Category

Artigos

Category

Por Isaac Roitman*

Os jovens no Brasil têm contribuído ativamente na construção de um país melhor, sendo protagonistas de transformações importantes e defendendo sempre os direitos da sociedade. O primeiro registro histórico desse protagonismo é de 1710, quando mais de mil soldados franceses invadiram o Rio de Janeiro. Uma multidão de jovens estudantes de conventos e colégios religiosos enfrentou os invasores que foram expulsos. A fundação da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1827 pode ser considerado o primeiro passo para a criação do movimento estudantil, que integrou as campanhas pela Abolição da Escravatura e pela Proclamação da República. Em 1937 foi criada a União Nacional dos Estudantes (UNE) que até hoje representa os estudantes universitários. Em 1948 os estudantes secundaristas lideraram a campanha “O Petróleo é Nosso” e fundaram a UNES (União nacional dos estudantes secundaristas) que recebeu um novo nome em 1949: União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES). Em 1986 foi criada a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG). As entidades estudantis tiveram papel importante durante o período militar e em outros episódios da história brasileira, tais como, no movimento de diretas já e no impeachment do Presidente Collor.

Em 2015 uma nova modalidade de protesto foi introduzida na cidade de São Paulo. Os estudantes que se posicionaram contra o fechamento de escolas começaram a ocupação de escolas. Nesse mesmo ano estudantes de Goiânia e Anápolis também ocuparam escolas protestando contra a terceirização das escolas. Mais recentemente (2016) estudantes ocuparam escolas no Rio de Janeiro. Os estudantes defendem a greve dos Professores, reivindicam reformas nos espaços pedagógicos da escola, novos aparelhos de ar-condicionado, maior segurança e que nenhuma turma tenha mais de 35 alunos.

Segundo Carlos Giovinazzo Junior, professor e pesquisador da PUC de São Paulo, apesar dos movimento estudantis já terem tido voz na época da ditadura e no impeachment de Collor, por exemplo, desta vez é diferente: além de protagonistas, a luta desses jovens é por algo que lhes pertencem. Ele também aponta que as ocupações recentes das escolas estaduais mostra que o adulto não tem mais controle sobre os jovens.

As reivindicações dos estudantes, por meio de suas entidades representativas, em aperfeiçoarmos a nossa democracia, em termos a destinação de 10% do PIB para a educação, a democratização dos meios de comunicação, o incentivo de programas de inclusão social que permitem a manutenção dos jovens carentes nas universidades, o passe livre, alojamento, refeições, meia entrada e outras, são perfeitamente legítimos. No entanto, a bandeira principal deverá ser a exigência de uma educação de qualidade desde o ensino infantil até a pós-graduação. Uma educação que possa preparar para um desempenho profissional de qualidade, mas, que sobretudo, promova os valores e virtudes da cidadania. Uma educação que paute para toda a vida a ética, a solidariedade, a convivência positiva com a diversidade, o respeito a natureza etc. É pertinente lembrar o pensamento de Goethe: “A juventude é a embriagues sem vinho”. Vamos todos tornar realidade os nossos sonhos e a conquista utópica de termos uma verdadeira civilização. Os estudantes no Brasil representam mais que 25% da população e cabe a eles e a elas as grandes transformações que o Brasil demanda. Nenhum estudante pode ficar de fora nessa empreitada. Lembremos a frase de Che Guevara: “Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”. Bola para frente.

*Isaac Roitman é Professor da Universidade de Brasília e membro titular da Academia Brasileira de Ciência desde 1995.

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Artigo por Cristiano Flecha*

“De que lado você samba? Você samba de que lado?”
Chico Science

A Frente Brasil Popular convoca atos por todo o Brasil para o dia 18/3, sexta-feira. A ANPG apoia e participa dos atos. Nesse artigo quero explicar melhor a importância desses atos dentro do momento decisivo por que passa o pais.

Os atos do dia 18 de março foram convocados em uma reunião de emergência da Frente Brasil Popular após a condução coercitiva de Lula no último dia 4 de março. Uma ação de força, repudiada inclusive por ministros do Superior Tribunal Federal, já que a ação desrespeita a própria lei.

A condução coercitiva de Lula foi um ataque aos direitos elementares do ex-Presidente – observem – como cidadão. Por isso é uma agressão à própria democracia, foi um gesto no sentido de um estado de exceção, onde qualquer um pode ser preso sem que exista motivação ou justificativa legal, sendo gravíssimo.

De certa maneira, isso escancarou a manipulação política a que se presta o processo da Lavo-Jato. A ideia, entorno da qual ela se organiza é um processo de criminalização da política e vai de mãos dadas com o “fora partidos” agitado nos atos do último dia 13 que, como bem lembra Marilena Chaui, sendo o prelúdio de uma política fascista que se esgueira por trás do slogan “meu pais é meu partido”.

A campanha de ódio ao Partido dos Trabalhadores e a Lula tem um objetivo político bastante específico, o que se quer é destruir não só o PT, mas todas as organizações populares dos sindicatos às entidades estudantes, dos movimentos por moradia às associações de bairro. Por isso, não é um acaso que os atos do dia 13 foram “preparados” com ataques à sede da UNE, ao sindicato dos metalúrgicos do ABC, ao sindicato dos bancários e a sedes do PT e do PCdoB.

Os arquitetos desse movimento reacionário sabem que para impor a retirada de direitos dos trabalhadores e estudantes é preciso destruir suas organizações de luta. Eles sabem que é preciso derrotar as organizações populares para abrir caminho para a espoliação das riquezas nacionais, a começar pela entrega do Pré-Sal às petroleiras americanas.

Diante disso tudo, ainda é preciso dizer que é uma contradição que o governo de Dilma tenha se envolvido com a negociação no Senado para a aprovação a lei que quebra o regime de partilha, talvez a mais importante medida de soberania nacional adotada pelos governos do PT. É uma contradição que seja o governo Dilma que esteja aplicando uma política de ajuste fiscal às custas dos gastos em Educação e Saúde.

Tudo isso na prática ajudou os golpistas, tornando o governo a cada dia mais impopular. Daí que não haja como dissociar as coisas, a luta para que Dilma faça um governo que proteja os trabalhadores, a juventude e a economia nacional da crise (acabando com essa política econômica orienta dar para o superávit fiscal) e a luta contra o próprio golpe de Estado “constitucional” que se articula contra o seu governo.

A situação é complexa, mas, para aqueles que estão firmes do lado dos interesses dos trabalhadores e da juventude, podem ver claramente o que está em jogo. Eles sabem de que lado eles devem sambar. Para todos esses, independente de que partido político façam parte ou mesmo se não fazem parte de partido político algum, unificar na luta contra o golpe e o ajuste indo e ajudando a convocar os atos de 18 e 31 de março é um imperativo urgente.

A situação é grave, é preciso fugir do ceticismo e do fatalismo que certas posições políticas levam. Nesse sentido, é preciso compreender o caráter espúrio (verdadeiramente criminoso perante os interesses dos trabalhadores) da política de certas organizações que se auto-proclamam “revolucionárias” e “socialistas”. A posição política dessas organizações faz é dividir, em vez de unificar a luta. Diante da ameaça real – e imediata – da instauração de um estado de exceção no pais o que essas organizações fazem é, nos fatos, ajudar os golpistas.

Não é possível saber qual será o desenlace dessa situação. Nada está resolvido. É a luta que vai decidir, a mobilização popular, a força e extensão da organização dos trabalhadores e estudantes pode impor derrotar aos golpistas. As batalhas decisivas estão à frente!

*Cristiano Flecha é vice-presidente da ANPG e doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

“Que nada nos defina, que nada nos sujeite.

Que a liberdade seja a nossa substância”.

BEAUVOIR, Simone.

 A declaração “é uma menina” ou “é um menino” estabelece, já no período de gestação, uma série de fronteiras que serão reforçadas ao longo da vida. São fronteiras que atribuem lugares e papéis sociais às mulheres e aos homens desdobrando as desigualdades de gênero. Em diferentes contextos e circunstâncias, no âmbito da família, da escola, do mundo do trabalho, dos espaços institucionais, da religião, da sexualidade, da saúde e das representações estas fronteiras serão reforçadas e meninas e meninos receberão tratamento diferenciado.

Uma mulher recebe, em média, um salário 30% menor que o colegahomem que exerce a mesma função. As mulheres estão em menores números nos cargos de comando. Encontram-se sub-representadas nos espaços de tomada de decisão. No ônibus, precisará se afastar do corpo do outro passageiro para não sofrer abusos. Será julgada pelas roupas que usa e pelos lugares que frequenta. Seu corpo é motivo de regulação e análise, através de um ideal de beleza. Se for negra, se verá sempre em representações negativas. As revistas apresentam os modelos de relacionamento e como as mulheres devem se portar para “fisgar” um homem.

Ao sentir desejo por outra mulher será julgada e estereotipada. Às mulheres trans restam a marginalidade e incompreensão. Se optar por ficar sozinha, será vista como mal amada e infeliz. Caso tenha vida sexual ativa será julgada. Encontrará dificuldades de acesso aos métodos contraceptivos e educação sexual. Se engravidar, poderá correr o risco de enfrentar essa fase da vida sozinha, assumindo a responsabilidade pela vida gerada.

Se optar por um aborto, e não tiver dinheiro, correrá sérios riscos de saúde e poderá até morrer em decorrência de um procedimento malfeito. No ambiente doméstico, gastará nove vezes mais tempo se dedicando aos afazeres do que seu parceiro que se gabará de “ajudar”. Nesse mesmo ambiente, essa mulher poderá sofrer violência emocional, física e/ou sexual. Se decidir se separar, corre o risco do ex-parceiro vir a agredi-la e até matá-la. E a nossa sociedade, se recusando muitas vezes a reconhecer que o machismo mata, justificará com argumentos do tipo “Ele amava demais”, “foi crime passional”, “ela que traiu”. Ela virará estatística.

Todas estas situações traduzem a necessidade de rompermos com o machismo e lutarmospela transformação da vida das mulheres e, em alguma medida, também dos homens. Para isso, precisamos desconstruir a falsa ideia de que machismo e feminismo são inversamente proporcionais. O machismo é essencialmente antimulher, mas o feminismo não é anti-homem. O feminismo não é o combate aos homens de carne e osso. Ao contrário, é o combate a uma estrutura de dominação que reproduz desigualdades entre mulheres e homens. O feminismo tem o desígnio de emancipar as mulheres!

Emancipar as mulheres: um dever de todas e todos!

O dia 08 de março, consagrado como o Dia Internacional da Mulher, foi instituído como uma data para lembrarmos as lutas travadas em busca de vencer as desigualdades de gênero e emancipar as mulheres. Apesar de muitas vezes se imprimir a marca das flores e das “lembrancinhas”, a data resiste e nos indica a necessidade de pensarmos nos desafios a serem enfrentados para uma sociedade mais justa e igualitária para mulheres e homens.

Felizmente o feminismo tem se popularizado, fazendo com que o debate chegue a mais pessoas. As mulheres, por sua vez, tem se envolvido cada vez mais e mais cedo na luta pela transformação. É preciso, entretanto, fazer ainda mais! O feminismo precisa ganhar mais adeptas e adeptos à luta pela superação da opressão feminina. É preciso cada vez mais diálogo. A transformação da vida das mulheres é dever de todos aqueles que acreditam na necessidade de um mundo melhor!

*Alecilda Oliveira é diretora da ANPG, Pós-graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia.

Por Caiubi Kuhn*

Durante o último mês escrevi quatro artigos abordando sobre os desafios da juventude Brasileira. Em 2050 seremos a maior geração de idosos que o país já teve, e a grande pergunta é: será que dá tempo para fazer as mudanças necessárias para que em nossa melhor idade tenhamos condições dignas de vida?

Como tenho dito já há muito tempo, o principal desafio é dar formação e oportunidades para que nós ainda jovens, para que consigamos trilhar caminhos que auxiliem no desenvolvimento social nosso e do nosso país. Não estou falando de nos orgulharmos de dizer que existem exceções que dão certo, que conseguem Ascenção social. Estou falando de dar boas oportunidades para toda a juventude. Precisamos garantir uma boa educação e oportunidade para todos!

A transformação ocorre com mais facilidade em ciclos de desenvolvimento econômico, sendo assim, o país precisa voltar a crescer, mas precisamos saber aproveitar esses momentos de crescimento para gerar oportunidades e reduzir as desigualdades sociais e melhorar as condições de vida de toda a população. Para termos qualidade de vida é preciso investir na humanização das cidades, transporte decente, parques, saneamento básico, ou seja, qualidade de vida para todos os cidadãos.

Estas mudanças podem contribuir para enfrentar uma série de outros problemas que existem no Brasil como, por exemplo, a questão da segurança pública. Pois um país com menos desigualdades e mais oportunidades certamente terá mais segurança. Agora para se fazer essas mudanças antes de chegarmos em 2050, teremos que começar ontem. Não podemos mais perder tempo. Precisamos para de ser o país do futuro e passar a ser o país do presente, o país da mudança, das oportunidades e das transformações sociais.

*Caiubi Kuhn é professor do Instituto de Engenharia da Universidade Federal de Mato Grosso e Diretor de Política Educacional da Associação Nacional de Pós-graduandos.

E-mail: [email protected]

Leia outro artigo de Caiubi:
Os jovens e os espaços de decisões
Acesso ao emprego, um desafio posto para a nossa juventude!
A educação dos jovens e o cenário mundial
A juventude de hoje e o Brasil de 2050! Como será o futuro?

Por Caiubi Kuhn*
Independente da posição política de cada um, me alegra muito ver que nos últimos anos os assuntos referentes a política nacional estão cada vez mais presente nas conversas entre jovens. O problema é que muitos jovens não acreditam que seja possível mudar a política brasileira. Isso é um sério problema!
No geral a geração que está no poder no Brasil é a mesma que participou do processo de redemocratização do país. E isso não é só nas prefeituras, nas câmaras de vereadores, nas assembleias legislativas e no congresso nacional, esse aparelhamento também ocorre em diversas outras instituições que existem em nossa democracia. O pior é que isso parece que não vai mudar tão cedo, na última reforma política, por exemplo, reduziram o tempo de campanha para 45 dias agora, afetando assim os candidatos novos e sem recursos.
Digo às vezes que a juventude hoje apesar de representar uma grande porcentagem da população ela não tem voz. E pior nem mesmo é escutada ou se quer tem políticas direcionadas para esse público. Os dados relativos a juventude são preocupantes, em Mato Grosso, por exemplo, 69,7% das mortes de jovens, trata-se de morres por mortes violentas, sendo 31% causados no transito, 8,8% suicídios, este caso assim como o das mortes no trânsito é muito preocupante, a cada 10 jovens que morrem 1 é por suicídio e 3 no trânsito. A evidente necessidade de construção de políticas públicas para juventude fica clara quando comparados com os dados da população não jovem em que apenas 9,6% das mortes são violentas.
O acesso à educação infelizmente ainda não está garantido para toda a juventude, segundo o CENSO de 2010 1,8% dos jovens mato-grossense entre 10 a 17 anos de idade são analfabetos.
Segundo a PNAD (2012) realizada pelo IBGE, no Brasil 19% dos jovens de 15 a 29 anos não trabalham nem estudam, 45,2% somente trabalham, 13,6% trabalham e estudam e 21,6% estudam apenas. Conforme a PNAD (2012) dentre os brasileiros que nem estudam e nem trabalham (Geração Nem-Nem) na faixa etária de 15 e 29 anos 70,3% do público é composto por mulheres. Entre 25 a 29 anos os números se ampliam ainda mais, sendo que o público feminino representa 76,9% e entre os jovens de 15 a 17 anos 59,6% da geração “Nem-nem” são mulheres. É preciso entender esse contexto e conseguir criar políticas de inclusão para esse público.
Estes são somente alguns dos desafios que envolvem as políticas para a juventude. Mas quando será que nossos governantes tratarão estes temas como prioridades? Até quando aceitaremos essa verdadeira chacina da juventude? E quando será que nós jovens vamos conseguir ter voz no Brasil. Vamos conseguir ter essa realidade que foi exposta acima modificada valorizando cada vida que esta iniciando, dando oportunidades de desenvolvimento humano e social para cada jovem no Brasil. Quando será que os gestores Brasileiros irão de fato construir e dedicar esforços para as novas gerações?

*Caiubi Kuhn é professor do Instituto de Engenharia da Universidade Federal de Mato Grosso
Diretor de Política Educacional da Associação Nacional de Pós-graduandos.
E-mail: [email protected]

Leia outro artigo de Caiubi:
Acesso ao emprego, um desafio posto para a nossa juventude!
A educação dos jovens e o cenário mundial
A juventude de hoje e o Brasil de 2050! Como será o futuro?

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Por Gabriel Nascimento*

As transformações sociais levadas a cabo pela era Lula, fazendo um reviravolta na senzala e casa grande no Brasil, não chegaram ainda à pós-graduação. Os doutores negros ainda representam a minoria e os programas de pós-graduação em áreas estratégicas têm composição absolutamente branca e sem diversidade étnica.

Essa é uma discussão inadiável. Entidades como a Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG) vêm discutindo o assunto com suas bases. A discussão ganhou um registro importante depois da criação pela Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (Capes), agência ligada ao MEC que regula e avalia a pós-graduação no país, do grupo de trabalho Inclusão Social na pós-graduação. O grupo tem a presença de reitores, pesquisadores e pós-graduandos, em que participo representando a ANPG e os pós-graduandos brasileiros.

A discussão é inadiável porque o Brasil tem pressa. Dialogo todos os dias com vários pesquisadores e colegas sobre o assunto. A maior preocupação das pessoas mais progressistas é que, com as cotas na graduação, o perfil da universidade venha mudando e, portanto, não precisamos de cotas na pós-graduação. A lei de cotas na graduação e sua efetivação de fato vêm mudando significativamente o perfil na universidade e isso é inegável. Basta transitar nos corredores dos principais centros universitários do país e basta saber que as universidades estão mais próximas do povo, no interior do Brasil. Porém, uma década depois da efetivação das primeiras políticas de ações afirmativas com reserva de vagas iniciadas nas universidades estaduais, também é possível tirar algumas conclusões passando pelos programas de pós-graduação das universidades brasileiras.

A primeira delas é que a pós-graduação não acompanhou a mudança de perfil da graduação significativamente. As duas últimas reuniões do grupo de trabalho revelaram que nós, pretos, pardos e índios representamos, no máximo, 16% dos pós-graduandos brasileiros. Ou seja, um número bastante insignificante levando em conta as mudanças que aconteceram na graduação. A falta de diversidade étnica na pós-graduação se reflete na contratação de professores das universidades, por consequência. As dezenas de milhares de novos professores contratados via concurso desde o surgimento do Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), pelo qual Lula criou 18 universidades federais e centenas de campi pelo país, têm, em sua maioria, professores brancos e dos centros urbanos. É essa realidade que precisa mudar a partir da pós-graduação.

A segunda conclusão é que as mudanças no perfil dos estudantes de graduação podem não impactar positivamente a pós-graduação por alguns motivos. O primeiro deles é o mundo do trabalho. Os estudantes cotistas que hoje estão nas universidades são atraídos, e não é nenhuma novidade dizer isso, pelo mundo do trabalho. A pós-graduação hoje impele à maioria de nós o retardamento da nossa vida laboral, sendo que preferimos nos dedicar à pós-graduação a ter que ingressar no mundo formal do trabalho. Ou quando ingressamos nesse mundo formal sofremos graves consequências em nossos programas. Há casos terríveis de perseguição, agravamento e, inclusive, desligamento de pós-graduandos devido a não poderem se dedicar ao trabalho de pesquisa. A vida laboral que agrava a vida daqueles que trabalham formalmente e estão na pós-graduação é a mesma que afasta muitos estudantes da dedicação à pesquisa na pós-graduação, inclusive esses que hoje são cotistas na graduação. Radicalmente ou não, o mundo do trabalho vem antes da pós-graduação por causa da necessidade de subsistência. Nossos pais, de origem humilde, vivem perguntando a nós, que fomos cotistas na graduação, por que já não estamos ganhando dinheiro como os demais. O segundo motivo é que a pós-graduação se comporta como o Olimpo da universidade brasileira. Toda a confusão entre o público e o privado, corporificada pelo patrimonialismo, está mais forte e contundente na pós-graduação. Ao mesmo tempo que defendemos com força os nossos programas e sua produção intelectual qualificada, tão necessária para o país, é preciso admitir que as seleções de mestrado e doutorado não têm um padrão comum, e as escolhas não obedecem a critérios de seleção e classificação claros. Embora esses programas defendam um discurso forte de meritocracia, muitas vezes duvidamos se existe mesmo meritocracia na pós-graduação. E, no entanto, não aprofundando essa discussão, o que queremos é mais isonomia na seleção. Por alguns desse motivos, a diversidade étnica é bastante precária.

A falta de diversidade é ruim porque as metas que o Brasil quer alcançar precisam da cara e da vontade do povo brasileiro. Sem povo a ciência perde o seu papel êmico e pode correr o risco de uma suposta neutralidade universalista já provada como não existente há décadas. A ciência que queremos que produza desde o conhecimento básico até conhecimentos avançados, desde o combate intensivo às doenças, o fortalecimento da educação básica até o empoderamento da indústria de defesa é a que precisa de negros, pardos e índios. Queremos o povo brasileiro, em sua diversidade, fazendo ciência. Temos e devemos desconstruir a ideia de “aptidão”, “perfil” e “jeito” para fazer ciência. A elite sempre criou essas fantasias para afastar o povo do poder.

As cotas na pós-graduação são para um país que tem pressa. Um país que vê a guinada conservadora no seu congresso nacional e uma grande imprensa organizada em forma de partido já pensando em ganhar o poder em 2018 é um país que tem pressa. Isso só me lembra os anos de fome que o país viveu. A fome foi eliminada do nosso mapa, mas o Brasil dos ex-famigerados agora têm nova fome, e a fome requer pressa. É a fome de construir esse país continental e transformá-lo numa verdadeira potência mundial.

*Gabriel Nascimento é diretor da Associação Nacional de pós-graduandos, mestre em Linguística Aplicada pela UnB, e doutorando em Letras pela USP. 

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores. 

Por Caiubi Kuhn*
A busca pelo emprego, em especial pelo primeiro emprego é um dos grandes desafios da juventude. Afinal muitas das oportunidades existentes têm como pré-requisito ter tido experiências anteriores. Quando a pessoa não é qualificada esse desafio aumenta ainda mais.
Antes de tudo, como disse em outro artigo, a busca por empregos hoje no mundo ultrapassou as fronteiras dos países. Se hoje as grandes empresas são internacionais o seu quadro de funcionários também é. Esse quadro tem a se ampliar cada vez mais, hoje temos milhares de jovens tendo uma formação de qualidade em muitos países em desenvolvimento e em muitos países desenvolvidos a busca por empregos é a principal preocupação da juventude. Nestes países existem muitos jovens capacitados, mas que não conseguem achar na sua cidade ou mesmo na sua nação uma vaga de emprego. Pois bem, estas pessoas irão procurar oportunidades onde elas tiverem. Então posso dizer que hoje, nós jovens, disputamos sim empregos com pessoas formadas em muitos países do mundo.
Neste mundo internacional do trabalho, ter uma formação de qualidade deixou de ser um diferencial e passou a ser um ponto básico, assim como o domínio de idiomas passou também a ser pré-requisito. E não estou falando só das pessoas que irão trabalhar lá fora, quem for trabalhar aqui mesmo no Brasil precisa disso, pois hoje cada vez mais utilizamos informações e tecnologias de muitos outros países.
Para completar o cenário sobre o emprego, além da dificuldade de conseguir acesso ao mercado de trabalho, o jovem é o mais afetado pelas crises existentes, pois mesmo com mundo do trabalho em expansão muitos jovens já tem dificuldade de acesso ao emprego e renda, imagina então como fica a situação da nossa juventude na crise? Sem expansão do mundo do trabalho os jovens que buscam por emprego ficam com oportunidades cada vez mais escassas.
Os desafios são muitos, em tempo de crise, em um país com grandes problemas educacionais e estruturais é preciso desenvolver ações que possam mudar a realidade. Mas como fazer isso em um país onde política para juventude é escassa? Será que a necessidade a realidade dos jovens está entre as prioridades dos governos?

*Caiubi Kuhn é professor do Instituto de Engenharia da Universidade Federal de Mato Grosso e Diretor de Política Educacional da Associação Nacional de Pós-graduandos.
E-mail:[email protected]

Leia outro artigo de Caiubi:
A educação dos jovens e o cenário mundial
A juventude de hoje e o Brasil de 2050! Como será o futuro?

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Por Caiubi Kuhn*

Recentemente abordei em um artigo sobre “A juventude de hoje e o Brasil de 2050! Como será o futuro?”. Hoje continuarei essa temática dando enfoque a alguns fatores que são capazes de criar as condições básicas para o desenvolvimento social e humano de nossa juventude.

Segundo dados do Fundo de Populações das Nações Unidas(UNFPA) em 2014 cerca de nove em cada dez pessoas com idade entre 10 e 24 anos vivem em países menos desenvolvidos. A população jovem são 1,8 bilhões de pessoas, um número até então sem precedentes na historia da evolução humana. Esse grande contingente de jovens pode representar para os países um Bônus Demográfico, esse bônus trás com ele grandes desafios e grandes oportunidades.

O Bônus demográfico é uma oportunidade de desenvolvimento social e econômico, segundo o UNFPA para que isso ocorra os países precisam investir: 1) no capital humano dos jovens; 2) expandir o acesso à contracepção; 3) aumentar as oportunidades de emprego; e 4) melhorar o acesso ao sistema financeiro.

O início deste percurso passa necessariamente pela garantia de uma educação de qualidade e com isso ampliar as oportunidades de desenvolvimento humano dos jovens. O efeito deste processo todo leva a uma transformação social com a melhoria da qualidade de vida de toda a sociedade.

O Grande problema desta história é que no Brasil estamos perdendo, ou melhor, já perdemos a oportunidade de utilizar esse bônus demográfico para de fato iniciar um processo de desenvolvimento no país que seja capaz de criar musculatura para enfrentar os grandes problemas sociais e estruturais da nossa nação.

Como resultado disso tem uma geração que ainda tem dificuldades em ter acesso a um curso superior ou técnico. Ainda se tem uma luta muito grande para se conseguir uma vaga em um curso. No país como um todo o domínio de outros idiomas ainda é um desafio. Toda vez que um jovem não consegue dar continuidades em sua formação o país perde, pois deixa de qualificar e de dar oportunidades para um de seus cidadãos.

Deixo aqui bem claro que sou defensor de uma educação de qualidade e que a expansão deste sistema educacional tem que estar obrigatoriamente ligado a garantia da qualidade do ensino.
Já a geração de oportunidades de emprego precisa estar associada a uma série de políticas planejadas que tenham ligação com um plano de desenvolvimento para o país. Precisamos compreender que no mundo do século XXIé necessário que o Brasil seja inovador e que tenha as condições de desenvolvimento de tecnologias e patentes.

Por fim, a juventude precisa ter acesso ao crédito, precisam ter condições de criar seus empreendimentos. Neste ponto cabe destacar que em nosso país todos nós somos quase assaltados devido aos autos juros cobrados por bancos. A realidade para os jovens não é diferente, e às vezes é ainda pior, pois sem rendas bem estabelecidas por muitas vezes acabam caindo em armadilhas financeiras.

Mas o que estes tópicos têm a ver com o cenário mundial? Nossos jovens estão concorrendo pelas mesmas oportunidades com bilhões de outros jovens que estão em seus países tendo acesso a educação, a políticas de planejamento familiar, a empregos e crédito a baixo custo. Em alguns casos os jovens vêm de outras nações em busca de oportunidades que existem no nosso país. Mas e como ficará a nossa juventude? Com todas essas dificuldades como poderemos construir um país com melhores condições de vida para quando nós estivermos na melhor idade?

*Caiubi Kuhn é professor do Instituto de Engenharia da Universidade Federal de Mato Grosso e diretor de Política Educacional da Associação Nacional de Pós-graduandos.

Leia outro artigo de Caiubi:

A juventude de hoje e o Brasil de 2050! Como será o futuro?

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Por Caiubi Kuhn*

Nos últimos anos tive a oportunidade de ministrar algumas palestras para o público jovem, um tópico que sempre abordei foi o futuro que temos desenhado para a nossa geração. O Brasil passa desde o final da década de 80 por um processo que se chama inversão da pirâmide populacional, este fenômeno que já ocorreu em diversos outros países representa o envelhecimento da população. O que isso tem aver com a juventude de hoje?

Pois bem, nasci em 1990 e a geração que faço parte tem grandes desafios pela frente. Em 2050, nós que fazemos parte da maior geração de jovens do Brasil seremos a maior geração de idosos que o país já teve, ou seja, seremos a maior geração de aposentados. Ou não! Em 2016 o rombo da previdência social está em R$ 88,9 bilhões de reais, isso significa que mesmo hoje onde temos muitas pessoas contribuindo para a previdência os valores arrecadados são insuficientes para cobrir os benefícios pagos. Se hoje está assim, imagina como estará em 2050?

Esse cenário se torna ainda mais crítico se relacionarmos o envelhecimento da população com vários problemas existentes no Brasil hoje. A educação do Brasil tem muito que melhorar, em um ranking divulgado em 2015 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) o Brasil ficou na 60° posição entre 76 países. Em 2013 o Brasil ainda registrava 13 milhões de analfabetos com 15 anos ou mais, ainda temos crianças que não possuem acesso à educação. Quais as possibilidades de emprego que os jovens que nem se quer tiveram acesso à educação terá durante a vida? Com certeza não serão as melhores visto que cada vez mais se exige preparo para se ter acesso a bons empregos. No mundo de hoje os jovens não disputam mais empregos somente com as pessoas de seu bairro ou sua cidade, as grandes empresas buscam hoje profissionais em outros estados e países. Com isso a concorrência e a necessidade de se preparar ficaram ainda maiores, e esse cenário não deve mudar nas próximas décadas.

Para completar, as cidades brasileiras não vêm apresentando grandes avanços em relação à mobilidade urbana e ampliação da qualidade de vida para a melhor idade. O que deveria ser obrigação dos nossos governantes muitas vezes fica em segundo plano e as ruas, as calçadas, o transporte público entre outros, não oferecem as condições dignas de uso para os cidadãos.
Para resumir, temos um país com uma grande deficiência educacional, jovens que tem dificuldades de acesso ao primeiro emprego, cidades que não oferecem estruturas para a melhor idade e um rombo crescente na previdência social. Como poderemos enfrentar estes problemas? Nas próximas semanas farei mais alguns artigos abordando este cenário.

*Professor do Instituto de Engenharia da Universidade Federal de Mato Grosso e Diretor de Política Educacional da Associação Nacional de Pós-graduandos.

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Por Tamara Naiz,
Doutoranda, presidenta da ANPG

Há muito tempo que a relação entre público e privado no Brasil precisa de marcos fundacionais que assegurem transparência e melhorem as cooperações, para dar melhor seguimento às reformas e avanços que o Brasil precisa. Os pós-graduandos têm muito a dizer sobre isso e querem participar ativamente dessa discussão.

O marco legal da Ciência e Tecnologia, sancionado pela presidenta ontem (11), depois de tramitação pelo congresso nacional, tem grande importância nesse sentido, pois melhora a cooperação e dispõe de recursos para a ciência e tecnologia, sem minorar os centros de pesquisa das universidades. Ou seja, sem reduzir o papel do Estado. O Estado é e deve ser indutor da Ciência e Tecnologia. E é nesse sentido que somos contra qualquer tentativa de entregar recurso público para entidades privadas gastarem a seu rigor, classificando isso como investimento em ciência e tecnologia.

Um marco legal é importante porque esclarece, melhora e impõe regras para a relação público-privada. O Brasil que os brasileiros precisam deve ser construído por todos e para todos. A ciência deve estar a serviço da busca de soluções para os problemas de todos os brasileiros, desde as camadas médias até os brasileiros que estão nas periferias e nos rincões. A ciência precisa ter lado. E o lado da nossa ciência deve ser a busca da soberania nacional e do desenvolvimento do nosso povo. É por isso que a Associação Nacional de Pós-graduandos vem discutindo com sua base há algum tempo a importância da inovação e do financiamento da ciência no país. Nós, os pós-graduandos, somos responsáveis por mais de 90% das pesquisas em andamento no país e por essa razão temos muito a tratar sobre essa relação. Acreditamos que toda relação público-privada deve satisfazer, necessariamente, o interesse público. Um projeto financiado pelo Estado também pode e deve ter financiamento privado, contanto que o produto gerado seja para melhoria do povo brasileiro. Nesse sentido, as patentes devem ser melhor pensadas para não se tornarem objeto privado e mercadológico.

Por outro lado, ao tratar da ciência no Brasil não podemos deixar de lidar com a falta de recursos que a pesquisa brasileira vem atravessando já faz alguns anos. Mesmo antes do ajuste fiscal o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) tem sofrido com escassez de recursos. Embora tenha sido criado pelo Decreto-Lei da década de 60 e regulamentado pela Lei 11.540 de 2007, o FNDCT não prevê evolução orçamentária de crescimento do fundo. Queremos ensejar essa discussão na sociedade brasileira, levando em conta o papel protagonista que a ciência precisa desempenhar nos próximos anos. Portanto, sem dinheiro e aplicação justa e equânime será difícil fazer ciência de qualidade. Sem recursos, o marco legal sancionado hoje pode se tornar uma espécie de Protocolo de Kyoto da ciência brasileira. Como não queremos que um marco legal como esse tenha o mesmo destino dos fundos setoriais que foram agregados ao FNDCT, expressamos a vontade que o ajuste fiscal não corte recursos de setores estratégicos como a ciência, tecnologia e inovação.

É pensando no futuro que se faz ciência, e é de investimento e pesquisadores valorizados que uma ciência de qualidade precisa.

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.