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Mariana Tokarni
 
Brasília – O Ministério da Educação (MEC) quer levar professores a escolas onde faltam docentes em ação semelhante ao Mais Médicos. O Mais Professores faz parte do Compromisso Nacional pelo Ensino Médio, apresentado hoje (21) pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, na Câmara dos Deputados. A criação do programa já havia sido comentada antes pelo ministro, mas é a primeira vez que é apresentado em detalhes.
 
Segundo Mercadante, o compromisso ainda está em fase de desenvolvimento e depende do Orçamento disponível. Entre as ações do programa, está a proposta de levar professores a escolas de municípios com índices de desenvolvimento humano baixos ou muito baixos e que tenham um baixo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) – índice calculado a partir do fluxo escolar e o desempenhos dos estudantes em avaliações nacionais.
 
A intenção é que, mediante o pagamento de uma bolsa, professores se disponham a reforçar o quadro dessas escolas. Para as escolas com baixo rendimento, a pasta quer atrair bons professores para melhorar o ambiente acadêmico. Caso não haja professores disponíveis na rede, o MEC cogita a participação de professores aposentados que queiram voltar às salas de aula.
 
Segundo Mercadante, as áreas com as maiores carências de professores são matemática, física, química e inglês. O ministro diz que as disciplinas representam cerca de 3% das matrículas de ensino superior, índice que tem se mantido constante. O Mais Professores, esclarece o ministro, ainda é uma proposta em aberto.
 
Além de atrair professores para áreas carentes, o compromisso propõe o aperfeiçoamento da formação continuada dos docentes, com o desenvolvimento de material didático específico e a criação da Universidade do Professor, uma rede que vai concentrar todas as iniciativas voltadas para a formação docente. Pretende-se que em um mesmo portal o professor possa acessar todos os cursos e programas disponíveis.
 
O compromisso prevê também um redesenho curricular do ensino médio, para que as disciplinas ensinadas tenham uma maior integração entre si. Para que o ensino seja melhorado, a pasta aposta na educação integral. Para 2013, segundo o ministro, está prevista a adesão de 5 mil escolas no ensino de dois turnos. No ano que vem, serão 10 mil centros de ensino.
 
Faz parte do compromisso a ação Quero ser Professor, Quero ser Cientista, com a oferta de 100 mil bolsas de estudo para jovens que queiram ingressar na área de exatas. Além disso, o ministério desenvolveu, em conjunto com pesquisadores, um kit para estimular o interesse pelas ciências. "Vamos distribuir os kits de ciências para alunos de toda a rede. Ele vai poder manipular, usar. É inspirado em alguns brinquedos, mas mais sofisticado e barato", explicou Mercadante.
 
Mercadante diz que o ensino médio é uma fase que precisa de atenção. "Andamos muito nos anos iniciais [do ensino fundamental], melhoramos nos anos finais e simplesmente atingimos a meta [do Ideb] no ensino médio. O que é pouco. Ainda precisamos de um salto de qualidade", disse.
 
Em 2012, 8.376.852 alunos estavam matriculados regularmente e 1.345.864 cursavam o ensino médio pelo Educação de Jovens e Adultos (EJA), de acordo com o Censo Escolar. A maioria das matrículas do ensino médio está na rede estadual de ensino (84,9%). As escolas privadas ficam com 12,7% das matrículas, as escolas federais com 1,5% e as municipais com 0,9%.
 
A defasagem idade-série ainda é alta, segundo o MEC, em 2012, dos estudantes matriculados no período, 31,1% têm idade acima do esperado para a série que cursam.
 
Edição: Fábio Massalli


(Agência Brasil)
 
 
Entre os documentos que deverão ser gratuitos, o projeto cita certificados, históricos escolares, certidões e declarações em geral, sobre qualquer assunto de natureza acadêmica ou escolar, informa a Agência Câmara
 
A Comissão de Educação aprovou nesta quarta-feira Projeto de Lei 3866/12, do deputado Felipe Bornier (PSD-RJ), que proíbe faculdades e universidades de cobrar pela primeira emissão e registro do diploma de curso superior e também pela primeira via de documentos acadêmicos.
 
Entre os documentos que deverão ser gratuitos, o projeto cita certificados, históricos escolares, certidões e declarações em geral, sobre qualquer assunto de natureza acadêmica ou escolar.
 
O projeto foi aprovado na forma do substitutivo do relator, deputado Waldenor Pereira (PT-BA). O projeto original diz que é proibida a cobrança pela emissão dos documentos. O substitutivo diz que o custo da emissão dos documentos está incluído no valor das anuidades e que eles não podem ser cobrados separadamente.
 
"Infelizmente, trata-se de uma medida abusiva por parte das instituições privadas, principalmente, mas nas instituições públicas também, pois muitas delas cobram pela emissão de diplomas e outros documentos acadêmicos", disse o relator.
 
Felipe Bornier argumenta que a cobrança é proibida pelo Ministério da Educação, mas essa norma não vem sendo cumprida por muitas instituições de ensino superior.
 
Tramitação
O projeto tramita em caráter conclusivo e ainda será analisado pelas comissões de Finanças e Tributação; e Constituição e Justiça e de Cidadania.
 
 
USP, Unesp e Unicamp lideram o ranking das universidades brasileiras que mais publicaram artigos científicos entre os anos de 2007 e 2011, de acordo com a edição mais recente do SIR World Report, divulgado em julho pela ScimagoLab, informa a Agência Fapesp
Três instituições paulistas – Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista (Unesp) – lideram o ranking das universidades brasileiras que mais publicaram artigos científicos entre os anos de 2007 e 2011, de acordo com a edição mais recente do SIR World Report, divulgado em julho pela Scimago Lab. Quando se considera o impacto obtido pela produção científica de cada instituição, a brasileira que mais se destaca é a Universidade Federal do ABC (UFABC).
 
O SIR World Report 2013 avaliou cinco anos de produção científica das instituições de ensino superior de todo o mundo que publicaram, em 2011, pelo menos cem trabalhos científicos indexados na base de dados Scopus. Produzida pela editora holandesa Elsevier, a Scopus é considerada uma das maiores bases de dados científicos do mundo, englobando mais de 20 mil periódicos especializados.
 
Quando se leva em conta o número total de publicações (desconsiderando trabalhos feitos por academias de ciência, hospitais, fundações e centros nacionais de pesquisa), a USP é a instituição brasileira mais bem colocada – ficando em quinto lugar no ranking mundial, com 48.156 trabalhos publicados entre 2007 e 2011. Em primeiro lugar, está a Universidade Harvard, dos Estados Unidos, com 80.467 publicações. Em seguida, estão Universidade de Tóquio (51.796), Universidade de Toronto (48.944) e Universidade Tsinghua (48.396), da China.
 
O pró-reitor de Pesquisa da USP, Marco Antonio Zago, destacou que a instituição tem uma longa tradição de valorizar a pesquisa associada ao ensino de qualidade. "A USP investe parcela considerável de seu orçamento para apoio à pesquisa, além de captar financiamento de agências como FAPESP, CNPq e Finep. Nos últimos anos intensificou a relação com universidades expressivas do exterior. Está também evoluindo na cooperação com o setor produtivo e com empresas, no que diz respeito à pesquisa mais aplicada, ao mesmo tempo em que vem valorizando também outras formas de produção intelectual. Neste panorama, a relação com a FAPESP é muito relevante, não apenas pelos recursos que nossos pesquisadores captam da agência, mas também porque introduz um componente competitivo e de controle sobre a qualidade de nossa produção", disse à Agência FAPESP.
 
A segunda brasileira mais bem colocada no ranking global foi a Unicamp, que ficou em 135º lugar com 17.130 trabalhos publicados. Na 137ª posição está a Unesp, com 16.998 artigos.
 
Para Gláucia Maria Pastore, pró-reitora de Pesquisa da Unicamp, o resultado expressa a força das três universidades estaduais paulistas e sua produção científica de grande relevância.
 
"Se levarmos em conta o tamanho das instituições e o fato de que a Unicamp é uma universidade bem menor do que a USP, nosso segundo lugar reflete a importância de nossa produção científica, que abrange todas as áreas do conhecimento, e o grande aporte feito em pesquisa na fronteira do conhecimento. A posição é boa, mas queremos sempre aprimorar e, para isso, a pró-reitoria de Pesquisa tem trabalhado para integrar os diversos grupos de pesquisa de tal forma que a gente consiga resultados ainda mais promissores", afirmou Pastore.
 
"Considerando os trabalhos publicados pelas dez universidades brasileiras mais bem colocadas (148.047 publicações), a produção científica dessas três instituições paulistas representa 56% desse total (82.284 publicações)", destacou Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.
 
Com apenas 3.956 publicações, a UFABC ficou na 1.345ª posição nessa modalidade. Mas no quesito "Q1", que mede a porcentagem de artigos de uma universidade publicados nas mais conceituadas revistas de cada área do conhecimento, a instituição salta para a primeira colocação entre as brasileiras, com 55% de seus artigos publicados em revistas conceituadas.
 
A UFABC é seguida pela Universidade do Vale do Paraíba (Univap), com 45%; pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 40,6%; e pela USP, com 39,1%. Nesse quesito, a Unicamp ficou na décima colocação entre as brasileiras, com 37,5%, e a Unesp em 34º, com 30,5% dos trabalhos publicados em revistas conceituadas.
 
Entre as dez universidades brasileiras mais bem classificadas no ranking Q1, seis estão situadas no Estado de São Paulo – UFABC, Univap, Unifesp, USP, UFSCar e Unicamp. Ao se considerar o volume de artigos no quesito "Q1", cinco universidades paulistas estão entre as 10 primeiras – ficando a USP em primeiro lugar, com 17.985 trabalhos, e a Unicamp em segundo, com 5.967 publicações nas revistas mais conceituadas.
 
Quando o critério de classificação usado é o de "impacto normalizado" – que mede quantas vezes os trabalhos de cada instituição são citados em comparação com a média mundial -, novamente a UFABC vem em primeiro lugar entre as brasileiras com a marca de 1,67 – o que significa que os artigos da instituição tiveram média de citações 67% maior que a média global.
 
Em seguida, estão a Universidade Estadual da Paraíba (0,95), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (0,93) e a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (0,92). A USP é a nona brasileira nessa modalidade, com a marca de 0,86. A Unicamp é a 12ª, com 0,84, e a Unesp, a 35ª, com 0,70.
 
No critério "colaboração internacional", mais uma vez a UFABC é a brasileira mais bem colocada, seguida pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, Universidade Estadual de Santa Cruz (BA) e Universidade Federal de Alagoas (Ufal). A USP aparece em sétimo lugar, a Unicamp está em 22º e a Unesp em 40º.
 
Com 20,3% de sua produção científica inserida no grupo dos 10% trabalhos mais citados do mundo na respectiva área do conhecimento, a UFABC é a instituição brasileira que lidera também no critério "excelência". "A UFABC é nova e está no caminho da qualidade acadêmica, enfrentando o desafio de crescer", disse Brito Cruz.
 
Política de apoio à pesquisa
 
Segundo Klaus Capelle, pró-reitor de Pesquisa da UFABC, há quatro fatores que explicam o bom desempenho da instituição. O primeiro é a alta qualidade do corpo docente, composto apenas por doutores contratados em regime de dedicação exclusiva.
 
"Nossa segunda vantagem é decorrente do fato de sermos uma universidade muito nova, com apenas sete anos. Por esse motivo, todos os nossos laboratórios – que por enquanto são poucos – são de última geração. E grande parte dos equipamentos foi adquirida por meio de projetos apoiados pela FAPESP", contou Capelle.
 
Outra razão do bom desempenho acadêmico apontada por Capelle é a existência de uma política interna de apoio à pesquisa. A instituição reserva parte da verba recebida pelo Ministério da Educação para oferecer bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de auxílios para pesquisas interdisciplinares e para a formação de núcleos estratégicos.
 
Por último, Capelle ressalta o modelo de organização da universidade, que aboliu a divisão das áreas do conhecimento em departamentos para favorecer a interação de pesquisadores.
 
"Essa diferenciação entre o que é Física, o que é Química e o que é Biologia representa a forma como se enxergava o conhecimento no século 19. Como nós construímos a universidade nos primeiros anos do século 21, abandonamos a ideia do departamento. Isso faz com que a pesquisa interdisciplinar seja particularmente forte na UFABC, pois não há barreiras artificiais que separam um engenheiro de materiais, por exemplo, de um físico de estado sólido", afirmou Capelle.
 
Lideranças científicas adiantaram questões que serão debatidas no Fórum Mundial de Ciência, que será realizado no Rio de Janeiro, em novembro
A ciência para o ambiente e a justiça social foi o tema discutido durante dois dias, no sétimo e último Encontro Preparatório para o Fórum Mundial de Ciência (FMC), realizado no auditório da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), no campus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília (UnB), e que termina hoje. Pesquisadores e lideranças científicas de várias instituições do país, entre elas a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Helena Nader, fizeram um balanço dos seis encontros anteriores e adiantaram questões que serão debatidas durante o FMC, que será realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 24 e 27 de novembro.
 
A SBPC faz parte do comitê de organização do FMC, que reunirá cientistas importantes de várias partes do mundo. Nesse sentido, Helena ressaltou dimensão do Fórum que será realizado no Rio. "O que vai acontecer em novembro é um megaevento, que não é grande no número de pessoas, mas na densidade de participação de pessoas do mais alto nível científico mundial", declarou. É a primeira vez que FMC vai ocorrer fora da Hungria, seu país de origem. Para a presidente da SBPC isso demonstra a maturidade da ciência brasileira e o respeito internacional que ela já conquistou.
 
Durante o evento de Brasília, Helena adiantou alguns temas que deverão ser discutidos no Fórum do Rio. Entre eles, a ciência básica e a aplicada e como as duas devem dialogar; a ética e a integridade na ciência, que deverá ter uma sessão especial no FMC; a questão do envelhecimento, assunto que foi debatido no 1º Encontro Preparatório, realizado em agosto de 2012 em São Paulo e coordenado pela presidente da SBPC; as ciências do mar; a engenharia; entre outros. Além disso, serão debatidos também o financiamento da ciência e a divulgação científica. "Essa é uma questão global", disse Helena. "Quais são os desafios e as perspectivas, como é que nós nos comunicamos para mostrar que a ciência é importante."
 
Para o secretário executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Luiz Antonio Elias, que também participou do encontro de Brasília, a realização do FMC deve ajudar na percepção da capacidade da ciência de corrigir assimetrias do mundo em desenvolvimento, bem como impulsionar países africanos e latino-americanos a um novo patamar dentro da geopolítica internacional. "Com esse movimento, esperamos de fato perceber que ciência é conhecimento, mas também é acesso, inclusão, produtividade, porque nos permite ser mais capazes na nossa economia, com um interesse público por trás", disse Elias.
 
Coordenador do encontro, o decano de Pesquisa e Pós-Graduação da UnB, Jaime Santana, ressaltou o caráter plural do evento. "Talvez seja o mais interdisciplinar dos sete encontros preparatórios para o fórum", observou. "Não temos nenhuma mesa sem mistura de sociólogos, biólogos, engenheiros. O que importa é a abordagem de um tema. Entendemos que, na unidade acadêmica do futuro, o diálogo existe em todas as áreas do conhecimento."
 
O senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) cumprimentou a organização do evento pelos tópicos escolhidos. "Não haveria tema mais propício para o momento e para o futuro que ambiente e justiça social", afirmou. "As manifestações de junho trouxeram pautas fundamentais, e precisamos do apoio da ciência para construir políticas públicas eficientes em mobilidade urbana, saúde, educação e redução da violência nas nossas cidades."
 
Segundo o presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Jacob Palis, o FMC vai colocar o Brasil no centro do panorama científico internacional. "Essas reuniões preparatórias regionais realmente mobilizaram o país. Isso é de uma extraordinária importância", observou. "E o governo brasileiro tem dado todo o incentivo para que esse fórum seja memorável."
 
Na opinião do presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Glaucius Oliva, o fórum é uma "oportunidade única para não apenas refletirmos sobre os temas discutidos no evento em si e nos encontros preparatórios, mas principalmente para nos encontrarmos com a ciência mundial mais uma vez, expondo os grandes avanços que a gente tem alcançado, e especialmente os grandes desafios que temos pela frente."
 
A importância da interação entre instituições de pesquisa foi o foco da palestra da professora Mercedes Bustamante no 7º Encontro Preparatório para FMC. Ela falou sobre o tema "Conciliando conservação e desenvolvimento: o papel de redes regionais de pesquisa e pós-graduação". "A partir do momento em que você favorece essa interação, ela traz um diversidade de olhares e de conhecimentos que permite elaborar novas ferramentas de análise, novas abordagens que o grupo isolado talvez demorasse mais tempo para encontrar", disse a docente do Departamento de Ecologia da UnB.
 
Durante a apresentação, em que abordou as mudanças ambientais globais, Mercedes destacou a estratégia do MCTI de incentivo às interações institucionais na troca de conhecimentos capazes de gerar novas soluções para problemas comuns entre os cientistas. Ela foi diretora do Departamento de Políticas e Programas Temáticos da pasta.
 
A professora citou como outra frente fundamental a formação de recursos humanos na geração de profissionais capazes de integrar diferentes campos do conhecimento. "Nada mais natural que esses programas de pesquisa estejam associados a programas de capacitação de recursos humanos em alto nível, como os programas de pós-graduação multi-institucionais", comentou.
 
Também ontem, a professora Maria Stela Grossi Porto, do Departamento de Sociologia da UnB, foi responsável pelo painel "Organização social e violência urbana: alguns desafios". Ela apontou questões a enfrentar para a superação do problema e defendeu a necessidade de instaurar a cultura da paz. "As crianças se socializam na e pela violência", disse, citando desenhos animados em que agressões são corriqueiras e se estabelece a ideia de que é interessante tirar vantagem de todas as situações.
 
De acordo com a pesquisadora, é importante valorizar contextos mais solidários em detrimento daqueles baseados em brutalidade, "A cultura da paz deve estar no processo civilizador das crianças", defendeu Maria Stela. Ela lembrou as formulações do sociólogo Max Weber e destacou que a polícia é quem detém o monopólio do uso da violência legítima. Ela não se posicionou contrariamente à detenção de poder por parte do Estado, mas ressaltou que é necessário estabelecer uma nova imagem para o policial, dissociada da "ideia da polícia armada para a guerra, para combater". 
 
(Com informações da Ascom/MCTI)


(Jornal da Ciência)
 
Artigo de Gustavo Biscaia de Lacerda* para o Jornal da Ciência
 
A proposta da professora Suzana Herculano, da UFRJ, de criar a profissão de "cientista" no Brasil parece interessante e sensata. Em apoio a sua proposta, ela apresenta uma série de argumentos: em primeiro lugar, no país o cientista geralmente está vinculado ao aluno pós-graduando e/ou ao professor universitário, o que confunde institucionalmente as condições de cada qual; em segundo lugar, no caso dos estudantes, a pesquisa é encarada como subproduto da formação individual ao mesmo tempo que o pesquisador mantém-se por vezes eternamente como um "estudante", o que na prática infantiliza-o; em terceiro lugar, no caso dos professores universitários, eles têm que fazer pesquisa ao mesmo tempo que praticam a docência, o que resulta em que pesquisam nos momentos livres deixados pelas aulas; além disso, em outros países – sua referência básica, pelo que percebo, são os Estados Unidos – não há essa confusão institucional, ou seja, professor(-pesquisador) é uma coisa, cientista é outra. Ela tem outros argumentos, mas esses, expostos rapidamente, parecem a mim os principais.
 
Não comentarei a situação dos pós-graduandos. Não porque discorde, mas, exatamente ao contrário, em princípio concordo com os argumentos da professora Herculano: as condições de pesquisa e de trabalho são bastante precárias e os alunos-pesquisadores são submetidos a condições que os infantilizam. (Evidentemente, digo-o por experiência própria.) Também não comentarei a existência, ou inexistência, da profissão de cientista em outros países, Estados Unidos à frente, por pura ignorância a respeito.
 
O que desejo comentar é a condição dos professores-pesquisadores das universidades brasileiras. Para que uma instituição seja "universidade" no Brasil, além de evidentemente oferecer inúmeros cursos de graduação, ela tem que desenvolver pesquisas (e, se puder, realizar alguma atividade de "extensão"). A maior parte das universidades particulares limita-se ao ensino, concentrando a pesquisa em pouquíssimos cursos de mestrado e doutorado, de pouquíssimas áreas (o que, por oposição, relega dezenas de outras áreas à condição de penúria absoluta, no quesito "pesquisa"). De qualquer forma, é senso comum no país, confirmado por inúmeros estudos empíricos, que a pesquisa brasileira concentra-se nas universidades públicas, mormente as estaduais paulistas e as grandes federais.
 
Ora, a concepção que se tem no Brasil de "universidade" é a do famoso "tripé", que postula a "indissociabilidade" entre o ensino, a pesquisa e a extensão. Isso equivale a dizer que os professores têm que ser pesquisadores, que os pesquisadores têm que ser professores, que os professores-pesquisadores têm que interagir com a sociedade. A lógica subjacente a esse modelo é que, lecionando ao mesmo tempo em que pesquisam, os professores-pesquisadores estarão sempre no limiar do conhecimento e transmitirão aos seus alunos o que há de mais atual, de mais inovador, de mais importante em cada área do conhecimento; em outras palavras, evitando-se a cisão entre aquele que leciona e aquele que pesquisa, permite-se o avanço do conhecimento nos laboratórios e nas salas de aula. Simplificadamente, esse é o chamado "modelo Humboldt" de universidade, proposto pelo famoso naturalista prussiano no início do século XIX.
 
Quando a professora Herculano reclama de só poder fazer pesquisa nas horas vagas deixadas pelo exercício da docência, ela está reclamando, em última análise, do modelo Humboldt de universidade, do mesmo modelo que, no Brasil, permite-lhe ao mesmo tempo ostentar o título de "professora" e de "doutora", com as obrigações impostas pelas agências de fomento caso integre algum programa de pós-graduação (o que, aliás, é precisamente o caso da Professora Herculano).
 
No Brasil, nas universidades brasileiras, os professores efetivos têm a obrigação de serem professores e também de serem pesquisadores. Se a docência deixa pouco tempo para a pesquisa, isso pode ser um sério problema administrativo (devido, entre outras coisas, à falta de professores para lecionar, à falta de pessoal dedicado à burocracia, ao excessivo rigor de uma burocracia), mas o fato é que é um ônus com que qualquer professor de universidade federal ou estadual tem que arcar: é sua obrigação profissional, pelo qual é pago, pelo qual tem enorme prestígio, pelo qual tem uma série de privilégios no interior das universidades e pelo qual pode candidatar-se a financiamento junto às agências de fomento.
 
Assim, reclamar da situação dos professores-pesquisadores não é muito razoável; a irrazoabilidade dessa reclamação fica mais evidente quando se lembra que as universidades federais – que são as que conheço com um pouco mais de intimidade – possuem em seus quadros dezenas de milhares de servidores técnico-administrativos de nível superior, contratados precisamente para fazerem pesquisas(científicas, tecnológicas e/ou artísticas, puras e/ou aplicadas). Repito: esses servidores são contratados apenas para serem pesquisadores, o que, no caso daqueles vinculados a áreas científicas, poderiam e deveriam ser denominados corretamente de "cientistas".
 
Ora, os servidores cientistas das universidades federais, com uma freqüência assustadora, terrível, lamentável, não são reconhecidos como pesquisadores ou, em casos mais específicos, como "cientistas". A eles são relegadas as categorias gerais, freqüentemente empregadas em tom infamante, de "servidores" e/ou de "técnicos". Mas "servidores" são todos aqueles contratados pela União para trabalharem nas universidades: os servidores técnico-administrativos são tão "servidores" quanto os servidores docentes, embora os últimos com freqüência esqueçam-se de que também são servidores (e, portanto, submetidos à legislação que rege o serviço público civil federal). Já a expressão "técnicos", quando usado no ambiente universitário, costuma ter o claro sentido de "cumpridores de tarefas", diminuindo-os como seres humanos e como profissionais de nível superior concursados e especializados.
 
Os servidores técnico-administrativos de nível superior das universidades públicas federais abrangem carreiras tão díspares entre si quanto maestros e administradores, enfermeiros e sociólogos, engenheiros e psicólogos, economistas e médicos, além de dezenas mais. Nas universidades eles sofrem profundamente ao não serem reconhecidos como pesquisadores. Não deixa de ser bastante revelador que a Professora Herculano não os considere ao tratar da profissão de "cientista": os merecedores dela são apenas os pós-graduandos e os professores. Em outras palavras, mesmo sem querer (e suponho que a professora Herculano não cometa esse equívoco por má vontade), reafirma-se a concepção de que nas universidades apenas os professores podem pesquisar. O privilégio da pesquisa associa-se, como sugeri há pouco, a diversos outros: apenas professores podem ser indicados reitores (mesmo que haja "técnicos" com doutorados e pós-doutorados nos quadros funcionais); o acesso a recursos das universidades e também das agências de fomento é extremamente mais fácil e ágil para os professores que para os "técnicos"; o salário dos professores (por mais que reclamem de que ganham pouco) é muito maior que o dos "técnicos" – sem falar do prestígio acadêmico e intelectual. Esse prestígio, aliás, é sempre ciosamente realçado e reafirmado, muitas vezes ou por meio do desvio de função "para baixo" (isto é, em que o "técnico" deixa de realizar suas tarefas de pesquisa e assume as funções burocráticas de secretaria) ou por meio da acusação, feita por servidores docentes e (pasmem!) também por servidores técnico-administrativos de nível secundário, de que os servidores técnico-administrativos de nível superior "não se vêem como técnicos" e "querem fazer pesquisa".
 
Assim, o debate suscitado pela professora Herculano parece importante e relevante, mas alguns dos termos e dos argumentos por ela aventados estão muito deslocados. Deixando de lado a condição dos estudantes dos cursos de pós-graduação stricto sensu, parece-me completamente equivocada sua queixa de que só consegue pesquisar nos momentos vagos deixados pela docência. Nas universidades federais brasileiras, a pesquisa é percebida institucional e corporativamente como privilégio exclusivo dos servidores docentes ("professores"); aos servidores técnico-administrativos de nível superior, a despeito das descrições formais dos cargos, cabe no máximo o apoio aos pesquisadores "de verdade".
 
Gustavo Biscaia de Lacerda é doutor e concluinte de pós-doutorado em Sociologia Política (UFSC) e sociólogo da UFPR
 
 (Jornal da Ciência)

 

 
A questão foi debatida no 9º Encontro Nacional da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, informa a Agência Brasil
 
Caso o Plano Nacional de Educação (PNE) não seja aprovado a tempo da Conferência Nacional de Educação (Conae), as discussões no encontro nacional podem ser prejudicadas. A questão foi debatida ontem (20) no 9º Encontro Nacional da Campanha Nacional pelo Direito à Educação. A Conae ocorre entre 17 e 21 de fevereiro de 2014, em Brasília. A intenção é que se discuta no evento, entre outras questões, as repercussões de um PNE aprovado.
 
O PNE estabelece 20 metas para melhorias na educação que devem ser cumpridas nos próximos dez anos. Entre elas, a universalização do ensino fundamental e do ensino médio e a oferta de creches e ensino integral. O projeto passou pela Câmara dos Deputados e tramita no Senado Federal, onde passou pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) e atualmente, está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ). Depois, o projeto passa pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado antes de ser votado em plenário.
 
Esta é a segunda conferência nacional, a primeira, em 2010, foi feita para que se definissem as diretrizes do PNE. "Se o PNE não for aprovado, o palco da discussão vai ser o Congresso Nacional, vamos nos organizar para ocupar esse espaço. É inaceitável que o plano não seja aprovado. Já que é consenso que a educação é uma prioridade, não dá para aceitar que o país fique sem um plano. O último terminou em 2010", diz o presidente da Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), José Marcelino de Rezende Pinto.
 
Rezende diz que a Conae deve servir para envolver não apenas movimentos sociais, mas professores, estudantes, pais e a sociedade como um todo. Segundo ele, deve-se ser um espaço para discutir a educação, mas também de sair às ruas e mostrar a importância do tema. Nesse sentido, Rezende defende como um dos elementos centrais a discussão dos próximos passos após a aprovação do PNE. "Na [segunda] Conae devemos pensar em planos estaduais e municipais de educação e não retomar a definição de diretrizes, porque isso foi feito em 2010 [e deu origem ao PNE]".
 
O tema central da Conae reforça o que diz o presidente da Fineduca: O PNE na Articulação do Sistema Nacional de Educação: Participação Popular, Cooperação Federativa e Regime de Colaboração. A conferência está em fase de preparo. A partir do dia 27, encerra-se a etapa municipal e começa a etapa estadual.
 
A Campanha Nacional pelo Direito à Educação, rede composta por mais de 200 organizações em todo o Brasil, defende a aprovação do PNE, mas ressalta que deve ser um PNE que garanta a qualidade do sistema público de educação e que destine os recursos públicos à educação pública.
 
A coordenadora geral da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Estabelecimentos de Ensino (Contee), Madalena Guasco Peixoto, diz que desde a última conferência foram feitas conquistas. Ela está otimista com o maior envolvimento dos municípios na fase preparatória. O diretor de Assuntos Educacionais da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Heleno Araújo Filho, também reconhece os avanços, mas diz que ainda é preciso implementá-los.
 
O debate ocorreu no 9º Encontro Nacional da Campanha Nacional pelo Direito à Educação – Educação e Ação Política no Brasil Hoje: Perspectivas para a Incidência da Sociedade Civil, que começou ontem (18) e vai até quinta-feira (22) em Brasília. À tarde, os integrantes da campanha foram ao Senado Federal pressionar os parlamentares pela aprovação do PNE, em tramitação na Casa.
 
 
 
O IV Seminário de Desenvolvimento e Políticas Públicas está discutindo o desenvolvimento brasileiro no longo prazo. O evento está ocorrendo hoje (21/08) e amanhã (22/08), na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no auditório do DEF. No dia 22 haverá palestras envolvendo os temas "Economia e ética", "Sociedade e ética" e "Política e ética", todos acompanhadas, previamente, de mesa redonda. 
 
O presente tema preenche uma lacuna no debate acadêmico sobre desenvolvimento – sempre muito focado no exame da dinâmica econômica e social e passando ao largo de questões relevantes, como a arena dos interesses políticos e os valores éticos da sociedade. Saiba mais. 
 


Confira a agenda de encontros com a participação da ANPG em Mato-Grosso e São Paulo 

Folder do 39º Conselho Nacional de Associações de Pós-Graduandos 

A Associação Nacional de Pós-Graduandos estará presente em alguns eventos importante que antecedem o 39º Conselho Nacional de Pós-Graduandos. O primeiro deles, o I Seminário Mato-Grossense de Pós-Graduação, ocorrerá ainda nesta semana, entre os dias 22 e 23 de agosto. Em seguida, nos dias 5 e 6 de setembro, virá o IV Encontro da Pós-Graduação do Instituto de Química, da USP.  Entre os dias 14 e 18 de outubro, estaremos no XXII Congresso de Pós-Graduação da Universidade Federal de Lavras.  Em todos esses eventos, discutiremos políticas de direitos dos pós-graduandos e levantaremos questões referentes ao 39º Conselho Nacional de Associações de Pós-Graduandos (39º CONAP), como a pauta sobre o Estatuto de Direitos dos Pós-Graduandos. 
 
O I Seminário Mato-Grossense de Pós-Graduação (organizado pela APG UFMT) terá como foco a questão da concentração da produção científica no sudeste e a necessidade de se desenvolver a região Centro-Oeste e Amazônica, fomentando a pesquisa e a produção científica nessa área. 
 
O IV Encontro de Pós-Graduandos do Instituto de Química da USP, que teve a sua primeira edição em 2009, tem contribuído no debate sobre a formação e vivência acadêmica dos pós-graduandos e pesquisadores. Nesta edição irá debater, entre outras questões, a proposta de “carreira” do cientista e a pauta de Direitos para o Pós-Graduando.
 
A perspectiva político-profissional do pós-graduando e suas condições de preparação e competição para o mercado de trabalho serão questões centrais no XXII Congresso de Pós-Graduação organizado pela APG-UFLA
 
Essas atividades também serão preparatórias para o 39º CONAP, que ocorrerá entre os dias 25 e 27 de outubro, e terá como tema “A pós-graduação brasileira e os direitos dos pós-graduandos”. O objetivo do encontro – que será sediado na cidade de Ouro Preto (MG) – será aprovar eixos para a criação de um Estatuto de Direitos dos pós-graduandos. 
 
A ANPG irá contribuir com as discussões e inserir questões comuns a todos esses eventos – que dizem respeito às diretrizes dos pós-graduandos no país.  Este é o momento de integrar os estudantes para a organização e o debate sobre as condições de estudo, direitos, reconhecimento acadêmico e profissional e o fortalecimento da pesquisa.   
 
 

 

O IV Encontro da Pós-Graduação do IQ-USP ocorrerá nos dias 05 e 06 de setembro de 2013. Trazendo um novo formato, com enfoque na participação ativa do público, o espaço do evento está sendo montado para a integração e interação entre pesquisadores das mais diversas áreas. 

O Encontro de Pós-graduação do Instituto de Química iniciou-se em 2009, no 75º aniversário da Universidade de São Paulo com o objetivo de discutir temas de amplo interesse da comunidade científica. Desde então, tem contribuído para a formação e vivência acadêmica dos pós-graduandos e pesquisadores em geral.
 
Esta edição IV terá discussões orientadas, mesas redondas e a sessão de painéis estruturadas. Faça a sua incrição  no site do encontro!
(IQ-USP)
 


Na famosa guerra de Troia, depois de mais dez anos de combates, os gregos tiveram uma ideia genial: construíram um cavalo de madeira e ofereceram como presente simbolizando o fim da guerra. Os troianos aceitaram (conta a lenda que o cavalo era muito bonito) e transpuseram o presente para dentro de sua muralha. Durante a madrugada, os guerreiros gregos, escondidos dentro do cavalo, saíram e conseguiram destruir a cidade de Troia. A proposta de profissionalização do cientista, que tem ganhado repercussão a partir da proposta da neurocientista e professora da UFRJ Suzana Herculano-Houzel, é assim: bonita e promete um monte de coisas boas, mas assemelha-se bastante ao famoso cavalo de Troia, ou, como se diz no bom português popular: um verdadeiro presente de grego.

Participamos na última terça-feira (13/08) do seminário sobre a profissionalização do cientista na Câmara dos Deputados, organizado pelo deputado federal Glauber Braga (PSB/RJ) para debater a proposta de profissionalização da carreira de cientista. Com certeza, a professora teve o grande mérito de trazer a discussão da desvalorização do pós-graduando para um patamar elevado, alcançando mídia e atenção de parlamentares. O debate foi rico e qualificado. O grande consenso foi que a situação do pós-graduando não reflete sua importância para a pesquisa, e o encaminhamento do seminário seguiu para elaboração de um projeto de lei que combata essa ausência de direitos. Contudo, consideramos importante debater a proposta da Dra. Houzel, pois acreditamos que ela não consegue resolver os problemas identificados.

A proposta apresentada pela neurocientista, embora tenha um reconhecido caráter mobilizador, é na verdade bastante vaga e um tanto ingênua. Ao final, apenas facilita a contratação (e demissão) de auxiliares de pesquisa pelos laboratórios, privatizando nesses espaços a decisão de utilização da verba pública, hoje distribuída pelas agências de fomento em uma política consolidada de bolsas de pesquisa – ainda que insuficiente.

A proposta é vaga porque não responde dezenas de questões a respeito das consequências da profissionalização. Como diz a própria dra. Suzana, “primeiro tem que regulamentar, para depois discutir os detalhes”. Ora, que regulamentação é essa em que os “detalhes” não são explícitos e só serão discutidos depois? O resultado disso pode ser transformar a atual verba de bolsas para mestrandos e doutorandos em verbas a serem disputadas por laboratórios já existentes para contratar auxiliares de pesquisa. Como consequência, teríamos uma quantidade muito menor de vagas que o atual número de bolsas para a pós-graduação.

Ademais, a proposta é também ingênua ao supor que a criação da profissão resolverá os problemas de valorização do jovem pesquisador no país. Pelo que foi descrito, as consequências serão a criação de uma profissão que já nasce precarizada e o aprofundamento da elitização da pós. 

A criação da profissão de cientista significa que aquele que tem uma graduação pode ser contratado pelos laboratórios institutos de pesquisa. De acordo com esta proposta, a pós-graduação e a profissão de cientista são duas coisas diferentes (portanto, NÃO É uma proposta de profissionalização dos pós-graduandos). Sabemos, desde 1988, que a forma de ingresso no serviço público é através de concurso. Ser contratado para trabalhar na universidade pública sem concurso significa terceirização ou contrato temporário (precário) de trabalho via fundações. É justamente nesse perfil que se encaixarão os jovens “cientistas”: serão trabalhadores com contratos precários em algum laboratório e que ingressaram por indicação de alguém. Esse alguém é um docente/pesquisador, que tem um regime de trabalho estável e que pode lhe demitir caso você não cumpra aquilo que ele determinar. Em resumo: um laboratório, duas classes totalmente distintas de pesquisadores. Assim, o jovem cientista não terá nenhuma garantia de formação. Isso nos lembra de uma campanha dos estudantes secundaristas que criticavam os rumos do ensino técnico: “queremos mais que apertar parafusos”. Se a proposta ora apresentada se viabilizar, é exatamente o que faremos: apertar parafusos (e pipetas) laboratórios para sustentar a pesquisa de alguém conceituado, sem opinar sobre os rumos desta pesquisa. 

Mas fica muito pior quando a professora fala sobre a pós-graduação. Este docente/pesquisador que indicou a sua contratação será o chefe de laboratório ou pesquisador sênior de onde você irá trabalhar. Apenas ele poderá lhe indicar para fazer a pós-graduação
stricto sensu, que será necessariamente doutorado – a proposta é acabar com o mestrado. Isso mesmo: para fazer pós-graduação (stricto sensu) você precisa antes ser contratado e depois ter um QI (quem indica). Ah, mas e se eu não quiser (ou não conseguir, ou não tiver vagas, ou não tiver ninguém que indique…) ser contratado como cientista, não poderei fazer pós-graduação? Sim, mas apenas lato sensu. Mestrado será coisa do passado e doutorado será reservado apenas para quem tiver QI, e isso será institucionalizado (ironicamente, a proposta diz querer acabar com as “panelas” na universidade).

Ressalte-se que o doutorando continua trabalhando no laboratório, então terá que dar conta da sua pesquisa de doutorado e também das horas trabalhadas como auxiliar de pesquisa ao mesmo tempo. Não é preciso dizer o que acontece se o pós-graduando pensar de uma maneira diferente do chefe de laboratório ou do orientador a respeito dos rumos da pesquisa. Assim, se você acha que hoje o seu orientador mais parece um patrão, bem, com essa proposta de profissionalização ele efetivamente o será.

Ficam
, então, algumas perguntas: só será possível entrar no doutorado com QI e após ter trabalhado alguns anos como auxiliar de pesquisa? Quando o jovem cientista terá liberdade de pesquisa, ou seja, direito de escolher o tema a ser pesquisado neste formato? Vale a pena acabar com o mestrado no Brasil só para aplicar mecanicamente modelos internacionais? Como se dará a expansão e interiorização da pós-graduação e/ou da prática científica no país? No caso de uma inovação, quem fica com a patente? Por que reduzir as vagas da pós-graduação? A única forma de termos direitos é transformando o orientador em patrão?

A profissionalização do cientista não só não melhora em nada a pós-graduação brasileira, como piora bastante, na medida em que restringe o acesso apenas aos contratados (indicados). Trata-se de uma velha visão: “somos poucos, mas somos bons”, que permeia a cabeça daqueles que são contra a expansão do ensino superior (incluindo a pós-graduação), pois acreditam que isso vai afetar a qualidade da formação. O que afeta a qualidade não são a expansão e popularização do acesso à universidade, mas a falta de investimento em estrutura e a pouca contratação de quadros qualificados. Consideramos um enorme avanço a recente expansão da pós-graduação e defendemos que é preciso expandir muito mais, interiorizando e combatendo assimetrias, para promover desenvolvimento regional, aproveitando a riqueza do território e do povo brasileiro.

A proposta define ainda a dissociação entre as carreiras de docente e de cientista: um dá aula e
 outro faz pesquisa. Considero tal proposição um empobrecimento das duas atividades. Em um ambiente acadêmico, a dissociação entre ensino e pesquisa é arbitrária, artificial e um prejuízo tanto para a pesquisa quanto para a docência.

A proposta de profissionalização apresentada pela professora pode afetar também outro fator que defendemos com veemência: a diversidade da formação na pós-graduação. Não se pode olhar para a pós-graduação a partir de uma única área do conhecimento, nem voltada a um único tipo de profissional, é preciso compreender a complexidade e riqueza do nosso sistema
, que forma quadros qualificados não apenas para a docência/pesquisa no ensino superior, mas também para pesquisa aplicada na indústria, para a gestão (pública ou privada), para a educação básica e para atuação em diversas áreas na sociedade, contribuindo com a formação onde quer que o indivíduo decida (ou consiga) trabalhar. Penso que o debate que é urgente é a inserção dos recém- mestres e doutores no mercado de trabalho.

Além disso, em muitas áreas não há como determinar as “horas trabalhadas”, pois não existe laboratório. A pesquisa é feita em bibliotecas, salas de estudo, em campo (seja com entrevistas,
surveys, pesquisa etnográfica, revisão bibliográfica ou qualquer outro método), e até mesmo em casa. 

Acrescenta-se, ainda, o argumento de que não sermos reconhecidos como trabalhadores nos expõe àquela famosa pergunta: “mas você só faz pós-graduação e não trabalha?”. Tal situação demonstra uma incompreensão das nossas atividades pelo senso comum, mas
, será mesmo que esse é o principal problema que temos? Tenho convicção de que o principal problema, que aflige as centenas de milhares de pós-graduandos no país, é o fato de não termos direitos estabelecidos que nos permitam uma condição de vida satisfatória para o exercício das nossas atividades – e acredito que não é necessário criar uma profissão (com todos esses malefícios que ela irá acarretar) para tanto.

Fazemos, então, a última sequência de perguntas: a quem interessa a profissionalização dos cientistas? Ao pós-graduando? Ou ao cientista sênior, que terá auxiliares que ele poderá selecionar, definir as atribuições e facilmente demitir?

Por fim, cabe dizer que o conjunto de deveres dos pós-graduandos já está muito bem estabelecido em diversas normas e regulamentações, inclusive, no caso dos bolsistas, no contrato de bolsa. Cabe estabelecer, institucionalizar e divulgar DIREITOS. Somos profissionais que decidiram estender seu período de formação, precisamos ser valorizados enquanto tal: uma categoria híbrida que produz pesquisa e estuda, que desenvolve artigos, dissertações, teses, inovações, projetos, seminários, participa de congressos, feiras, colóquios, assiste aula e ainda se vira com uma bolsa (quando tem) desvalorizada em pelo menos 50% do seu valor real ao longo da história. Queremos melhores contratos de bolsas e bolsas para todos. Queremos um valor deste benefício que dê tranquilidade para o desenvolvimento da pesquisa e informação para ter acesso aos direitos já existentes. Queremos, enfim, direitos equivalentes aos deveres que já temos.

O que a ANPG defende, portanto, e vem discutindo com Associações de Pós-Graduandos de diversas universidades do Brasil, é a criação de um Estatuto de Direitos do Pós-Graduando que defina claramente regras da relação Orientando/Orientador e estabeleça um conjunto de direitos, tais como taxa de bancada, auxílio-tese, auxílio insalubridade e periculosidade (para aquelas atividades que necessitam), férias, valorização permanente das bolsas de pesquisa, assim como sua universalização, e que esse tempo possa contar também na previdência – como já acontece para quem serve ao Exército, por ser considerada uma atividade de interesse da soberania. Dessa forma, conseguimos abarcar os diversos campos da pós-graduação e dar conta das diversas expectativas de quem se dispõe a fazer pesquisa. É uma proposta em construção e que será aprovada no nosso 39° Conselho Nacional de Associações de Pós-Graduandos,
a ser realizado nos dias 25, 26 e 27 de outubro, na cidade de Ouro Preto (MG). A partir daí, iniciaremos a luta para que seja aprovada no Congresso Nacional.

Convidamos todos os pós-graduandos para construírem conosco uma proposta que realmente tenha como foco a valorização do pós-graduando no Brasil. Participe!

* Por Luana Bonone e Roberto Nunes Junior

Luana Bonone é presidenta da ANPG e mestranda em comunicação e semiótica pela PUC-SP

Roberto Nunes Junior
é diretor de comunicação da ANPG e mestrando em filosofia pela Universidade Federal Fluminense