O SIR World Report 2013 avaliou cinco anos de produção científica das instituições de ensino superior de todo o mundo que publicaram, em 2011, pelo menos cem trabalhos científicos indexados na base de dados Scopus. Produzida pela editora holandesa Elsevier, a Scopus é considerada uma das maiores bases de dados científicos do mundo, englobando mais de 20 mil periódicos especializados.
Quando se leva em conta o número total de publicações (desconsiderando trabalhos feitos por academias de ciência, hospitais, fundações e centros nacionais de pesquisa), a USP é a instituição brasileira mais bem colocada – ficando em quinto lugar no ranking mundial, com 48.156 trabalhos publicados entre 2007 e 2011. Em primeiro lugar, está a Universidade Harvard, dos Estados Unidos, com 80.467 publicações. Em seguida, estão Universidade de Tóquio (51.796), Universidade de Toronto (48.944) e Universidade Tsinghua (48.396), da China.
O pró-reitor de Pesquisa da USP, Marco Antonio Zago, destacou que a instituição tem uma longa tradição de valorizar a pesquisa associada ao ensino de qualidade. "A USP investe parcela considerável de seu orçamento para apoio à pesquisa, além de captar financiamento de agências como FAPESP, CNPq e Finep. Nos últimos anos intensificou a relação com universidades expressivas do exterior. Está também evoluindo na cooperação com o setor produtivo e com empresas, no que diz respeito à pesquisa mais aplicada, ao mesmo tempo em que vem valorizando também outras formas de produção intelectual. Neste panorama, a relação com a FAPESP é muito relevante, não apenas pelos recursos que nossos pesquisadores captam da agência, mas também porque introduz um componente competitivo e de controle sobre a qualidade de nossa produção", disse à Agência FAPESP.
A segunda brasileira mais bem colocada no ranking global foi a Unicamp, que ficou em 135º lugar com 17.130 trabalhos publicados. Na 137ª posição está a Unesp, com 16.998 artigos.
Para Gláucia Maria Pastore, pró-reitora de Pesquisa da Unicamp, o resultado expressa a força das três universidades estaduais paulistas e sua produção científica de grande relevância.
"Se levarmos em conta o tamanho das instituições e o fato de que a Unicamp é uma universidade bem menor do que a USP, nosso segundo lugar reflete a importância de nossa produção científica, que abrange todas as áreas do conhecimento, e o grande aporte feito em pesquisa na fronteira do conhecimento. A posição é boa, mas queremos sempre aprimorar e, para isso, a pró-reitoria de Pesquisa tem trabalhado para integrar os diversos grupos de pesquisa de tal forma que a gente consiga resultados ainda mais promissores", afirmou Pastore.
"Considerando os trabalhos publicados pelas dez universidades brasileiras mais bem colocadas (148.047 publicações), a produção científica dessas três instituições paulistas representa 56% desse total (82.284 publicações)", destacou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.
Com apenas 3.956 publicações, a UFABC ficou na 1.345ª posição nessa modalidade. Mas no quesito "Q1", que mede a porcentagem de artigos de uma universidade publicados nas mais conceituadas revistas de cada área do conhecimento, a instituição salta para a primeira colocação entre as brasileiras, com 55% de seus artigos publicados em revistas conceituadas.
A UFABC é seguida pela Universidade do Vale do Paraíba (Univap), com 45%; pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 40,6%; e pela USP, com 39,1%. Nesse quesito, a Unicamp ficou na décima colocação entre as brasileiras, com 37,5%, e a Unesp em 34º, com 30,5% dos trabalhos publicados em revistas conceituadas.
Quando o critério de classificação usado é o de "impacto normalizado" – que mede quantas vezes os trabalhos de cada instituição são citados em comparação com a média mundial -, novamente a UFABC vem em primeiro lugar entre as brasileiras com a marca de 1,67 – o que significa que os artigos da instituição tiveram média de citações 67% maior que a média global.
Em seguida, estão a Universidade Estadual da Paraíba (0,95), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (0,93) e a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (0,92). A USP é a nona brasileira nessa modalidade, com a marca de 0,86. A Unicamp é a 12ª, com 0,84, e a Unesp, a 35ª, com 0,70.
No critério "colaboração internacional", mais uma vez a UFABC é a brasileira mais bem colocada, seguida pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, Universidade Estadual de Santa Cruz (BA) e Universidade Federal de Alagoas (Ufal). A USP aparece em sétimo lugar, a Unicamp está em 22º e a Unesp em 40º.
Não comentarei a situação dos pós-graduandos. Não porque discorde, mas, exatamente ao contrário, em princípio concordo com os argumentos da professora Herculano: as condições de pesquisa e de trabalho são bastante precárias e os alunos-pesquisadores são submetidos a condições que os infantilizam. (Evidentemente, digo-o por experiência própria.) Também não comentarei a existência, ou inexistência, da profissão de cientista em outros países, Estados Unidos à frente, por pura ignorância a respeito.
O que desejo comentar é a condição dos professores-pesquisadores das universidades brasileiras. Para que uma instituição seja "universidade" no Brasil, além de evidentemente oferecer inúmeros cursos de graduação, ela tem que desenvolver pesquisas (e, se puder, realizar alguma atividade de "extensão"). A maior parte das universidades particulares limita-se ao ensino, concentrando a pesquisa em pouquíssimos cursos de mestrado e doutorado, de pouquíssimas áreas (o que, por oposição, relega dezenas de outras áreas à condição de penúria absoluta, no quesito "pesquisa"). De qualquer forma, é senso comum no país, confirmado por inúmeros estudos empíricos, que a pesquisa brasileira concentra-se nas universidades públicas, mormente as estaduais paulistas e as grandes federais.
Ora, a concepção que se tem no Brasil de "universidade" é a do famoso "tripé", que postula a "indissociabilidade" entre o ensino, a pesquisa e a extensão. Isso equivale a dizer que os professores têm que ser pesquisadores, que os pesquisadores têm que ser professores, que os professores-pesquisadores têm que interagir com a sociedade. A lógica subjacente a esse modelo é que, lecionando ao mesmo tempo em que pesquisam, os professores-pesquisadores estarão sempre no limiar do conhecimento e transmitirão aos seus alunos o que há de mais atual, de mais inovador, de mais importante em cada área do conhecimento; em outras palavras, evitando-se a cisão entre aquele que leciona e aquele que pesquisa, permite-se o avanço do conhecimento nos laboratórios e nas salas de aula. Simplificadamente, esse é o chamado "modelo Humboldt" de universidade, proposto pelo famoso naturalista prussiano no início do século XIX.
Quando a professora Herculano reclama de só poder fazer pesquisa nas horas vagas deixadas pelo exercício da docência, ela está reclamando, em última análise, do modelo Humboldt de universidade, do mesmo modelo que, no Brasil, permite-lhe ao mesmo tempo ostentar o título de "professora" e de "doutora", com as obrigações impostas pelas agências de fomento caso integre algum programa de pós-graduação (o que, aliás, é precisamente o caso da Professora Herculano).
No Brasil, nas universidades brasileiras, os professores efetivos têm a obrigação de serem professores e também de serem pesquisadores. Se a docência deixa pouco tempo para a pesquisa, isso pode ser um sério problema administrativo (devido, entre outras coisas, à falta de professores para lecionar, à falta de pessoal dedicado à burocracia, ao excessivo rigor de uma burocracia), mas o fato é que é um ônus com que qualquer professor de universidade federal ou estadual tem que arcar: é sua obrigação profissional, pelo qual é pago, pelo qual tem enorme prestígio, pelo qual tem uma série de privilégios no interior das universidades e pelo qual pode candidatar-se a financiamento junto às agências de fomento.
Assim, reclamar da situação dos professores-pesquisadores não é muito razoável; a irrazoabilidade dessa reclamação fica mais evidente quando se lembra que as universidades federais – que são as que conheço com um pouco mais de intimidade – possuem em seus quadros dezenas de milhares de servidores técnico-administrativos de nível superior, contratados precisamente para fazerem pesquisas(científicas, tecnológicas e/ou artísticas, puras e/ou aplicadas). Repito: esses servidores são contratados apenas para serem pesquisadores, o que, no caso daqueles vinculados a áreas científicas, poderiam e deveriam ser denominados corretamente de "cientistas".
Ora, os servidores cientistas das universidades federais, com uma freqüência assustadora, terrível, lamentável, não são reconhecidos como pesquisadores ou, em casos mais específicos, como "cientistas". A eles são relegadas as categorias gerais, freqüentemente empregadas em tom infamante, de "servidores" e/ou de "técnicos". Mas "servidores" são todos aqueles contratados pela União para trabalharem nas universidades: os servidores técnico-administrativos são tão "servidores" quanto os servidores docentes, embora os últimos com freqüência esqueçam-se de que também são servidores (e, portanto, submetidos à legislação que rege o serviço público civil federal). Já a expressão "técnicos", quando usado no ambiente universitário, costuma ter o claro sentido de "cumpridores de tarefas", diminuindo-os como seres humanos e como profissionais de nível superior concursados e especializados.
Os servidores técnico-administrativos de nível superior das universidades públicas federais abrangem carreiras tão díspares entre si quanto maestros e administradores, enfermeiros e sociólogos, engenheiros e psicólogos, economistas e médicos, além de dezenas mais. Nas universidades eles sofrem profundamente ao não serem reconhecidos como pesquisadores. Não deixa de ser bastante revelador que a Professora Herculano não os considere ao tratar da profissão de "cientista": os merecedores dela são apenas os pós-graduandos e os professores. Em outras palavras, mesmo sem querer (e suponho que a professora Herculano não cometa esse equívoco por má vontade), reafirma-se a concepção de que nas universidades apenas os professores podem pesquisar. O privilégio da pesquisa associa-se, como sugeri há pouco, a diversos outros: apenas professores podem ser indicados reitores (mesmo que haja "técnicos" com doutorados e pós-doutorados nos quadros funcionais); o acesso a recursos das universidades e também das agências de fomento é extremamente mais fácil e ágil para os professores que para os "técnicos"; o salário dos professores (por mais que reclamem de que ganham pouco) é muito maior que o dos "técnicos" – sem falar do prestígio acadêmico e intelectual. Esse prestígio, aliás, é sempre ciosamente realçado e reafirmado, muitas vezes ou por meio do desvio de função "para baixo" (isto é, em que o "técnico" deixa de realizar suas tarefas de pesquisa e assume as funções burocráticas de secretaria) ou por meio da acusação, feita por servidores docentes e (pasmem!) também por servidores técnico-administrativos de nível secundário, de que os servidores técnico-administrativos de nível superior "não se vêem como técnicos" e "querem fazer pesquisa".
Assim, o debate suscitado pela professora Herculano parece importante e relevante, mas alguns dos termos e dos argumentos por ela aventados estão muito deslocados. Deixando de lado a condição dos estudantes dos cursos de pós-graduação stricto sensu, parece-me completamente equivocada sua queixa de que só consegue pesquisar nos momentos vagos deixados pela docência. Nas universidades federais brasileiras, a pesquisa é percebida institucional e corporativamente como privilégio exclusivo dos servidores docentes ("professores"); aos servidores técnico-administrativos de nível superior, a despeito das descrições formais dos cargos, cabe no máximo o apoio aos pesquisadores "de verdade".
Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor e concluinte de pós-doutorado em Sociologia Política (UFSC) e sociólogo da UFPR
Confira a agenda de encontros com a participação da ANPG em Mato-Grosso e São Paulo
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Folder do 39º Conselho Nacional de Associações de Pós-Graduandos
O IV Encontro da Pós-Graduação do IQ-USP ocorrerá nos dias 05 e 06 de setembro de 2013. Trazendo um novo formato, com enfoque na participação ativa do público, o espaço do evento está sendo montado para a integração e interação entre pesquisadores das mais diversas áreas.
Na famosa guerra de Troia, depois de mais dez anos de combates, os gregos tiveram uma ideia genial: construíram um cavalo de madeira e ofereceram como presente simbolizando o fim da guerra. Os troianos aceitaram (conta a lenda que o cavalo era muito bonito) e transpuseram o presente para dentro de sua muralha. Durante a madrugada, os guerreiros gregos, escondidos dentro do cavalo, saíram e conseguiram destruir a cidade de Troia. A proposta de profissionalização do cientista, que tem ganhado repercussão a partir da proposta da neurocientista e professora da UFRJ Suzana Herculano-Houzel, é assim: bonita e promete um monte de coisas boas, mas assemelha-se bastante ao famoso cavalo de Troia, ou, como se diz no bom português popular: um verdadeiro presente de grego.
Participamos na última terça-feira (13/08) do seminário sobre a profissionalização do cientista na Câmara dos Deputados, organizado pelo deputado federal Glauber Braga (PSB/RJ) para debater a proposta de profissionalização da carreira de cientista. Com certeza, a professora teve o grande mérito de trazer a discussão da desvalorização do pós-graduando para um patamar elevado, alcançando mídia e atenção de parlamentares. O debate foi rico e qualificado. O grande consenso foi que a situação do pós-graduando não reflete sua importância para a pesquisa, e o encaminhamento do seminário seguiu para elaboração de um projeto de lei que combata essa ausência de direitos. Contudo, consideramos importante debater a proposta da Dra. Houzel, pois acreditamos que ela não consegue resolver os problemas identificados.
A proposta apresentada pela neurocientista, embora tenha um reconhecido caráter mobilizador, é na verdade bastante vaga e um tanto ingênua. Ao final, apenas facilita a contratação (e demissão) de auxiliares de pesquisa pelos laboratórios, privatizando nesses espaços a decisão de utilização da verba pública, hoje distribuída pelas agências de fomento em uma política consolidada de bolsas de pesquisa – ainda que insuficiente.
A proposta é vaga porque não responde dezenas de questões a respeito das consequências da profissionalização. Como diz a própria dra. Suzana, “primeiro tem que regulamentar, para depois discutir os detalhes”. Ora, que regulamentação é essa em que os “detalhes” não são explícitos e só serão discutidos depois? O resultado disso pode ser transformar a atual verba de bolsas para mestrandos e doutorandos em verbas a serem disputadas por laboratórios já existentes para contratar auxiliares de pesquisa. Como consequência, teríamos uma quantidade muito menor de vagas que o atual número de bolsas para a pós-graduação.
Ademais, a proposta é também ingênua ao supor que a criação da profissão resolverá os problemas de valorização do jovem pesquisador no país. Pelo que foi descrito, as consequências serão a criação de uma profissão que já nasce precarizada e o aprofundamento da elitização da pós.
A criação da profissão de cientista significa que aquele que tem uma graduação pode ser contratado pelos laboratórios institutos de pesquisa. De acordo com esta proposta, a pós-graduação e a profissão de cientista são duas coisas diferentes (portanto, NÃO É uma proposta de profissionalização dos pós-graduandos). Sabemos, desde 1988, que a forma de ingresso no serviço público é através de concurso. Ser contratado para trabalhar na universidade pública sem concurso significa terceirização ou contrato temporário (precário) de trabalho via fundações. É justamente nesse perfil que se encaixarão os jovens “cientistas”: serão trabalhadores com contratos precários em algum laboratório e que ingressaram por indicação de alguém. Esse alguém é um docente/pesquisador, que tem um regime de trabalho estável e que pode lhe demitir caso você não cumpra aquilo que ele determinar. Em resumo: um laboratório, duas classes totalmente distintas de pesquisadores. Assim, o jovem cientista não terá nenhuma garantia de formação. Isso nos lembra de uma campanha dos estudantes secundaristas que criticavam os rumos do ensino técnico: “queremos mais que apertar parafusos”. Se a proposta ora apresentada se viabilizar, é exatamente o que faremos: apertar parafusos (e pipetas) laboratórios para sustentar a pesquisa de alguém conceituado, sem opinar sobre os rumos desta pesquisa.
Mas fica muito pior quando a professora fala sobre a pós-graduação. Este docente/pesquisador que indicou a sua contratação será o chefe de laboratório ou pesquisador sênior de onde você irá trabalhar. Apenas ele poderá lhe indicar para fazer a pós-graduação stricto sensu, que será necessariamente doutorado – a proposta é acabar com o mestrado. Isso mesmo: para fazer pós-graduação (stricto sensu) você precisa antes ser contratado e depois ter um QI (quem indica). Ah, mas e se eu não quiser (ou não conseguir, ou não tiver vagas, ou não tiver ninguém que indique…) ser contratado como cientista, não poderei fazer pós-graduação? Sim, mas apenas lato sensu. Mestrado será coisa do passado e doutorado será reservado apenas para quem tiver QI, e isso será institucionalizado (ironicamente, a proposta diz querer acabar com as “panelas” na universidade).
Ressalte-se que o doutorando continua trabalhando no laboratório, então terá que dar conta da sua pesquisa de doutorado e também das horas trabalhadas como auxiliar de pesquisa ao mesmo tempo. Não é preciso dizer o que acontece se o pós-graduando pensar de uma maneira diferente do chefe de laboratório ou do orientador a respeito dos rumos da pesquisa. Assim, se você acha que hoje o seu orientador mais parece um patrão, bem, com essa proposta de profissionalização ele efetivamente o será.
Ficam, então, algumas perguntas: só será possível entrar no doutorado com QI e após ter trabalhado alguns anos como auxiliar de pesquisa? Quando o jovem cientista terá liberdade de pesquisa, ou seja, direito de escolher o tema a ser pesquisado neste formato? Vale a pena acabar com o mestrado no Brasil só para aplicar mecanicamente modelos internacionais? Como se dará a expansão e interiorização da pós-graduação e/ou da prática científica no país? No caso de uma inovação, quem fica com a patente? Por que reduzir as vagas da pós-graduação? A única forma de termos direitos é transformando o orientador em patrão?
A profissionalização do cientista não só não melhora em nada a pós-graduação brasileira, como piora bastante, na medida em que restringe o acesso apenas aos contratados (indicados). Trata-se de uma velha visão: “somos poucos, mas somos bons”, que permeia a cabeça daqueles que são contra a expansão do ensino superior (incluindo a pós-graduação), pois acreditam que isso vai afetar a qualidade da formação. O que afeta a qualidade não são a expansão e popularização do acesso à universidade, mas a falta de investimento em estrutura e a pouca contratação de quadros qualificados. Consideramos um enorme avanço a recente expansão da pós-graduação e defendemos que é preciso expandir muito mais, interiorizando e combatendo assimetrias, para promover desenvolvimento regional, aproveitando a riqueza do território e do povo brasileiro.
A proposta define ainda a dissociação entre as carreiras de docente e de cientista: um dá aula e outro faz pesquisa. Considero tal proposição um empobrecimento das duas atividades. Em um ambiente acadêmico, a dissociação entre ensino e pesquisa é arbitrária, artificial e um prejuízo tanto para a pesquisa quanto para a docência.
A proposta de profissionalização apresentada pela professora pode afetar também outro fator que defendemos com veemência: a diversidade da formação na pós-graduação. Não se pode olhar para a pós-graduação a partir de uma única área do conhecimento, nem voltada a um único tipo de profissional, é preciso compreender a complexidade e riqueza do nosso sistema, que forma quadros qualificados não apenas para a docência/pesquisa no ensino superior, mas também para pesquisa aplicada na indústria, para a gestão (pública ou privada), para a educação básica e para atuação em diversas áreas na sociedade, contribuindo com a formação onde quer que o indivíduo decida (ou consiga) trabalhar. Penso que o debate que é urgente é a inserção dos recém- mestres e doutores no mercado de trabalho.
Além disso, em muitas áreas não há como determinar as “horas trabalhadas”, pois não existe laboratório. A pesquisa é feita em bibliotecas, salas de estudo, em campo (seja com entrevistas, surveys, pesquisa etnográfica, revisão bibliográfica ou qualquer outro método), e até mesmo em casa.
Acrescenta-se, ainda, o argumento de que não sermos reconhecidos como trabalhadores nos expõe àquela famosa pergunta: “mas você só faz pós-graduação e não trabalha?”. Tal situação demonstra uma incompreensão das nossas atividades pelo senso comum, mas, será mesmo que esse é o principal problema que temos? Tenho convicção de que o principal problema, que aflige as centenas de milhares de pós-graduandos no país, é o fato de não termos direitos estabelecidos que nos permitam uma condição de vida satisfatória para o exercício das nossas atividades – e acredito que não é necessário criar uma profissão (com todos esses malefícios que ela irá acarretar) para tanto.
Fazemos, então, a última sequência de perguntas: a quem interessa a profissionalização dos cientistas? Ao pós-graduando? Ou ao cientista sênior, que terá auxiliares que ele poderá selecionar, definir as atribuições e facilmente demitir?
Por fim, cabe dizer que o conjunto de deveres dos pós-graduandos já está muito bem estabelecido em diversas normas e regulamentações, inclusive, no caso dos bolsistas, no contrato de bolsa. Cabe estabelecer, institucionalizar e divulgar DIREITOS. Somos profissionais que decidiram estender seu período de formação, precisamos ser valorizados enquanto tal: uma categoria híbrida que produz pesquisa e estuda, que desenvolve artigos, dissertações, teses, inovações, projetos, seminários, participa de congressos, feiras, colóquios, assiste aula e ainda se vira com uma bolsa (quando tem) desvalorizada em pelo menos 50% do seu valor real ao longo da história. Queremos melhores contratos de bolsas e bolsas para todos. Queremos um valor deste benefício que dê tranquilidade para o desenvolvimento da pesquisa e informação para ter acesso aos direitos já existentes. Queremos, enfim, direitos equivalentes aos deveres que já temos.
O que a ANPG defende, portanto, e vem discutindo com Associações de Pós-Graduandos de diversas universidades do Brasil, é a criação de um Estatuto de Direitos do Pós-Graduando que defina claramente regras da relação Orientando/Orientador e estabeleça um conjunto de direitos, tais como taxa de bancada, auxílio-tese, auxílio insalubridade e periculosidade (para aquelas atividades que necessitam), férias, valorização permanente das bolsas de pesquisa, assim como sua universalização, e que esse tempo possa contar também na previdência – como já acontece para quem serve ao Exército, por ser considerada uma atividade de interesse da soberania. Dessa forma, conseguimos abarcar os diversos campos da pós-graduação e dar conta das diversas expectativas de quem se dispõe a fazer pesquisa. É uma proposta em construção e que será aprovada no nosso 39° Conselho Nacional de Associações de Pós-Graduandos,a ser realizado nos dias 25, 26 e 27 de outubro, na cidade de Ouro Preto (MG). A partir daí, iniciaremos a luta para que seja aprovada no Congresso Nacional.
Convidamos todos os pós-graduandos para construírem conosco uma proposta que realmente tenha como foco a valorização do pós-graduando no Brasil. Participe!
* Por Luana Bonone e Roberto Nunes Junior
Luana Bonone é presidenta da ANPG e mestranda em comunicação e semiótica pela PUC-SP
Roberto Nunes Junior é diretor de comunicação da ANPG e mestrando em filosofia pela Universidade Federal Fluminense