação, ampliando e valorizando os projetos de Cultura e Extensão que podem ter como exemplo concreto, e de sucesso, a fase atual do “Projeto Rondon”.
 
Estes projetos, inegavelmente, apenas se consolidarão e perpetuarão com a participação destes que serão futuros docentes universitários, ou outras lideranças em suas áreas, que por sua experiência em Cultura e Extensão durante a pós-graduação irão fomentar e participar ativamente destas atividades no futuro.
 
Assim se dirigindo a nossa universidade, mas deixando em aberto nossa colaboração com outras faculdades e universidades, as seguinte propostas:
 
– Elaborar em conjunto e dar suporte a projetos multidisciplinares em todos os campi, com a participação de um grupo formado por docentes, funcionários, estudantes de graduação e pós-graduação, lideranças comunitárias e movimentos sociais, para construirmos internamente e em nossos próprios arredores uma nova proposição de formação de nossos estudantes, de prática para nossos professores e de futuro para estas populações.
 
– Estabelecer um Programa de Aperfeiçoamento em Cultura e Extensão (PACEx), similar ao Programa de Aperfeiçoamento de Ensino (PAE) já implantado na USP, que consiste em um programa que ao mesmo tempo: valoriza as atividades de Cultura e Extensão cadastradas junto a instituição que solicitarem a participação de um ou mais pós-graduando; valoriza a inclusão das atividades de Cultura e Extensão na formação universitária; e valoriza a participação do estudante comprometido com esta área com uma bolsa.
 
Lembramos que na graduação da USP a monitoria departamental, uma atividade que introduz o aluno no conhecimento da educação universitária, possui no PAE um similar que trabalha como uma sistematização do início da docência universitária, assim, naturalmente, esperaríamos que o projeto de “Aprender com Cultura e Extensão”, que introduz a prática aos estudantes de graduação, tenham um similar no PAEX, que não existe hoje.
 
E se dirigindo aos responsáveis das Forças Armadas pelo Projeto Rondon, colocamos as seguintes propostas:
 
– Ampliar as atividades e parcerias entre universidade e Forças Armadas, para além do “Projeto Rondon”, ampliando o suporte logístico a atividades de duração mais prolongadas que possibilitem a organização de atividades de Cultura e Extensão de longo prazo dentro do currículo universitário, possibilitando a construção pela universidade de estágios disciplinares em novos cenários de prática e formação profissional. Estas atividades possibilitam ao graduando e pós-graduando novas opções em sua vida profissional, por uma área de atuação que atenda populações ou regiões, ou mesmo se direcionar a carreira militar, que só terão contatos prévios com a existência destas atividades. 
 
– Incluir no quadro de rondonistas a participação dos pós-graduandos como auxiliares de coordenação junto as operações do Projeto Rondon ou projetos similares, lembrando:  da dificuldade de participação de mais de um docente pelo período das atividades da operação; da capacidade de supervisão na área profissional graduada deste profissional-estudante; e da necessidade de aproximar os pós-graduandos para que se perpetue a construção destes e de demais projetos de Cultura e Extensão pelos futuros docentes e apoiadores destas atividades.
 
Mais que propostas, estas são algumas das reflexões e opiniões que esperamos discutir com maior profundidade neste I Congresso Nacional do Projeto Rondon e em diálogos futuros tanto com a USP e demais universidades, quanto com as Forças Armadas, e outros órgãos governamentais envolvidos, mostrando que estamos atentos a necessidade de ampliação e sistematização das atividades de Cultura e Extensão junto a Pós-graduação Strictu-Sensu brasileira e confiantes que as instituições prestigiosas que também empunham a bandeira da Cultura e Extensão nas Universidades, como a USP e demais universidades presentes neste Congresso e as Forças Armadas do Brasil, possam ser receptivas ao nosso esforço pequeno em termo da grandiosidade do tema, mas que se engrandece por estas entidades identificarem nos pós-graduandos e nas instituições que os representam, verdadeiros, parceiros.
 
Agradecemos a atenção e nos dispomos a colaborar sempre neste sentido, parabenizando a todos por mais esta vitória à Cultura e Extensão Universitária Brasileira.
Associação dos Pós-graduandos da Universidade de São Paulo do campus de Ribeirão Preto
Entre seus diretores:


     Claudimar Amaro de Andrade Rodrigues
        rondonista, Operação Vale do Ribeira – 2006 (Eldorado-SP) e Operação Centenário da Comissão Rondon – 2007 (Vitória do Jari-AP)
 
    Mariana Lopes Borges
       rondonista, Operação Rei do Baiao – 2010 (Santa Maria da Boa Vista- PE)
 
    Silvana Proenca Marchetti
             rondonista, Operação Rei do Baiao – 2010 (Santa Maria da Boa Vista- PE)
 
Ribeirão Preto, 31 de agosto de 2013

Jouhanna do Carmo Menegaz¹

Na semana passada episódios envolvendo cenas de hostilidade e preconceito para com os médicos estrangeiros chegados ao Brasil por meio do programa Mais Médicos chamaram a atenção dos brasileiros transformando uma pauta de categoria, até então vista como justa e de interesse coletivo por boa parte da sociedade em questão corporativa que perdeu a medida. Não vou neste texto emitir opinião sobre este fato em si, mas sobre o que entendo ser o pano de fundo destas e outras recentes manifestações relacionadas ao trabalho e cuidado em saúde. 

Já faz um tempo que tenho pensado sobre estas questões, e essas reflexões só tem feito aumentar com as reações da categoria médica sobre o programa do Ministério da Saúde e com as reações das outras categorias profissionais sobre ato médico. A única e triste conclusão a que pude chegar é a de que nossa pauta hoje é a disputa de espaço, a determinação de quem dita as regras, de quem é o ‘maestro’ do cuidado. O corporativismo impera e nossa disputa não se encerra nos serviços, mas transcende-os e orienta a formação, a produção de conhecimento, mantendo-nos sempre em busca dos elementos e tecnologias que darão às nossas categorias hegemonia; que justifiquem nossa permanência e relevância como profissional de saúde. Gostemos ou não de admitir a verdade, esta não é uma realidade apenas da categoria médica, mas uma dinâmica de todas as categorias profissionais. Com muita certeza, colegas, afirmo que isto não serve aos interesses da população e do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Não serve, mas somos ensinados, em maior ou menor medida, desde o primeiro dia da graduação a honrar e defender nossa categoria acima de tudo. A lutar por espaço, por autonomia e este entendimento é cotidianamente reforçado pelas nossas entidades de classe. Nesta lógica, o outro é visto na maioria das vezes como inimigo e não nos damos conta do prejuízo disso, afinal, isso nos é ensinado antes de tudo, inclusive, antes  mesmo dos princípios doutrinários do sistema único de saúde. Entendemo-nos e constituímo-nos corporativos antes que possamos compreender a dinâmica da formação em saúde expressa nas diretrizes curriculares, estas baseadas em competências que unificam o trabalho em equipe multiprofissional. Nós não trabalhamos nem nos articulamos juntos. No máximo, cumprimos cada um com suas atribuições. 

Há quem defenda que isto não está de um todo (ou nada) errado, uma vez que, quando você se torna um profissional, é assim que o jogo da sobrevivência funciona. Pergunto se é necessário e pra que serve mesmo jogar este jogo. Pergunto ainda se somos de um todo e de fato superiores à categoria médica na compreensão do trabalho em saúde. Porque também não trabalhamos articulados aos demais profissionais. Muitas vezes no discurso defendemos o SUS e o trabalho em equipe, mas na prática as questões corporativas também nos são também as mais caras e mais importantes. Criticamos o corporativismo médico com um corporativismo defensivo, porque na essência invejamos a unidade médica, afinal eles sempre conseguem tudo que querem. Precisamos mesmo disso? Os valores particulares de nossa profissão, descolados do trabalho coletivo, serão os valores que orientarão nossa prática profissional de uma vida?

Todos os profissionais, independentemente de sua categoria, de sua origem social, necessitam ser valorizados, bem remunerados, ter condições dignas de trabalho, de exercer sua função. Esta não deve ser uma prerrogativa de uma categoria e não devemos querer que seja, nem que esta categoria seja a nossa. Entendo que estamos frente à urgência na revisão de nossas compreensões sobre profissão, trabalho, cuidado, sobre a finalidade primeira de nossa atuação. Precisamos encontrar elementos de unidade e semelhança e rumar na direção de uma atuação para além de nós mesmos ao invés de nos digladiar e esperar pela próxima falha do outro. Posso estar sendo utópica, querendo o impossível, mas não é isso que dizem que nos faz sempre caminhar?

¹ Jouhanna é mestre em enfermagem, doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina e secretária-geral da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).

 
 
 


Mariana Tokarnia – Agência Brasil

Brasília – Na Universidade de Brasília (UnB), mestres e doutores acampam próximo à reitoria. Eles obtiveram o título no exterior e querem revalidar o diploma para serem reconhecidos no Brasil. Não se trata de nenhuma manifestação. Uma vez por semestre, lá estão as barracas para garantir os primeiros lugares na fila. A UnB aceita apenas seis processos de mestrado e seis de doutorado para cada um dos 86 programas de pós-graduação. Quem não conseguir entrar nesse grupo tem que esperar mais um semestre.
 
A revalidação dos diplomas é feita por todas as instituições públicas de ensino com programas de pós-graduação e por algumas particulares. Sem ela, aqueles que estudaram no exterior não podem dar aulas ou fazer pesquisas que exijam o título. Também não têm o nível reconhecido em concursos ou em promoções salariais.
 
Não há um número oficial, mas segundo a Associação Nacional dos Pós-Graduados em Instituições Estrangeiras de Ensino Superior (Anpgiees), cerca de 20 mil já iniciaram o processo e aguardam para ter o diploma revalidado. Cada instituto define as exigências para a revalidação e a cobrança de uma taxa, que ultrapassa os R$ 1 mil. O tempo para a revalidação também varia. Segundo o presidente da Anpgiess, Vicente Celestino de França, o processo que deveria durar seis meses chega a dois anos e até a dez. Aqueles que deixaram a família e gastaram boa parte das reservas para estudar fora reclamam do descaso e das dificuldades para ter o diploma reconhecido.
 
A UnB começou a receber os processos na última segunda-feira (26). Nos primeiros dias, foram 30 solicitações de revalidação. As vagas para educação, direito e administração já estão esgotadas. A universidade recebe processos até outubro. A restrição de vagas foi decidida para que os seis meses fossem cumpridos e a instituição conseguisse atender à demanda.
 
Com o procedimento, no entanto, muitos ficam de fora. É o caso de Vanderlan Bittencourt Rodrigues, formado em química pela UnB e que fez o mestrado em educação em Assunção, no Paraguai. Ele voltou para o Brasil e está há dois anos tentando a revalidação. Para fugir da fila na UnB, Vanderlan buscou outro instituto. Já apresentou todos os documentos necessários, mas sempre há algo faltando. "No início do processo, eu não sabia que ia ter essa dificuldade", diz.
 
"Foi um esforço muito grande para terminar o mestrado. Estudei muito. Venci todas as disciplinas e o período de orientação, quando se lê a dissertação, pode-se ver a seriedade com que foi tratado o estudo". Rodrigues vai entrar com um novo processo de revalidação em outra universidade. Faz questão de ter o diploma de mestre.
 
Por lei, devem se submeter ao processo inclusive aqueles que receberam bolsas do governo, como os estudantes de doutorado pleno do programa Ciência sem Fronteiras (CsF). A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei 9.394/96) determina que os diplomas só podem ser reconhecidos por universidades que tenham cursos de pós-graduação reconhecidos e avaliados na mesma área de conhecimento, em nível equivalente ou superior.
 
A suposta falta de equiparação com o curso oferecido fez com que Denir Machado não obtivesse o reconhecimento do título de mestre em administração de empresas pela Universidade de Durham, no Reino Unido. Ele entrou com o processo na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Para fornecer toda a documentação em conformidade com os requisitos da instituição, Machado gastou R$ 7,5 mil. Dois anos depois, recebeu informação de que o pedido foi recusado.
 
Na época ele trabalhava em uma universidade, que decidiu afastá-lo em licença não remunerada até a conclusão do processo de revalidação. "Em nenhum momento, o coordenador do curso ou a UEL informaram, depois de quase dois anos, desde o nosso primeiro contato em 2011, que eu estava em perigo de ser rejeitado", explicou. O futuro da escolha pela carreira acadêmica, segundo ele, será "provavelmente mendigando nas ruas com o certificado de mestrado".
 
Os sacrifícios para obter o título no exterior foram muitos: "Tomei a decisão em conjunto com a minha família, de vender tudo o que tinha. Larguei meu emprego porque a empresa não demonstrou interesse em investir no meu desenvolvimento profissional. Deixei minha esposa e meu filho de 3 anos de idade para viver na casa da minha sogra, de modo que eu pudesse fazer o mestrado no exterior".
 
Machado não pretende entrar tão cedo com outro processo de revalidação. "Revalidar o meu diploma é o que mais desejo e necessito, entretanto estou, por meio de um advogado, abrindo um processo contra a UEL. Ao mesmo tempo, penso em buscar outra universidade, mas até o momento não há nada em vista, porque é um árduo trabalho e, ao mesmo tempo, não gostaria de gastar novamente o valor que já investi em todo o processo".
 
O pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade de Londrina, Mário Sérgio Mantovani, explica que o processo de revalidação passa pelo curso de pós-graduação, depois por colegiado, seguindo para a Câmara de  Pós-Graduação e, por fim, para o Conselho de Pesquisa e Extensão. O processo envolve também a apresentação da dissertação ou da tese a uma banca de três professores. A taxa cobrada, segundo Mantovani, restringe os processos apresentados e dá mais agilidade.
 
"Se a validação não saiu é porque o curso não se enquadra. Não temos tido recusa por mérito, recebemos bons trabalhos, mas porque a linha de pesquisa não é semelhante à que temos", explica o pró-reitor. Ele reconhece que esse é um problema e diz que uma solução seria a centralização dos processos de revalidação. "Deveria haver uma porta de entrada única, que distribuísse os processos às instituições que têm linhas de pesquisa semelhantes, para as pessoas não ficarem perdidas nesse sistema".
 
Outra proposta que agilizaria o processo, segundo a Anpgiees, é a regulamentação, em leis nacionais, de acordos internacionais, como o Mercosul. Assinado por Lula, o Decreto 5.518/05 promulga o acordo de admissão de títulos e graus universitários para o exercício de atividades acadêmicas nos países que fazem parte do bloco. "Os demais países do Mercosul seguem o acordo e reconhecem os diplomas brasileiros automaticamente. Aqui isso não é feito", diz Vicente de França.
 
Na Câmara dos Deputados, o Projeto de Lei (PL) 1981/2011 propõe a revalidação automática de títulos de pós-graduação expedidos por instituições ou estabelecimentos de ensino superior estrangeiros, situados em quaisquer dos países do Mercosul, quando o fim visado for unicamente o exercício de atividades de docência e pesquisa nas instituições de ensino superior no Brasil. O PL aguarda parecer da Comissão de Educação e ainda vai passar pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Casa.
 
Quem ainda não obteve o diploma já se preocupa com o processo que terá que enfrentar. A enfermeira Wandecleide Fernandes está no último ano do doutorado em saúde pública em Assunção, no Paraguai. O estudo que está desenvolvendo é inédito no Brasil. Ela diz que poderia ficar no Paraguai, onde teria o título reconhecido mais facilmente, mas faz questão de voltar para o país. "Quando já tinha iniciado o curso, soube da morosidade. Não desanimei. Estou satisfeita de ter estudado fora, vale muito a pena. Mas desde já luto por uma melhora no processo de revalidação", observou.
 
Edição:  Valéria Aguiar