Category

Notícias

Category

Muitas mulheres, muitas lutas por um Brasil justo e desenvolvido
Desde a tenaz resistência à agenda conservadora em direitos civis, patrocinada pelo então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, a luta das mulheres por igualdade tem ganhado visibilidade cada vez maior no Brasil. Inúmeros coletivos obtiveram protagonismo político inaudito no que se convencionou chamar de “Primavera Feminista”.

As redes sociais têm ampliado significativamente o alcance do debate público e trazido à baila questões como sexualidade e direito ao corpo, antes sufocadas pela tutela conservadora. O ponto alto do engajamento ocorreu nas históricas manifestações “Ele Não” que, convocadas pela internet, ganharam dimensão nacional e canalizaram a indignação contra a candidatura de Jair Bolsonaro, no 1ºturno das eleições de 2018.

Se o momento é de maior protagonismo, inclusive com reflexos no aumento da representação feminina no Congresso, a participação das mulheres na luta política brasileira não é novidade e nem se restringe às pautas comportamentais, ainda que elas tenham muita importância.

Mulheres de luta: resistência à ditadura e movimento popular

Na luta contra a ditadura militar, muitas mulheres enfrentaram o arbítrio em jornadas incansáveis por notícias do paradeiro de seus filhos – como é o célebre caso de Zuzu Angel, mãe de Stuart Angel Jones, militante político assassinado pelo governo. A luta contra a carestia, originada em Clubes de Mães e Comunidades Eclesiais de Base, no final dos anos 70, também contou com ampla participação das mulheres e impôs reveses ao regime, como o abaixo-assinado endereçado ao Presidente da República que coletou mais de 1,3 milhão de assinaturas contra o aumento no custo de vida e por outras reivindicações.

Até hoje, elas são ampla maioria nas reuniões de movimentos populares de moradia e saúde, por exemplo. Essa é uma realidade atestada por pessoas como Maria Cícera, que desde 1979 organiza movimentos por habitação e urbanização no Conjunto Promorar do Jardim São Luís, periferia da zona sul paulistana. Cícera calcula que entre 80% e 90% do público do movimento seja feminino. “A mulher tem uma visão mais longa, ela administra, está preocupada com o bem-estar dos filhos, da família. Eu via minha mãe, nos anos 1950, que se virava para complementar o rendimento. A mulher sempre mostrou o anseio de independência, mesmo nas épocas em que não podia dar nenhum passo fora de casa”, avalia.

Cícera conheceu o movimento comunitário justamente por enfrentar, na época, as dificuldades adicionais de mulher solteira. “Para alugar uma casa era exigido que o contrato fosse assinado pelo marido. Eu tive esse problema, comentava no salão e muitas também tinham. Resolvemos participar de uma ocupação. As mulheres eram maioria, mas a liderança era de homens. Quando saíram as casas, descobrimos que as mulheres “sozinhas” ficaram de fora”, conta. A reação foi enfrentar as lideranças, mesmo a contragosto de alguns tidos como “donos do pedaço”. “Aí pensamos: temos que descobrir a data da reunião e invadir. Fomos lá na reunião com o prefeito, mostramos que fomos excluídas e acabamos entrando na demanda”. Dali em diante, viram que o caminho para conquistar direitos iguais era longo e precisava de organização. “Depois vieram os problemas de creche, emprego, escola no período noturno, curso de profissionalização… e até hoje continuamos na luta”, afirma.

A mulher e os obstáculos na vida acadêmica

As mulheres representam a maioria entre estudantes de pós-graduação, segundo os números divulgados em 2018 (referentes a 2016) pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), respondendo por 165.564 das matrículas em cursos de mestrado ou doutorado – os homens totalizam 138.462.

Essa realidade constitui um avanço, mas não deve obscurecer o fato de que “assim como na sociedade em geral, na pesquisa científica e na academia as mulheres continuam sofrendo uma série de opressões”. A opinião é de Stella Ferreira Gontijo, 25 anos, mestranda em História na Universidade Federal Fluminense e Diretora de Mulheres da ANPG, para quem as questões são “desde assédio de orientador à falta de creches para quem têm filhas e filhos e até maiores dificuldades para receber bolsas ou assumir cargos de chefia nos laboratórios e conduções de pesquisas”.
A mesma linha de raciocínio é seguida pela vice-presidenta da ANPG, Manuelle Matias, 27 anos, que identifica uma espécie de funil que reduz a participação feminina de maioria na base para minoria nas posições de destaque na produção acadêmica. “Metade dos artigos científicos são escritos por mulheres (Relatório ‘Gender in the Global Research Landscape’), embora elas sejam menos citadas em relação aos homens nos artigos e estejam subrepresentadas nos mais altos espaços da comunidade científica do país. Por exemplo, é de 75% a proporção de homens agraciados com a maior bolsa de pesquisa do país, a de pesquisador nível sênior 1A do CNPQ”, argumenta Manuelle, que é doutoranda em Saúde Coletiva na UERJ.

Maternidade X Carreira: um dilema a ser enfrentado

A aprovação da licença maternidade para as pós-graduandas bolsistas (Lei 13.536/2017, de autoria da deputada Alice Portugal – PCdoB-BA), que contou com participação ativa da Associação Nacional de Pós-Graduandos para sua aprovação, foi uma das mais importantes conquistas do último período.

Mariana Moura, 38 anos, doutoranda no Instituto de Energia e Ambiente da USP, também considera essa dicotomia o gargalo a ser enfrentado. “Acredito que o próximo grande desafio será garantir o direito de ser cientista e mãe sem derrubar nossa pontuação, que conta muito para o acesso aos recursos e concursos. A UFF saiu na frente com isso”.

Matéria da revista Pesquisa Fapesp apresenta um estudo desenvolvido pelo projeto “Parent In Scienc”, no qual foram entrevistadas 1.182 pesquisadoras, entre as quais 921 mães – para 81% delas a maternidade teve impacto negativo profissionalmente. “Somos tão boas pesquisadoras quanto qualquer um, temos tanto a contribuir para o desenvolvimento do país quanto todos os cientistas, mas enquanto as cientistas tiverem que escolher entre fazer pesquisa de ponta e serem mães, perderemos muitos cérebros brilhantes”, assegura Mariana.
O ambiente político e a ameaça de retrocessos

Para Stella Gontijo o ambiente acadêmico também sofre a influência da cultura patriarcal da sociedade brasileira. “Continua a dificuldade de as mulheres ocuparem espaços da produção do conhecimento e cargos de direção dentro da universidade. Essa exclusão é sintomática da forma como a produção do conhecimento se organiza para continuar reproduzindo uma visão equivocada de ciência “neutra”, avalia.

A conjuntura política nacional enseja riscos de retrocessos, inclusive, uma vez que “direitos conquistados são vistos como concessões”, diz, lembrando o pensamento de Simone de Beauvoir. “A ministra dos Direitos Humanos e da Família vai contra todo o avanço conquistado para a vida das mulheres ao se portar como voz ativa da agenda conservadora, que quer controlar mais nossas vidas, corpos, criminalizar a sexualidade. É importante que as mulheres ocupem a política para transformá-la e não para reproduzir a lógica patriarcal”, conclui.

ANPG na vanguarda da luta pela igualdade

Se a luta por igualdade de direitos para as mulheres é histórica e remete à passagem dos séculos XIX e XX, ela continua atualíssima e mais complexa, ainda mais num país de conservadorismo tão arraigado quanto o Brasil e com grandes disparidades sociais e regionais. Para ter efetividade, precisa combinar os elementos contemporâneos e mobilizadores, como as questões de direitos civis, com pautas que unam amplos segmentos da sociedade, como a defesa da democracia, dos direitos trabalhistas e previdenciários.

“A luta pela emancipação das mulheres se conjuga com outras que afetam estruturalmente o Brasil. A igualdade passa pelo combate aos preconceitos e pela geração de mais e melhores oportunidades, o que só pode ser resolver com o país buscando um desenvolvimento que partilhe seus frutos com o povo e não os concentre em poucas mãos. A concentração de riqueza gera restrição de direitos”, reflete Flávia Calé, presidenta da ANPG.

A Associação Nacional de Pós-Graduandos tem sido um instrumento importante ao elevar muitas mulheres jovens à condição de protagonistas no debate de ciência, tecnologia e pesquisa como elementos indispensáveis a um modelo de desenvolvimento inclusivo. Desde a sua fundação, em 1986, a entidade teve pioneirismo em elevar mulheres aos postos de direção, sendo 10 as presidentas nesse período. A atual direção conta com paridade de gênero entre seus membros. “A luta das mulheres é necessariamente interligada a um projeto de nação justo e democrático. Ser vanguarda na construção desse projeto é o desafio a que estão chamadas as pós-graduandas”, conclui Flávia.

Por Fernando Borgonovi

Foto: Karla Boughof | Cuca da UNE

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) recebeu com grande pesar e apreensão a nota emitida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG), informando a situação e ações da agência de fomento diante dos cortes e contingenciamentos em seu orçamento, realizados pelo governo do estado de Minas Gerais.

Essa restrição orçamentária atingirá, além de cortes em investimentos em projetos de pesquisas, supressão de bolsas Bolsa Iniciação Científica e Tecnológica (BIC) e BIC Junior (equivalentes a R$ 3 milhões por mês) e bolsas inativas da pós-graduação no ano de 2018 (R$ 500 mil mensais), mas que poderiam ser endereçadas a pós-graduandos ingressantes no ano de 2019.

Esse cenário é consequência direta do estrangulamento de recursos que a FAPEMIG vem sofrendo desde 2016, e que se aprofunda ainda mais no governo Zema. O governo estadual não tem honrado o compromisso de transferir para a fundação o percentual constitucional de 1% da receita líquida do Estado, assegurado nos termos art. 212 da Constituição mineira. Esse repasse, se cumprido, nos dias atuais equivaleria a um orçamento próximo a R$ 430 milhões reais por ano.

É inaceitável o descaso com o qual o governo estadual tem tratado a ciência mineira e, por conseguinte, suas instituições e pesquisadores. O desmonte do Sistema Estadual de Ciência e Tecnologia aprofunda ainda mais a crise que vive Minas Gerais, na medida em que não constrói os elementos essenciais que poderiam contribuir para a sua superação. Investimentos em ciência podem contribuir positivamente tanto na resolução de problemas sociais quanto econômicos.

Esse descaso com a FAPEMIG é um espelho do que vem sofrendo as Fundações de Amparo à Pesquisa por todo o país. Elas têm sofrido fortes ataques, que ameaçam as instituições, a partir de um projeto político que não coloca a ciência como prioridade. A ANPG tem mantido diálogo aberto, franco e constante com a FAPEMIG e as diversas FAPs por entender o papel que elas jogam na produção cientifica brasileira, especialmente no que concerne ao financiamento da pesquisa em seus estados e a promoção do desenvolvimento regional, buscando soluções criativas para o enfrentamento da crise fiscal que afeta estados e municípios. Em outros momentos, a ANPG conseguiu garantir prioridade no pagamento das bolsas e a rápida normalização dos repasses em atrasos, como ocorreu em 2018. Mas o pagamento em dia não é o bastante, precisamos que os recursos integrais sejam repassados e mais investimentos sejam realizados no campo cientifico. Não aceitaremos mais retrocessos.

Por isso, defendemos como alternativas para o financiamento da área, em Minas Gerais, a destinação dos recursos dos royalties do minério para Ciência e Tecnologia. Além disso, em âmbito nacional, defendemos a destinação de 25% do Fundo Social do Pré-Sal para Ciência e Tecnologia. Essas são importantes bandeiras a serem encampadas pela comunidade científica e sociedade civil como caminhos para a recomposição orçamentária em todas as esferas governamentais.

Certos de que não há desenvolvimento sem investimento em ciência, tecnologia e inovação e muito menos haverá saída para a crise que o estado enfrenta desvalorizando os que produzem pesquisa, a ANPG vem a pública para:

● Repudiar os cortes orçamentários da FAPEMIG, inviabilizando sua atividade fim que é financiar a pesquisa científica no Estado de Minas Gerais.

● Exigir o retorno das bolsas inativas e dos investimentos para a realização dos projetos aprovados para iniciar em 2019.

● Exigir que o governo do estado de Minas Gerais honre com o repasse constitucionalmente previsto à FAPEMIG, destinando 1% do das receitas do estado.

● Exigir o imediato descontingenciamento dos 40% do orçamento da FAPEMIG destinados a projetos realizados pela Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia. Consideramos a Secretaria de C&T deve ter seu orçamento próprio para viabilizar seus projetos, ampliando os escassos recursos da FAPEMIG.

● Sugerir ao governo do estado a criação de um Grupo de Trabalho do Fórum Mineiro de Instituições de Ensino Superior, junto à FAPEMIG, a Secretaria de Fazenda, ANPG e outras instituições científicas, para que possamos encontrar soluções para a superação desse cenário.

Por fim, a ANPG convoca todos os estudantes, pós-graduandos e pós-graduandas de Minas Gerais para se somarem à construção do Dia Nacional de Paralisação em defesa da valorização da pesquisa e dos pesquisadores no Brasil, no dia 28 de março de 2019. Na ocasião, além de agregar força à luta pela reversão dos cortes na FAPEMIG, ampliaremos os esforços em todo o país pelo Reajuste e Manutenção das Bolsas Já, uma vez que é o 6º ano que não há reajuste nas bolsas federais.

São Paulo, 1 de Março de 2019

Associação Nacional de Pós-Graduandos

Em uma atualização publicada hoje da nota em que comunicou a suspensão dos programas BIC e BIC-Júnior, a Fapemig garantiu que não haverá cortes ou cancelamentos nas bolsas de pós-graduação já em andamento – permitindo, inclusive, a substituição do bolsista com a manutenção da cota de cada programa de pós-graduação.

O comunicado, que também informou a suspensão de novos editais para concessão de bolsas de estudo, causou pesar e apreensão em toda a comunidade científica e acadêmica pelos impactos negativos que acarreta para a pesquisa científica. A instituição alega atraso nos repasses constitucionais de recursos que devem ser feitos pelo governo, em virtude da crise fiscal que afeta o estado de Minas Gerais.

Para Flávia Calé, presidenta da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), embora os cortes não atinjam os estudantes da pós imediatamente, é preciso lutar para a normalização dos repasses para a Fundação. “É muito grave contingenciar esse recurso, que é uma das mais importantes fontes de custeio da pesquisa científica no estado. A suspensão de programas como o BIC e o BIC-Júnior é um desestímulo a estudantes que estão fazendo a iniciação e podem ter que largar seus projetos”, afirmou. “A ANPG vai lutar para solucionar o problema e para que o governo normalize os repasses, que são dever constitucional”.

O cobertor está curto há tempos

A situação, que agora chega a paralisar programas essenciais, é o ponto crítico de uma crise financeira que se prolonga e foi agravada com o bloqueio judicial de quase R$450 milhões das contas do governo mineiro com a União, em 2018.

Na ocasião, quando as dificuldades de caixa já afetavam desde os salários de servidores estaduais até os repasses à Fapemig, a ANPG e APGs locais conquistaram o compromisso da administração anterior de incluir a manutenção das bolsas de estudos entre as prioridades de pagamentos, na liberação dos primeiros recursos.

Em 7 de janeiro de 2019, o bloqueio do recurso foi levantado pelo Supremo Tribunal Federal. O ministro Dias Tofolli observou em sua decisão à época que a manutenção do bloqueio “impactará drasticamente a prestação de serviços públicos elementares que dependem das receitas decorrentes de recursos constitucionais”, segundo noticiou o jornal “O Tempo”.

Thiago Dias, vice-presidente Sudeste da ANPG, entende que é necessário cobrar prioridade aos gestores. “Quase a totalidade da pesquisa científica no Brasil se produz dentro da Universidade. É preciso, portanto, o comprometimento do poder público com o financiamento e incentivo à produção científica”, disse.

Diante do exposto, a ANPG espera que o governo de Minas Gerais seja sensível ao enorme impacto que tal situação causa à continuidade dos programas de pesquisa científica e regularize os repasses constitucionais à Fapemig.

Falta de financiamento é problema nacional

Esse episódio se inscreve no quadro geral de agonia financeira que atravessam a maioria das Fundações de Amparo à Pesquisa no país, o que, por sua vez, é reflexo da desvalorização da ciência e tecnologia como elemento estratégico para o desenvolvimento econômico e a geração de riquezas no país.

A ANPG vê urgência no incremento dos investimentos em ciência, tecnologia e inovação e lançou como campanhas nacionais da entidade a destinação de parte dos recursos do fundo social do pré-sal para a área, assim como o reajuste imediato para as bolsas de mestrado e doutorado.

“Não há desenvolvimento e soberania sem incentivo à pesquisa e sem o comprometimento do Estado com seus pesquisadores”, argumenta Mariana Bicalho, diretora de políticas de emprego da ANPG.

De São Paulo, Fernando Borgonovi

Em nota, a Associação Nacional dos Pesquisadores e Professores de História das Américas (ANPHLAC) condena a atitude do Ministério das Relações Exteriores que retirou a disciplina de História dos Países da América Latina do currículo do Instituto Rio Branco. 
Ao adotar tal medida, o Brasil dá mais um passo em sentido contrário à história de sua política externa, que manteve a busca de relações amistosas e de cooperação com os países do subcontinente como uma de suas balizas.
A ANPG se solidariza com a ANPHLAC e ressalta a importância estratégica para um país das dimensões do Brasil em aproximar as relações políticas e diplomáticas com as nações vizinhas.

Leia na íntegra:

http://anphlac.fflch.usp.br/http%3A/%252Fanphlac.fflch.usp.br/noticia_110

A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG), consequente com a diretriz de valorização da ciência e tecnologia como área estratégica para o desenvolvimento nacional, tem procurado sensibilizar o poder público para a necessidade de reajuste das bolsas de estudo ofertadas para mestrado e doutorado. Os valores, de R$ 1500 para mestrado e R$ 2200 para doutorado, são incompatíveis com a exigência de dedicação exclusiva do bolsista, pois além de insuficientes diante do custo de vida, estão defasados por seis anos sem reajustes.

Neste sentido, na última semana, a ANPG manteve reuniões institucionais com o presidente da CAPES, sr. Anderson Correia, o presidente do CNPq, João Luiz Filgueiras de Azevedo, e o secretário-executivo do Ministério da Educação, Luiz Antônio Tozi. Nessas oportunidades, a presidenta Flávia Calé apresentou a campanha nacional pelo reajuste de bolsas, aprovada no 8º Encontro Nacional de Pós-Graduandos, como uma necessidade urgente para a produção científica nacional, uma vez que 90% da pesquisa brasileira é realizada na pós-graduação.

O Congresso Nacional também tem sido procurado para viabilizar apoio político às pautas da entidade. O senador Izalci Lucas (PSDB-DF), que acompanhou a audiência com o MEC e a CAPES, levou o pleito dos estudantes para a tribuna do Senado. “Como esse país pode ir para frente, se não valoriza a educação e os pesquisadores?”, questionou o parlamentar. “A gente precisa priorizar com ações e não com discurso. Educação e Ciência e Tecnologia não se faz com discurso, se faz com recurso”, apontou.

Izalci Lucas também se somou à defesa de que parte dos recursos do Fundo Social do Pré-Sal seja destinado à Ciência e Tecnologia, bandeira defendida pela ANPG. “Precisamos destinar parte (dos recursos) para Ciência, Tecnologia e Inovação, até porque o pré-sal existe em função das pesquisas, em função da inovação”, disse, defendendo a aprovação de projeto de lei que trata do tema e já tramita no Senado.

Segundo Flávia Calé, a ideia é que a ANPG intensifique a luta para que as campanhas ganhem apoios cada vez mais amplos. “As campanhas pelo reajuste de bolsas e pela destinação de recursos do pré-sal são estratégicas para a valorização da pesquisa científica e da Ciência e Tecnologia, por isso, vamos continuar buscando apoio, mobilizando a comunidade acadêmica, dialogando e pressionando os órgãos governamentais e o parlamento. Nessas questões, a vitória dos pós-granduandos será uma conquista para o país”, disse.


A Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) participou, no dia 19 de fevereiro, em Brasília, da primeira reunião do Conselho Superior da CAPES em 2019. Na ocasião, em que quatro conselheiros foram empossados e teve as presenças dos ministros Marcos Pontes (MCTIC) e Ricardo Vélez (Educação), o novo presidente Anderson Ribeiro Correia apresentou como metas de sua gestão a aproximação com o setor privado, a integração do trabalho das agências de pesquisa e maior correspondência entre os investimentos e os resultados avaliados.

Flávia Calé, presidenta da ANPG, resgatou a história da CAPES como instituição de fomento fundamental ao Sistema Nacional de Ciência e Tecnologia, sem o qual torna-se débil qualquer projeto de desenvolvimento do país. “Para pavimentar os caminhos de inserção soberana do Brasil no cenário econômico mundo, combater as desigualdades estruturais do país e assegurar o desenvolvimento econômico e social, é preciso desenvolver a ciência nacional e preservar suas instituições”, argumentou.

Defendendo a valorização da pesquisa, Flávia apontou que 90% da produção científica brasileira se deve aos estudantes de pós-graduação, embora estes sejam cada vez mais impactados pela falta de investimentos à altura das necessidades e com o não reajuste de bolsas de estudos desde 2013. “Apenas com a correção inflacionária, as bolsas de mestrado e doutorado, que hoje valem 1500 e 2200 reais, chegariam a 2063 e 3026 reais”.

A presidenta ainda lembrou que pós-graduandos enfrentam o obstáculo da falta de direitos estudantis e trabalhistas, como décimo terceiro e férias, mesmo sendo profissionais de caráter híbrido – estudante e trabalhador da pesquisa. Além disso, os pós-graduandos atrasam, em média, seis anos a entrada no mercado de trabalho formal e têm dificuldades para encontrar vagas compatíveis com as especialidades de suas formações. “Esse cenário, muitas vezes, desestimula a ciência como alternativa de carreira para os jovens, acarretando em desperdício de capital humano e na “fuga de cérebros” para outras nações”.

Ao lado da campanha de valorização e reajuste das bolsas, Flávia Calé apresentou que a ANPG terá como uma das principais pautas de sua gestão a aprovação da destinação de 25% dos recursos do Fundo Social do Pré-Sal para o investimento em ciência e tecnologia, dando nova perspectiva orçamentária ao MCTIC e elevando o setor à condição de política estratégica de Estado. “A enorme riqueza representada pelo pré-sal só é conhecida e existe tecnologia para sua exploração graças ao desenvolvimento científico e à pesquisa dedicada. Portanto, dinheiro para pesquisa não é gasto. Ao contrário, é investimento que dá retorno”.

REUNIÃO CAPESPosse dos novos integrantes do Conselho Superior da CAPES. (Foto: Haydée Vieira - CCS/CAPES)

Boaventura de Souza Santos é diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e Coordenador Científico do Observatório Permanente da Justiça Portuguesa. Na 11 Bienal da Une ele foi homenageado na categoria Projetos de Extensão. Em sua aula na Conferência falou abertamente do pensamento reacionário que atingiu o Brasil e de saídas para mudar a Educação.

Boaventura também se dirigiu ao Ministro da Educação, Ricardo Vélez Rodrigues: “Senhor Ministro é um ignorante. Há 100 os estudantes de Córdoba fizeram uma grande reforma com o objetivo que a Universidade deixasse de ser das “elites do atraso” e se tornassem do povo. Não ao contrario como o senhor propõe”.

Jogo rápido com o professor Boaventura

Batemos um papo rápido com Boventura de Souza Santos. Confira!

O mundo, especialmente a América Latina está sendo atingido por uma onda conservadora. Vamos falar um pouco sobre isso?

Esse conservadorismo esteve sempre latente e nunca foi totalmente derrotado na América Latina. São países com heranças colonialistas e muito dependentes de economias mundiais. O conservadorismo está intrinsicamente ligado as “fábricas” de ódio, medo e mentira que são as bases do pensamento reacionário. Esse pensamento atinge uma população fragilizada e temos como resultado o que estamos vivendo agora.

E qual é o papel do estudante na luta contra esse conservadorismo?

Os estudantes têm que assumir realmente sua responsabilidade. São sujeitos históricos semelhantes aos estudantes de Córdoba e os de maio de 68. Agora, vocês estudantes de 2019 vão assumir o papel de manter a educação independente. Não vão se deixar intimidar e vão assumir uma ofensiva contra esta avalanche conservadora e reacionária.

Está é uma grande Bienal, com uma diversidade imensa e o espaço ideal para traçar estratégias de debates sobre a Educação no Brasil.

Na sua opinião, como os estudantes podem transformar suas Universidades?
Há 100 anos os estudantes de Córdoba lutavam  pela Universidade Pública e gratuita. Os estudantes de agora precisam, além desta pauta, avançar em outras questões: trazer mais diversidade e o conhecimento de fora para dentro. Abrir mesmo as portas da Instituição para as comunidades.

O que temos que ficar atentos com o modelo atual de Universidade?

A Universidade foi tomada pelo capitalismo universitário, no sentido de transformar a Universidade em uma empresa. A Reforma de Córdoba é oposto de tudo isso. A proposta é uma universidade aberta e não apenas para uma elite. Atualmente as Universidades estão seguindo em duas direções: uma do movimento em transforma-la em empresa e a outra dos que sabem que o conhecimento produzido é bem comum.

A Associação Nacional de Pós-Graduandos vem por meio desta repudiar as declarações de Carlos Bolsonaro sobre pesquisa realizada por um estudante de pós-graduação da FURG e prestar sua solidariedade a este estudante.
Desde o dia 9 de fevereiro, o pós-graduando Diego Miranda Nunes – vinculado ao mestrado do Programa de Pós-Graduação em Geografia da FURG – tem sido alvo de perseguição e assédio moral pelas redes sociais em decorrência de uma manifestação do vereador Carlos Bolsonaro (PSL – Rio de Janeiro). Em seu twitter, Carlos publicou:
Meu Deus! Isso é uma *dissertação de mestrado! Este senhor recebeu dos cofres públicos, nos últimos 2 anos, uma bolsa de R$1.500, pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Nota-se porque o Brasil está no nível de educação que está. Tire suas conclusões!
A razão para tal perseguição é a temática da pesquisa, a qual situa-se no campo dos estudos de gênero e sexualidades.  Nos últimos anos, têm sido crescentes as tentativas de criminalização e constrangimento de pós-graduandos, professores e pesquisadores que realizam seus trabalhos sob uma perspectiva crítica ao pensamento hegemônico/tradicional da sociedade.
Entendemos que a Universidade é um espaço democrático e aberto à pluralidade de ideias e que seus membros devem possuem total liberdade para exercer o ato de realizar pesquisa. A cerca dos estudos de gênero e sexualidades, há uma vasta produção científica que demonstra a importância das pesquisas na área, sobretudo devido às violências cotidianas sofridas pela população de Lésbicas Gays Bissexuais e Travesti e Trans.
Não suficiente, Carlos Bolsonaro e os demais seguidores que têm perseguido Diego estão, ao mesmo tempo, questionando os critérios de avaliação das/dos professores da FURG. Nesse aspecto, ressaltamos que as dissertações e teses são analisadas a partir de métodos científicos de análise, reconhecidos internacionalmente no universo acadêmico e avaliada pelos seus pares com membros internos e externos à Instituição do estudante, exatamente como esclarecido pela professora Susana Maria Veleda da Silva*, orientadora de Diego, em nota veiculada pela instituição.
Ademais, repudiamos também a tentativa sorrateira do vereador carioca em questionar os critérios de concessão de bolsas da CAPES por meio do tema de pesquisa. Nesse momento, o que há de se questionar não são temas de pesquisa, cerceando a liberdade de didático-cientifica proclamada em nossa Carta Magna, mas, sim, os valores das bolsas de estudo que os pós-graduandos recebem e que não são reajustadas há seis anos, tornando-se absolutamente insuficientes para cobrir as necessidades básicas de cada estudante nesse país. Há de se destacar que a pós-graduação brasileira é responsável diretamente por quase 90% da ciência produzida no país. Somos o pilar fundamental desse setor estratégico ao desenvolvimento Nacional.
A Educação no país tem passado por sucessivos cortes e contingenciamento em seu orçamento, atingindo em cheio as Universidades públicas. Diversos Estados brasileiros passam por períodos graves de sucateamento das escolas da rede pública, como o Rio Grande Sul, com parcelamento de salário dos professores e fechamento de dezenas de unidades. Portanto, evidentemente, há inúmeros problemas na educação pública brasileira, mas por certo não têm relação com a temática pesquisada pelos pesquisadores brasileiros.
Além disso, em tempo no qual notícias falsas de WhatsApp chegam com maior facilidade à população do que trabalhos científicos, os quais são produzidos com rigor metodológico, cautela da pesquisa, submetidos à revisão por pares e avaliados pelo debate razoável, os pesquisadores estão sendo criminalizados pelo seu fazer científico, tão necessário ao desenvolvimento social. É preciso reconhecer que existem campos de conhecimento que estão sob ataque, no intento de enfrentar o dito “Marxismo Cultural”, dentre eles os estudos sobre gênero e diversidade, os quais devem ser compreendidos como campos de investigação sobre a vida em sociedade e, também, desfrutar do livre pensar para seu desenvolvimento. A fala do vereador do PSL-RJ, se aliadas às notícias de possíveis mudanças nos critérios de concessão e cortes de bolsas, mostram claramente a tentativa de perseguição e intimidação à comunidade dos espaços de produção de conhecimento em universidades e institutos de pesquisa. Outrossim, devem ser compreendidas não apenas como tentativa de inibição da autonomia universitária e de cátedra, mas também como intenção de renascer as ideias obscurantistas a respeito das relações humanas de convívio social e para com a natureza.
A ANPG coloca-se ao lado de todos os estudantes de pós-graduação que, como Diego, tem sido alvo de perseguição pela realização das suas pesquisas. Não daremos nenhum passo atrás na defesa das Universidades públicas e demais instituições de financiamento público de pesquisa, e lutaremos diariamente pela sua ampliação e popularização!
 
Associação Nacional de Pós-Graduandos
São Paulo, 12 de fevereiro de 2019.
Leia na íntegra a nota de esclarecimento: https://www.furg.br/reitoria/informes-da-reitoria/nota-de-esclarecimento