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Foto: Guilherme Bergamini

“Para ocupar o mesmo posto (de um homem) e ganhar o mesmo salário, a mulher tem que estudar oito anos a mais”, alertou Lúcia Rincon, presidenta da União Brasileira das Mulheres (UBM), durante um debate sobre a representatividade feminina na academia no 25º Congresso Nacional de Pós-Graduandos. A discussão, realizada neste sábado (11), escancarou a desigualdade da sociedade patriarcal brasileira para os estudantes.
Lúcia Rincon avalia como “ruim, mas melhorando” a presença das mulheres na academia. A existência delas está marcada pelo conservadorismo. Embora sejam a maioria, continuam concentradas em profissões menos prestigiadas. A presidenta brinca que para se ter um parâmetro bom a fim de se estimar esse pequeno avanço, só mesmo comparando os números de hoje com o do século passado. “Para ter uma melhora substancial a gente tem que buscar para trás, senão não mostra nem muita diferença”, disse.
A presidente da UBM pondera que a presença feminina na faculdade vem aumentando significativamente nos últimos 40 anos, mas que é estigmatizada pelos padrões e cultura patriarcais. “Fica condicionada pelos mesmos elementos: homem, branco, hétero. Eles sempre têm postos melhores. E mulheres são cuidadoras, prestadoras de serviço. A academia vai reproduzir isso também”, explica.
Não se pode ainda estabelecer o raciocínio lógico de que se há mais mulheres com títulos, logo há mais mulheres recebendo mais. Entre os profissionais com nível maior de instrução (13 anos ou mais de estudo), a disparidade salarial entre gêneros chega a 25,6%, segundo a Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL).
Esse perverso sistema machista acaba se retroalimentando. Durante a formação, as referências de autores masculinos são predominantes. Lúcia destaca que é importante dar visibilidade à produção e ação das mulheres. “Mas quase tão importante quanto isso, é combater todo tipo de violência, porque elas excluem”, pondera. Para ela, devido à violência simbólica, as próprias estudantes acabam reproduzindo o sistema.
Diariamente, as pós-graduandas lidam com diferentes tipos de assédio: moral, sexual e físico, nas instituições. “Nas áreas das ciências duras, isso se manifesta de forma mais violenta, inclusive”, relembrou a presidente da UBM. Isso torna ainda maior o desafio de se arriscar por esse ambiente nada acolhedor.
Lúcia observa que do ponto de vista da estrutura acadêmica, várias medidas paliativas podem ser tomadas para combater o machismo nas universidades. Mas que, sob a perspectiva do conteúdo, é preciso que essas instituições absorvam a transversalidade de gêneros nas matrizes curriculares e nas práticas docentes. “Se não, vamos continuar formando gente sob a égide apenas do patriarcado”, finalizou.
A mesa de debate contou também com a presença de Maira Soares Ferreira, pesquisadora da Universidade Federal de Goiás. Ela atentou para a importância de se ter ciência de que existem muitas mulheres produzindo para a academia. “É que somos inviabilizadas. Esses espaços, essas falas e essas produções são desvalorizadas. São subalternizadas”, explica.
Segundo ela, a sociedade perde ao não considerar um conhecimento que existe e que a produção predominante não se interessa por temas importantes como o corpo e a saúde da mulher. “Se a gente chegar a um ginecologista hoje, 2016, e perguntar para ele por que nós temos tanta cólica ou o que é a TPM, ele não sabe responder. Porque não tem produção sobre isso”, exemplifica. Assim, a população acaba não tendo acesso a um conjunto de saberes que já está aí, como a rica cultura da obstetrícia indígena, rural e quilombola, que é desmerecida.
Shirley Pacelli, de Belo Horizonte.

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Foto: Guilherme Bergamini

Qual é o papel do cientista na sociedade? Diante da recente extinção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação pelo governo interino, essa é uma indagação importante, que foi debatida intensamente no sábado (11), no 25º Congresso Nacional de Pós-graduandos.
A conversa sobre esse tema, realizada na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte, contou com a professora Elisangela Lizardo, do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFECTSP) e André Viana, professor da área de inovação e competitividade da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
De forma interativa, Elisangela levou o público a questionar o impacto social de suas próprias pesquisas. O que o estudo, por exemplo, da plurinacionalidade em países da América Latina traz para a sociedade brasileira? “Somos chamados a todo momento para dizer qual é a relevância do nosso tema”, mostrou.
Ao longo da explanação, os pós-graduandos discutiram o fato de que, muitas vezes, só o impacto social ligado à economia ou que resulta em um produto para o mercado é o que ganha os holofotes. Mas afinal, é apenas por isso que a ciência se torna um fator de desenvolvimento de um país? O que faz o número de titulados influenciar na riqueza de uma nação?
Dos participantes do debate vieram as mais diversas respostas: a qualificação do doutorando para intervir na estrutura nacional, à não dependência tecnológica de outros países, o empoderamento e autonomia da população para compreender e transformar a sociedade.
“O cidadão mais formado presta mais atenção. Cobra mais. Ele exige, não pede, o espaço na sociedade. Inclusive nas esferas de governo. Então, ele fiscaliza mais, cobra mais”, avaliou Najó Glória, doutoranda na Universidade Federal de Sergipe.
Foi este o ponto de reflexão que levou a professora Elisangela a uma ponderação: Para ela, um povo que lê mais é menos subalterno, mais consciente. “Consegue compreender a importância das políticas públicas”, ressaltou.
Porém, ela ressaltou que, infelizmente, não é esse o elemento de grande interesse do Estado na ciência. Não é o seu principal objetivo. “O foco quando se fala em inovação é a capacidade de acumular riqueza”, observou.
A percepção da própria ciência como algo distante, endeusado, foi um dos fatores apontados como o grande responsável por essa valoração restrita. Nem toda pesquisa gera um produto final visível. Alguns estudos têm papel indireto sobre a população. “É necessário que a ciência consiga mudar a sua percepção na sociedade”, defendeu o professor André Viana, da UFBA.
Essa realidade se relaciona, de certa forma, a ausência da ciência no ensino básico. Às pessoas não é dito que não existem verdades absolutas e que o conhecimento não foi apenas revelado. “Elas não conseguem entender que a nossa vida é permeada de política e ciência. E que política é ciência”, disse Elisangela.
Shirley Pacelli, de Belo Horizonte

O movimento dos pós-graduandos e pós-graduandas do Brasil deverá intensificar a luta a favor da democracia e contra o golpe no próximo período. Esse foi o tom das declarações dos quatro participantes da mesa “Desafios do Movimento Nacional de Pós-Graduandos”, que aconteceu no início da noite do sábado (11), no 25º Congresso da ANPG, em Belo Horizonte. Os estudantes reforçaram a necessidade do crescimento da entidade nesse momento histórico, marcando a posição da academia pela democracia.

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Cristiano Flecha, vice-presidente da ANPG | Foto: Guilherme Bergamini

O vice-presidente da ANPG, Cristiano Flecha, defendeu a radicalização das ações do movimento no próximo período, quando será votada no Senado Federal a proposta ilegítima de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. “Precisamos debater a paralisação dos pós-graduandos brasileiros nesse momento, uma greve geral que possa ser construída de forma efetiva. Nossa categoria pode parecer invisível, pois somos 300 mil em um país de 200 milhões de pessoas. Mas precisamos lembrar que 300 mil pessoas são muita gente e podemos dar uma grande contribuição na luta pela democracia”, destacou.
A campanha “Fora Temer” também deve ser amplificada, na opinião da diretora de Relações Internacionais da entidade Aline Diniz. Ela lembrou que a resistência ao golpe passa também pela defesa dos direitos básicos na sociedade e na pós-graduação. Ressaltou a questão de gênero, o crescimento da luta contra o assédio sexual e o machismo na universidade. “Esse tema deve ser nacionalizado”, defendeu.
O diretor de comunicação da ANPG Gabriel Nascimento lembrou que os pós-graduandos têm muito a perder com o golpe: “Hoje já somos um conjunto que não tem acesso à assistência estudantil do estado e, ao mesmo tempo, não temos direitos trabalhistas pela nossa atuação. Precisamos nos unir, massificar o nosso movimento”, disse.
Já Guilherme Rolim, da diretoria de Ciência, Tecnologia e Inovação falou sobre o desafio de organizar os estudantes da pós-graduação: “É urgente pensar medidas imediatas que permitam mais tempo e espaço para os pós-graduandos pensarem e agirem politicamente”, opinou. Segundo ele, é necessário também quebrar a lógica de “chefe” e “trabalhador” que vigora nas relações dos estudantes e pesquisadores com as instituições.
O 25o Congresso da ANPG termina neste domingo com a definição das resoluções da entidade para o próximo período, além da eleição da sua nova diretoria e presidência.
Artênius Daniel, de Belo Horizonte

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Foto: Guilherme Bergamini

Não é o momento para se calar: a crise política no Brasil chama à luta. Em defesa da democracia, os pós-graduandos do país promoveram um ato de resistência durante este sábado (11), no 25º Congresso da ANPG, na Universidade Federal de Minas Gerais, em Belo Horizonte.
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Tamara Naiz, Presidenta ANPG | Foto: Guilherme Bergamini

Na ocasião, Tamara Naiz, presidente da Associação Nacional de Pós-graduandos (ANPG), afirmou que, nesse momento, onde temos os princípios da democracia ameaçados, é pertinente debater o tema no congresso e convidar um conjunto de entidades importantes do movimento social brasileiro para compartilhar sua experiência de luta. “A ANPG nasceu em 1986, depois da reabertura. Antes disso, não se podia organizar-se politicamente”, lembrou.
Prestes a completar 30 anos, a entidade quer revisitar sua trajetória e reafirmar a importância do estado democrático brasileiro que garanta as conquistas sociais ao povo. “Os pós-graduandos brasileiros estão comprometidos em continuar avançando por um Brasil mais justo”, afirmou Tamara.
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Cristiano Flecha, vice-presidente da ANPG | Foto: Guilherme Bergamini

Para Cristiano Flecha, vice-presidente da ANPG, a associação está inserida em um movimento crescente contra o governo golpista. “Temos como tarefa, a exemplo de como já acontece em várias universidades, criar comitês e realizar assembleias contra o golpe para construirmos a mobilização necessária para derrubar esse governo usurpador. A greve geral sugerida pela CUT é importante nesse sentido”, disse.
Além da presidência da ANPG, o ato contou com a presença de Ariovaldo de Camargo, representante da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Edson Carneiro (Índio), presidente da Intersindical, Isabella Miranda, das Brigadas Populares, Lúcia Rincon, presidente da União Brasileira de Mulheres (UBM), Carina Vitral, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Camila Lanes, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), Késsia Cristina, presidente da União Colegial dos Estudantes Secundaristas de Minas Gerais (UCESMG), Raul Pereira, da União Estadual de Estudantes de Minas Gerais (UEEMG) e Alysson Syffete, representante da UFMG.
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Ariovaldo de Camargo, representante da CUT | Foto: Guilherme Bergamini

“Primeiramente, fora Temer”. Foi assim que Ariovaldo de Camargo, representante da CUT, entregou logo de antemão o seu recado. Para ele, não há outra saída que não o enfrentamento ao golpe. Ele citou como reações positivas o ressurgimento da juventude interessada em debater o seu futuro e a criação das frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. “Nós precisamos reverter a situação que aí está por uma questão de existência: nossa e daqueles que querem construir de fato um estado democrático de direito no Brasil”, defendeu.
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Lúcia Rincon, UBM | Foto: Guilherme Bergamini

Lúcia Rincon, da UBM, destacou o caráter machista do golpe da primeira presidente mulher eleita no país. “A força do capital se entrelaça com a força do patriarcado”, ponderou. Para ela, é preciso colocar nas mãos do povo a decisão sobre o caminho a se seguir. “Vamos fazer eleições? Vamos colocar a Dilma com um congresso liderado pelo Eduardo Cunha?”, indagou.
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Carina Vitral, UNE Foto: Guilherme Bergamini

Já Carina Vitral, da UNE, destacou que nesses 30 anos de luta, a ANPG enfrenta agora o desafio de debater os direitos estudantis em meio a uma grave crise política, um golpe. Ela lembrou que a associação precisa salvar a universidade pública da privatização, que prevê cobranças de mensalidade, além de uma série de outros retrocessos como corte de auxílios aos estudantes. “A ANPG está na linha de frente para salvar os direitos dos pós-graduandos e conquistar ainda muito mais coisas que estão por vir”, disse.
Camila Lanes, da UBES, ressaltou a importância da luta pela educação que se espalha pelo país todo: da ocupação do Centro de Referência da Juventude em BH, até as 180 escolas tomadas pelos estudantes no Rio Grande do Sul. Segundo ela, os pós-graduandos são parceiros dos secundaristas na discussão de uma nova escola, regida pelos princípios cidadãos — uma antiga pauta do movimento. A presidente da UBES conta que as entidades estão se organizando para em breve colocar em cena uma agenda de ocupação total. “Todo mundo sofre com a queda dos direitos sociais. A unidade é a palavra principal deste momento. As organizações estão dialogando e falando a mesma coisa: fora Temer, não nos representa e nós queremos repensar a educação pública no país”, ressaltou.
Por Shirley Pacelli, de Belo Horizonte

Pós-Graduandos(as) de Saúde debatem o tema “Desafios para a Formação em Saúde: Participação Social e Políticas de Equidade” no 25º CNPG

Os pós-graduandos da área da Saúde que vieram ao 25º Congresso de Pós-Graduandos, em Belo Horizonte, se encontraram neste sábado (11) em uma roda de conversa no Centro de Atividades Acadêmicas da Universidade Federal de Minas. No centro do círculo formado por pesquisadores de diversos cursos, de diversas regiões do país, um tema principal: a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) e a necessidade de transformar a formação acadêmica no Brasil em prol da saúde pública e do atendimento às comunidades mais vulneráveis.

Para trazer seus olhares e experiências na área, o professor João Henrique, do departamento de Odontologia da UFMG representou a Rede Unida, uma associação voltada a construção de projetos comuns de instituições, indivíduos, universidades e comunidades para o desenvolvimento da Saúde. “Temos como missão cuidar das pessoas não apenas na questão biológica em si. Apesar disso parecer uma coisa óbvia, ainda precisamos torná-la o grande pano de fundo do debate sobre a saúde no país”, disse.

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Professor João Henrique, Departamento de Odontologia da UFMG Foto: Guilherme Bergamini

Segundo ele, as questões sociais e de atendimento que envolvem o SUS precisam estar fortemente vinculadas à formação multidisciplinar das diversas especialidades da área da Saúde. Para isso é necessário enfrentar o preconceito que ainda existe com o sistema, assim como o lobby dos sistemas privados que fazem frente a consolidação do modelo público. “Nós que defendemos o SUS não deixamos de conhecer os seus problemas e desafios. Mas acreditamos nele e temos que promover a conscientização sobre a sua importância”, disse.

Outra entidade presente na conversa foi o Conselho Nacional de Saúde, por meio do representante Eni Carajá. Ele também problematizou a formação dos cursos da área e lembrou a necessidade de superar a dependência da Atenção Básica com a promoção da saúde preventiva. “Sabemos que a Atenção Básica é a porta de entrada no sistema, mas precisamos de um modelo de saúde que comece antes, que evite que as pessoas precisem procurar a saúde pública porque já estão livres da doença”, disse.

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Foto: Guilherme Bergamini

Ele lembrou que o Brasil vive um quadro epidemiológico grave e preocupante, com o surgimento de novas patologias e novos problemas para os quais não estamos preparados. Lembrou que esse é um cenário que interessa somente à indústria farmacêutica e outros grandes grupos como o do setor dos agrotóxicos no alimentos. “Quando há uma morte causada por doenças dos agrotóxicos, a causa mortis não é registrada em nome do produto que a provocou”, declarou.

Entre os outros temas que permearam a discussão estiveram os parâmetros curriculares dos cursos da área, a valorização profissional das diversas categorias da Saúde, a integração do sistema com a comunidade, a mudança na formação dos docentes e no modelo de residência médica do país.

Por Artênius Daniel, de Belo Horizonte

“Eu, mulher preta, sofro racismo. Sofro machismo. Recaem sobre mim todas essas opressões. E eu preciso que a gente pense políticas públicas que respondam a todas essas especificidades”, reivindicou Biamichelle Munduruku, mestranda da Universidade de São Paulo, durante um debate sobre assédio, discriminação e desigualdade no 25º Congresso Nacional de Pós-graduandos. Realizada neste sábado (11), na Universidade Federal de Minas Gerais, a mesa de discussão contou com a presença de Mariana Venturini, diretora da União Brasileira das Mulheres (UBM) e de Gislaine Caresia, advogada especialista em direito da mulher.

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Enquanto Mariana destacou como historicamente as universidades reproduzem e alimentam ambientes machistas e segregadores, Gislaine deu dicas de como denunciar e fortalecer movimentos de combate a situações opressoras nas instituições.

“Nas universidades, as mulheres estão nas humanidades, na pedagogia. Ela é a enfermeira, não a médica. É sempre a função auxiliar. E têm o teto de vidro. Os estudantes negros, assim como as mulheres, fazem cursos considerados de menor prestígio social, como letras ou história”, explicou a diretora da UBM. Ela disse ainda que o assédio nesses espaços não se dá apenas na forma de violência sexual. Pode ser desde aquele professor que não dá voz à aluna, pretere o orientando negro ou, ainda, desqualifica intelectualmente uma estudante apenas pelo seu gênero.

“A universidade não é uma bolha. Tem gente que acha que a universidade é um lugar idílico, um templo, onde só emana o conhecimento. Não é. É uma reprodução do que é a sociedade, que historicamente foi construída por homens, para homens”, afirmou Mariana. Segundo ela, as instituições são locais de perpetuação de preconceitos que, muitas vezes, não são enxergados como o assédio.

Alessandra Aniceto, doutoranda da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), reforçou que determinados grupos são mais opressores, como os homens brancos cisgênero. “Me parece que a gente está sempre à sombra das figuras masculinas. Que a gente tem que gritar para ser ouvida ou citar 50 autores para dizer que eu tenho a mesma capacidade que o colega que está do lado para que meu professor; homem, branco, cis e médico; me escute”, desabafa.

Segundo Marcos Moraes, mestrando da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), as escolas abrem vagas destinadas aos indígenas e estudantes estrangeiros de países africanos, mas não têm dado condição para que eles façam sua pesquisa e sejam respeitados dentro da instituição. “Tem que tratar o diferente de forma diferente”, refletiu.

Tamara Naiz, presidenta da Associação Nacional de Pós-graduandos, destacou uma pesquisa feita, em 2015, pelo Instituto Data Popular acerca da realidade cruel das universidades brasileiras. De 1,8 mil acadêmicos ouvidos no Brasil todo, quase 70% das mulheres envolvidas disseram que já sofreram violência dentro das universidades (sexual, física e moral) “E 42% das mulheres disseram sentir medo dentro das instituições. É uma situação alarmante”, lembrou.

A advogada Gislaine Caresia observa que é preciso, primeiramente, questionar ações que fazem parte da rotina dos pós-graduandos. “Por que você tem que ir à casa do professor para ser orientado?”, disse. Segundo ela, relações de assédio são caracterizadas por uma estrutura vertical de subjugação. É preciso identificar e denunciar esses atos.
“As queixas mais comuns são ameaças do corte da bolsa, agressões verbais, comentários depreciativos, desinteresse até os assédios sexuais”, explicou.

As denúncias podem ser feitas de maneira coletiva, para resguardar a integridade do aluno, que pode se sentir perseguido pela universidade por “manchar o nome da instituição”. O Ministério do Trabalho é um dos órgãos que pode e deve ser acionado. Segundo a advogada, o ideal seria a regulamentação dos bolsistas para que eles não dependam da vontade do outro. Sigam regras estabelecidas por lei, numa situação mais democrática. “E, no dia a dia, é preciso de fato se fortalecer. Trazer o debate para dentro das universidades. Formar coletivos, como o Grupo de Trabalho dentro da Universidade de São Paulo. E nunca subestimar as redes sociais. Elas têm força importante”, sintetizou.

Shirley Pacelli, de Belo Horizonte.

O crescimento da intolerância no Brasil e o recrudescimento do debate dos Direitos Humanos foi um dos assuntos do 25º Congresso Nacional de Pós Graduandos neste sábado (11), na Universidade Federal de Minas Gerais. No debate “Participação Social, Democracia e Direitos Humanos”, os estudantes dos programas de mestrado e doutorado de diversas regiões do país debateram o combate ao machismo, ao racismo, à LGBTfobia, assim como a defesa das políticas públicas de juventude e voltadas para as parcelas menos favorecidas na periferia das grandes cidades.

Participaram da conversa com os pós-graduandos e pós-graduandas o presidente do Conselho Nacional de Juventude, Daniel Souza, a diretora da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros), Deidine Souza, o presidente da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (UPES), Emerson Santos, e a deputada federal, Jô Moraes.

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Foto: Guilherme Bergamini

A possibilidade de perda de direitos fundamentais com a tentativa de golpe sobre a democracia brasileira foi um alerta permanente na fala de todos os convidados da mesa. Para o presidente do Conjuve, uma das preocupações do momento é a ameaça ao Estatuto da Juventude, marco legal aprovado após as manifestações de junho de 2013 e que trouxe a garantia de políticas voltadas a esse público.

“O estatuto é, por exemplo, o primeiro marco legal que afirma que o jovem brasileiro tem direito ao ensino superior. O Prouni por exemplo é uma política de juventude. É contra esses direitos que o golpe se instala”, declarou. Uma das sinalizações do ministério da Educação do governo Temer é, justamente, a redução de investimentos nos programas sociais como o Prouni e o Fies.

Já a diretora da ABGLT explicou como o governo golpista tenta construir a imagem de que direitos básicos seriam supostamente privilégios: “Eu, como transexual, quero o direito da identidade. Por que a deputada Tia Eron pode utilizar o seu nome social eu não posso utilizar o meu?”, provocou. Ela prevê uma realidade de muita luta e muitos ataques à população LGBT no próximo período.

A deputada Jô Moraes criticou fortemente a reforma ministerial do interino Michel Temer ao unificar os ministérios de Proteção às Mulheres e Igualdade Racial dentro do ministério da Justiça. Segundo ela, os rumos desse governo são baseados na lógica do pensamento positivista de que a sociedade não deve sofrer interferência e deve seguir o seu rumo natural de explorações e injustiças.

“É tudo parte de uma concepção que nega a dimensão do humano. É uma agenda que acontece exatamente em sintonia com o desejo das classes dominantes produtores. Precisamos constatar que as elites deste país se unificaram neste momento. Estão condizentes com a perda de direitos, o essencial é apenas o mercado, não os Direitos Humanos”, afirmou. constatar que as elites deste país se unificaram neste momento. Estão condizentes com a perda de direitos, o essencial é apenas o mercado, não os Direitos Humanos”, afirmou.

Artenius Daniel

Nas rodas de conversa e nos corredores do Centro de Atividades Acadêmicas da Universidade Federal de Minas Gerais, pesquisadores e pesquisadoras de diversas regiões do país que participam do 25o CNPG (Congresso Nacional de Pós-Graduandos) dividem uma mesma preocupação: qual horizonte se desenha no Brasil com a extinção do seu Ministério da Ciência e Tecnologia?
A decisão do governo interino de Michel Temer de fundir o MCTI ao Ministério das Comunicações é considerada um retrocesso de grandes proporções pela imensa maioria da academia brasileira. Manifestações e atos públicos têm acontecido nas maiores universidades do Brasil e somam-se às pautas dos movimentos sociais que resistem à tentativa de golpe à democracia que está em curso.
Entre os que repudiam tal medida está o vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) Ildeu Moreira, que participou de um debate sobre o tema junto com Paulo Sérgio Beirão, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa de MG (Fapemig). “É a extinção de um projeto que já tem 60 anos no Brasil, que é o movimento pela implantação de um sistema nacional de Ciência e Tecnologia. Foi uma medida que não teve nenhum diálogo ou consulta à comunidade científica, pelo contrário, que contou com as nossas críticas”, lamenta.

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Ildeu Moreira, vice-presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) Foto: Guilherme Bergamini

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Paulo Sérgio Beirão, diretor da Fundação de Amparo à Pesquisa de MG (Fapemig) Foto: Guilherme Bergamini

O argumento utilizado pelo governo interino para o fim do MCTI foi a redução de gastos e uma suposta proximidade entre a pasta e a área de Comunicações, o que também vem sendo rebatido pelas sociedades científicas. A economia alcançada com a fusão dos ministérios não se provou significativa e o espaço para a ciência e tecnologia no novo ministério é extremamente reduzido. “As justificativas para a medida são muito frágeis”, opina Ildeu Moreira.
Segundo o professor, o fim do ministério e o corte de investimentos na área é também um grande erro em um momento de crise econômica e vai na contramão do que outros países têm feito. “China, Índia, Estados Unidos estão na verdade é apostando mais na Ciência e Tecnologia, porque essa é uma possibilidade de sair da crise, de fazer inovação, de construir sistemas mais eficientes, políticas sociais, de meio ambiente, reduzir recursos disso atualmente é um retrocesso enorme”, critica.
O 25o Congresso da ANPG segue neste sábado com oito debates e um ato polítco em defesa da democracia, com a participação dos movimentos sociais. No domingo será realizada a plenária final com a definição dos rumos da entidade pelos próximos dois anos e a eleição da nova diretoria e presidência.
Artênius Daniel
 

Quando direitos são vistos apenas como “bônus”, há na sociedade um grave problema. Esse foi um dos pontos levantados pelo público durante o debate dos direitos estudantis e trabalhistas no 25º Congresso Nacional de Pós-Graduandos, que teve início sexta-feira (10) em Belo Horizonte.

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Plot Twist nos direitos estudantis. Foto: Guilherme Bergamini

 

A mesa que debateu os direitos dos pós-graduandos contou com a presença do professor Elson Moraes, do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace), Sergio Hanriot, presidente do Fórum de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-Graduação (Foprop) e Hercilia Melo, diretora da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG).

Para Sergio Hanriot, os direitos na pós-graduação devem ser garantidos por meio de uma política de Estado, que independa dos governos. Segundo ele, é por meio dos fóruns que se fomenta as discussões onde são identificadas as pautas objetivas. “Existe um Plano Nacional de Pós-graduação e ele vai até 2020, com uma série de ações colocadas. Uma delas é que se eleve o número de doutores por habitante para um certo patamar. Era em torno de 2,5 e 2,8 por mil habitantes até 2020. Há quatro anos a gente tinha 1,8 doutores por habitante — número muito mais baixo que o de Portugal, com 2,4. Na Suíça são 8, Estados Unidos 6″, disse.

Ele justificou que, sem esses parâmetros de base, é preciso renegociar e repactuar tudo a cada novo governo. “A gente tem mecanismos de luta e pressão. Temos que mostrar o que a gente espera. É a reposição das bolsas? É que essas bolsas contem como aposentadoria?”, provocou.

Iberê Martí, pós-graduando da Universidade Federal de Lavras, questionou esse quadro, dizendo o que é preciso ir além da política do Estado: “A gente tinha o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Tinha. Era uma política de Estado. Por que não foi mantida?” indagou. Para ele, só haverá políticas de Estado bem estabelecidas quando se radicalizar a democracia, ampliando a participação ativa popular em todos os espaços.

O professor Elson Moraes também destacou as dificuldades vividas devido à instabilidade democrática no país. “Estou ansioso para chegarmos em outubro, quando recebemos do Congresso o orçamento das universidades. Não sei o que vai ser de 2017”, desabafou. Para ele, os direitos dos pós-graduandos devem ser garantidos na legislação brasileira e não como planos de governo.

Hercília Melo, diretora da ANPG nordeste, afirmou que o grande problema da assistência estudantil é a necessidade de contemplar o tripé moradia, alimentação e transporte. “Todo mundo está temeroso de cortes ou que essa política governamental não esteja presente mais nos cotidianos das instituições”, disse.

Ela lembrou ainda a ausência da licença maternidade, seguro de vida e os constantes relatos de problemas de saúde referentes à própria pesquisa. “Indo a campo, fazendo atividades de coletas, os estudantes enfrentam ambientes insalubres”, pontuou.

Já Leonardo Reis, doutorando na Universidade Federal de São Carlos, questionou o “produtivismo acadêmico”, que leva o estudante ao acúmulo de deveres diante da ameça de cortes de benefícios. “Na UFSCAR a gente tem programas que ameaçam os pós-graduandos com a retirada da bolsa caso não tenham um determinado número de publicações no ano ou não vá a determinado número de congressos”, contou. Segundo ele, essa situação, somada à necessidade de dar aulas para complementar a renda, gera uma vulnerabilidade cada vez maior dos pós-graduandos.

Shirley Pacelli, de Belo Horizonte.

Ao cumprimentar toda a diretoria nacional e as diretorias estaduais, delegados, delegadas, suplentes, observadores e observadoras, convidados e autoridades presentes no 5º Congresso da União de Negros pela Igualdade, desejamos a todos e todas um vitorioso congresso.
Num momento de conjuntura difícil, em que a hostilidade aos movimentos sociais, aos povos tradicionais e aos avanços da última década se apresenta cada vez mais forte, a vida do povo negro está em risco. Com esse governo ilegítimo e sua equipe usurpadora, o direito do povo negro está em risco.
Reunidos neste 25º Congresso Nacional de Pós-graduandos, nós, pós-graduandos negros, expressamos nossa preocupação com um futuro incerto repleto de mais fome, mais miséria e mais escravização moral, patrimonial e laboral do nosso povo negro.
O papel desse 5º Congresso da UNEGRO é o mais central possível no sentido de organizar e reorganizar nosso movimento e pautas no sentido de resistência a todo e qualquer retrocesso. Um governo usurpador e que não chegou ao poder através do voto já começa a tentar rediscutir as cotas na graduação, no sentido de retroagir o país em uma década, mudar a tipificação do trabalho escravo e infantil, levando a uma guinada conservadora que vai escravizar ainda mais o povo negro brasileiro.
Os escravocratas que mataram nossos avós continuam a matar dezenas de milhares de jovens negros todos os anos com uma polícia e um Estado policial. A nossa luta, aqui e aí, é para fortalecer esse movimento de resistência e constituir um novo ciclo de transformações na vida do nosso povo. Aqui e aí estamos lutando por cotas na pós-graduação e por ações afirmativas que combatam o racismo para que a Tia Anastácia vire a doutora Anastácia, para que a filha da Tia Anastácia possa ser cientista, e para que a ciência cumpra seu papel de transformar a realidade e todos que estão nela. Não descansaremos enquanto a ciência só representar o racismo científico e as instituições, entidades e organizações de direita e de esquerda reproduzirem esse racismo de forma vertical e automática. Negros e negras precisam estar em todos os espaços de poder, a postos, prontos para dar o Brasil a conquista das metas ousadas que queremos. Temos dito sempre que não é o negro e a negra que precisam da ciência e de entrar na universidade, mas a universidade e a ciência que precisam do povo negro. Nenhuma ciência terá impacto social enquanto o povo negro não participar da elaboração de seus objetos científicos, enquanto os brancos falarem sobre os negros e enquanto entrar na universidade, na pós-graduação, disputar espaços estratégicos forem tabus para salvaguardar a falsa democracia racial que vivemos. Por cotas na pós-graduação, por mais negros e negras nos espaços de poder, por mais negros e negras mobilizados na resistência democrática, cumprimentamos de forma assertiva a dimensão da reunião de negros e negras no mais importante espaço de unidade do nosso movimento. Viva os negros pós-graduandos! Viva a ANPG! Viva a gloriosa União de Negros pela Igualdade.
Gabriel Nascimento
Giovanny Kley
Flávio Franco
Franciane Conceição da Silva
Nadson Vinícius dos Santos