Author

Natasha Ramos

Browsing

Artigo por Rogerio Meneghini

Ele faz uma analise sobre o programa Ciência sem Fronteiras

O Brasil tem tido uma posição sofrível nos recentes rankings mundiais de universidades. Quando indagados, os gestores das classificações apontam como principal causa a fraca interação internacional de nossos cientistas.

Embora existam outros fatores, este é apontando há tempos e que agora o governo procura atacar com o programa Ciência sem Fronteiras (CSF), sob a alçada do CNPq e Capes, órgãos do Ministério de Ciência e Tecnologia e Ministério da Educação, respectivamente.

O programa prevê 101 mil bolsas de estudos no exterior no período de 2012-2015. Até fevereiro de 2014, haviam sido concedidas 49.067 bolsas. Entre as várias categorias de bolsas, a grande maioria, 81%, é do tipo “sanduíche graduação”, em que alunos são selecionados para permanecerem de 12 a 18 meses em universidades estrangeiras. Durante a permanência, eles devem cumprir disciplinas de graduação relacionadas com seus cursos no Brasil e ganhar domínio de uma segunda língua.

Segundo dados da Unesco, em 2011 o total de alunos de graduação no exterior era de 3,8 milhões, e o Brasil alcançava apenas 0,8% deste total. Com o CSF/graduação, esse valor aumentará significativamente. Ainda assim, o privilégio de obter uma bolsa caberá a uma proporção muito baixa do alunato brasileiro de graduação. Porém, é incontestável que os contemplados constituem uma semente importante para uma mudança cultural e profissional, pela aquisição de uma visão mais cosmopolita, significativa para um país geograficamente isolado das nações mais avançadas.

Porém, é incorreta a ideia de que essas bolsas de graduação são um passo importante para a internacionalização de nossa ciência. Em primeiro lugar, é altamente improvável que, frente aos vários desafios a serem enfrentados pelos jovens, como aprendizagem de uma nova língua e de novas disciplinas, haja tempo para uma iniciação científica, que consiste de um trabalho científico efetuado sob a direção de um docente da instituição. Talvez por isso ela não seja exigida pelo CSF/graduação. Em segundo lugar, não há uma razão especial para se esperar que esses bolsistas tenham interesse superior aos dos demais concluintes da graduação em se tornar cientistas, algo em torno de 1%.

Portanto, não se trata de um caminho para internacionalizar a ciência brasileira. Não é claro por que o programa ficou da alçada do CNPq e Capes, duas instituições com técnicos e infraestrutura voltados para o progresso da ciência brasileira.

Há vários estudos mostrando que os programas de doutorado e pós-doutorado no exterior são, estes sim, de extraordinária importância para o avanço de nossa ciência. Em um recente levantamento de dados verificamos que, entre os 241 pesquisadores brasileiros mais destacados em biologia, química e física, segundo a Plataforma Lattes do CNPq, 213 fizeram doutorado ou pós-doutorado no exterior. Certamente, esses programas deveriam ser contemplados prioritariamente quando se visa uma maior internacionalização da ciência brasileira. Todavia, tal iniciativa não deveria prejudicar o CSF/graduação, cuja supervisão deveria caber ao Ministério da Educação.

Rogerio Meneghini, 73, é professor titular aposentado de bioquímica da Universidade de São Paulo e diretor científico do programa SciELO de revistas científicas brasileiras.

Fonte: Folha de S. Paulo

Os artigos publicados não expressam necessariamente a opinião da ANPG e são de total responsabilidade dos autores.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Nova gestão da ANPG reúne-se com a reitoria da USP para apresentar moção aprovada no 24º CNPG

Na última quarta-feira (7), em reunião com o reitor da Universidade de São Paulo, Marco Antonio Zago, e as entidades estudantis UNE (União Nacional dos Estudantes) e UEE (União Estadual dos Estudantes), a nova gestão da ANPG (Associação Nacional de Pós-Graduandos) apresentou a moção de apoio ao pedido de suplementação orçamentária para a USP. Essa moção foi aprovada em plenária durante o 24º Congresso Nacional de Pós-Graduandos.

Durante essa reunião, foi decidido que as próximas edições do CONEG (Conselho Nacional de Entidades Gerais, da UNE) e do CEE (Conselho Estadual de Entidades Gerais, da UEE) serão realizados na Universidade de São Paulo.

Zago havia enviado uma carta à comunidade uspiana, três meses após assumir o cargo de reitor, em janeiro deste ano, para explicar sobre a real situação financeira da universidade, que não vai muito bem. Nesta carta, ele diz: “(…) depois de aprofundar o conhecimento sobre a situação orçamentária da Universidade, antes compartilhada por poucas pessoas, entre as quais não estavam incluídos os Pró-Reitores, sinto-me no dever de esclarecer aos professores, funcionários técnicos e administrativos e estudantes sobre as dificuldades que teremos de enfrentar, nos próximos anos, para recolocar a USP em situação de normalidade financeira.”

Ele ainda explica, neste ofício, como a situação da universidade chegou a esse ponto crítico: “O cerne da dificuldade que se apresenta é que saímos, em 2011, de uma relação que estava próxima de 80% para gastos com pessoal e 20% para investimentos e outros custeios (considerada saudável para uma universidade) para uma relação que ultrapassou a casa dos 100% para pessoal no ano de 2013. Isso significa que cada licitação feita por uma Unidade de Ensino e Pesquisa para manter as suas atividades normais terá que onerar, necessariamente, a reserva que ainda resta para a Universidade. E, no ritmo em que as coisas vinham acontecendo, essa reserva tinha data certa para acabar.”

A moção apresentada ao reitor pela recém-eleita presidenta da ANPG, Tamara Naiz, propõe que o governo do Estado de São Paulo e a ALESP aprovem uma suplementação orçamentária para o exercício de 2014 e que seja estudado um plano que garanta aumento progressivo do repasse à Universidade.

Zago agradeceu a iniciativa dos pós-graduandos durante o 24º CNPG, mas disse que irá recorrer a uma ação como essa somente em última instância. Segundo o reitor, a universidade recebe uma boa quantia por ano do Governo. Ele teme que ao pedir mais dinheiro, a USP perca sua autonomia em gerir o recurso. Segundo o reitor, é necessário administrar bem esse montante, durante os próximos anos, para recuperar a saúde financeira da universidade.

Da Redação

CNPG Tamara

Maior encontro de pós-graduandos do país elege nova diretoria para o próximo biênio e aprova documento de direito para pesquisadores

Foi eleita como presidenta da ANPG a pós-graduanda Tamara Naiz durante o 24º Congresso Nacional de Pós-Graduandos, realizado de 1 a 4 de maio na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O processo eleitoral teve a participação de 361 delegados representantes de instituições de ensino de todo o país. A mestra em História pela Universidade Federal de Goiás e especializanda em Docência do Ensino Superior, que encabeçou a chapa “Pra lutar por mais direitos: Mais Vale o que Será”, obteve 238 votos, que representaram 80% do eleitorado. A chapa concorrente, “Amanhã Vai Ser Maior”, obteve 60 votos.

“Nos despedimos desta gestão com muito gás para construir uma ANPG que os pós-graduandos e o Brasil precisam”, disse Tamara, que na gestão 2012-2014 atuou como Tesoureira da entidade.

O 24º Congresso Nacional da ANPG também definiu os rumos e posicionamentos da entidade para os próximos dois anos, no que diz respeito à conjuntura nacional, educação e sua organização. As propostas elaboradas nos Grupos de Discussão foram submetidas à Plenária Final.

Até o final desta semana, todas as moções e propostas aprovadas serão publicadas aqui no site da ANPG.

Durante a plenária, foi aprovado ainda o Documento de Direitos dos Pós-graduandos, um dos principais temas do 24º CNPG. O documento servirá de base para a luta nacional dos pós-graduandos e sua efetivação pode se dividir em diversas portarias e projetos de lei, que visem a regulamentação de direitos como a 13ª bolsa, licença paternidade e outros.

CNPG Plenária

Foram aprovadas oito moções sobre assuntos destacados pelos pós-graduandos. A plenária votou ainda as propostas de resolução debatidas durante os grupos de discussão. Os delegados aprovaram também a prestação de contas da gestão 2012-2014.

Perfil
A pesquisadora Tamara Naiz, 29 anos, é mestra em História pela UFG, e especializanda em Docência do Ensino Superior na FMU. Foi Diretora da União Nacional dos Estudantes (UNE) e na gestão 2012-2014 ocupou o cargo de Tesoureira da ANPG. Natural de Brasília, construiu sua militância no movimento estudantil em Goiás e, atualmente, mora em São Paulo.

Participação

As eleições na ANPG são realizadas em duas etapas. Na primeira, de forma direta, os pós-graduandos das instituições de ensino do país votam nas chapas de delegados que se apresentam em suas universidades para o encontro. Os delegados eleitos seguem então, com direito a voz e voto, para o Congresso, onde decidem a segunda etapa da eleição de forma congressual, como acontece em outras entidades como a União Nacional dos Estudantes (UNE).

O doutorando em inovação terapêutica, Bruno Caldas, da Associação de Pós-Graduandos (APG) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) participou como delegado e se surpreendeu com o envolvimento dos pós-graduandos no 24º CNPG. “É muito bom ver a ANPG crescendo. Foram muitas conquistas em dois anos de gestão, e a principal é a aproximação de nós pesquisadores com o Ministério de Ciência e Tecnologia”, afirmou.

O pós-graduando Silvio Roberto, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), de Mossoró, no Rio Grande do Norte, também disse ter ficado muito entusiasmado com o encontro. “Eu gostei muito da Mostra Científica, de conhecer o trabalho de tanta gente diferente, só achei que ela poderia ocorrer sem eventos paralelos para que todos pudessem participar”, colocou.

Para o pesquisador Victor Grampa, da recém criada APG da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) de São Paulo, esse 24º CNPG foi ainda mais especial pelo tema abordado. “Acredito que as propostas e as deliberações daqui vão se desdobrar em avanços efetivos nos direitos dos pós-graduandos, o que reflete em todo o sistema educacional e se projeta em todos os setores da sociedade”, afirmou.

Por Natasha Ramos e Cristiane Tada, do Rio de Janeiro

Matérias relacionadas

 


CNPG Ato Político

Na manhã deste sábado (3), o terceiro dia do 24º Congresso Nacional de Pós-Graduandos teve sua programação iniciada pelo Ato Político. A atividade reuniu em torno do tema “Mais verbas para C,T&I: Valorização da Ciência e dos Pesquisadores” o Secretário Executivo de Ciência e Tecnologia da FACEPE, José Bertotti; o professor Emérito da UFRJ e representante da SBPC, Nelson Maculan; a Diretora de Cultura da UNE, Patrícia de Matos; e a Deputada Federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ).

Patrícia iniciou o debate, dizendo que a dificuldade da área de Ciência e Tecnologia está não apenas na falta de verbas, mas na falta de articulação das políticas públicas brasileiras.

Maculan comentou que os muitos entraves da política de ciência e tecnologia são decorrentes do pacto federativo brasileiro que estabelece as competências dos Estados, municípios e União.  “A dimensão continental do Brasil, aliada à falta de diálogo entre os entes federativos, prejudica muito as ações de Ciência, Tecnologia e Inovação”, disse.

Bertotti pontuou que a questão central não é a dicotomia entre a ciência básica e a ciência aplicada, mas a necessidade de se discutir quem financiará cada um desses setores. Disse ainda que a Fundação de Amparo à Pesquisa (Facepe) vai rever o estatuto para incluir um representante dos estudantes de pós-graduação, abrindo, assim, um precedente para futuras inclusões de pós-graduandos nos conselhos das demais  fundações estaduais. Por fim, enfatizou o papel da Ciência e Tecnologia como alavanca do desenvolvimento nacional.

Assumindo a palavra após a participação dos convidados, Luana Bonone, presidenta da ANPG, falou sobre o Documento de Direitos dos Pós-Graduandos e defendeu campanhas para o aumento do orçamento de ciência, tecnologia e inovação.

“O Bertotti falou muito bem da importância de se debater a política macro econômica, da política de juros, para enfrentarmos o problema da distribuição de recursos no país. Para que a gente possa lançar uma bandeira nesse sentido, penso que a ANPG deveria convocar, ao final desse congresso, uma caravana em defesa do financiamento da C,T&I em parceria com as instituições da comunidade científica. Nesse debate, devemos pautar inclusive  os rumos desse investimento, sobre o projeto de ciência e tecnologia que queremos para o nosso país. Ao mesmo tempo em que debatemos o projeto que nós queremos, discutiremos a superação das dicotomias de investimento em ciência básica e inovação, a ampliação dos investimentos e a garantia de 2% do PIB para ciência e tecnologia (pauta histórica da comunidade cientifica). A ANPG quer apresentar também a importância de disputarmos os recursos do minério que estão sendo agora votados no Congresso Nacional. A nossa bandeira é “Royalties do minério para Ciência, Tecnologia e Inovação”. Contamos com o apoio da comunidade científica, mas principalmente com a mobilização permanente dos pós-graduandos para que possamos pressionar e aprovar essas pautas ”, disse Luana.

Após o Ato Político, os participantes seguiram para o almoço. Na parte da tarde foi instalada a Plenária Final, na qual foram votadas as moções, as propostas elaboradas durante os grupos de discussão, as emendas ao documento de direitos dos pós-graduandos e, por fim,  a eleição da nova diretoria da ANPG.

Por Natasha Ramos, do Rio de Janeiro

CNPG grupos de discussão

Grupos encaminham propostas que serão votadas na Plenária Final

Reunidos no Centro de Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mais de 650 pós-graduandos iniciaram, na sexta-feira (2), os grupos de discussão do 24º Congresso Nacional dos Pós-Graduandos. Os GDs têm o papel de discutir e encaminhar propostas para serem votadas na Plenária Final pelos delegados do 24º CNPG. Cada GD pode enviar até sete propostas que foram concatenadas por uma Comissão de Sistematização, que organizou o texto para a apreciação dos votantes.

Confira um resumo do que aconteceu durante os GDs:

Conjuntura: C,T&I, Reforma Política e Financiamento

O debate girou em torno de temas como internacionalização do Brasil e a realização da Copa do Mundo, a relevância dos investimentos, a importância de se garantir um legado para o país e como (e se) ele pode alavancar a economia brasileira.   Além disso, foi destaque a crítica à Lei Geral da Copa, por entre outras coisas, para coibir as manifestações públicas. Apesar dos inúmeros enfrentamentos de ideias e pontos de vista, a necessidade de reformas estruturais como a reforma política, foi ponto de concordância entre a maior parte dos participantes.

Assistência Estudantil

 O GD mostrou que as necessidades  relativas a este tema são urgentes e claras aos pesquisadores. Foram algumas das propostas debatidas pelo grupo: a inclusão da pós-graduação no Programa Nacional de Assistência Estudantil (PNAES); a participação dos pós-graduandos na implantação de critérios e metodologias voltados à assistência; licença maternidade e paternidade estabelecida por lei; a cumulação de bolsa e vínculo empregatício; comissões que acompanhem a gestão das verbas para bolsas.

PNPG: Avaliação e Internacionalização

O grupo evidenciou uma necessidade de se estabelecer uma agenda para discutir os critérios de avaliação dos cursos de pós-graduação, uma das maiores queixas entre os pesquisadores. Uma das propostas debatidas sugeriu até mesmo a extinção da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).  Outro destaque no debate foi o Programa Ciência Sem Fronteiras, iniciativa dos Ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Ministério da Educação (MEC) que propicia que estudantes de graduação e pós-graduação façam intercâmbio de estudos e estágio no exterior. Os pós-graduandos do GD defenderam a expansão da participação de outras áreas de conhecimento no Programa – que atualmente privilegia a área tecnológica- e também a inclusão  de instituições de ensino de países da América no Sul.  Sobre internacionalização os pesquisadores sugeriram ainda a realização de um seminário para discutir o assunto.

PNPG: Assimetrias e Educação Básica

O grupo discutiu propostas como federalização do ensino básico, reestruturação do sistema de ensino, e ações para diminuir as assimetrias regionais.

“’É importante que a ANPG ocupe uma cadeira nas fundações de amparo estaduais para se aproximar das realidades locais e reduzir as assimetrias regionais”, pontuou Fabio Paiva, Coordenador do Fórum de Educação Básica da ANPG, que estava conduzindo a discussão.

Houve polêmica em torno da questão da federalização do ensino básico, proposta que defende que o financiamento da educação básica pública deverá passar a ser responsabilidade do governo federal. A proposta foi desconsiderada após votação.

Lato Sensu e Democratização

O grupo de discussão sobre lato sensu e Democratização abordou propostas que contemplaram a questão racial nas universidades, principalmente nos cursos de pós-graduação, e propôs a regulamentação dos cursos de especialização.

A necessidade da pós-graduação lato sensu ter regras quantitativas e qualitativas claras e eficientes foi uma das questões debatidas. O que acontece hoje é que com a falta de regulamentação dos cursos de especialização, eles acabam sendo vinculados à lógica do mercado, sem grandes garantias de qualidade. Outra ideia proposta ainda foi a extensão do PROUNI para a pós-graduação.

Movimento Nacional de Pós-Graduandos

O grupo de discussão que abordou o Movimento Nacional de Pós-graduandos debateu algumas propostas no sentido de conduzir as ações que pautarão as ações da ANPG no próximo biênio. Algumas delas foram a convocação de CONAP estatutário para discutir organização do movimento; realização de uma campanha permanente de independência financeira da ANPG. Além disso, a pauta das mulheres, negros(as) e cotas indígenas também esquentaram os debates.

“A mais importante das pautas aprovadas foi o levantamento de indicação sócio-econômico e saúde da pós-graduação, pois a partir desses dados será possível traçar um diagnóstico mais preciso sobre as demandas dos pós-graduandos. Ter um indicador é essencial para o planejamento”, opinou Philipe Pessoa, representante discente da USP, que participou mais cedo, nesta sexta-feira (2), do painel sobre Assedio Moral e Outros Abusos na Relação Acadêmica.

Todas as propostas aprovadas nos GDs foram submetidas à Plenária Final, no sábado (3).

Por Natasha Ramos e Cristiane Tada, do Rio de Janeiro

CNPG Assédio Moral

Assédio moral praticado pelo orientador ao pós-graduando é uma prática institucional, em maior ou menor grau, mas institucional. Essa opinião foi consenso entre os pesquisadores que participaram do painel sobre “Assédio Moral e outros abusos na relação acadêmica”, na sexta-feira (02), segundo dia do 24º Congresso Nacional de Pós-Graduandos.

Para o debate foram convidados o diretor da Comissão de Integridade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Guilherme Melo, e o representante discente da Universidade de São Paulo (USP), doutorando em Biociências e Coordenador geral da APG IQ USP, Philipe Santana.

“Assédio é crime e por isso deve ser denunciado. Esse é um problema da área de direito, de administração e de psicologia”, afirmou Guilherme. O professor também ressaltou o bom exemplo dos EUA, onde, de acordo com ele, os professores tem o cuidado de nunca se reunirem com estudantes sozinhos a portas fechadas.

Para Philipe, a pauta de direitos dos pós-graduandos é muito pertinente a este assunto. “O tema assédio ainda não é muito elaborado. Mas espero que esse 24º CNPG seja ponto de partida para ampliar esse debate”. De acordo com ele, devido à falta de legislação não existem “regras claras” nas relações e por isso benefícios como férias, por exemplo, precisam ser negociadas, o que é uma porta de entrada para abusos. “O assédio é melhor caracterizado no campo formal. A situação do pós-graduando de híbrido estudante/trabalhador não simplifica as condições de trabalho. Conseguir assegurar um arcabouço de direitos é essencial para evitar o assédio”, explicou.

Para o representante discente as relações científicas não deveriam ser construídas em uma relação hierárquica, mas sim em uma relação de troca. Ele sugeriu ainda uma avaliação dos dados de evasão e adoecimento entre os pesquisadores para a partir destes indicadores serem encaminhadas ações “que não parem nos órgão colegiados”.

A doutoranda da USP, Fernanda Marques, lembrou que toda instituição possui, por lei, uma Comissão de Ética. “O ideal seria ser uma comissão paritária na qual os estudantes sejam melhor representados”, destacou.

Já a pós-graduanda Lúcia Guerra, também da USP, compartilhou com os presentes a experiência de seu amigo da graduação, que foi estudar no Canadá pelo programa Ciência sem Fronteiras. Segundo ela, lá “os professores deixam muito claro, logo no início da pesquisa, o que vão exigir dos alunos”, e também o modo de tratamento dos docentes com estudantes sem esse resquício de autoritarismo que ela vê no Brasil. O diretor do CNPq concordou com a pós-graduanda, dizendo que a transparência entre as partes na questão de objetivos e expectativas deve ser acordada já no início do trabalho em conjunto.

O pós-graduando Pablo Valente, da Associação de Médicos Residentes do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, lembrou que a falta de estrutura em institutos e universidades contribui que incidam sobre os pesquisadores tarefas que necessariamente não seriam deles ou o excesso de horas de trabalho, no caso dos médicos, facilitando abusos.

Casos e casos

O mestrando em desenvolvimento sustentável da Universidade Federal de Lavras (UFLA), Thiago Magalhaẽs Meireles se declarou vítima de assédio. Ele contou que abandonou o projeto de pesquisa e ficou durante um ano tendo pesadelos com o orientador. “Que tipo de professores estão sendo formados? Esses que foram oprimidos não vão acabar repetindo essa opressão?”, questionou.

Uma pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) que pediu para ter sua identidade preservada, veio ao 24ºCNPG “escondida” do orientador e pediu sugestões ao grupo de como se defender do assédio que sofre – o orientador ironiza sua participação política constantemente e pressiona pela quantidade de artigos que ela deve produzir – e também ajudar os colegas de universidade.

No final do painel os participantes concordaram que é necessário uma maior conscientização entre eles sobre seus direitos para que eles possam buscá-los. “ É um tipo de violência invisibilizada, a vítima não sabe que sofre um abuso e muitas vezes o agressor também não acha que está fazendo algo errado”, finalizou Philipe.

Por Cristiane Tada, do Rio de Janeiro

CNPG Painel Internacionalização

A experiência acadêmica no exterior é algo que pode agregar muito, tanto no currículo do estudante de graduação e pós-graduação como em sua experiência pessoal. No entanto, faz-se necessário discutir sobre as políticas de fomento à mobilidade acadêmica, como o Ciência Sem Fronteiras, que tem dividido opiniões. O painel “Internacionalização e Mobilidade: CsF, sanduíches e PEC-PG”, realizado na última sexta-feira (2), segundo dia do 24º Congresso Nacional de Pós-Graduandos, teve exatamente esse objetivo.

O debate reuniu o Representante do CNPq/MCT Programa Ciência Sem Fronteiras, Jurandir Fermon Ribeiro Junior, e o reitor da UFPE e presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), Anísio Brasileiro, que opinaram sobre o assunto para uma plenária diversificada, composta por pessoas de várias regiões do Brasil e dos países Cabo Verde e Guiné-Bissao, do continente africano.

O painel teve início com a apresentação geral do programa Ciência Sem Fronteiras (CsF) pelo representante do CNPq. O programa de intercâmbio do governo federal foi criado em julho de 2011, e tem como objetivos: avançar na ciência, tecnologia, inovação e competitividade industrial através da expansão da mobilidade internacional; aumentar a presença de estudantes e pesquisadores brasileiros em instituições de excelência no exterior; promover maior internacionalização das universidades brasileiras; aumentar o conhecimento inovador do pessoal das indústrias brasileiras; e atrair jovens talentos e pesquisadores altamente
qualificados para trabalhar no Brasil.

Focado em ciências exatas e tecnologia, o CsF é alvo de diversas críticas, como a exclusão da área de humanas. Os pós-graduandos apontaram a questão da exigência da fluência em inglês para a seleção como um dos pontos negativos. Foi dito que este método de seleção acaba por ser um critério meritocrático e elitista que não dialoga com a pluralidade da composição dos estudantes nas universidades. Foi sugerida também a rediscussão das políticas com que são conduzidas as bolsas.

Em seguida, Anísio Brasileiro falou de sua experiência acadêmica, propôs uma conversa entre os pós-graduandos sobre o tema do painel e citou alguns desafios. “O que é internacionalização? Este é um conceito sem definição clara, mas podemos dizer que é um processo que acontece quando a universidade é forte em sua pesquisa e em sua formação da graduação e da pós-graduação”, disse o reitor da UFPE e presidente da Andifes.

Ele também criticou o fato da mobilidade acadêmica se dar majoritariamente em ambiente internacional, e raramente entre universidades do Brasil. “Encaminhamos nossos estudantes para as melhores universidades de outros países, nas áreas mais estratégicas para o país, mas não incentivamos a mobilidade nacional”, disse.

Brasileiro também desaprovou a prioridade que o CsF dá a países da América do Norte e Europa. “Eu acho que nós devíamos ter o Ciência Sem Fronteiras América Latina. Acho que o Brasil comete um grave erro por não cooperar mais institucionalmente com os seus países vizinhos”, opinou. Segundo o reitor, hoje, os principais países para onde os estudantes da Universidade Federal de Pernambuco são encaminhados pelo CsF são, na ordem: Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e França.

Os participantes também quiseram saber acerca do Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG), uma das modalidades de intercâmbio para os pós-graduandos. Administrado conjuntamente pelo Departamento Cultural (DC) do Ministério das Relações Exteriores (MRE), pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o PEC-PG constitui atividade de cooperação educacional exercida entre países em desenvolvimento com os quais o Brasil mantém Acordo de Cooperação Educacional, Cultural ou de Ciência e Tecnologia.

Anísio explicou que os objetivos do programa são: a Concessão de bolsas de doutorado visando o aumento da qualificação de professores universitários, pesquisadores, profissionais e graduados do ensino superior dos países em desenvolvimento com os quais o Brasil mantém Acordo de Cooperação Educacional, Cultural ou de Ciência e Tecnologia. Essas bolsas serão concedidas em todas as áreas de conhecimento nas quais existam cursos de doutorado recomendados ou reconhecidos pela CAPES com conceito igual ou superior a 3 (três) que emitam diplomas de validade nacional.

Ciência Sem Fronteiras

Sem dúvida o tema mais polêmico deste painel foi o programa Ciência Sem Fronteiras, que dividiu a opinião dos participantes. Se alguns achavam que a política do programa de se restringir às áreas de exatas e tecnologia estabelece um equilíbrio, ao impulsionar esses campos que carecem de mão de obra especializada, houve quem discordasse desta ideia.

De maneira geral, os pós-graduandos opostos a essa opinião defenderam que a disputa não pode ser entre as áreas de conhecimento, mas que é necessário olhar do ponto de vista da política nacional para a formação dos quadros de estudantes. Faltar engenheiros é conseqüência de algo que acontece na base da educação.

O reitor da UFPE endossou a ideia da não competição entre as áreas de conhecimento: “Precisamos muito de engenheiros, mas precisamos muito de formuladores de políticas públicas como um todo.”

O representante do CNPq concordou que existem questões no Ciência sem Fronteiras que precisam ser revisadas, mas lembrou que este foi o primeiro programa a propor esse tipo de subsídio para os estudantes de graduação.

“O Ciência sem Fronteiras, que completou quatro anos agora, tem muitos problemas, saiu bem mais caro do que se esperava… Mas, antes dele, nenhum estudante de graduação almejaria ir ao exterior a não ser para fazer curso de inglês por 3 meses. Quando começamos o primeiro processo de seleção dos estudantes, descobrimos o problema de que o brasileiro não sabe falar inglês, um problema de base. Depois, o que é uma instituição de excelência? É difícil definir isso no Brasil”, disse Jurandir.

“Há dois anos, não tínhamos números, agora nós já temos, e identificamos muitos problemas. Buscarmos outros mecanismos para equilibrar a questão”, acrescentou.

Por Natasha Ramos, do Rio de Janeiro

CNPG Mostra Científica

Pós-graduandos apresentam pesquisas de todas as áreas de conhecimento nos dois primeiros dias do encontro

Um dos destaques da programação do 24º Congresso Nacional de Pós-Graduandos foi a realização da 6ª Mostra Científica da ANPG, que selecionou 118 trabalhos para serem apresentados durante o encontro na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Pesquisas de todas as regiões do país, das mais diferentes áreas foram apresentadas pelos participantes, que trocaram o espaço para trocar ideias também sobre as dificuldades, motivações e mostraram principalmente a vontade em contribuir com a solução de problemas sociais, científicos e metodológicos a partir de suas publicações.

Como a pesquisa da doutoranda em Ciências Sociais na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Ana Soraya Vilasboas  Bonfim, que a partir de uma demanda sindical estudou a precarização da vida laboral dos trabalhadores de telemarketing. Ela apresentou uma análise preocupante de um ambiente de trabalho insalubre e de sobrecarga física e mental para os trabalhadores “originando doenças de vários tipos, principalmente relacionadas ao sistema nervoso”. Ana Soraya utilizou-se de dados do Ministério Público, da Secretaria do Trabalho e do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Já os pernambucanos Anderson Diego Farias da Silva e Alinny Alves,  mestrandos em administração e direito, respectivamente, uniram suas áreas de conhecimento para estudar sobre o fenômeno da “desaposentação” no Brasil. Trata-se do número cada vez maior de pessoas que após a aposentadoria, e toda uma vida contribuindo para a Previdência Social, decidem continuar ativos no mercado formal de trabalho. De acordo com o trabalho apresentado na Mostra Científica, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) ainda não tem acordo em como essas pessoas devem receber os valores da nova contribuição após a aposentadoria. Hoje o direito não é cumulativo ao anterior ou nem mesmo pode ser invertido – no caso do valor da contribuição pós- aposentadoria ser maior que a anterior, a sugestão dos pós-graduandos é de que pelo menos os cidadãos possam escolher entre receber a melhor. “A nossa pesquisa defende acrescentar esses direitos aos cidadãos, e mostrar que eles são justos”, explicou Anderson.

Contribuições

O trabalho do mestrando em Desenvolvimento, Tecnologia e Sociedade, Leandro Trindade, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei) foi um mapeamento das causas da ineficiência das compras públicas de material eletrônico em uma instituição federal. “Se a ineficiência na administração pública já é comprovada, e já foi afirmada por diversos autores, quais são as atividades que a causam?”, questionou. No seu estudo encontrou respostas como a falta de normas e procedimentos para essas aquisições, e um fluxo de informação desencontrado e burocrático.

Ele usou como objeto de estudo a sua própria universidade e tem expectativa que seu trabalho seja utilizado pela instituição para resolver os problemas. “Tem estudos de outros alunos que já estão sendo aplicados como solução na Unifei, a universidade incentiva isso”, afirmou.

Para Leandro a oportunidade de apresentar seu trabalho no 24º CNPG foi única. “Meu mestrado é interdisciplinar e por isso é ótimo poder apresentar e ouvir sugestões de uma diversidade tão grande de pesquisadores como os que aqui estão”, ressaltou.

Já o mestrando em administração da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Tito Francisco Ianda, fez um estudo de como o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB), instituído no Brasil por lei desde 2005, poderia promover o desenvolvimento do seu país natal, Guiné Bissau, na África. Ele comparou as condições climáticas e econômicas da Guiné com o Nordeste do Brasil e, através da análise de dados e indicadores econômicos a partir da boa experiência brasileira, elaborou um quadro de propostas para a implementação do programa no país africano. “Quando minha dissertação estiver pronta vou enviar um resumo para o governo de Guiné”, afirmou. O pós-graduando disse ainda que a ideia de apresentar seu trabalho no 24ºCNPG foi pela “oportunidade de receber críticas e assim melhorar sua pesquisa”.

A 6ªMostra Científica é parte da programação do 24º CNPG e aconteceu durante os períodos da manhã e tarde da quinta (1) e sexta-feira (2). Após as apresentações os pós-graduandos debateram a respeito de suas experiências e esclareceram dúvidas referentes aos trabalhos.

Por Cristiane Tada, do Rio de Janeiro

As moções aprovadas pelo 24º CNPG foram:

 

  • De apoio a farmácia estabelecimento de saúde;
  • De apoio a proposta de desmilitarização da Polícia Militar;
  • De apoio a campanha nacional contra o uso de agrotóxicos e pela vida;
  • De apoio a suplementação orçamentária para USP;
  • De repúdio à restrição de uso de serviços em instituições de ensino federal superior por parte das mães e pais de estudantes;
  • De repúdio à PEC 215/2000, que transfere do Poder Executivo para o Congresso Nacional a palavra final sobre os processos de demarcação, titulação e homologação de terras indígenas e quilombolas;
  • Moção “Dilma desaproprie o antigo terreno da TELERJ para fins de moradia”;
  • Moção de apoio à greve dos servidores, técnicos administrativos e professores das instituições federais de ensino.

CNPG Mesa Direitos dos Pós-Graduandos

O segundo dia do 24º Congresso Nacional de Pós-Graduandos reuniu as professoras Janeusa Trindade Souto, pró-reitora da UFRN e membro do FONAPRACE, Celi Nelza Zulke Taffarel, da UFBA, e Débora Foguel, Pró-reitora de pesquisa da UFRJ, além do professor Marco Moricone, secretário regional da SBPC pelo Rio de Janeiro, em torno da mesa “Direitos dos pós-graduandos: Demanda necessária e um Brasil desenvolvido”. O Ministro da Educação, José Henrique Paim, informou em ofício de número 22959, que não poderia comparecer ao evento, conforme previsto, devido “a compromissos oficiais incontornáveis anteriormente assumidos”.

A pró-reitora Janeusa Souto abriu a discussão falando de sua atuação no Fórum Nacional de Pró-reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (FONAPRACE), comentou sobre a importância de se discutir os direitos dos pós-graduandos e sobre o fato de o pós-graduando ser um híbrido entre estudante e profissional.

“O pós-graduando é a força de trabalho da pesquisa no Brasil. Não existe ainda no pais a função de pesquisador, com exceção de algumas poucas instituições como a Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz). Mas, nas universidades, o pesquisador é o professor e o pós-graduando seria um auxiliar. É preciso que esse auxiliar seja reconhecido de alguma forma. Aqui, no Congresso da ANPG, é o momento de debate para isso e para elaborar um documento que sirva como base para o Ministério da Educação poder ter um olhar diferente sobre o assunto. Porque o pós-graduando é um hibrido de estudante e trabalhador e esse híbrido deve ser reconhecido.”, afirmou a pró-reitora.

A segunda palestrante foi a professora Celi Taffarel, da UFBA, que apresentou um panorama das greves dos trabalhadores ocorridas em 2012 e relacionou as reivindicações dos trabalhadores com as pautas dos direitos dos pós-graduandos.

“Os pós-graduandos estão inseridos numa luta que não é só deles, mas também da classe trabalhadora, para assegurar os direitos fundamentais. E, portanto, quando nós verificamos o que reivindicam os pós-graduandos, nós vamos poder localizar isso numa luta maior que está sendo travada nesse momento histórico, para que o nosso país distribua melhor as riquezas, para que valorize a sua força de trabalho, para que o nosso país não avance o que está destruindo as forças produtivas. Inclusive, com a transformação e avanço das forças destrutivas, que estão atuando como, por exemplo, os setores especulativos da economia que assaltam o orçamento da união e restringe a aplicação de recursos (como os 10% do PIB na educação). Isso tem conseqüências e desdobramentos, entre os quais: o não atendimento às reivindicações dos estudantes, em especial da pós-graduação, pela assistência estudantil, pela bolsa universalizada e pelas melhores condições de pesquisa nas universidades. Nesse sentido, é extremamente relevante vermos a relação da luta da classe trabalhadora no Brasil com as reivindicações dos pós-graduandos.”

Em seguida, a professora comentou sobre as reivindicações imediatas e históricas do movimento estudantil da pós-graduação, como o reajuste de bolsas, a licença-maternidade e paternidade, benefícios da previdência social e a 13ª bolsa. E direcionou sua fala ao Ministro da Educação, que não estava presente.

“Se o Ministro da Educação estivesse na mesa eu diria a ele: senhor ministro, o senhor precisa sentar com a ANPG e atender as pautas dos pós-graduandos. Diria mais: o senhor precisa receber e ouvir o corpo docente”, disse. “É preciso unificar pautas, ações e comandos para o enfrentamento na luta pelas reivindicações”, acrescentou a professora, que foi ovacionada ao final de sua fala.

Marco Moricone, da SBPC, comentou a respeito da importância de se criar melhores condições de pesquisa no Brasil:

“O país que tem intenção de crescer e se transformar numa nação desenvolvida e realizar progresso nas suas estruturas fundamentais precisa ter educação de alto nível. E a pós-graduação é esse passo mais avançado que leva à inovação cientifica e tecnológica. O pós-graduando tem de ser visto como uma espécie de agente desse processo. Dessa forma, é preciso atrair e valorizar essa atividade, caso contrário você acaba perdendo essa potencialidade, o que acaba transformando o Brasil num país de burocratas, de pessoas que não vão produzir nada novo. É preciso formar pessoas que sejam capazes de criar tecnologia e desenvolver a ciência. O pós-graduando é quem potencialmente vai cumprir esse papel no futuro.”

Moricone também falou a respeito dos direitos mais urgentes dos pós-graduandos e sugeriu a criação de um mecanismo que possibilite mais efetivamente a internacionalização dos estudantes de pós-graduação: “Existem vários aspectos que me parecem importantes na luta pelos direitos dos pós-graduandos: como a valorização e aumento do número de bolsas, e fazer com que esse tempo de pesquisa do pós-graduando seja reconhecido como um trabalho mesmo e não o limbo entre a graduação e um emprego.”

“Além dessa questão, acho que deveria também se pensar numa maneira de se criar mecanismos que fizessem com que os estudantes de pós-graduação se tornassem os melhores profissionais possíveis. Por exemplo, na parte de linguística, ter aulas de inglês instrumental. A pós-graduação deveria se preocupar em fazer com que as pessoas soubessem escrever artigos tanto em inglês quanto em português. Escrever um projeto é algo que todo pesquisador precisa saber fazer e é importante que os alunos de pós tenham esse tipo de preparo. Depois, seria interessante que existisse algum tipo de mecanismo que permitisse aos estudantes participar de conferências em outros países, internacionalizá-los mais, e também se preocupar com a internacionalização das instituições no Brasil. Porque, hoje, a pós-graduação não é só feita de estudantes brasileiros, recebemos muitos estudantes de fora do país. E é preciso ter uma boa estrutura para recebê-los”, acrescentou.

Débora Foguel, da UFRJ, falou sobre a experiência de pós-graduação na instituição carioca e sobre a revisão do valor da bolsa que é praticado pelas agências de todo o Brasil.

“Como pró-reitora, não posso deixar de mencionar, não só o valor como o número de bolsas disponíveis. Na minha sala, sou procurada por coordenadores tanto de cursos novos, como de cursos consolidados que hoje se deparam com o enfrentamento que é fazer o processo de seleção”, disse a pró-reitora.

A professora Foguel opinou também sobre a regulamentação da profissão do cientista no Brasil. “É importante tomarmos cuidado em como é conduzida a criação desses conselhos profissionais, para que não engessem as ações dos pós-graduandos.”

Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES)

Após a fala da pró-reitora da UFRJ, Tamara Naiz, tesoureira da ANPG, que estava mediando o debate, disse: “A ANPG vem, desde 2012, debatendo com o MEC a questão da bolsa humanizada, que leve em consideração as condições de pesquisa”. Em seguida, anunciou que, conforme prometido à ANPG durante reunião realizada em março deste ano, os pós-graduandos serão incluídos no PNAES (Plano Nacional de Assistência Estudantil).

Dito isso, foi aberta sessão para a plenária opinar sobre os assuntos abordados. Os participantes falaram principalmente sobre o conjunto de benefícios urgentes à categoria e sobre o Plano Nacional de Assistência Estudantil.

“Com o anúncio de que os pós-graduandos serão incluídos no PNAES, cabe a nós pressionar para que isso aconteça de fato. Daí, muda a qualidade da luta porque você estende esta luta para todos os estudantes, o que a torna muito maior. Mas, mesmo com a existência do PNAES, a assistência estudantil ainda é muito problemática em todo o Brasil. O Plano tem um problema que é uma lei muito genérica, é mais uma manifestação de intenção do que uma normatização, deixando, assim, para as universidades decidirem como vão fazer essa assistência. Creio que a ANPG tem que ver como se conforma a assistência a estudantes de todo o país e defender um modelo de assistência para a luta, junto com os pós-graduandos”, disse Luis Fernando, da APG Imecc (Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica), da UNICAMP.

Ainda nesse sentido, a professora Janeusa Souto, da UFRN, defendeu a criação de um observatório da assistência estudantil, incluindo os pós-graduandos, para traçar um retrato da realidade, com dados concretos de todas as universidades para pautar a assistência estudantil.

Por Natasha Ramos, do Rio de Janeiro